Sento agora em frente ao computador olhando a folha em branco
Não é uma folha de verdade. Digital
Eu escrevo na folha, na verdade, digito.
Quero escrever na folha, quero botar pra fora o que preciso. Palavras. Quero criar algo novo com o que me tem. Eu preciso criar.
Hoje bati palma na roda ate envermelhar
Depois envermelhei muros e me flagraram no processo
Tenho medo de mim. Medo eu tenho é de mim. Vi isso com a mesma cor que me flagraram.
Mandei beijo. Medo eu tenho é de mim.
Mas tenho medo dele também. Dele dirigindo devagar me seguindo com a câmera apontada pra mim.
Viro uma avenida. Despisto. Ou acho que despistei. Será que ele sabe onde eu moro? Sera que ele vai me perseguir? O que ele vai fazer com o vídeo?
Mas sei que é isso que ele quer. Ele tem o mundo nas mãos. Mas o mundo que ele vive não é o mesmo do meu. O que ele vive me descarta. Me xinga. Me mata.
Eu não existo no mundo dele.
Ele pode ter o mundo inteiro nas mãos, mas mundo este que me descartou. Eu não estou em suas mãos.
Eu não me permito me diminuir pra caber no mundo que ele tem nas mãos dele. O medo não vai me diminuir. Eu vou crescer.
Tantas proteções minhas tem caído ou quebrado. Colares, brincos, pulseiras. Meios que uso para proteção dos seres que me guiam. Eu me sinto numa corredeira. Sinto uma cachoeira chegando. Sinto que logo vou cair, e cair muito. Sinto que talvez eu não consiga nadar de volta. Sinto que o lugar que essa corredeira ta me levando vai ser impossível de voltar. Sinto que essas proteções querem me dizer algo. Eles estão me avisando: não tem volta pra onde você ta indo, mas eu to contigo. Eu não estou só. Tenho proteções maiores que o mundo pequenino que está nas mãos de quem me mata, de quem eu preciso de proteção. Essa corredeira vai me levar pra um lugar novo e muito maior. Meu mundo vai gigantar.
Mas, estão me avisando: tem perigo bem ai, essa é sua ultima chance de segurar num galho e segurar a correnteza.
Não acho que consigo mais segurar. Já nadei contra a corrente por tempo demais.
Mas tenho medo de quem eu vou ser e como eu vou ser quando a corredeira terminar.
Ainda não tenho medo de mim. “Medo eu tenho é de mim”
Tenho medo dela. Dela que ta pedindo pra vir pro mundo e eu não to mais conseguindo segurar. Na verdade, to abrindo caminho.
Abre caminho jasmim. Alecrim.
Eu adoro deixar ela sair.
Mas tenho medo do custo ser grande demais para eu pagar.
Na verdade tenho medo do que vou perder no caminho.
O preço será o fim de mim paz?
E eu consigo existir em paz com ela gritando dentro de mim?
Sinto que quando a silencio eu me mato
E já cheguei a realmente tentar. Muitas vezes.
Não quero silenciar. Amordaçar. Matar.
Quero soltar. Preciso soltar.
Eu quero tentar outra opção?
Ser artista num mundo que nos mata, ou me silenciar ate a morte?
Eu decido se o mundo vai tentar me matar ou eu vou
Já tentei uma, não deu certo.
Talvez seja a hora de tentar outra coisa.
Que vida é essa que vou viver
Medo eu tenho é de quem vou ser