Romero nunca havia visto neve antes. Já ouvia falar da substância, meio arenosa, mas macia. E gelada como as noites de outono, que de alguma forma pareciam mais frias que as noites de inverno... Talvez porque o outono pega o corpo de surpresa, de uma maneira que o inverno não seria capaz de fazer; não é sorrateiro o bastante para isso. Mas agora ele se sentia como se estivesse em uma noite de outono. Mesmo com seu casaco pesado, sentia-se como em uma madrugada em que a virada silenciosa do solstício o puxava pelos pés descalços e shorts curtos, que ele só corrigiria na manhã seguinte, já levemente adoecido. Mas, apesar dos pesares, isso deixava o chá mais gostoso, e agora estava mais proveitoso do que nunca, e a vista era bonita.
Pandora, que já avisada não se encarregava de fazer as infusões, olhava para a janela com um gosto contagiante. Ele não sabia como ela sequer conseguia colocar o rosto para fora seus pulmões ardiam só de pensar, mas ela olhava para o horizonte de olhos fechados. Acredite se quiser, sua expressão era incontestavelmente a mesma de quem vê uma flor muito bonita ou a dança febril de uma borboleta, mas com os olhos escuros selados.
O homem não entendia a beleza daquele clarão sem fim, montes branco-azulados sem nenhum animal ou erva à vista, mas entendeu que não a veria enquanto mantivesse abertos aqueles olhos negros. Então, fechando os olhos, ele suspirou fundo e relaxou os ombros, tentando sentir o que ela sentia. Mas a única coisa que ele experienciou foi uma súbita autoconsciência da própria condição: estava em um lugar brumado e longe de casa, de frente para qualquer coisa que lhe fosse familiar. Era frio; não como o inverno ou o outono, mas doentiamente frio, de uma maneira que ele sequer sabia ser possível.
Quase desistindo dessa experiência antes mesmo de relaxar as pálpebras, ele sentiu os braços delgados dela o cercarem. Ela estava gelada, e podia-se sentir seus ossos tremendo timidamente. De repente, ele não sentiu mais frio; pelo contrário, sentia-se febril como uma vela, de maneira que só o corpo gélido dela poderia apaziguar. Cada centímetro de pele que se tocava parecia tão certo e, então, com os olhos fechados e leves como um pardal, ele conseguiu ver o que ela via.
— Eu sabia que ia gostar. É um lugar bonito não é? É por isso que eu insisti tanto em te trazer, eu sempre quis te levar comigo, quis à tanto tempo que eu sentia como se o próprio tempo furasse meu peito com os ponteiros do relógio.
— O tempo que eu passei com meus pés não tocando o chão também pareceu uma eternidade, se te fizer sentir melhor, querida.
Ela sorriu quase tocando as próprias orelhas com o canto dos lábios.
— Um pouco, sim. Mas não se preocupe, vamos ter muito chão daqui para frente.
Soltando-se levemente e a contragosto, separaram-se por um momento para se vestirem apropriadamente para o cenário hostil que os cercava. Ambos ficaram parecendo cabras montanhesas, embora Pandora tenha precisado do dobro de casacos para conseguir esse feito. Eles rolaram uma montanha de neve que lhes rendeu muitos hematomas por baixo das roupas, colheram as últimas folhas de uma árvore longínqua e fizeram um anjo de neve, mesmo sem saber o que caramba seria um anjo, então Pandora chamou a figura que deixou na neve de faisão. Mas Romero também não sabia o que era um faisão. Pandora lhe dizia coisas estranhas às vezes.
— Você sente falta de casa quando viaja assim?
— Claro, um pouco. Na verdade é para isso que servem as viagens a gente viaja para poder sentir saudade de casa faz ela parecer mais especial a gente se encanta com as coisas novas e depois volta e se encanta com as coisas velhas eu acho que essa é a maneira mais bonita de se viver.
Romero ficou completamente silenciado sentia ser como se tivesse recebido um sermão direto de uma autoridade maior ele não se sentia assim há muito tempo. E nem deveria embora era uma mulher magra e embora fosse particularmente alta tinha feições delicadas ela tinha uma voz doce e claramente era inteligente mas de maneira bastante didática ela nunca seria capaz de fazer uma pessoa se sentir mal com seus próprios pensamentos. Dessa forma o Bruxo pode dizer com certeza que a culpa é se repetino ressentimento era completamente sua, sua cabeça, suas memórias. Ele sempre foi um homem convicto era robusto de corpo e mente, ou teimoso, para os mais íntimos. Ele sempre fingiu que não tinha dúvidas sobre nada e de repente essas dúvidas ignoradas lhe bateram no peito com bastante violência.
— E o que você faz quando sempre sente falta de casa?
A Resposta dela foi completamente desinteressada sem nenhum traço de simulação muito pelo contrário ela parecia completamente alheia Mas não de maneira ofensiva mas como se estivesse adoravelmente distraída. Isso fazia ele se sentir muito bem aquela cabeça parecia não passar um único pensamento aquele rosto que parecia não ter uma única ruga que não fosse dada pelo tempo, que lhe fez mais bem do que mal. Ela voava muito e sua voz era rouca por causa disso mas nunca deixou de ter a ternura da terna idade.
— Isso é ótimo, quando você voltar, ela vai estar mais bonita do que nunca!
Eles tiveram que subir toda a colina de novo, mas valeu muito a pena ao finalmente voltarem para aquela cabana no meio do nada. Estava tão quentinho, de uma maneira que não parecia antes deles saírem; era realmente uma sensação mágica ver o mesmo lugar mudar, mesmo sem que uma única partícula de poeira saísse do lugar. Eles se despiram, mas só o bastante para manter alguma decência, esquentaram as mãos trêmulas perto da chaleira apitando e compartilharam uma xícara de chá fervido pelo seu entusiasta.
De repente, foi perceptível que a janela de vidro ficou completamente coberta por um vento violento, que remexia partículas de neve. Parecia uma tempestade, mas nenhuma tempestade seria tão silenciosa — se é que poderia chamar aquilo de silencioso. Olhando para o outro lado, a outra janela parecia completamente normal. Só tinha uma explicação para um fenômeno daquela magnitude. A primeira reação do Bruxo foi de lentamente colocar a xícara sobre o fogão e caminhar até a porta. Ao abri-la, deixando a neve entrar, a tempestade abaixou, revelando uma mulher, sua vassoura e seus cabelos castanhos.
— Quem é essa? — Pandora questionou, levemente preocupada, levantando-se em postura ereta. Falava com o homem, mas sem tirar os olhos da recém-chegada.
— Essa é Mical, a mãe da minha filha. Mical, essa é Pandora.
A bruxa ergueu o babado do vestido com a ponta dos dedos e se inclinou levemente, com um sorriso tão contido que parecia de desdém.
— O prazer é todo meu. Nunca consegui tirar Romero mais de vinte metros de casa; você deve ser uma mulher extraordinária. Como conseguiu mudá-lo?
Ela tirou do seu peito uma admiração genuína por uma mulher que não conhecia, mas da qual reconhecia os grandes feitos. Obviamente, essa sinceridade não foi creditada — ninguém acreditaria que uma frase tão contemplativa, vinda de uma pessoa tão sorridente, poderia ser a verdadeira. Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade, e vice-versa. Até porque o que ela admirava ali não poderia ser algo bom; sem saber de onde viria tal feito, a única coisa que ela poderia admirar e tirar dessa situação seria uma forma de poder. Um poder que ela não detinha, um poder que ela já quis e, mesmo que não o desejasse mais, ainda era capaz de admirar em uma pessoa capaz de tê-lo.
— Eu não o mudei. Eu cedi, e ele cedeu também.
A resposta de Pandora foi defensiva. Ela foi firme, inteligente e com o nariz empinado, pois não conseguiria deixar de sentir uma sensação de perigo vindo daquela pessoa que a tratava com tamanha admiração. Parecia piada, e não era nada divertido. Essa rispidez vinha de uma sensação de medo — não o medo físico de ser ferida ou atacada, mas uma maneira primitiva de medo, um medo social que ela não conseguia nomear. Logo ela, que sabia o nome de tantas coisas, estava novamente deparada com algo completamente novo.
— Um movimento ousado, não é algo que eu faria, mas é admirável à sua maneira. Estou verde de inveja branca. Queria eu ser tão flexível.
Essa foi uma pequena mentira que Mical contou. Ela sempre desejou aos céus que a livrassem de ser uma pessoa flexível; isso seria para ela como a morte. Embora quisesse, sim, os pequenos prazeres da flexibilidade, ela ainda fugiria disso como o diabo foge da cruz. Dessa forma, ela disse ali, naquele momento, algo que considerava uma mentira branca, um pequeno mimo social. Já dava para perceber de onde Abigail herdou o seu desalento em relações íntimas.
— Sinto que quer me dizer algo — Romero indagou, impaciente, querendo cortar a discussão.
— Nada pessoal. Eu ia limpar minhas mãos sobre a Abigail, mas as coisas mudaram. Os ventos me levaram até ela.
O coração do bruxo tropeçou sob os próprios pés. Ele sentiu seu peito esfriar e reaquecer em um movimento que podia ser comparável com uma pedra sendo jogada dentro de um poço: a água do poço sobe e depois volta.
— Mical, você tem que ser mais clara ao falar dessas coisas...
— Desculpe. Quis dizer que, de agora em diante, eu irei estar diretamente envolvida na criação da Abigail.
— É tarde demais para isso. Abigail está bem criada. Já é uma moça.
— Uma moça, mas não uma bruxa. Ainda não. Sei que concordamos em te deixar responsável por ela, mas eu não posso mais permitir. Uma das árvores colossais caiu. O mundo não é mais o mesmo; é uma nova era. Ninguém está seguro. Ninguém que tiver os pés plantados no chão.
Romero começa a hiper ventilar com a notícia, o coração bombeando mais do que nunca na vida, sua pele ficando corada, ele engasga ao inspirar e fala sem mexer a cabeça.
— Pandora, me leva de volta agora.
Obviamente ela estava quase tão chocada quanto ele mas ainda conseguia manter certa decência e certa racionalidade mesmo que isso nunca tivesse sido seu jeito de resolver as coisas ela sempre acreditou que assuntos do coração se resolvem com o coração mas naquele momento ela sentiu que não era o certo.
— Calma, você precisa se acalmar antes de ir para qualquer lugar... Respira fundo, ela mesma disse que falou com a Abgail então não precisa ter pressa, ela está bem, e pode esperar, se acalme.
— Você tem que me levar agora.
— Eu não posso, é pro seu bem.
Mical ergueu o braço até a altura da cabeça. — Eu posso levá-lo. É passagem pra onde eu estava indo. —
Mas foi uma intromissão não foi bem Vista pois Pandora ao meu com uma expressão bastante severa como se estivesse se dirigindo a uma criança se tivesse dito uma palavra feia.
Mical abaixou a mão devagar, com seu rosto ficando sério, abaixando a cabeça mas sem sinal de submissão, apenas olhando mais fundo nos olhos da outra. — Você não me diz o que fazer. — na voz dela baixou Dois Tons perigosamente parecia até a voz de outra pessoa aqui no realmente havia a irritado bastante porque a partir daquele momento ela perdeu completamente o seu Tom casual e toda a sua cordialidade mas de certa forma Pandora preferia assim.
— Não importa, eu vou lá eu mesmo.
Ele saiu Pela Porta da cabana enfrentando a neve lá fora enquanto corria como suas pernas pesadas, invocando uma serpente gigantesca de escamas calcificadas em coloração vermelha e púrpura que se ergueu abaixo dos pés deles e serpentinou o levando em alta velocidade para fora daquele deserto gelado. A cobra coral era gigantesca em sua cabeça tinha uma depressão côncava perfeita para que Ele pudesse agarrar as extremidades e se segurar para suportar aquela velocidade sem cair a resistência do ar era o melhor dos problemas ele era gelado e queimava a pele. mas ele não pensava em nada disso agora ele só queria chegar em casa e ver com seus próprios olhos que havia sobrado dela. Ele sabia que tudo que ele é cor conhecia mudou drasticamente e irreversivelmente enquanto ele estava fora sua casa sua floresta e sua filha talvez essa corrida toda seja apenas uma tentativa febril e infrutífera de conseguir se despedir de algo.