Quando Saul chegou a Alexandrite, ele percebeu que quase havia esquecido como ela era grande. Parecia até um castelo. Era uma estrutura barroca, opulenta, circular e vertical. Dotada de torres, que tratavam-se de dormitórios. À esquerda o feminino e direita o masculino. Interligados por uma estrutura menor e mais baixa, porém muito mais larga. Quando ele adentrou os portões, havia uma porção de outros estudantes da magia arcana junto dele. Ele se aglomerou em silêncio. Quando o piso rangeu, se inclinou para frente, colocando o peso no peito dos pés e se concentrou olhando para frente, apenas esperando. O piso se ergueu languidamente, rangendo como se uma criatura viva grunhisse de esforço, levando todos eles para o próximo piso. Não havia portas ou cortinas. Eles simplesmente assistiam a própria estrutura do local, correndo entre espaços vazios e tijolos bem enfeitados passando diante dos seus olhos, sem ao menos uma musiquinha monótona para cambrar o clima. Ao finalmente chegar ao seu destino, todos eles caminharam para o salão. Havia uma quantidade absurda de pessoas ali. Nunca se tinha visto tanta gente em Alexandrite. Tinha centenas de magos, dezenas de grão-magos, um punhado de arquimagos e um ocultista. Este era Shiro, que, diferente do habitual, se destacava dos demais, ficando bem à vista, ao lado do diretor Eusébio, acima de todos, em um grande palco. Shiro era um homem alto e magro, asiático, de sobrancelhas bem ímpares. Ele geralmente era visto com uma carranca característica. Era um homem sério e rabugento. Mas agora sorria. Seu sorriso era estranho. Seus lábios ficavam apertados, como se se esforçassem um contra o outro, e formava quase um V em direção às suas orelhas. Nunca se havia visto aquele homem sorrir antes. Em nenhum momento, a menos que fosse por educação. Um sorriso singelo de olhos fechados, com a cabeça baixa, um sorriso de submissão, como fazem algumas espécies de primata. Mas aquele sorriso não era este. Era bem maior, bem mais acentuado e bem mais chamativo. Ele estava usando suas vestes tradicionais de ocultista. Um grande hobby rosa, todo simbolicamente traçado. Saul balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Não queria pensar naquele homem que o perturbava desde a primeira vez que o conheceu. Em vez disso, esperou que o diretor Eusébio lhe dissesse o que vieram fazer aqui. Este já era um homem de idade avançada, saudável, porém, bastante abatido. Ele olhou para baixo e não sentia orgulho, sentia ansiedade. Parecia insatisfeito. Quero dizer, ele sempre parecia insatisfeito. Mas agora não era de raiva nem de aceitação.
— Eu tenho certeza que todos aqui conhecem a fatalidade que recaiu sobre Alexandrite então não irei me estender sobre isso. O que realmente importa é que podemos reconstruí-las, por isso os chamei aqui, eu preciso que entreguem seus grimorios, para que eu possa copia-los e preencher Alexandrite com o conhecimento de vocês, cada um de vocês, vai salvar o futuro de todos os magos deste país, cada página conta, hoje vocês entrarão para a história.
Mas para surpresa do mais velho a reação daquela multidão não foi de determinação Renovada nem te entrega altruísta eles começaram uma baguncear e murmurar uns para os outros é um tom de indignação criando um zumbido indefinível mas seus rostos mostraram tudo o que eles queriam dizer o grimório de um lago não é um mero o livro que eles podem emprestar para alguém é simplesmente o trabalho de uma vida. Tudo que ele aprendeu tudo que ele desenvolveu todo se ele deu seu suor e lágrimas para construir ficavam dentro das páginas daqueles cadernos. Entregar isso nas mãos de outra pessoa por tempo indeterminado não importa pelos mais nobres dos motivos ainda seria uma ideia absurda.
Mas fora da multidão havia ocultista ele simplesmente entregou o seu grimório sem pena nenhuma e com um sorriso no rosto era Grosso pesado e elegante com certeza era o caderno mais valioso dali fazendo os magos não graduados se sentirem envergonhados com os seus.
— Não sejam egoísta, meninos. Um raio não cai no mesmo lugar duas vezes...
Aquelas palavras desmotivaram ainda mais os mais jovens relembrando de que naquela mesma alexandrite todos os grimórios mais valiosos do mundo que mantiveram o conhecimento das pessoas que estiveram ali foram perdidas entregar seus próprios primórdios pessoais ao diretor seria muito arriscado considerando que ele não pôde proteger os originais.
Enquanto ele balançava a cabeça, ele viu em sua horizonte, a inconfundível silhueta do alvo. Aquela pele branca e cremosa seria inconfundível. Abel estava ali na multidão. Saul começou a abrir caminho entre os outros, empurrando e se esgueirando até alcançar o seu alvo tocando seu ombro.
O moreno simplesmente o abraçou com força afundando o rosto na curva do pescoço do mais alto, mas antes que este pudesse retribuir o gesto, Shiro o puxou pela gola separando os dois.
— Oliveira, creio que você passou do ponto. Não é assim que se cumprimenta seu superior. Abel está em uma posição à frente em sua hierarquia, se está abaixo, se abaixe ou nos supere.
Shiro disse Com uma severidade nostálgica, fazendo Saul abaixar a cabeça.
Ele voltou a sorrir como antes deixando todos desconfortáveis de novo. Parecia mais seguro quando este estava insatisfeito. Depois de um tempo eles buscaram se reencontrar na confusão, durante a entrega de grimórios.
— Saul, eu tava te procurando por aqui.
— ah eu estava pensando em você agora.
— podemos falar mais a sós?
— eu.... Eu não tô afim de falar nada que precise de tanta privacidade, eu tô com uns problemas com minha irmã.
— vamos, é uma emergência.
Abel pegou a mão de Saul e o levou para o grande armário de material artístico. Saul tentou se desvincilhar, mas o pálido era muito mais forte o deixando intimidado, ele ficou confuso, ele nunca pensou que Abel poderia machucá-lo. Ele sempre foi insistente, mas nunca ativamente abusivo, parte dele queria ir só pra entender melhor a situação. Ele foi trancado junto com ele dentro do armário que cabia eles dois e nada mais.
— eu sei eu sei, mas é uma emergência. É sério.
— esse tipo de emergência não existe.
Abel abraçou os ombros de Saul e sussurrou baixinho
Saul sentiu as pontas dos dedos gelados, instintivamente colocando as mãos no peito do mais alto que continuou falando.
— estamos sendo vigiados, é questão de tempo até ele aparecer, e temos que fingir que estávamos nos pegando.
— Ele não precisa acreditar, só precisa não ter como provar. Ele não é mais o mesmo. Safira o chamou para uma missão e ele voltou estranho, sorrindo o tempo todo, me vigiando, eu tô com medo.
— O que você quer que eu faça?
— Não existe segredos no Palácio de cristal, preciso contar isso pra alguém do lado de fora... Poderia ter sido eu, e eu não posso garantir que não vai ser, eu tô com medo... Se algo acontecer comigo eu quero que saiba que não foi coincidência.
Mas antes que o moreno pudesse dizer algo, Shiro abriu a porta bruscamente fazendo ambos guincharem de susto, o homem estava com um sorriso arretador de orelha a orelha, mas logo se acalmou, seu sorriso lentamente diminuindo até proporções humanas, e se visão de Saul não tivesse nublada, ele poderia jurar que as pupilas dele estavam enormes à um instante atrás.
— Ah então foi aqui que vocês se esconderam, estavam fazendo coisa errada, como eu imaginava, mas isso, isso é ousado.
Ele tampou os olhos com desdém, Abel fingiu estar ajustando a calça sabendo que Shiro estaria espiando pelos dedos.
— Por favor não conta a rainha, não fizemos nada.
— Bem, se você diz que não fizeram nada pode contar o que vocês não fizeram.
— Sim... Sim senhor, não vai acontecer de novo.
— Vou fingir que não vi isso, em troca de você contar por si mesmo.
— Agora, voltem para o salão. O diretor se esforçou muito para esse evento, vocês estão sendo muito rudes saindo assim.
Ele deixou os mais jovens saírem e ficou parado olhando pra eles sem se afastar do armário, como uma ave de rapina. Saul agora entendia o que Abel estava fazendo, ele estava em um mundo transparente, o Palácio de cristal não ter segredos era uma doce mentira, pior, um jogo de palavras sorrateiro, nenhum segredo fica escondido lá dentro, só para nós aqui fora.
Ele partiu carregando Abel consigo puxando-o pelo pulso e levando-o para entregar seu grimorio. Saul ponderou se deveria ajudá-lo, já tinha tanta coisa na cabeça. Abel sempre foi uma pessoa distraída, mas justamente por isso, algo deveria estar muito errado para ele se preocupar. O moreno esperou perdê-los de vista e se esgueirou para trás da pilha de livros coletados, era fácil de achar seu alvo, o primeiro, bem lá embaixo. Com um esforço hercúleo ele capturou o caderno roseo e tentou abri-lo, mas foi pego pelo seu dono.
— Sabia que estavam tramando algo.
— Não é o que parece! Eu só queria ver o seu grimorio porque o admiro muito.
— O senhor está me assustando.
— Por que você acha que estou diferente se sua sodomia sempre me enojou? Não estou Possuído, estou livre.
E com essas palavras Shiro avançou para cima de Saul agarrando seu braço e o empurrando contra a parede. Ele era um homem alto e magro, conseguindo manter uma distância intimidadora enquanto pressionava o mais novo contra a parede fria. O pulso dele apertava forte. A outra mão, bloqueando o movimento de pulso do moreno e torcendo em sentido anti-horário, colocando as duas mãos dele ao redor da cabeça dele. Saul tentou chutá-lo ou manter alguma distância com a perna, mas Shiro afastou as pernas dele com seu próprio pé, deixando mais difícil de conseguir controlar o seu próprio eixo de gravidade.
—... Porque você não tá usando feitiço...
— Eu gosto de sentir seu pulso ficando frio.
Saul sentia suas forças sumindo enquanto o mais alto parecia imperturbavel, fora de si. Quando estava prestes à ajoelhar pelo cansaço e desistindo de se defender, ouviu a voz de Eusébio.
— Mas o que significa isso!?
A voz rouca e envelhecida do seu mestre parecia uma tábua de salvação, mas isso parecia apenas ter aumentados a felicidade de Shiro.
Ele arremessou Saul para frente que caiu de joelhos no chão entre os dois, e gritou com uma voz acusatória de raiva incontestável que desmentia seu sadismo.
— Seu aluno estava roubando meu grimorio! É um ladrão!
O moreno simplesmente não conseguia acreditar em tamanha dissimulação. Shiro que sempre foi uma pessoa desagradávelmente honesta, mentia com precisão cirúrgica. E pior, ele realmente estava com o grimorio do ocultista.
— E por que você simplesmente não tomou dele? Pra quê essa violência?
— Eu... Perdi a cabeça. Neste caderno tem anotações da minha vida inteira uma vida que eu sacrifiquei ao conhecimento e eu não posso aceitar que ele seja tomado de mim por um garoto irresponsável.
— essa crise está abalando todos nós estamos todos com os furores a cor da pele essa crise está abalando todos nós estamos todos com os furores explodidos as têmporas. Mas temos que tomar cuidado não podemos esquecer de quem somos e o que fazemos. Você se lembra que dedicou sua vida ao conhecimento mas parece que esqueceu para que ele serve. Eu não vou comer nenhum de vocês dois mas eu não quero ver mais desse comportamento em Alexandrite.
O moreno simplesmente não conseguia se defender ele fixou no que dizer mas não encontrou palavras que faria um sentido naquela situação. Dizendo a verdade ele não conseguiria ser tão convincente quanto aquela mentira, aquela meia verdade. A raiva dele parecia tão genuína.
— Você é fraco, Eusébio. — o mais alto disse enquanto um ancião ajudava o morando a se levantar e o levava para fora. — Você é fraco, e sua fraqueza trará a ruína de tudo o que nós acreditamos.
Mas Eusébio nem se virou para olhar para o rosto de Shiro, enquanto este brandava curiosamente para todos os quatro cantos de alexandrite ouvirem sua cólera. Mas Saul olhou, eles que virou olhando pelo Canto do olho e por cima do ombro e o que ele viu foi um rosto com um sorriso tão aberto que as pontas quase tocavam as orelhas e olhos espremidos e enrugados pela aquela Face de uma felicidade de um dia e assustadoramente desumana. E quando eu olhava para aquilo sua espinha se arrepiou como serpente de gelo descendo com suas costas. Pois a voz dele não parecia sua aquela voz de raiva tão verdadeira saia de uma boca que sorria. Era fometicamente impossível de aquela postura conseguisse mimetizar aquela voz de raiva genuína.
— O que você pensa que está fazendo? Poderia ter causado uma baderna!
— Eu?! Ele quem me atacou!
— E você teve sorte! Não sou mais professor dele à anos, eu não tenho nenhuma autoridade sobre ele, você teve sorte dele deixar eu te defender.
Sorte... Algo que Saul sentia ter perdido à muito tempo, aquilo não foi sorte, foi uma escolha deliberada para aumentar seu sofrimento, lhe tirar o direito de defesa. Se Shiro passasse um pouco mais dos limites, ao menos poderia compartilhar daquela bronca.
— Diretor Eusébio, isso não pode ficar assim.
— É assim que as coisas são, garoto.. Nos esforçamos tanto justamente para não passar por isso.
— Deveríamos nos esforçar para que isso não acontecesse, não para que não nos afetasse.
Eusébio colocou os dedos nas têmporas por baixo dos óculos e fechou os olhos com força, esse gesto fez Saul simplesmente entregar o grimorio surrupiado e o seu também.
— Me desculpe, não vou te incomodar mais.
E dito isso, saiu de Alexandrite, que não queria ver novamente tão cedo.
Se materializou de volta no lago para buscar sua irmã, mas ao bater a porta, Antonello abriu só o bastante para sua cabeça passar pela porta.
— Eu vim buscar minha irmã.
— Ela voltou de trem... Você também deveria, parece cansado.
— Aconteceu algo entre vocês?
— Tem uma cratera no chão.
— Não fui eu, foi a mãe da abgail
— Abgail tem mãe desde quando?
Saul cobriu o rosto com as mãos e expirou.
— Eu não tenho tempo para isso!
— Ei! Eu não te disse para fazer nada, você quem fica tomando as dores de todo mundo e depois reclama delas como se fossem suas.
— Você, Nelo? De todas as pessoas?
— Vai para casa, Saul. Fica com sua irmã e escuta ela, sem filtrar tudo na sua cabeça. Ela sempre foi uma pessoa honesta. Você tem que parar de pisar em ovos com ela. Isso só está separando vocês.
— Você tem razão... Mas por que você não abre a porta?
— Tudo bem... Mas eu realmente acho que eu deveria saber por que você não abre a porta.
Apesar de suas palavras, Nelo apenas colocou o braço para fora e tocou no ombro do amigo dizendo.
— Não, Saul. Você não pode viver pelo problema das pessoas, senão nunca estará lá de verdade para elas. Olha só para você, está exausto. Como você vai ser amigo das pessoas quando você se esquecer de quem você é sem elas? Você tá sempre com pressa, sempre pronto, e pra quê? Para balançar a cabeça e murmurar para seus amigos? Pega aquele trem, descanse, se cure, espere as coisas melhorarem e viva os momentos bons. Sua irmã está bem, mas ela precisa de você mesmo assim. Ela precisa do irmãozinho dela.
Saul ficou completamente congelado, olhou para os próprios pés e caminhou para trás antes de dar as costas à porta. Já havia até se esquecido do cheiro de um vagão. Lá dentro pensou naquelas palavras por longos minutos. Teria Nelo razão? Parecia contra intuitivo, tanto a afirmação dele, quanto pensar que ele estaria certo.
Na última parada, ele desceu e se materializou na areia da praia, caminhou, subiu a pequena escada de madeira e abriu a porta com a chave. Encontrando lane sustentada pelas mãos e com os joelhos nos cotovelos.
— Estou tentando conhecer melhor o meu corpo, descobri que sou uma feiticeira, então tenho que entrar em sintonia comigo mesma.
— Isso é... Legal. Como está você e a Abigail?
— Eu sei... Nelo disse que ela vai ficar bem, mas eu ainda me preocupo.
Saul abriu a boca, iria aconselha-la, mas hesitou. Ele andou alguns passos e se sentou com ela.
E contra todas as suas expectativas, ele se sentiu melhor no mesmo instante, e de alguma forma, alguma forma melancolica de conformidade, tudo parecia bem.