β¬ Β· Β· ββ traditions/breakinβ them.
MINAH POV, CONVERGENCE DAY. // O Dia da ConvergΓͺncia era, para a maioria das pessoas no Limbo, um dia extremamente especial. Muitos passavam as primeiras horas na rua, preparando coisas como se fosse uma festa, jΓ‘ Minah sempre optava por ficar dentro de sua residΓͺncia atΓ© ver a escuridΓ£o cair. NΓ£o por nΓ£o pensar como os outros; mesmo a dura e fria mulher nΓ£o conseguia controlar as emoΓ§Γ΅es em uma data como aquela, entΓ£o era um dia que optava por aproveitar a claridade para meditar e guardar o que restava do seu coraΓ§Γ£o antes de sair sob a luz roxa da lua que iluminava todo lugar.
Quando finalmente chegou a hora, saiu de casa vestida de preto, quase como se estivesse de luto. Havia se tornado tradiΓ§Γ£o nos cinco anos que estava ali. Em todos eles Minah se dirigia a famosa Γ‘rvore mΓ‘gica para recolher seu ΓΊnico presente: um buquΓͺ de flores deixado por sua mΓ£e e por mais ninguΓ©m. Mesmo que nΓ£o assumisse, no fundo a morena gostava de ver que a mulher nΓ£o conseguia esquecΓͺ-la, e mesmo que constantemente culpasse seus pais pelo que era na Γ©poca de sua morte e atΓ© mesmo atualmente, ela sabia β ou imaginava β que a Sra. Hong agora se arrependia de nΓ£o ter cuidado melhor de sua ΓΊnica herdeira. O jeito que encontrou para expressar o sentimento foi sempre deixando flores em seu tΓΊmulo, foi a conclusΓ£o que Minah chegou, e decidiu que podia tirar algumas horas daquele dia para esquecer as desavenΓ§as e aceitar o carinho de mΓ£e que lhe era oferecido. Mesmo que tΓ£o tarde, mesmo que de nada adiantasse mais.
Minah nunca voltaria para ela.
Mesmo banhada por luzes artificiais e pela luz da lua, a cidade parecia mais escura naquela noite aos olhos da traficante. Mais fria, tambΓ©m. Andava pelas ruas com as mΓ£os dentro dos bolsos do casaco, encolhendo-se levemente. Seu olhar era sempre direcionado para frente ou para cima, nunca para os lados e nunca para ninguΓ©m. Outro hΓ‘bito que criou ao longo dos anos foi sempre fazer esse caminho sozinha, sem ninguΓ©m para interromper. Gostava de deixar sua mente aceitar ideia de que nΓ£o havia ninguΓ©m por ela ali. No fundo nΓ£o se sentia solitΓ‘ria, afinal, jΓ‘ havia passado tempo o suficiente para se acostumar com aquilo, e sempre que o pensamento passava por sua cabeΓ§a a morena comeΓ§ava a rir. Daquela vez nΓ£o foi diferente e, sozinha, Minah sorriu, ignorando os olhares estranhos em sua direΓ§Γ£o.
Quando por fim chegou as ruΓnas da igreja, a coreana parou para observar ao redor. Muitas pessoas iam e voltavam em um misto de sentimentos e expressΓ΅es que sempre pegava Minah de surpresa. Todos os anos esperava chegar ali para encontrar todos os tolos aos prantos pelos presentes recebidos, mas sempre encontrava muito mais do que isso. Haviam os emocionados, Γ© claro, mas tambΓ©m haviam os bravos, os sΓ©rios, os que simplesmente sorriam como se a vida β ou a morte β fosse a melhor coisa do mundo. A todo momento um presente aparecia ao pΓ© da Γ‘rvore e mais alguΓ©m mostrava uma reaΓ§Γ£o diferente, e observar tudo isso tambΓ©m se tornou um hΓ‘bito de Minah. Costumava passar horas ali, analisando cada uma das pessoas, parada em um ΓΊnico lugar. SΓ³ se movia quando percebia a multidΓ£o se dissipar, pois gostava de ter aquele momento apenas para si. JΓ‘ era difΓcil o suficiente ter que lidar e aceitar seus prΓ³prios sentimentos, nΓ£o queria ter que partilhar com mais ninguΓ©m, por mais impossΓvel que fosse naquela data.
Sem olhar para as pessoas e esperando que nenhum conhecido a visse, Minah se dirigiu atΓ© a Γ‘rvore e parou diante do buquΓͺ de cravos vermelhos que sempre estava ali. Aquela era sua segunda flor favorita, logo apΓ³s a rosa, e Jihye sempre optou por ela. Preferia assim, porque rosas sempre lhe lembravam de outra pessoa, e gostava de poder separar as lembranΓ§as dessa forma. Quando se abaixou para pegΓ‘-lo e ir embora, como sempre, a morena percebeu que nΓ£o era a ΓΊnica coisa destinada a ela daquela vez. E foi assim que todas as tradiΓ§Γ΅es para aquele dia foram interrompidas.
Junto do buquΓͺ pΓ΄de perceber uma rosa escura, com aparΓͺncia de queimada, e de imediato um nΓ³ se formou em sua garganta. Sozinha ela nΓ£o representava nada para os outros, mas para ela o significado era maior e mais forte. A mΓ£o desceu devagar atΓ© a flor, e ao tocΓ‘-la percebeu que logo ao lado havia mais uma coisa: uma pulseira. E Γ© claro que Minah a reconheceu de imediato, jΓ‘ que ela mesma comprou o acessΓ³rio de presente para ninguΓ©m mais, ninguΓ©m menos do que Daniel, o namorado que, atΓ© aquele dia, ela acreditava estar morto.
βQue tipo de brincadeira Γ© essa?β Sussurrou, sem conseguir encontrar forΓ§a o suficiente em sua voz.
Deixou que seu joelho se apoiasse no chΓ£o, sem a menor condiΓ§Γ£o de se manter equilibrada. O buquΓͺ de sua mΓ£e foi colocado ao lado para que pudesse pegar a rosa queimada e a pulseira que, pΓ΄de perceber, estava arrebentada. Queria negar com todas as suas forΓ§as que aquilo estava acontecendo, Daniel nΓ£o podia estar vivo. NΓ£o tinha como. Lembrava-se bem da imagem dele antes de morrer, o rosto cheio de sangue e cortes, estilhaΓ§os de vidro e ferro retorcido ao redor. Daniel nΓ£o podia estar vivo. Mas como podia negar qualquer diante daquelas provas? AtΓ© onde sabia sobre aquele dia, os presentes vinham do mundo dos vivos para o limbo, entΓ£o era impossΓvel que uma pessoa morta tivesse lhe enviado.
Mesmo sabendo da possibilidade de outra pessoa ter colocado o objeto em seu tΓΊmulo, Γ quela altura o rosto de Minah jΓ‘ estava coberto por lΓ‘grimas, as quais ela sequer percebeu que haviam comeΓ§ado a cair. NΓ£o fez nenhum esforΓ§o para enxugΓ‘-las, no entanto. Ao ter os objetos na mΓ£o, ela percebeu que embaixo deles havia um pedaΓ§o de papel, e mesmo com medo, levou a mΓ£o livre e trΓͺmula atΓ© ele. A caligrafia na frase foi reconhecida de imediato e um soluΓ§o escapou de seus lΓ‘bios, impiedoso.
βYouβll always be my favorite βwhat ifβ.β
Daniel estava vivo. Ele realmente estava. A realidade daquele fato caiu como uma pedra sobre as costas de Minah e ela apenas chorou com mais forΓ§a, mais intensidade, mais desespero. Sequer se importava com as pessoas ao redor; havia se tornado uma das tolas que choravam copiosamente, e mesmo que quisesse parar, ela nΓ£o conseguia. Sua maior dor, seu maior arrependimento, sempre foi carregar a culpa da morte de Daniel, pois queria que ele vivesse mais. Sempre quis vΓͺ-lo bem, feliz, e nΓ£o conseguia perdoar a si mesma por ter arrancado todas as chances dele, mas ele ainda as tinha. Ele ainda podia viver, mudar. Outro soluΓ§o lhe escapou e por um momento Minah sequer soube dizer a si mesma se chorava por dor, tristeza, desespero ou simples e puro alΓvio. Em sua cabeΓ§a havia uma repetiΓ§Γ£o incontΓ‘vel das palavras βele estΓ‘ vivoβ e precisou levar a mΓ£o que segurava o papel atΓ© a boca para impedir de verbalizar o pensamento em seu tom mais alto.
Contudo, ainda havia tambΓ©m um pouco de incredulidade em seu coraΓ§Γ£o, pois nada daquilo fazia sentido. Era como uma piada, como se alguΓ©m estivesse fazendo aquilo para finalmente ver a morena quebrar β e estava conseguindo. Minah continuava a chorar enquanto tentava conseguir forΓ§as para levantar e ir para bem longe dali, tendo sucesso apenas minutos depois. Trouxe consigo as flores de sua mΓ£e e as coisas deixadas por Daniel, segurando tudo de forma apertada em sua destra, e sem olhar para trΓ‘s ela correu dali, sem destino. SΓ³ queria encontrar um lugar escondido onde pudesse chorar e gritar sem que ninguΓ©m lhe visse.
Somente quando sentiu as pernas queimarem pelo esforΓ§o foi que parou, percebendo que jΓ‘ estava longe o suficiente da massa. NΓ£o havia ninguΓ©m por perto, nΓ£o haviam luzes ou casas, apenas Γ‘rvores, e por mais que nΓ£o conseguisse determinar sua localizaΓ§Γ£o exata, a traficante estava satisfeita por ter apenas a luz roxa presenciando sua queda. Mais uma vez caiu de joelhos, dessa vez deixando tudo que tinha em mΓ£os cair na sua frente, e antes que pudesse controlar, um grito agoniado rasgou sua garganta e saiu por seus lΓ‘bios, sendo acompanhado por soluΓ§os que lhe impediam de respirar. Mas Minah nΓ£o se importava. Era como se, naquele momento, estivesse tirando todo o peso que carregava consigo atravΓ©s do choro, um choro que nunca veio durante seus cinco anos no Limbo. O peso antigo saΓa, mas um novo entrava e Minah nΓ£o sabia como lidar com ele, e por isso chorava ainda mais. Sentia-se perdida, desestabilizada, frΓ‘gil, e para seu cΓ©rebro a ΓΊnica reaΓ§Γ£o plausΓvel naquela situaΓ§Γ£o era chorar atΓ© que nΓ£o tivesse mais forΓ§as para nada. E foi isso que ela fez.