Pra dizer que teu amor foi daqueles que me roubou a pele, a vergonha, as vĂ©rtebras, as tĂȘmperas, os bĂșzios, os deuses, as falas, os gestos, os tempos, as vidas. Pra dizer que eu te amei demais muito mais do que supus, e que quis muito que tudo ficasse bem entre nĂłs, mas que nĂŁo foi bem assim. Dizer tambĂ©m que queria poder escrever mais, porĂ©m sinto atrofia e preguiça de relatar, novamente, como eu te quis, como eu me dei e como vocĂȘ poderia ter reagido a isso. Como tentei te salvar e por tentar te salvar, acabei me perdendo entre tantas guias e tantas ausĂȘncias que nem eu sabia como suprir. Dizer que eu ainda te amo, que enquanto nada acontece, nada se resolve e vocĂȘ nĂŁo fala, eu continuo aqui, esperando que tudo se ajeite, que vocĂȘ venha me roubar pela Ășltima vez e me levar daqui. Dizer que sinto uma ausĂȘncia quando nĂłs conversamos mas que vocĂȘ nĂŁo se importa muito, e nunca se importou, se era ausĂȘncia ou presença. Mas que eu te amei assim mesmo, ligando desesperado para sua mĂŁe para ela me dizer algo de vocĂȘ, algo que acalmasse meu coração bravio, algo que me desse esperança de que vocĂȘ nĂŁo havia se jogado de uma ponte como prometera. Pra dizer que eu escuto seu nome ao longe e choro de aflição e me escondo atrĂĄs dos escombros que jogaram em cima de mim. E que estou mais triste mais intenso e mais feliz. Mas que tambĂ©m choro pelas pessoas que perderam seus braços no vietnĂŁ e pelos textos que perdi quando roubaram-me de mim. Uma solidĂŁo que me roubou, uma agonia que tirou-me de mim, açoitou meus dramas e me fez viver com a ferida exposta. Pra dizer que sĂșplico pelo seu calor entretanto nĂŁo quero morrer dele, e que quero que entendas as minhas manias de fuga tambĂ©m. Por que nĂŁo lhe disse que tambĂ©m sei fugir? Que tambĂ©m possuo pĂ©s capazes de voar? E que tambĂ©m tenho medo e por isso posso querer morar em outro esconderijo, que nĂŁo vocĂȘ? Pra dizer que eu te amo eu te amo eu te amo, tanto que nĂŁo posso mensurar, e Ă© atĂ© pecado escrever, porque podem roubĂĄ-lo de mim. Pra dizer que teu corpo Ă© como um oceano que margeia uma ilha deserta e que seus lĂĄbios sĂŁo coxas de anjos que viraram poemas em algum lugar da terra. Pra falar que sinto uma inenarrĂĄvel vontade de voltar no começo, no princĂpio, naquilo que foi de uma paz imensa, naquilo que causou um espantamento, no que foi mais do que amor. Aonde foi mais do que amor. IncomparĂĄvel amor. Dedução ilĂłgica de um sofrimento que nĂŁo planejo mas que vem e sopra tudo e todos em cima da minha ferida - aberta, chamada seu nome.