“É um prazer, Leo” As memórias da maldição estavam muito bem embaralhadas na sua mente, com um passado e uma vida pesados e repletos de problemas; suficiente para que lembranças de sua vida passada não aparecessem com tanta facilidade. Ou, talvez, Ginger havia se magoado demais com a falta de fé de Shiver para que quisesse ter alguma força para se recordar de quem ele era. Não houve, portanto, qualquer familiaridade aparente na figura alheia, muito embora pudesse sentir que ele era um bom homem (mesmo quando fora exilada, não tinha deixado de acreditar nisso). Encarou a mão esticada, sem deixar de notar a aparente falta de jeito alheia. Ele não era exatamente frio, até porque soava muito simpático e gentil, mas parecia reservado. Não importou quando a moça segurou a mão estendida e o trouxe para perto, trocando o cumprimento por um abraço animado. Seria bom para manter a personagem, também — e Jolene queria estar o mais distante possível de sua vida normal repleta de formalidades, distância e impessoalidade. “Bem melhor” Não deixou de acrescentar, a respeito da escolha do cumprimento. “Hm. Veremos” Torceu o nariz, mas sabia que sim. Já tinha se acostumado com muito mesmo. “Ahh! Chocolate!” Disse, animada, quase que de um jeito exagerado. E se Jolene não havia reconhecido Shiver de qualquer modo, seus instintos pareciam tê-lo feito, pois era como se a verdadeira Ginger ao poucos se mostrasse ali, estranhamente confortável para agir como por tantos anos (nas memórias) tentaram impedi-la. “Mas sabe, eu gosto mais de doces tipo bala, pirulito. Aqueles coloridos, que fazem voltinha assim” O indicador fez um desenho no ar, como se a mímica esclarecesse o tipo do doce mencionado. “Os melhores” E por isso havia colocado alguns em sua bolsa, para entregar às crianças como um pequeno agrado. “Projeto? Que bacana. Projeto de que?” Lembrou-se de algumas tintas que tinha em casa sem uso, talvez conseguisse levar para a escola no dia seguinte. Pareciam precisar. “Bom, eu sou formada em literatura, e fiz uma especialização em pedagogia. Mas acho que precisam de mim para de tudo um pouco” Brincou, com um risinho; ela ensinaria os mais novos diversas coisas, afinal. “Só tem um horário na semana que eu dou aula para o sétimo ano, e outro para o quinto, e aí é aula de inglês mesmo” Explicou, dessa vez se controlando para não sorrir de um jeito estranho. Sua filha, teoricamente, estava no sétimo ano — não seria uma enorme sorte se justamente na sua sala? “Você da aula para quais idades?” Perguntou, conforme o acompanhava; ele provavelmente já conhecia os alunos muito bem, poderia ter informações com ele eventualmente. É! Seria perfeito. O caminho até a sala de professores não foi tão longo, e o local estava vazio. Estavam, afinal, em meio a um dos períodos. “Hm…” Analisou os armários, reparando que pareciam todos ocupados. “Não tem nenhum desses vazio, por acaso?“ Precisava, sem dúvidas, deixar seus materiais ali. Se os levasse para casa e o marido visse… “Talvez a diretora queira dividir o dela comigo?”