não tenho escrito nada que valha a pena ser lido. não que os outros escritos sejam os melhores já publicados. as palavras não me alcançam mais ou eu que não consigo encontrá-las. ou se encontro, já não sei como organizá-las. talvez seja tudo isso. talvez alguns textos devam apenas ser sentidos, nunca escritos, nunca compartilhados. não escrevo para os outros e de vez em quando me esqueço disso. do fato de não ser uma obrigação, e que se outras pessoas se sentem reconfortadas ao lerem conjuntos tão simples de orações, imagine eu.
que estou na minha própria pele.
esqueço que pôr um pouco de mim - ou do que está, durante determinado período de tempo, em mim - no papel, é mais sobre me encontrar, sobre externar, sobre deixar ir uma parte que me pertenceu apenas para aquele momento. mas se palavras me faltam, que devo fazer? se alguns textos minha alma reservou apenas para que eu sinta, o que está tentando dizer?
eu ouço caetano e leio clarice. ambos parecem personificar minha solidão, a tornando mais real. mas o engraçado é não ser triste, não ser melancólico. é parado, imóvel, apático. me empurra e me puxa na mesma intensidade, tira de mim respostas e deposita perguntas que geram dúvidas. eu sou alguém ou finjo ser para escrever? sou o que escrevo ou escrevo para ser alguma coisa? se escrever é me encontrar, por que me escondo atrás de todos esses vocábulos? palavra é ação, e para mim sempre foi mais fácil viver através de verbos. lá fora me arranca de mim, tira minha humanidade, faz eu perder a individualidade e a única coisa que tenho certeza ao meu respeito. sou sensível demais a esse mundo narcisista, que quer desprender pedaços de mim para fazer degraus para si mesmo.
o exterior me repele, excomuga, já saio e tão logo sigo em direção ao mundo de devaneios que criei para mim. e se o mundo me extrai, dele retiro o que consigo para compor meus versos. então eu vivo ou apenas atuo? as experiências são realmente minhas ou só as peguei emprestadas e senti seus impactos?
não sei se escrevo sobre mim realmente. porque o que sinto não sou eu, apenas faz parte de mim. e o que penso é mutável e já nem penso igual. não conheço tanta gente as músicas não têm mais os mesmos significados e o tempo já parou no meu relógio. publiquei e já nem entendo. parou de sangrar, estancou. me lêem e já não sou mais eu. nem eu me conheço. tudo o que escrevo é passado, porque a mim foi concedida a incomplexidade de me deixar ir e o impedimento em me manter.
algumas pessoas dizem que o vazio é pesado. na minha falta de palavras, o vazio é tão leve que consegue ser enlouquecedor. porque não é palpável, não arde nem pulsa, não incomoda como ferida aberta, não estimula o pegar na caneta. apenas está e permanece assim. coça como cicatriz, como se faltasse algo, escorre entre meus dedos e não há como segurar. meu vazio é um espaço virgem de dores e amores. não sinto nada ou sinto pouco. se sinto, é apenas o sentir. clarice escreveu simples, sem enfeites ou rodeios e era melhor assim porque a palavra por si só já bastava, porque cada um a interpreta de um jeito, porque ninguém espera pela pobreza de pompa e quando a lê é atingido. é mais fácil surpreender com o óbvio, porque o espírito que busca julgar o autor ao abrir um livro ao invés de sua própria imagem, é fraco. o simples confunde, silencia, causa cochichos e espanto. e por isso esse meu espaço em branco, por mais brando que possa aparentar, incomoda. porque silêncio não é sinônimo de calmaria e quietude. só significa que enquanto ele se expande, as palavras vão se acumulando em minha garganta, e em algum momento terei que vomitá-las.