Na Estação Onze
Viveremos por algum tempo nessa igreja abandonada, outrora, um lugar sagrado e um templo para as pessoas de fé. O teto abobadado de vitrais azuis celeste, projeta luzes anis e arroxeadas por toda a igreja. Encontrar esse lugar, por si só, foi um pequeno milagre que não sabemos se tem ligação com o que ele significou um dia. Talvez ainda signifique. Nunca acreditei no Deus dos cristãos e nem em suas crenças estigmatizadas, mas a fé dos seres humanos transforma a energia dos ambientes.
Nós caminhávamos à esmo e enxergar essa construção de pedra com aqueles vitrais mágicos, foi como uma miragem. Nós fizemos dela a nossa casa. Colecionamos objetos interessantes, embora pouco úteis, e os levamos para lá. Móbiles de estrelas, telescópios estragados que saqueamos das casas abandonadas e sininhos dos ventos, que penduramos junto às janelas.
Retiramos quase todos os bancos da igreja e levamos nossos colchões e cobertores preferidos para lá. Nossas pequenas nuvens acalentadoras. Durante as noites, fazia muito frio e um barulho um tanto fúnebre ecoava lá dentro. Era apenas o vento de um mundo praticamente dizimado, que parecia com o sussurro de um fantasma. Mas nós nos acostumamos com ele e o tornamos fantasma amigo. Sentimos até certo prazer com esse murmúrio, que também fazia os sininhos titilarem.
Não sabemos quando iremos deixar essa muralha de pedra tão bela, perto de um riacho com cachoeira, onde tomamos nossos banhos sagrados. Mas a caminhada um dia precisa continuar, porque precisamos trilhar esperança e encontrar mais pessoas nesse mundo despedaçado. A caravana segue.












