Em ocasiões o suficiente, Sebastian gostava do silêncio. Apreciava momentos a sós com sua própria mente. Em alguns momentos, era tudo o que ele mais precisava. Óbvio que esses eram os momentos em que estava sozinho, por isso, com o silêncio da moça após o cumprimento com o título, o seu sorriso vacilou um pouco nervoso. Deveria encarar aquilo como uma negativa, virar as costas com um simples boa noite e ir embora? De fato não tinha feito um convite propicio a senhorita a sua frente, como tinha feito para as demais até o momento. Mas por algum motivo, naquela noite, enquanto andava até o seu quarto para se retirar, pensou que seria boa uma caminhada e foi o rosto de Madee Hansen que lhe veio na mente. Estranho, com certeza, com tantos rostos feminino na sua frente, nomes a decorar e agendamento de encontros, foi estranho a súbita vontade de adiantar aquele. Instintos, sua mãe diria. Apesar de ele achar, por alguns instantes, que seus instintos estavam para lá de errados. Quando a moça voltou a falar, quase soltou um suspiro de alívio. Entretanto, as coisas aconteceram mais rápido do que seus pensamentos que queriam lhe sair pela boca. As duas joias rolando pela manga da menina fizeram com que o príncipe franzisse a testa, mais confuso do que qualquer outra coisa. Arqueou as sobrancelhas com a explicação. Não pensaria, assim, que a dama estaria querendo lhe roubar e, para ele, provavelmente não faria diferença se um par de brincos sumisse. Abriu a boca, mas a fechou de volta. ”Senhorita...“ Conseguiu pronunciar mais fraco do que o planejado. Era isso que ela pensava? Que seria eliminada com uma andança no jardim? Talvez até mesmo despachada sem pegar uma bagagem. Que tipo de ser humano era ele, ou que tipo de atitudes tinha feito que levaram àquelas consequências. Óbvio que a outra pensaria tal coisa, não houve se quer um motivo plausível para as oito primeiras eliminações. Ainda assim, odiou o pensamento de que as selecionadas pudessem temer a visita dele. ”Senhorita Hansen…“ Tornou a tentar começar. ”Está tudo bem, acredito que não se passe de uma brincadeira entre a senhorita e a senhorita Eva. Apesar de me parecer divertido pelo fato de brincos saírem pelas suas mangas.“ Comentou confuso, balançando a levemente para desfazer-se de novo do cenho franzido. ”Perdoe-me se deixei transparecer tal comportamento. Por mim, as eliminações não serão feitas tão cedo e de forma alguma estaria encrencada por uma… brincadeira.“ Continuou, quase pisando em ovos com medo de ser interpretado errado, mas, infelizmente, sabendo que não dependia somente dele. ”E, se a senhorita aceitar meu convite, algo que pode declinar, prometo lhe trazer de volta a essa porta às onze e vinte e nove.“
Não tinha motivos para tanto nervosismo, não tinha, tentava convencer a si mesma. Ela nem queria estar ali, pra começo de conversa — e para isso não faltavam razões. Sempre disposta, sua mente logo começou a compilar a lista mais esdrúxula de toda Illéa. Ser rainha? Incrível, mas muito trabalhoso. Largar o ateliê da mãe? Sem chances. Abrir mão de seus sonhos? Possível, não fosse pelo próximo tópico: ser peão num jogo desconhecido. E aqui, sua aversão nada tinha a ver com algum senso de competição aflorado. Fora colocada num tabuleiro sem saber quem eram os jogadores, quais os objetivos e muito menos as regras — se é que existiam. Era uma jogadora, e nem sempre das mais honestas, de modo que reconhecia a própria posição. Estava em completa desvantagem, presa num esquema onde era deixada no escuro. Quer dizer, a não ser pelas migalhas de informação que passou a receber de Olav, embora denominar o conteúdo dos bilhetes assim fosse um pouco demais. Instruções, passara a receber instruções do pai. Converse com tal duque, participe de X atividade, não faça nenhuma besteira. Ah, se ele a visse agora, se assistisse a expressão do príncipe vacilar como ela o fazia… Era óbvio que falaria a coisa errada, enquanto fazia algo ainda mais errado, logo que encontrasse o rapaz. Não podia continuar assim. Voltando ao presente, baixou os olhos para as mangas agora vazias, permitindo que um pequeno sorriso lhe curvasse os lábios, apesar da tensão. " Era apenas um truque que aprendi quando pequena " disse, determinada a voltar a fitar as irises azuladas quando a porta fechou com um suave clique as suas costas… Apesar de não poder falar o mesmo da tranca, que foi virada com bastante vigor, apostava. " Hm… Acho que estava mais pra diabruras que brincadeiras. Como disse, a diversão era uma via de mão única. " As palavras, o riso breve que as seguiu e a forma com que entrelaçou os dedos pareciam erradas, forçadas. Discretamente, puxou uma respiração profunda. Não costumava reagir desse jeito, não de maneira tão nervosa, covarde até. Objetiva e resiliente eram adjetivos que apreciava mais ter atrelados a si, de modo que ser reduzida a uma massa de apreensão começava a irritá-la. Olav já havia tomado coisas demais de suas mãos, mas o orgulho não seria uma delas. Observando o príncipe verdadeiramente pela primeira vez, soltou de uma vez. " Desculpe ter acabado com o clima, apenas precisava saber do risco. É bom saber que não estarei na berlinda por causa de uma brincadeira, no entanto. Azar de um, sorte de outro " ostentando sorriso matreiro, declarou em tom leve, ao apontar primeiro para o Schreave e depois para si. " Bem… Vamos? Esperar dar onze e vinte e nove aqui, certamente é trapaça. " E como estava incerta do proceder, desde que uma aura de estranheza preenchera o espaço entre eles, tomou a frente, afastando-se cada vez mais do quarto. Então, Madee conseguiu caminhar por alguns metros tranquilamente, imersa num silêncio que não demorou a se tornar desconfortável. Com a apreensão ameaçando a voltar, fora obrigada a quebrar o gelo que se instalara durante a caminhada — cujo destino não recordava. " Queria que fosse mais útil " ouviu-se dizer. Dirigindo um olhar fugaz ao príncipe, adicionou à guisa de explicação. " O truque. Seria muito mais divertido se eu pudesse fazer desaparecer algo além de objetos… Como os últimos minutos." Sem desviar a atenção do caminho, deixou-se divagar. " Vossa alteza teria batido a porta e eu, muito dignamente, a abriria. Teria joias nas orelhas, não nas mangas, e um sorriso no rosto. O convite seria feito e eu o aceitaria com uma reverência graciosa, tal qual uma dama. " Ao lembrar que não havia seguido nenhuma das noções de etiqueta aprendidas, um vinco surgiu entre as sobrancelhas. Bom, agora era tarde. Só podia torcer para a instrutora não ficar sabendo do deslize. " Uma muito refinada mesmo. O senhor ficaria embasbacado, tenho certeza. Encantado, ao invés de apreensivo, ouso dizer. Sairíamos de braços dados pelos corredores, nenhum tipo de vergonha teria sido testemunhada pelos guardas… Nem por vossa alteza. Seria realmente muito útil. " Havia um quê calmante no ato de falar que, naquele momento, o silêncio familiar não era capaz de lhe proporcionar. Talvez a abordagem somente a desse mais corda para se enforcar, porém — ainda que brevemente —, a cada passo que dava, um pouco da tensão ficava para trás. Se soubesse para onde eles a estavam levando...