Era uma das raras noites de sábado em que Dylan havia decidido ficar em casa. A semana havia sido cheia, com toda a movimentação acerca da mudança dos alunos para a estrutura do novo colégio. Já havia rolado na cama por alguns minutos sem sucesso para dormir quando decidiu abrir o aplicativo de relacionamento que havia baixado há tempos e não mexia mais, apenas para passar o tempo enquanto esperava o sono chegar. Entre os deslizes positivos e negativos que dava dentro do app, as sobrancelhas do rapaz se arquearam ao deparar-se com um rosto conhecido. Já havia visto @hzlena pelos corredores da Armstrong, mas até onde se lembrava, nunca haviam conversado. Um sorriso pequeno surgiu no canto dos lábios do loiro ao dar like no perfil alheio e já ser notificado sobre o match logo em seguida. Decidiu, então, mandar uma mensagem.
〔 dylan ▸ helena 〕hey stranger
〔 dylan ▸ helena 〕que não é tão stranger assim
〔 dylan ▸ helena 〕vc tbm é da armstrong, não é?
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“Você já sabe tocar e quer aprender apenas essa música em específico ou você quer aprender a tocar violão no geral?” O loiro indagou, enquanto aproximava-se de @annx-drk e sentava-se ao lado da garota em uma das partes do gramado pouco cuidado da Golden Hills High. Desde que havia pegado o violão emprestado das coisas que a turma de teatro havia trazido para a nova instalação -- sem que eles necessariamente soubessem do tal empréstimo --, o garoto estava carregando-o para cima e para baixo pelo colégio, já que usava ele para se distrair durante sua maratona infinita de matar o máximo de aulas que conseguia naquele dia sem ser pego.
“Minty? Hey! O que está fazendo aqui?!” O sorriso de Dylan era largo enquanto ele aproximava-se do balcão do bar onde @arvminta se encontrava, logo depois de ter saído do backstage no qual havia se reunido com sua banda depois da apresentação que haviam feito. “Vai me dizer que finalmente decidiu ser a fundadora e primeira membra do meu fã clube?” Emendou a brincadeira com as sobrancelhas arqueadas, mantendo um sorriso divertido no rosto enquanto pedia uma água para o barman mais próximo; a garganta ainda estava seca após o pequeno show.
Apesar da estrutura inteira do colégio que agora frequentavam não ser lá das melhores, a sala em que Dylan se encontrava parecia especialmente negligenciada. Ainda assim, vazia, e era a única coisa que ele procurava no momento. Em tese, deveria estar na aula de biologia, mas ao invés disso, havia se alocado para o local com um violão que havia encontrado e surrupiado das coisas empilhadas do clube de teatro, e ao encontrar a sala aberta, entrou ali para passar o tempo e esperar o sinal do fim da aula enquanto tocava alguns acordes no instrumento. Era o que fazia quando ouviu a porta se abrir, por um momento achando que se tratava de algum professor, mas relaxando um pouco ao reconhecer as feições de @frvamonroc. “Hey... Posso ajudar?”
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Fingir. O uso daquela palavra quase a fez rir. Se havia algo que Kendra Bordeaux fazia 99% de seu tempo, isso era fingir. Então, sim, ela precisava seguir fingindo e fazia isso muito bem porque a maioria, ele incluso, nem mesmo notava. Kendra não disse coisa nenhuma. Sequer o olhou nos olhos, na verdade. Apenas entrou na casa dos Maddocks, o acompanhando até o quarto. Encarou o cômodo como se fosse a primeira vez que o visitava, procurando os indícios do que Dylan havia feito nos últimos dias. Ela nunca costumava ser invasiva, chegando com perguntas diretas ou coisa parecida, pois poderia encontrar pessoas como ela, que se escondiam por trás de paredes. Sendo assim, começou a observar, aprender que olhos falavam, que gestos revelavam, assim como ambientes. Assim como aquele quarto, que claramente fora ajeitando um pouco às pressas.
Dylan, desde que o conhecia, era uma presença alegre, animada, cheia de vida, porém, a pessoa em sua frente não era nenhuma dessas coisas. Kendra tinha certos palpites quanto ao que poderia ter causado aquilo. Ao ser questionada sobre seu bem estar, uma série de respostas veio à sua mente. Exausta. Preocupada. Dolorida. Machucada. Confusa. Ansiosa. Triste. Irritada… Muito, muito irritada. Contudo, o sorriso gentil em seu rosto não dizia nenhuma dessas coisas. ─ Estou bem. ─ Se sentou ao lado dele, segurando o queixo de Dylan. ─ Ao contrário de você. ─ Analisou o rosto alheio, os olhos cansados, a expressão caída. ─ Claramente. ─ O soltando, Keke retirou as botas de salto, encolhendo as pernas para cima da cama. Esse era um comportamento quase relaxado que só possuía perto de pouquíssimas pessoas. ─ Eu sou mais que sua namorada falsa, sabia disso? ─ Retrucou, com um risinho, empurrando um pouco o ombro contra o dele. ─ Nós somos amigos. E você pode conversar comigo sempre que precisar. Desabafar, sei lá. Eu… to aqui, ok? ─ Não era muito boa naquela parte de consolar os outros, mas ao menos era boa ouvinte. As vezes. ─ Ou podemos falar sobre qualquer outra coisa até você se sentir confortável.
Observou enquanto Kendra se aproximava e tomava o lugar a seu lado, e podia até dizer que estava surpreso pelo fato da postura da outra estar se mantendo de forma tão aparentemente despreocupada, em um contraste gritante com a própria, mas não estava de fato. Conhecia-a bem e há tempo o suficiente para saber que, mesmo que estivesse um caos internamente, a Bordeaux nunca iria esboçar aquilo em seu exterior. Bem diferente de si, inclusive, e ele só teve mais certeza disso quando ouviu as primeiras palavras pronunciadas pela morena em sua direção. Dylan riu baixinho, embora o som não tivesse saído com muito humor e ainda deixado um gosto amargo em sua boca. Havia aberto a coisa para dizer alguma coisa, possivelmente uma piada atravessada e alto pejorativa, para desviar-se daquele assunto, mas antes que pudesse o fazer, as próximas palavras de Kendra ricochetearam nos cantos de sua cabeça. Voltou a fechar a boca, comprimindo os lábios em uma linha reta e engolindo em seco rapidamente. “Fazia pouco mais de um ano que eu não falava com a Aspen. No evento beneficente... Bom, ela tinha muita coisa pra dizer. E eu não estava realmente preparado pra ouvir.” Sintetizou da forma mais branda que conseguia, um assunto que era muito mais profundo do que aquilo. Não queria despejar seus problemas em cima de Kendra, já havia feito o suficiente em arrastá-la consigo para eles.
“Mas ela não vai contar nada pra ninguém.” Murmurou, voltando o olhar para a morena. “Sobre nós, eu me refiro.” Completou, deixando que um sorrisinho pequeno brotasse em seus lábios. “Vamos manter nosso status de highschool sweethearts, babe, não se preocupe.” A brincadeira deslizou de forma muito natural para fora dos lábios de Dylan, sendo a primeira que ele proferia em dias. Encarou-a por mais alguns segundos, logo decidindo girar o corpo sobre o colchão para que pudesse cruzar as pernas uma sobre a outra em cima da cama e, dessa forma, sentar-se de frente para Kendra. E logo quando estava prestes a mudar o foco do assunto, puxar para a pauta qualquer conversa aleatória que pudesse aliviar o clima do ambiente e distraí-los um pouco, Dylan notou. Era mais fácil de enxergar ali, na luz certa e com o olhar fixo sobre as feições da morena, os nuances de roxo que pareciam se espreitar por baixo de uma camada de maquiagem. Mesmo que difícil de ver, estava ali. Bem em volta dos olhos claros e profundos de Kendra Bordeaux, o hematoma que, quando visto, fizera o cenho de Dylan se vincar. “Hey, o que aconteceu aqui?” Perguntou, antes que pudesse se policiar para investir em um questionamento mais brando. Ergueu uma das mãos até o rosto feminino, a ponta dos dedos tocando levemente a área abaixo dos olhos da Bordeaux, enquanto ele inclinava o corpo mais para frente, para ter uma visão melhor. “O que é isso, Kend?”
— Eu não pensei que fosse tão ruim assim.” Soltou uma baixa risada, pegando o azeite antes de colocá-lo na panela, logo em seguida colocando os cogumelos dentro, para que pudessem fritar. Em seguida, pegou os temperos para que pudesse fazer com que ficassem mais saborosos, misturando um pouco do alho em pó com a páprica, a pimenta o molho de soja. Em seguida, colocou junto com os cogumelos, misturando bem. “Minhas mães me ensinaram a cozinhar desde bem nova, na verdade, porque eu venho de uma família simples. Eu fui a primeira em casa a aderir ao veganismo, então no começo, eu precisava fazer minha própria comida.” Deu de ombros, parando de mexer os cogumelos para se aproximar do rapaz, olhando o que ele fazia. “Depois disso, você precisa amassar tudo, e colocar alho, cebola, tomate e um pouco de suco de limão. Você consegue fazer isso, certo?”
“Eu acho que estou indo bem?! Estou surpreso só pro ter achado o lugar onde esses utensílios são guardados!” Defendeu-se, e apesar do bom humor na voz e da risada que expeliu, ele falava sério quanto aquilo. A cozinha da casa era um território pouco frequentado por Dylan, e ele não havia parado para pensar direito sobre aquilo até então. Vez ou outra, os olhos deslizavam até o trabalho feito por Dimitria, enquanto ele mesmo terminava sua função -- demorando muito mais que ela, apesar de ser muito mais simples. “Entendi... E faz quanto tempo que você segue essa dieta?” Perguntou, curioso. “Consigo. Tenho certeza que você vai gritar comigo se eu errar, então, de um jeito ou de outro, vai dar certo.” Brincou novamente, pegando os outros ingredientes mencionados pela mais baixa para seguir as novas instruções que lhe foram passadas.
Se era assim tão errado, então por que Aspen sentia que era tão certo estar junto de Dylan? Se machucavam, mas no final das contas, se amavam. E era isso que o amor fazia: curava. Quando estava longe do loiro, percebia em partes que aquele relacionamento não era saudável, mas quando estava com ele, era como se toda a razão se esvaísse de seu corpo, dando lugar ao completo controle pelo sentimento. Entretanto, era um looping sem fim, sem perspectiva de melhora, um eterno cabo de guerra em Aspen insistindo para que fossem eles mesmos, sem pensar em como lidariam com as consequências, e do outro lado, Dylan não querendo abrir mão do que lhe era tão precioso. O amor cega, dá a perspectiva de que ficará bem e que a vida será perfeita se você ao menos tiver seu amado ao seu lado, porém é como uma tentadora miragem, e naquele deserto de falta de amor, Aspen tinha Dylan como seu oásis.
TW: menção de aborto
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Nos primeiros momentos, Dylan permitiu-se sentir a dor que o assolava estando naquela posição. Deixou que o corpo fosse entorpecido com o efeito que a pele de Aspen causava contra a sua, lhe arrebatando em uma maré de memórias que ele havia lutado para manter enterradas durante o último ano. Trezentos e sessenta e cinco dias haviam se passado enquanto ele se mantinha naquela proibição eterna de deixar-se sentir, e agora, quando afastava-se de sua armadura e da máscara que havia fabricado para evitar justamente aquele tipo de reação, parecia prestes a entrar em frenesi tamanho era o fluxo de coisas que lhe invadiam o corpo, a mente e, principalmente, o coração. Ah, o coração. Esse parecia ter sido completamente abocanho assim que ouviu os primeiros segundos do choro que rompeu pela garganta da ex namorada.
A motivação de seu afastamento havia sido primeiramente e justamente a promessa pessoal de que nunca mais faria Aspen chorar, mas aparentemente, aquilo era tudo o que ele sabia fazer. Mesmo quando não queria, e mais que isso, mesmo quando estava tentando evitar. Ainda assim, seria injusto e inocente demais de sua parte achar que poderia garantir aquilo apenas mantendo-se afastado. Aquela conversa, uma hora ou outra, precisaria acontecer, e acontecendo, estava predestinada a acabar daquele jeito, porque parecia ser o protocolo que eles seguiam mesmo quando falavam justamente sobre não seguir mais.
Mesmo aquela não sendo uma cena tão incomum a si, havia algo de diferente. Dylan sabia que tinha. Não era uma simples mágoa de término de namoro, ou um choro de saudade. Havia mais. E mesmo sabendo que algo viria, nada poderia ter o preparado para aquilo. Ele não estava pronto para aquela informação. Soube daquilo no instante em que as palavras atingiram seus ouvidos, e de forma imediata, transformaram o ar em chumbo em seus pulmões. Qual o tamanho do estrago podia ser causado em um ano? Bem, se ainda haviam dúvidas sobre aquilo, ali estava sua resposta: O maior deles.
Um filho. Durante o ano em que Dylan passou fora, Aspen havia esperado um filho. Mais do que isso, Aspen havia sido obrigada a abrir mão de um filho. Se até ali o Maddocks estava conseguindo manter o mínimo da compostura, essa foi pelo ralo diante daquela informação. O corpo todo passou a formigar, enquanto sua respiração se transformava em um arfar irregular. Suas pernas pareciam tremendamente fracas de repente, e seu corpo, pesado demais. Céus, até sua visão havia escurecido por alguns momentos! Ele ia desmaiar. Ele tinha certeza que ia desmaiar... Se não fosse por sentir os braços de Aspen ao redor de si, buscando nele um apoio, ele iria desmaiar. Mas não podia. Não tinha o direito de, mais uma vez, desmoronar. Não tinha o direito de ser a pessoa mais machucada ali. Não... Era claro quem era a mais prejudicada daquela situação. E se por todo o tempo que passaram juntos Dylan achou que a ruína era mútua, ali teve certeza de que o que ele causou em Aspen havia sido milhares de vezes mais grave do que seu prejuízo pessoal. Idiota. Você é um idiota, Dylan Maddocks. Um idiota egoísta. Eram as únicas sequências de palavras que passavam pela sua mente naquele momento, repetidamente.
“Não.” Ele proferiu, assim que ouviu Aspen ousar dizer aquelas coisas sobre si mesma. “Não, não, não...” E continuou, proferindo de forma baixa, usando toda a força que ainda restava em si para fazer a voz sair por cima do nó que havia se formado em sua garganta. “Aspen, me escuta... Só me escuta, tá bem? Você não é nada disso! Você... Ah, Aspen, caralho! Eu sinto muito. Eu sei que isso não resolve nada, mas eu sinto muito, amor.” Mal sabia se ela conseguia o entender no meio de seus arfares e de seus pedidos desesperados por um perdão que ela não tinha dever nenhum de conceder. Aspen não devia nem mais se dar ao trabalho de olhar na cara dele!
Decidiu fechar a boca em seguida, já que não sabia o que falar. Não sabia se havia algo para falar, depois daquele tipo de revelação. Poderia continuar implorando o perdão de Aspen por mais um ano, e ainda assim, não seria o suficiente para curar o que havia causado nela. Apertou os braços ao redor do corpo da loira, permitindo que a camiseta se molhasse com as lágrimas alheias enquanto continha as próprias; não se daria ao luxo de chorar. Nem aquilo ele merecia. “Eu não acredito que eu fiz isso com você...” Ele proferiu, depois de alguns momentos em silêncio, em um tom que não passava de um sussurro. “Aspen, têm alguma chance... Por menor que seja... De você me perdoar?” Resolveu perguntar, mesmo esperando pela resposta negativa. Até torcendo por ela, porque, dessa forma, pelo menos seria punido de alguma forma pelos seus atos. “Eu juro que nunca tive a intenção de te fazer mal. Nunca me dei conta do quanto eu fazia...” Suspirou, levando ambas as mãos até o rosto da loira. Afastou-a apenas o suficiente para poder encarar seus olhos, usando os dedos para secar as lágrimas do rosto dela. “I’m sorry I’m a fucking monster.”
Apesar de sempre ter se considerado uma pessoa que gostava de estar rodeada de amigos, mesmo que esses fossem poucos, desde que anunciara sua gravidez para todo o colégio, vinha preferindo sua companhia no horário do almoço. Afinal, era o único jeito de se abster de olhares inconvenientes do refeitório e de possíveis comentários desagradáveis. Estava somente terminando seu suco de limão quando Dylan sentou-se ao seu lado. Bloom abriu um sorriso. ❛ Hey, honey. ❜ Ela se aproximou do rapaz e lhe depositou um beijo em sua bochecha, cumprimentando-o. ❛ Nenhuma chance, ainda, mas você pode mudar isso me comprando outro desse. ❜ Ela balançou seu copo de suco de limão vazio. ❛ Faz mesmo. Acho que desde… Que eu anunciei? Nem deu tempo de colocarmos as novidades em dia. ❜
Conteve um sorriso ao sentir o beijo aplicado sobre seu rosto, apoiando um dos cotovelos sobre a mesa e o rosto sobre a mão, para que assim pudesse voltar o olhar para a loira. Riu baixinho diante do pedido, erguendo a mão livre para apanhar o suco e dar uma olhada em sua embalagem. “É esse que está sendo o seu desejo de gravidez? Esperava algo mais bizarro. Mas, é, eu posso te comprar mais alguns desses pra tentar me redimir.” Assentiu, voltando a prestar atenção no rosto da amiga. “Yeap, my bad. As coisas estavam meio bagunçadas. Estava tentando retomar a rotina desde que eu voltei da Inglaterra...” Explicou, analisando-a por mais alguns segundos antes de prosseguir para o assunto que martelava em sua cabeça. “Fiquei sabendo do Brooks.” Murmurou, por fim. A menção do amigo trazia um gosto amargo para sua boca; ainda não acreditava que ele realmente havia ido embora. “Como você está?”
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Negou com a cabeça a oferta do disco, empurrando-o sutilmente de volta para o rapaz, indicando que poderia comprá-lo se assim o quisesse. “Não é?! O que é uma pena, porque, conversar com adultos costuma ser muito entediante”. Comentou, um sorrisinho tomando conta dos seus lábios. Angel adorava falar sobre música e não desperdiçaria uma oportunidade como aquela. “Já sim. Fui uma vez, em 2018, em Seattle! E você? Aliás, você já ouviu o álbum que eles lançaram recentemente?” Agora estava totalmente voltada para o maior e semicerrou os seus olhos ao fitá-lo. “Você é da Armstrong, não? Tenho quase certeza de que te vi na última aula de química, embora eu tenha dormido boa parte dela”. Estendeu a sua mão. “Eu me chamo Angel”.
“Ah, eu insisto. E eu posso ser bem teimoso nas minhas insistências.” Dylan voltou a esticar a capa do disco na direção da garota, sorrindo de canto. Soltou uma risadinha baixa diante das palavras da outra, enquanto assentia com a cabeça, em concordância. “Sério? E como foi? Eu sou um idiota, dei um jeito de perder todas as oportunidades que eu tive de ir em um show deles.” O suspiro ficou preso em sua garganta ao falar sobre aquilo, já que realmente era uma de suas maiores frustrações. “É claro! Está no repeat da minha playlist já faz algum tempo.” Abriu mais o sorriso, notando que, aos poucos, a conversa dos dois passava a preencher mais o ambiente mais até mesmo que a música de fundo que tocava pelos alto falantes da loja. “Sou, sou sim. Eu sabia que te conhecia de algum lugar!” Apertou a mão dela. “Angel, é um prazer. Eu sou o Dylan.”
— Meu Deus.“ Respirou fundo, entregando o abacate e a colher para ele em seguida. ”Vai tirando a polpa e colocando num pote. Quando acabar, me avisa.“ Pediu, pegando o pacote de cogumelos e uma faca, não demorando a passá-los rapidamente na água antes de começar a cortá-los em pequenos cubos e colocar em uma vasilha ao lado. ”Aproveita e corta o tomate, a cebola… todo o resto.“ Pediu, antes de acender o fogo, para poder fritar os cogumelos.
“Ei! Não suspire pra mim.Eu avisei que eu era péssimo.” Advertiu, arqueando as sobrancelhas pra ela rapidamente antes de apanhar a fruta e a colher, começando a fazer o que lhe fora pedido. Assentiu levemente diante das instruções da garota, olhando-a pelo canto dos olhos vez ou outra conforme seguia suas instruções. “Faz tempo que você cozinha?”
O cabelo já estava quase todo solto de tanto que a treinadora a mandou correr e saltar pelo campo. Terminou-o exausta, sentindo até as pernas tremerem um pouco pela exigência de seus músculos. “O pulmão não, mas acho que as pernas querem ficar.” Jogou-se ao lado do loiro, mas não muito por ter corrido e suado. “Eu acho que o colégio vai ter que me encontrar e me puxar por um guincho, to morrendo lentamente, tá vendo aqui?” Apontou pro próprio rosto.
Dylan soltou uma risada mais sonora ao escutar as declarações de Matty, rolando os olhos rapidamente enquanto puxava uma garrafa de água da mochila, esticando-a em direção a ruiva. “Céus, acho que esse foi o conjunto de frases mais dramático que eu já escutei nas últimas semanas. E olha que eu sou irmão da Emmeline.” Rebateu, aplicando o humor a provocação para demonstrar que estava só implicando com ela. “Têm algum grande jogo se aproximando? Dessa vez eu prometo fazer um cartaz com seu nome.”
ultimamente estava se acostumando a fugir de certas obrigações. as que tendia a ter com os pais eram as primeiras da lista. embora acreditasse que se isolar nunca era uma opção, estava sendo irracional, desligando-se do fato de que não adiantava fugir pois sempre os teria em casa quando decidisse voltar. fingir que não teria aquele problema para lidar por, pelo menos, algumas horas, já parecia o suficiente para a healy. já lhe trazia um pouco de paz, mesmo que esta fosse destruída pelos progenitores pouco a pouco. “eu sou uma ótima motorista, falar assim até me ofende.” vitoriosa, pegou as chaves postas em sua direção, destravando as portas no que rapidamente se apossou do lugar do motorista. “sacrifícios? até parece que você não dirigiu o meu carro muitas vezes.” rebateu, ao ouvir o motor ranger no que girou a chave na ignição, tirando o veiculo da vaga estacionada como uma profissional. gostava de se gabar por seus méritos, dizendo muitas vezes que era boa em tudo ainda que não fosse. “mas falando sério, estava com tanta saudade de mim a esse ponto?” debochou, dando risada ao ver o amigo usar o drama justamente consigo, a pessoa mais intolerante de todas. bom, ele deveria saber disso.
“Isso é o que vamos ver...” O olhar de Dylan estreitou-se por alguns segundos em direção a menor, embora o sorriso de canto que permanecia em seu rosto não deixasse muitas dúvidas de que ele estava apenas brincando. Jogou a própria mochila no banco traseiro para se ajeitar melhor no lado do passageiro, ligando o rádio e permitindo que a música soasse de maneira agradável pelo veículo, não deixando-a muito alta para que não acabasse atrapalhando a conversa dos dois. Revirou os olhos diante da pergunta de Hazel, desviando o olhar para encarar a janela que abria e não permitir que ela visse o sorriso maior que abriu. “Senti, mas eu não vou ficar te falando isso. Não quero alimentar o seu ego.” Murmurou em resposta, e como era habitual, nunca se deixando falar completamente sério, sempre emendando algumas brincadeirinhas à própria fala. “Faz algum tempo que a gente não se fala. O que têm de novo para me contar, Healy?”
“Hey, blondie.” Cumprimentou com um meio sorriso, enquanto jogava a mochila a seus pés e sentava-se ao lado de @blzoms. Era o horário do almoço na Armstrong, mas Dylan não planejava estender seus horários no colégio durante a tarde, por isso, havia arrumado suas coisas e conseguido convencer o pai a ligar para a direção e pedir por sua liberação. Ainda que já estivesse caminhando para a saída, ao avistar a silhueta conhecida de Bloom sentada em uma das mesas externas, o Maddocks resolveu se aproximar. “Faz algum tempo que a gente não se fala, hum? Alguma chance de você me desculpar por ser um amigo relapso?”
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A semana havia passado num borrão, mas isso não a tornara menos fácil. Havia evitado o máximo de contato possível com outras pessoas, tentando soar o mais verídica que conseguisse com a história de cair da escada. Ainda que se esforçasse para passar despercebida, imaginava que eventualmente esbarraria com Dylan, mas sequer o havia visto durante a semana toda. Ela tampouco tentou ligar ou mandar mensagens, quando estava mal precisava de seu espaço sozinha e esperou que ele tivesse o dele. Não sabia se aquilo era por conta de Aspen ou uma junção de outras coisas, mas esperaria para ouvir a história se ele quisesse falar a respeito. Já era fim da tarde de sexta quando recebeu uma mensagem dele, quase engasgando com o suco que bebia ao pensar na mera possibilidade de que ele aparecesse ali. Seria a pior semana possível. Os dedos rapidamente alcançaram o teclado para responder.
❪ keke ✉️ ⟶ dylan ❫: vou até aí. chego em vinte minutos.
Assim que baixou o celular, demorou alguns segundos ainda deitada, cronometrando as coisas que faria mentalmente. Precisava dar algum jeito na própria aparência primeiro, e rápido. Não por questões estéticas, mas porque de todas as pessoas que não queria ter aquela conversa, Dylan era a principal delas. Com um banho rápido, Kendra escolheu roupas ainda cobertas, mas nem tanto quanto no começo da semana, agora podia usar renda para cobrir os braços que quase não seria possível identificar os hematomas. A parte mais difícil foi seu rosto, mas estava muito habituada à esconder marcas daquele tipo, trabalho que uma sombra escura e delineador habilidosamente fizeram ao mascarar. Kendra encarou a própria face no reflexo por alguns segundos, não sendo capaz de fitar os próprios olhos por muito tempo. Se lembrou também da necessidade das luvas de couro visto que socara o espelho e os cortes ali não sairiam com maquiagem. Para sua sorte, o fim de tarde estava esfriando então não seria assim tão estranho. Keke pegou a bolsa e desceu as escadas, tentando não fazer barulho demais por conta das botas de salto.
─ Onde você pensa que vai, Kendra Millicent? ─ Ouviu a voz de Margaret, que logo surgiu vinda da cozinha.
─ Ver o Dylan, mamãe. ─ Abriu um sorriso cínico, que fez a mulher em sua frente exibir puro desgosto, ainda mais que Kendra quase nunca a chamava de mãe. ─ Posso?
─ Ele ainda quer ver você? Céus, minhas preces foram ouvidas! ─ A mulher sorriu, com uma mão no peito. Falsa, víbora, nojenta… ─ Escute bem, Millicent, você tem sorte de que ele ainda queira olhar na sua cara após suas atitudes repugnantes, então não ouse repe…
─ Sorte a minha então de ter um namorado que me perdoa setenta vezes sete como o nosso Senhor nos manda, mamãe. Deveria aprender com ele. ─ Disparou antes que a frase alheia terminasse. Não estava com paciência para ouvir e ficar calada. Não naquele dia. Ao ver a face de Margaret, porém, um lado de Kendra se arrependeu pela audácia, mas aproveitou o silêncio para apressar os passos para fora de casa, encerrando a conversa.
O tempo pareceu voar até o percurso para a casa dos Maddocks, fosse porque Kendra correra bastante ou porque estava mergulhada demais nos próprios pensamentos para notar o percurso. Assim que estacionou o carro, mandou uma mensagem para Dylan, avisando que havia chegado. Os passos foram lentos e até hesitantes para alcançar a porta da residência, encarando a madeira e se perguntando se de fato fora uma boa ideia estar ali. Antes de achar uma resposta, a porta foi aberta. Tarde demais.
Por sorte, a resposta para sua mensagem não havia demorado muito para chegar. Após receber a confirmação de que Kendra viria, Dylan decidiu levantar-se da cama para dar o mínimo de jeito em si mesmo. Foi ao banheiro para tomar um banho rápido, e após sair, passou os últimos minutos que restavam antes da chegada da Bordeaux para tentar arrumar seu quarto -- quase conseguindo fazer isso. Ainda não estava totalmente em ordem, mas já era diferente do ambiente quase apocalíptico que havia se formado sem nem mesmo que ele percebesse durante os últimos dias que habitou apenas aquele cômodo.
Ainda tinha os cabelos molhados quando desceu as escadas para esperar Kendra, caminhando de forma impaciente pelo hall de entrada e conferindo pela janela de tempos em tempos para verificar se algum carro se aproximava, e por isso já estava à posto quando finalmente viu os faróis adentrando o terreno da residência. Sentiu o celular vibrar em suas mãos, logo visualizando a mensagem que ela havia o enviado anunciando a chegada e quase soltou uma risadinha baixa, já que mesmo sem aquilo ele já estaria esperando por ela.
Abriu a porta para dar de frente com a Bordeaux, passando os olhos rapidamente pela silhueta feminina enquanto observava-a aproximar-se os últimos passos. “Meus pais não estão em casa. Não precisa... Sabe, fingir nada.” Achou melhor avisar, já que eles sempre engatavam em seu teatrinho constante quando na presença dos responsáveis. Deu espaço para que ela entrasse e fechou a porta logo em seguida, indicando com a cabeça para que subissem as escadas logo em seguida.
“Desculpe não ter dado sinal de vida nos últimos dias.” Pronunciou, apenas quando já haviam chegado ao seu quarto, novamente deixando a porta aberta para que ela adentrasse o local. Apesar de estar sozinho na residência, sabia que a casa dos Maddocks era sempre uma constante de entradas e saídas de seus ocupantes, e preferia a privacidade de seu quarto para aquela conversa, para que não fossem interrompidos ou surpreendidos por ninguém. “A minha cabeça estava meio bagunçada. Eu precisei colocá-la no lugar antes de fazer... Sabe, qualquer coisa.” Continuou, sentando-se na cama. O olhar voltou a fixar-se nela. “Como você está?”
─ Bastante. ─ Concordou, sentindo imenso alívio com a concordância alheia. O Armstrong poderia não estar num momento bom para ambientes lotados, mas tampouco confiava em si mesmo sozinho com os próprios pensamentos. Isso nunca acabava em algo bom. ─ Meu fim de semana tava ótimo até começar tudo a virar um completo caos. Então é, não foi bom. ─ Murmurou, sacudindo a cabeça na tentativa inútil de afastar aqueles pensamentos. Ficou de pé junto ao amigo, mandando um sorriso cínico e o dedo do meio erguido para um dos alunos que mandou ficarem em silêncio. Tyler permaneceu quieto até saírem da biblioteca, se sentia uma bomba prestes a explodir e quanto mais ficasse num lugar hiper suscetível a gente que o fizesse explodir, pior. ─ O carro tá logo ali. ─ Apontou assim que alcançaram o estacionamento, puxando um cigarro do bolso e oferecendo ao Maddocks. ─ E aí, o que rolou? Ou tu não quer falar sobre? Porque se não quiser relaxa que não vou perguntar mais. ─ Garantiu, sabendo que ele próprio tinha momentos que preferia sequer mencionar qualquer coisa. Assim que entraram no carro, Tyler checou uma última vez se sua bolsa estava lá para enfim dirigir o mais rápido possível daquele inferno.
Uma risadinha baixa e com um tom amargo fora solta por Dylan ao escutar o amigo falar sobre o próprio final de semana, não porque fosse engraçado, mas porque era no mínimo cômico como as coisas para os dois pareciam ter caminhado da mesma forma. Caminhando ao lado dele para fora, ergueu a mão em recusa quando o cigarro lhe fora ofertado. O Maddocks havia passado algum tempo entregue àquele vício, mas havia esforçado-se para parar. Entrando no carro, jogou a mochila no banco de trás antes de acomodar-se no lugar do passageiro, um suspiro ficando contido diante da pergunta. “Eu não tenho problemas em falar sobre, mas acho que você não vai querer ouvir, porque é sobre a Aspen.” Revelou, enquanto fechava a porta e tratava de colocar o cinto. Tyler havia acompanhado toda a montanha russa de idas e voltas que havia sido o relacionamento conturbado com a ex namorada, e achava que já havia esgotado a paciência do amigo em ouvir suas reclamações sobre aquilo. “E quanto a você? O que assombrou o seu final de semana?”