Leituras da Semana (#123 // 20 Jul 2026)
Writers of good conscience should not be building new media companies on the back of a platform that opportunistically coddles white suprema
Bem sei, bem sei: não há consumo ético no capitalismo tardio, e todas as plataformas digitais têm os seus esqueletos no armário e as suas valas comuns bem delimitadas. Mas ainda vai havendo algumas diferenças, e sobretudo algumas alternativas, pelo que me é incompreensível que tanta gente insista em persistir no Twitter (não, não combatem o discurso extremista que lá se tornou mato; na melhor das hipóteses ajudam a amplificá-lo, e na pior, a legitimá-lo) e no Substack. Ou melhor: compreensível até é, mas parece-me reprovável quando há alternativas perfeitamente viáveis, sobretudo ao Substack (ao Twitter também, mas o vício algorítmico é tramado*); há outros serviços de newsletters práticos e funcionais, sem a bagagem de uma gestão corrente ao serviço da extrema-direita e dos piores actores possíveis. Também por isso é bizarro e frustrante ver pessoas como Naomi Klein a aderir à coisa: fica-se curioso quanto ao que está por trás desta escolha (na verdade é muito óbvio), e com a sensação de que se perdeu aqui alguma coisa.
Bem sei que há custos de mudar de plataformas, sobretudo quando aquelas com maior alcance parecem ter sido capturadas e quando a audiência permanece cativa nelas. Mas se quem tem projecção mediática (e não só) não ousar essa mudança, então ficará tudo na mesma. As comunidades e as audiências digitais constroem-se, assim haja vontade.
"Hey if this is your flyer, I’m not going, I’m not donating, I’m not sharing. Don’t ask me."
Também já tinha reparado nisto no meu dia-a-dia: a quantidade de posters e folhetos feitos por inteligência artificial generativa que é possível encontrar um pouco por toda a parte. Encontro-os na farmácia, espalhados em todas as superfícies (os laboratórios farmacêuticos, como se sabe, vivem à míngua, dificilmente poderiam pagar a designers e artistas). Encontro-os a promover as festas e os jogos de futebol lá da aldeia, tanto quando lá vou como quando apanho alguma publicação no facebook**. E encontro-os sei lá mais onde, de menus de restaurante a cartazes de barbearia. E sim, como diz Jason Koebler neste artigo, quando reparamos num reparamos em todos: por mais diferentes que as imagens sejam, há sempre um tipo de polimento muito específico, uma espécie de verniz visual que salta imediatamente à vista, que torna tudo mais ou menos igual. Mal comparado, parece um pouco as capas e os flyers que a minha geração fazia na escola com recurso a WordArt, mas ao menos aí havia um certo kitsch que denunciava esforço, mesmo que mínimo. AI slop é mesmo apenas slop: indistinguível, preguiçoso, e profundamente desinteressante.
---
*Bem me lembro da altura em que mais gente do Twitter português migrou para a Bluesky: algumas vedetas acabaram por sair pouco tempo depois, ao perceberem que sem um feed algorítmico a puxar pelos seus posts o seu alcance era muito limitado, acabaram por deixar a plataforma. Não faço ideia para onde terão ido.
**Goste-se ou não - e acreditem que detesto -, a comunicação política local e das associações locais é feita sobretudo via facebook. É a única forma consistente que tenho de saber o que se vai passando na minha terra, por exemplo: a câmara municipal, a junta de freguesia, e o clube de futebol da aldeia comunicam com as povoações através do facebook. Seria óptimo haver alternativas a isto, até porque a Meta, que nunca foi recomendável, está cada vez pior.













