Alguém pixou a fórmula de bháskara no muro da escola. Do lado de dentro. Bem de frente pras janelas do nono ano.
Só podia ser cola. Que outro objetivo uma criatura humanóide de catorze anos teria em rabiscar uma fórmula? E num muro, ainda por cima?
-Quem foi?
O interrogatório foi repetido em cada sala em busca de um culpado, sem sucesso. Um engraçadinho arriscou o palpite de que deviam era dar ponto extra pro autor da obra, já que tinha gravado a fórmula para poder escrevê-la.
Levou um senhor esporro.
Tentaram pintar o muro, mas não tinha verba. As provas se aproximavam. Não havia outras salas disponíveis. O que fazer? Permitiriam que turmas inteiras colassem descaradamente?
Pouco a pouco, mais fórmulas começaram a aparecer, seguindo o autor anônimo daquela ideia genial. Química, física, biologia. Começaram então os resumos de história e os termos de análise sintática.
O muro, antes branco, estava agora cheio de inscrições coloridas de várias matérias. Uma boa olhada e o currículo inteiro do programa escolar podia ser encontrado ali.
As notas foram subindo ensandecidamente, a ponto de chamar a atenção das autoridades em educação na cidade. Visitaram de surpresa a escola. Em pânico, a diretora mandou fechar as janelas.
Não adiantou; os visitantes ilustres não somente viram o muro, como elogiaram aquele trabalho artístico de incentivo ao estudo. Tiraram fotos, publicaram uma matéria no jornal da cidade, aumentaram o salário dos professores, enviaram mais verbas, deram um prêmio para a diretora.
Não se falou mais naquilo.
O muro está pixado até hoje.