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vivo o que elas escreveram pra mim e, por isso, quando olho pra trás, também posso ver o futuro.
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Honraria Mariposa
Quem você pensa que vê?
Por trás das marcas da minha pele, na escuridão que você não alcança, ecoa o som da macumba que me fez amar mariposas.
Sim, essa é pra Ela, que me ensinou a olhar pra Lua e subir até o mergulho pra depois voltar com as mãos molhadas, cheias de fios pra costurar.
Sim, vim dar comida à padilha que me acolheu pois, sem ela, não estaria aqui.
Aquela que me chamou "Indiazinha" e me deu trabalho, dela sou devota, suas asas me guardam e minha honraria é meu corpo de Guerra e de Amor.
Me sento ao lado da Rainha com quem aprendo todos os dias a dançar nesse campo de batalha seguindo os passos das que vieram antes, antes, antes.
Nessa terra invadida e envenenada, luto junto a mulheres: mulheres pássaro, mulheres onça, mulheres serpente, mulheres rio, mulheres jacarandá... E assim, honro as minhas, mulheres que fizeram esse solo fértil antes de qualquer Brasil.
Talvez você imagine que esse paraíso sul baiano seja inofensivo, o lugar perfeito para criar os seus filhos em paz. Não é. Olhe pra baixo. Tem sangue no chão. É bom reparar.
É bom reparar em casa árvore com a qual você cruza na rua. Quando ela for derrubada pra dar lugar a outro bloco de concreto com placa de aluguel, lembre que vai ter volta e saiba bem onde você está. Quando se deparar com uma injustiça acontecendo, saiba que tem gente olhando e saiba bem quem está no seu altar.
A Vida encanta, dinheiro não. A estrutura colonial que te protege não dá fruta. Abacateiros dão. E o seu racismo velado, entranhado, é o combustível e a faísca que vão pôr fogo nessa sua casa grande.
O dia da flechada é sempre hoje. Ela vem.
E pra você, que me ensinou a olhar tanto pra Lua até me perder do que não sou e me encontrar naquilo que desejo, sua Indiazinha manda um beijo cheio do futuro que abre no peito, pra nunca mais deixar de escutar os sinais.
Escrito em 29.05.2026, gibosa em escorpião. Texto vertido em corpo e voz pela primeira vez na 34ª edição do Sarau Boca Acesa em 30.05.2026, na Casa Xexéu, Bairro Novo, Serra Grande, Uruçuca, Bahia.
05.04.2026, cheia em escorpião
sonhos compartilhados na sala de ensaio, vida desperta em cena
29.03.2026. lembranças da Residência Artística Teatro Memória e Relatório Figueiredo, realizada pelo Teatro Popular de Ilhéus em Março de 2026. Ilhéus, Litoral Sul da Bahia dos Mistérios. Texto e registros por Mariane Lobo
Voltei. Tenho o corpo repleto de imagens, sementes do porvir ainda pousando como pedrinhas em cada ponta de osso, em cada esquina, dobra, articulação. Voltei com a garganta ardendo por novos sopros. O coração quente por estar na companhia de "aventureiros irmanados", como chamamos por aqui. Sou artista criada na coletividade e no teatro de grupo, e desde entrei neste barco alado vivo todos os dias aprendizados que me enraizam neste mundo de guerra.
A residência artística Teatro, Memória e Relatório Figueiredo foi um desses adventos que ampliam brutalmente o horizonte. Me senti em casa, honrada por participar tão de dentro de um processo artístico do Teatro Popular de Ilhéus e pela possibilidade de dialogar sobre temas que investigo enquanto artista-pesquisadora. Foram cinco dias de trabalho intenso na Escola Agrícola e Comunitária Margarida Alves (EACMA), espaço de resistência dedicada às lutas camponesas no sul da Bahia, lutas travadas por mulheres como dona Janira, fundadora da Escola e nossa anfitriã.
O estudo do Relatório Figueiredo, documento que denunciou as ações de genocídio do Estado contra os povos indígenas do Brasil, e o mergulho na pesquisa do TPI sobre a luta dos povos indígenas de Olivença foram os insumos para as criações em cena e mais, foram presentes inestimáveis de um grupo que há 30 anos afirma o poder de transformação social do teatro, grande arena de discussão, conflito, resolução, invenção, vida. Em paralelo à pesquisa artística, conversamos sobre desafios, estratégias e caminhos para manter um grupo de teatro funcionando, seja numa casa, numa lona de circo ou voando entre um paradeiro e o próximo.
Nesta aventura fui nutrida pela generosidade do mestre Romualdo desde as histórias contadas, até a direção em cena e a moqueca fantástica da sexta-feira, horas antes da estreia da nossa mostra cênica. Fui cuidada por Tânia desde a acolhida até aos bons lembretes de guerrilheira "artista não pode se expor sozinho!", "mergulhem como pesquisadores!". E conheci o fazer de artistas que assim como eu, atenderam ao chamado do TPI, cada um e cada uma que, com suas próprias paixões, realidades e horizontes, convergiram no trabalho coletivo feito na sala de ensaio, lugar sagrado de criação, como ouvi tantas vezes.
Realizar é sempre uma fonte de aprendizado e foi o teatro quem me ensinou isso. E teatro é fazer junto, uma prática vital se quisermos "adiar o fim do mundo" combatendo o sistema vigente que quer nos isolar o tempo inteiro. Essa residência foi uma dessas brechas incandescentes onde revolvemos a terra e plantamos sementes com o desejo de fazer brotar, através da arte, novos imaginários, outros futuros.
sentada na cadeira de balanço, olhando pro céu noturno, via a lua gibosa transparecendo entre nuvens. quando surgiu inteira, brilhou pulsante enchendo meus olhos, seu brilho magnético puxando meu sangue todo pra testa, fazendo arrepiar o topo da cabeça. e num instante, antes que pudesse me dar conta, sumiu. uma nuvem tão densa ao ponto de cobrir completamente o brilho daquela lua só podia significar uma coisa: lá vem chuva. não deu outra. foi eu entrar em casa, o toró caiu.

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querida parenta,
aquele dia, depois da reunião, quando estreitamos olhares e raízes, você me perguntou do meu cabelo e eu rebati de pronto, com o discurso armado, típico de quem tem aquário forte no mapa.
eu rebati, mas pensei. nunca esqueci.
nos encontramos muitas vezes mais antes que, numa noite qualquer, eu sonhasse com meu reflexo no espelho. naquele recorte em retrato eu acariciava fios longos, muito escuros, descendo sobre meus ombros e braços. minhas mãos enrolavam mechas grossas sobre o meu peito, experimentando o peso, as curvas, a textura tão macia.
quando envelhecer, acho que serei como minha avó Noélia, que carrega uma nuvem branca e densa no topo da cabeça. sendo eu uma dessas jovens almas antigas, não foi difícil me imaginar lá. só chorei um pouquinho quando cortei.
e com a cabeça leve consegui atravessar alguns trechos de floresta sem me prender nos galhos, abri caminhos dentro de mim até finalmente reconhecer meu próprio rosto. alcancei o espelho.
daí que sábado passado eu te vi de longe, muito tempo depois da última vez. você era o centro das atenções e eu, em meio ao público que te assistia, era apenas mais um par de olhos. te reconheci diferente, "algo nela mudou", pensei, admirando mistérios.
perceber mudanças é reconhecer o Tempo, senhor de todas as transformações. desde que sonhei com meu reflexo venho matutando sobre isso como se estivesse fazendo uma curva na expectativa do que vou enxergar mais à frente.
e então, dois dias antes daquele sábado eu estava na mata e lá encontrei a chave para atravessar esse espelho. ela ainda estava quente na minha mão quando te vi e lembrei novamente daquela conversa. ela ainda está aqui, fazendo minha mão suar enquanto escrevo essa correspondência.
é que deu vontade de te contar. vou deixar meu cabelo crescer. é assim que farei mais uma travessia.
honraria
sonhei que artistas haviam morrido em um acidente. os rostos apareciam em projeções na parede, retratos em preto e branco, fundo colorido. a gente jogava água pra dar passagem.
15.03.2026
Pontos de Cultura do Litoral Sul da Bahia pactuam caminhos coletivos da Cultura Viva em Fórum Livre Territorial
Nessa quinta-feira, 4 de fevereiro de 2026, participamos do Fórum Livre de Pontos de Cultura do Território Litoral Sul, etapa preparatória do IV Fórum Estadual dos Pontos de Cultura da Bahia. Realizado em formato online, o encontro reuniu Pontos de Cultura, coletivos comunitários, representações territoriais, universidade e gestão pública para pactuar propostas do território no âmbito da Política Nacional Cultura Viva.
O Fórum foi organizado pela Câmara Temática de Cultura do Território Litoral Sul da Bahia, pelo Ponto de Cultura Associação do Culto Afro-Itabunense (ACAI), pelo Ponto de Cultura Associação de Moradoras e Moradores do Bairro Novo (ASMOBAN), pelo Ponto de Cultura Instituto Macuco Jequitibá e pelo Ponto de Cultura Guilda Anansi Coletivo Cultural, em parceria com a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Estadual de Santa Cruz (PROEX/UESC). O objetivo central foi sistematizar proposições territoriais para apresentação no IV Fórum Estadual, que ocorrerá entre os dias 28 de fevereiro e 1º de março de 2026, em Feira de Santana.
Participaram representantes de Pontos de Cultura, coletivos culturais, organizações comunitárias, redes locais, universidade e instâncias da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, compondo um espaço diverso de diálogo e construção coletiva, ancorado na experiência concreta dos territórios.
A mediação do encontro foi realizada por Cristiane Santana, do Ponto de Cultura Casa de Cultura Jonas e Pilar. A relatoria, a sistematização das propostas e a revisão textual ficaram sob responsabilidade de Amanda Maia e Mariane Lobo, do Ponto de Cultura Guilda Anansi Coletivo Cultural.
Na abertura, Thaís Pimenta, da Diretoria de Cidadania Cultural da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, contextualizou o momento de retomada e expansão da Política Cultura Viva, destacando sua capilaridade territorial e a confirmação de delegados de mais de 70 municípios para o IV Fórum Estadual. Apresentou a meta estadual de assegurar ao menos um Ponto de Cultura em cada município até 2027 e reforçou a importância dos Fóruns Territoriais como instâncias autônomas de formulação de propostas, no marco da implementação da Lei Cultura Viva Bahia, sancionada em 2024.
A professora Maria Áurea de Souza, atual presidente da Comissão Estadual dos Pontos de Cultura e da Câmara Técnica de Cultura do Litoral Sul, ressaltou o caráter histórico da política Cultura Viva, marcada pela resistência e pela continuidade da atuação dos Pontos de Cultura mesmo em contextos adversos, e reafirmou a participação social como fundamento da política pública.
As contribuições das representações territoriais evidenciaram desafios e caminhos para o fortalecimento da rede no Litoral Sul. Amanda Maia destacou a necessidade de consolidar a comunicação territorial dos Pontos de Cultura, superar fragilidades cadastrais e honrar a memória de mestras e mestres da cultura popular como dimensão estruturante da política. Josivaldo Félix Câmara apresentou a atuação da Representação Territorial de Cultura no território, com destaque para iniciativas culturais de base comunitária. Luiz Carlos “Lula” Dantas enfatizou a importância da comunicação, da autonomia dos Fóruns Livres e da consolidação de fontes de financiamento que garantam condições materiais para a participação social e a continuidade das ações culturais.
Outras falas ressaltaram o papel da universidade como parceira estratégica e evidenciaram as limitações estruturais ainda presentes para a efetivação da participação social, reafirmando a necessidade de fortalecimento institucional da política Cultura Viva nos territórios.
Após a contextualização, foram debatidas e sistematizadas as propostas enviadas previamente pelos Pontos de Cultura do Território Litoral Sul, organizadas por eixos temáticos. O processo priorizou ajustes de redação e alinhamento conceitual, preservando o conteúdo original das proposições e assegurando coerência com os princípios da Política Nacional Cultura Viva e da Lei Cultura Viva Bahia.
No tema central nacional, Cultura Viva e Justiça Climática, o debate reconheceu práticas comunitárias que articulam cultura, cuidado ambiental e modos de vida, desenvolvidas por Pontos de Cultura, coletivos e comunidades tradicionais do território. Foi aprovada a proposta Pontos de Cultura pela Justiça Climática, que prevê a criação de um Observatório Territorial de Cultura e Justiça Climática, voltado ao acompanhamento sistemático de impactos socioambientais que incidem diretamente sobre a vida cultural no Litoral Sul da Bahia, como a degradação de rios, a especulação imobiliária, a gentrificação, os conflitos fundiários e os apagamentos culturais.
A iniciativa foi construída no âmbito da organização Fórum com a participação de representações territoriais, Pontos de Cultura, universidade e gestão pública. O observatório tem como perspectiva produzir diagnósticos, registros e informações públicas que subsidiem ações culturais, educativas e comunitárias, fortalecendo a atuação dos Pontos de Cultura como agentes de justiça climática e defesa dos territórios.
Nos eixos temáticos, foram aprovadas propostas voltadas à regulamentação e institucionalização da Política Cultura Viva, à garantia de financiamento permanente, ao fortalecimento das instâncias de governança participativa e ao reconhecimento do trabalho cultural como direito e base da sustentabilidade da criação artística. Também foi enfatizada a mobilidade intermunicipal como fator estruturante para a circulação cultural e a integração territorial.
No tema central estadual, Vozes e Territórios pela Implementação da Lei Cultura Viva Bahia e Justiça Climática, foi aprovada a proposta de criação de editais específicos para o reconhecimento de Pontões de Cultura nos 27 Territórios de Identidade da Bahia, assegurando ao menos um Pontão por território.
As propostas-síntese dos eixos e dos temas centrais foram apresentadas pela representante territorial dos Pontos de Cultura do Território Litoral Sul, debatidas coletivamente e aprovadas com os ajustes pactuados. Ao final, reafirmou-se o compromisso do território com a participação social, a justiça climática e a consolidação da Política Cultura Viva como política pública de Estado, ancorada no protagonismo das comunidades.
Como encaminhamentos, definiu-se o envio das propostas aprovadas ao IV Fórum Estadual dos Pontos de Cultura da Bahia, o compartilhamento da síntese do Fórum, por correio eletrônico, com todas as pessoas participantes, o fortalecimento da articulação territorial e dos processos de comunicação da rede e a preparação do território para o debate sobre a composição e o funcionamento da Comissão Estadual dos Pontos de Cultura no próximo biênio.
O encerramento do Fórum foi marcado por manifestações de reconhecimento ao trabalho coletivo, à corresponsabilidade construída e à confiança nos passos pactuados. O encontro reafirmou a disposição do Território Litoral Sul de seguir fortalecendo o fazer cultural comunitário como prática viva, em diálogo permanente com as comunidades.
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Escrito por Guilda Anansi Coletivo Cultural, Ponto de Cultura representante do Território Litoral Sul na Teia Estadual dos Pontos de Cultura da Bahia
Equipe organizadora do Fórum Livre de Pontos de Cultura do Litoral Sul: Câmara Temática de Cultura do Território Litoral Sul, Pontos de Cultura ACAI, ASMOBAN, Instituto Macuco Jequitibá e Guilda Anansi Coletivo Cultural. Parceria: PROEX/UESC.
07.09.2025 visita a um portal dique do tororó, meu lugar de origem. depois de tantas velas essa manhã foi como dar um ponto na costura.
~ vivendo a Magia com Amanda, Hellen, Jonatas, Arthur e Pedro em Salvador.
em que realidade você vive?

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XVI
sonhei que corria e saltava de uma torre em chamas, como na carta que tirei essa semana.
não era uma estreia, mas o frio na barriga antes do salto é sempre de primeira vez.
na queda virei a cara pro céu, pois não podia perder o espetáculo. meus olhos amam o brilho.
"A Fonte está sempre aqui"
um ensaio.
O livro Ás de Tridente - Opúsculo de Chaves para Adentrar a Noite Mariposa, escrito por Amanda Maia, foi lançado em pleno Solstício de Inverno de 2020, no olho do furacão da pandemia, em Ilhéus, no Sul da Bahia.
Aquele era um momento de tantas incertezas, o cenário ainda iria piorar muito mais. Sem dúvidas, aquela foi uma hora no mínimo oportuna para cultivar a Fé. E ler um livro.
Talvez seja difícil para nós, cujo tempo de existência na Terra é tão curto, compreender o tempo de uma árvore como a Sumaúma, o tempo de uma pedra esculpida pelo mar, o tempo de tudo que parece não ter fim, mas tem, a questão é só que a gente vai morrer antes. A globalização produziu essa ilusão de que nós podemos condensar o tempo. A divindade ri.
Esse tempo que não cabe na minha mão é também o tempo de uma episteme em expansão, como é o caso da Bruxaria Mariposa, que cresce nas frestas há menos de uma década, mas possui raízes de gerações. Alguns cruzos já são mapeáveis, outros talvez ainda se revelem ao longo dos próximos anos. O que saberemos da Bruxaria Mariposa em 2056? O que sabemos agora, 5 anos após a primeira leitura do Ás de Tridente?
No livro Amanda reúne fios fundamentais que sustentam a cosmovisão de um caminho aberto pelos aprendizados da sua própria existência no mundo, de filha a sacerdotisa e mestra. Talvez o primeiro brilho seja este: a autora é alguém que ousa inventar a vida conjurando o que deseja em tempos de manipulação absoluta: o dinheiro reina montado na herança cristã patriarcal, disseminando seu veneno em cálices midiáticos que bebemos sem pensar. Nem imaginamos recusar. E quando o enjoo vem, o mesmo sistema te oferece o remédio pra você parar de vomitar e voltar a servir. A pandemia parecia um grande vômito mundial, muitos tomaram o remédio pra essa loucura parar, quantos investigaram a causa da doença?
No ano passado revisitamos os primeiros postulados do Ás de Tridente durante o ciclo anual de Estudo Dirigido da Bruxaria Mariposa. Em roda, partilhamos e trocamos impressões, reflexões, perguntas, inquietações, contando com a raridade de ter a autora da obra presente na conversa.
Busquei costurar um breve ensaio a partir dos encontros deste ciclo. Com certeza haverão muitos fios soltos aqui - o que é, sinceramente, um respiro em tempos de textos consolidados por inteligência artificial.
Ao retornar às chaves que Amanda ofereceu, precisei reafirmar meu entendimento sobre palavras que ouvi desde o início - era preciso reconhecer que as palavras, se não são realmente praticadas na articulação e expressão, acabam perdendo sentido e virando somente palavras ao vento. Manter a vigilância é combater automatizações e esse é um aprendizado diário: no caminho da busca nada é automático.
Palavras são armas poderosas se prenhes de significado. Sem compreender o que realmente carregam, nenhuma tomada de decisão é livre. - Amanda Maia, Ás de Tridente, pg. 29
Busca do quê? Cada um na roda tem as suas próprias respostas - e todas elas acabam convergindo para a busca da saúde, ao meu ver. Ler o Ás de Tridente é assumir a doença do mundo e não dizer mais “é assim mesmo”. Não é, não precisa ser. A questão é que curar é verbo, demanda ação e aqui entra a Necessidade. A observação de que o mundo vai mal não é suficiente para mover alguém. “Você só procura por aquilo que você precisa”, Amanda comentou. Sabemos do que precisamos? Qual é a necessidade que faz a gente se mover? É tudo sobre movimento, não poderia ser diferente se a nossa própria casa está em constante movimento, girando, orbitando o Sol.
O horizonte também conta. Em um dos encontros de estudo perguntei sobre a Fonte, se esse seria um lugar para onde deveríamos retornar - é possível? - e o que exatamente nos distancia disso que é tão somente e simplesmente a Vida em toda a sua profusão. “A Fonte está sempre aqui”, Amanda respondeu.
Acho que é preciso se aproximar da nossa parte planta para que haja alguma compreensão sobre isso. Uma planta nasce, cresce e antes de morrer vive tantas transformações a cada estação do ano, sofre cortes, perdas, dá flores, frutos. Embaixo da terra - ou dentro d’água - sua raiz também expande silenciosamente, busca alimento, busca saúde. A Sumaúma pode subir até 50 metros de altura sustentada em suas raízes. Será que pra gente é mais difícil de entender porque nosso cordão umbilical é cortado logo de cara? O que faz a gente se perder da nossa própria raiz?
Todo Alimento nos é entregue sintetizado, mastigado e em pequenas porções. Bloquearam os nossos sentidos. Nos convenceram de que não conseguimos ‘prestar atenção’, que ‘somos dispersas’, que somos pequenas, que somos fracas, que somos pouco, que não podemos escolher. Estamos nos destruindo e levando junto toda a Natureza da qual fazemos parte. Não é uma hipótese. Sabemos disso na nossa própria carne. - Amanda Maia, Ás de Tridente, pg. 47
No início dos trabalhos da Bruxaria Mariposa, a primeira chave entregue por Amanda foi “Despertem suas Avós”. É também uma questão de sangue, portanto - o que pode ser mais nosso do que a nossa herança genética? A Fonte sempre estará aqui se eu souber o caminho que meu sangue fez até o instante em que respiro agora. E assim as nossas experiências de vida são a continuidade desse fio. Com isso em mente, quais escolhas eu faço?
Viver plenamente demanda muita energia, é preciso aceitar o trabalho, é preciso querer, buscar, saber onde está e partir daí. Parece algo óbvio e impossível ao mesmo tempo. É físico num nível que nenhuma máquina alcança, nenhum dinheiro compra. Acredito que compreender isso é entender qual é a verdadeira guerra que está sendo travada no mundo há séculos e qual é o nosso lugar nessa guerra.
sinto o tempo passar seu toque abre veias para o fio d'água memória passar e assim as luas se revelam e assim a gibosa no caranguejo me ensinou a memória dá cor ao sangue sangue é demanda memória é amor. ~ revisitando um escrito de 15.01.2024
primeiro Fogo dos Desejos de 2026, em Arembepe, Bahia.
Ainda é dia,
mas a Lua já se mostra
Gibosa
Deito no mar
sal da Barra me sustenta
os dedos dos pés apontam para o céu
meus braços se abrem pra tocar o Sol
que desce no horizonte da minha cabeça
o barulho perde o caminho dos meus ouvidos
assim como a identidade perde sentido
diante do fim de tarde na beira do mundo.

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Na esquina do correio
Meu bem,
Recebe essa carta como um beijo de adeus. Não vamos mais voltar a este ponto.
Construíram um projeto de abismo e mergulhamos fundo pra subir em piruetas, saltos coloridos, rebolados vertiginosos, manobras perigosas, criações audaciosas.
Acendemos canções que nos guiam até hoje na noite escura que parece gestar para sempre o Futuro. É lindo, mas o que me angustia às vezes é o fato de que as estrelas estão indo embora, uma a uma. Quanto tempo ainda temos?
Te confesso que já me perdi. Tantas estradas abertas, tantas ruas sem saída. Já me perdi, mas não quero sumir, por isso te escrevo.
Eu nem tenho mais pra onde voltar. O chão retirado dos meus pés hoje pertence a um rico qualquer. Por isso fugi com quem sabia construir barcos e desde então vejo o fim do mundo no retrovisor.
Não existe "pra frente". Rumar é tão apenas e simplesmente equilibrar a própria carne no ar com a força da Vida. Assim eu arrisco.
Não lamento, nem sinto tristeza. Reconhecer esse abismo no qual dançamos é como silenciar para ouvir o coração batendo. Canções ainda brilham, só precisamos deixar o olho se acostumar com a visão.
Quando a gente se cruzar novamente eu não serei mais essa que te escreve, ainda arrebatada pelas descobertas de uma viagem recente. Também te encontrarei outra e isso me excita. Ainda assim não quero perder esse instante em que me sinto besta e acesa como uma árvore de natal, a mão tão solta, as palavras impacientes querendo derramar em meio ao suor do raiar do verão. Se tudo der certo, até o final da estação te mando uma foto com a pele mais bronzeada, um texto e outro beijo no verso.
Agora preciso partir, pois não tenho nas asas a mesma força dos beija-flores, vem vindo uma corrente e eu preciso aproveitar a deixa.
Se quiser me escrever de volta, meu endereço é o meu desejo. Vou mantê-lo aceso e brilhando pra você enxergar.
Com amor,
Sua encruza em brasa.
É como trocar de pele. Quem te tocou antes talvez não te reconheça agora. Ao mesmo tempo, por dentro, a marca existe. A memória foi escrita em letras mitocondriais. Você ainda é a mesma. Você apenas mudou.