Everything is illuminated, Jonathan Safran Foer
Por onde começar? Mal consigo escrever direito. Vou começar pelo inglês, então. Que pérola, que pequena coisa maravilhosa. Depois de ler Extremely loud and incredibly close, já esperava algumas edições, alguns estilos, quebras na língua que fariam o texto mais perto das emoções com as quais ele trabalha. Só lembrar das fotos de uma pessoa pulando do WTC ao final, das páginas coloridas com a assinatura do pai-avô, e das palavras se misturando e perdendo o sentido. Aqui não posso dizer que ele vai além, já que é um trabalho anterior, mas ele trabalha com outras coisas tão maravilhosas quanto. A mais óbvia, claro, é a língua inglesa que o tradutor dele fala - que na verdade é como um relato de próprio punho dele, Alex ou Sasha. Tendo morado no leste europeu, sendo um pouquinho familiarizado com russo, vejo a beleza de se ‘traduzir literalmente’ de uma língua para a outra, de como as construções e palavras que no russo soam tão bem ficam tão estranhas, e ao mesmo tempo expõem tão claramente a personagem. Depois, claro, as próprias personagens. Três - mais ou menos. A trama, dita de maneira simples, é a busca do jovem Jonathan pela mulher que salvou seu avô durante a segunda guerra. Mas toda essa trama é contada não por ele, mas pelo seu guia e tradutor, Alex. Jonathan se ocupa de outra metade da história, uma que é sua, a de descobrir a história de seu avô. A parte que é contada por Alex, então, que parece ser a viagem de Jonathan, é na verdade também a sua própria viagem para descobrir sobre o seu avô, que os acompanha. Ambos criam pérolas de amor, amores impossíveis e caricatos, um amor em cada capítulo que nos mostra um pouco sobre a forma como aquela personagem encara o mundo. Mas a história, apesar de tudo, é sobre a destruição. E seu depois, sobre um outro tipo de amor que não acessamos. Como, eu me pergunto, como é possível entrar em uma vila e matar todos os habitantes, apenas por serem judeus? Não apenas matar, mas humilhar individual e coletivamente? Em um relato, quando os nazistas pedem a cada habitante da vila para apontar para um judeu (que será executado), um homem aponta para si próprio. O que eu faria? É uma escolha entra a vida e fantasmas eternos, ou há outras opções? É, no final das contas, uma viagem de autodescoberta, vista pela perspectiva do outro. Os avós são relíquias de uma época em que fomos menos humanos, pela vontade de ‘progresso’ - uma relíquia que tenho medo de me tornar no futuro, olhando em volta e vendo o que hoje vejo. São esses avós que me lembram, quando estive na Áustria, uma conversa entre avós, uma lembrança do nazismo, do qual só descobriram que participaram quando terminou. Hoje não me lembro de nada daquela conversa, mas lembro dela e dele, sentados tomando café, olhando um para o outro. Eles queriam me dizer coisas, mas eram coisas tão desconexas da minha realidade, da realidade daquele moleque brasileiro cujos avós não foram nem vítimas nem perpetradores do nazismo, coisas que não deviam soar clichê mas era impossível que tivessem outro tom. Foi uma conversa de silêncios e pequenos goles de café, de pequenas felicidades por não viverem mais aqueles tempos, mas estes (agora também aqueles), tempos com família e amigos. Alguns livros pegam a gente de jeito. Outros ficam guardados até a hora em que vão nos pegar de jeito. Alguns outros lemos tantas vezes que nem sabemos de qual jeito nos pegam mais. Everything is illuminated provavelmente vai ser isso tudo.
















