— all you have is your fire ➸ vayton;
A melancolia pelo momento vivido por terceiros trazia peso aos ombros do pobre rapaz que era capaz de sentir em seu âmago a dor daqueles internos. Korak era, essencialmente, empático, assim como também era compassivo. O sofrimento alheio era tal como o próprio sofrimento, apesar de, no teatro de sua vida, sua peça era a principal. Não considerava a si mesmo como a criatura altruísta. Ah, não. Ele não era. Mas ele tentava ser. De alguma forma, desde a partida de Mira, Korak havia tentado ser perfeito ao mesmo tempo em que havia se entregado ao sofrimento eterno. Havia, por muito tempo, estado tão imerso no próprio luto que, para apaziguar o sentimento de culpa em seu coração, tentara de todas as formas agir como uma criatura perfeita durante o dia: sorria para aqueles que vinham lhe falar, ajudava velhinhas na rua, dava a mendigos quando passava por ele, salvava gatos dos telhados vizinhos. Tudo era, de fato, para manter uma aparência que ele já não possuía em seu cerne, todavia, que os outros queriam ver. Ele sabia do desejo dos outros ao seu redor desejando que ele algum dia voltasse a ser o que era antes e, ele sabia, Mira também gostaria. Então, mesmo que no final do dia ele caísse aos prantos ao lado de uma garrafa de álcool, durante o dia ele tentava ser uma sombra do que um dia fora por ela; porque, de alguma forma, havia esperança de que ela apareceria em algum momento. Mas tal esperança não existia mais agora.
O que Clayton possuía agora era a certeza de que ela estava em algum lugar cuja felicidade lhe banhava a face. Gostava de imaginá-la dançando com anjos tal como fazia quando ele pedia. Tal pensando acabou por fazer com que um riso fácil saísse pelos lábios de Korak que estava envolto em folhagem. Não havia notado que seu caminhar havia lhe trazido até aquela parte da floresta, algo que não era recomendável visto o que acontecera aos outros. Ah, os outros… Korak, enquanto divagava acerca de suas saudades de um amor que havia sido tragicamente interrompido, esqueceu-se o que estivera pensando enquanto caminhava – despreocupadamente e sem o uso de qualquer roupa, visto que essas, mesmo que não o incomodassem, não eram utilizáveis por sua parte que preferia sempre a nudez quando esta era possível. Ele estivera buscando respostas em sua mente para saber um motivo que fosse plausível para tudo que acontecera naquele acampamento desde sua chegada. Era estranho que tantas coisas ruins acontecessem a crianças, pois ali havia crianças, não mais que isso; e ele queria uma resposta, afinal, não poderia ser normal. Há algum tempo, e talvez todos pensassem o mesmo que ele, notara o modo estranho como tudo ocorria ali, mas suas preocupações eram incapazes de serem ditas em público por um receio que ele nunca possuiu. Todavia, agora, até aquele receio parecia ter ido embora.
“Minha mãe”, dissera ao tocar com suas palmas nuas a terra úmida. Seus olhos fecharam-se diante da contemplação e adoração àquela que ele sabia que era tua mãe. Um filho ama a seus pais mais do que amaria qualquer outro ser e, de fato, Korak amava àquela que lhe havia cedido a vida antes mesmo que seus progenitores soubessem. “De você viemos e para você voltaremos; você que nos acolhe quando estamos tristes e nos corrige quando fazemos algo que seja errado; você, minha mãe, diga-me… O que há de errado neste lugar?” Seus dedos afundaram-se ainda mais na terra amarronzada, fazendo com que Clayton sentisse a terra infiltrando-se em suas unhas. As copas das árvores se balançaram com o vento que as tocava, fazendo com que flores caíssem. Mesmo com os olhos fechados, Korak poderia dizer que os pássaros estavam levantando voo. O homem sorriu. “Ah, minha mãe. É bom saber que não me abandonaste agora. Preciso tanto de tua força para continuar a minha caminhada agora que tudo é tão real.” Os sons que seus ouvidos captaram, todavia, não eram as respostas de sua mãe. Era uma pessoa real que adentrava seu espaço. Clayton abriu os olhos e virou o rosto na direção do outro ser.