Aquela voz foi capaz de trazer memĂłrias que Pierre tinha antes esquecido, fosse por causa intencional ou pelas substĂąncias que costumava ingerir. Mas ver Pietra, ouvir sua voz o chamando e nossa, como tinha sentido falta dela, era uma experiĂȘncia tĂŁo fora de si que ele achava realmente que tinha morrido. Seria aquele o paraĂso que ele deveria ter recebido? Acontecera algum erro e ele fora mandado para o lugar errado? Talvez dali a alguns segundos ou minutos, alguĂ©m viria para lhe escoltar de volta para o inferno, lugar este onde merecia. A morbidade que o acompanhava era tremenda que ele atĂ© mesmo achou que Pietra estava ali para ler seus pecados, nĂŁo era isso que faziam apĂłs a morte? Saber quantos erros para medir com as boas açÔes e dessa forma decidir para onde iria tal pessoa? Ele poderia poupar-lhe todo o processo apenas dizendo o que merecia, mas queria Pietra, nem que sua mente estivesse brincando consigo. Por que vĂȘ-la ali, logo naquele perĂodo de tempo em que nada podia fazer a nĂŁo ser olhĂĄ-la. Sabia o que ela via, porque olhar Pietra era como olhar para si, e se odiou ainda mais por saber que ele mesmo tinha feito aquilo com ela. Os cabelos da cor mais pura do sol, uma herança da parte francesa que compartilhavam da mĂŁe, caĂam em cascatas por seus ombros e ela era tĂŁo bela. TĂŁo bela quanto um anjo! E fora isso que tinha sido durante toda sua vida, atĂ© mesmo depois de sua morte. Ah Pietra⊠por que teves de morrer? Por que me deixastes para ter de arcar com as consequĂȘncias da solidĂŁo? Sua mente era uma bagunça, mesmo que nĂŁo ouvisse as vozes, Pierre estava se ouvindo. Pela primeira vez em muito tempo, Pierre voltava a ouvir a si mesmo dentro de sua cabeça, pensamentos soltos, inconclusivos e dispersos, mas era sua voz, com o sotaque forte da lĂngua mĂŁe. NĂŁo podia fazer nada mais do que olhĂĄ-la, porque havia chegado ao estado em que nada sentia, apenas dor, fosse essa fĂsica ou psicolĂłgica, ele nĂŁo sabia. Mas nĂŁo importava, porque doĂa, doĂa, doĂa. Era tĂŁo ruim assim ter alguĂ©m que vocĂȘ amava de volta? Talvez fosse, porque ele sabia que ela nĂŁo era real. A Pietra que se encontrava em sua frente, a apenas alguns passos de distĂąncias que poderiam deixar de existir se ele se levantasse e fosse atĂ© ela, a abraçasse forte e dissesse o quanto a amava; nĂŁo, aquela Pietra era de mentira.
O fato de ele estar ciente de que ela nĂŁo era real, seria um fator bastante estranho se nĂŁo soubesse que talvez fosse pela quantidade de tempo que passara dormindo e sabia dos remĂ©dios que estava tomando, entĂŁo era claro que ele estaria consciente de certas coisas. Sabia notar a diferença quando o mundo parecia imaginĂĄrio, quando como estava sob influĂȘncia de substĂąncias nocivas, e de quando parecia real, quando todas as vozes voltavam e os rostos o faziam tremer de frio quando o alcançavam. Mas talvez, sĂł talvez, ter Pietra ali significava que ele ainda estava tentando. Tentando se dar uma chance porque ela era a Ășnica esperança que ele vira no mundo; um mundo completamente deturpado de sentimentos e amor. Pietra era a estrela mais brilhante do mundo, que estava rodeado em trevas. Quantas e quantas vezes compartilharam sussurros no quarto dividido, mesmo quando ela jĂĄ era grande o suficiente para ter um quarto para si mesma, mesmo quando ele escondia segredos tenebrosos dela. Segredos compartilhados debaixo de cobertas e feitos de forma apressada, pois sua mĂŁe brigaria com eles, caso os ouvisse acordados ainda depois de tamanha hora na madrugada. Mas como era bom, poder quebrar as regras com alguĂ©m que o entendia, mesmo que ela fosse mais nova, mesmo que fosse uma menina, mesmo que nĂŁo conhecesse parte do mundo que ele tinha visto. Pietra era sua luz, aquela era uma frase recorrente nas pĂĄginas velhas de seu diĂĄrio, que tinha virado um depĂłsito de palavras que se entrelaçavam, formando versos, poesias que ninguĂ©m leria porque ele nunca permitira. Saber que algo nĂŁo Ă© (mais) real nĂŁo nos impede de ansiar por tal coisa. Por isso que Pierre sempre fazia suas preces apenas e unicamente por causa de Pietra. âDeus por favor, onde quer que o senhor esteja, proteja minha luz. Faça com que ela esteja feliz onde quer que esteja.â NĂŁo que ele recebesse qualquer tipo de resposta, nunca recebera. Mas ver Pietra doĂa tanto que talvez seu coração tivesse congelado em seu peito.Â
Ele sĂł conseguia ver ela, suas emoçÔes tĂŁo Ă flor da pele que talvez, nĂŁo talvez, e sim com certeza, Pierre estava se vendo em frente aos seus prĂłprios olhos. As emoçÔes dela sempre tĂŁo claras que ele sentia como se fosse chorar a qualquer momento. O som engasgado que saiu de seus lĂĄbios quando a mĂŁo dela tocou a dele e aquilo foi o interruptor que faltava para o corpo de Pierre vir Ă vida. Viveu novamente, por conta dela, mesmo que o contrĂĄrio tivesse acontecido por causa dele. Pierre gostava de que a versĂŁo que sua mente tinha projetado de Pietra o permitia atĂ© mesmo conseguir sentir seu toque, macio e caloroso como sempre, mas ela era. TĂŁo ela que a dor deu um intervalo para que a ausĂȘncia se tornasse majestosa em si. Havia uma teoria no mundo que nunca ninguĂ©m se sentia vazio, porque atĂ© mesmo o vazio era um sentimento preenchedor, em sua solitĂĄria companhia. Seria verdadeiro tal argumento tĂŁo confuso, mas que fazia tanto sentido? A dor sumindo, Pierre se encontrou novamente tĂŁo sĂŁo quanto tal indivĂduo poderia estar. Sua alma gritava pela dela, e por um momento, Pierre se viu vendo flashbacks de sua infĂąncia, de quando segurava um corpo minĂșsculo em seus braços e a primeira vez que sentiu um amor tĂŁo puro quanto podia ser ao ouvir uma garotinha gritando seu nome depois de receber o prĂȘmio de melhor aluna. Mas a ausĂȘncia se fez tĂŁo presente que Pierre passou a perceber que algo tambĂ©m faltava. O ar. E as consequĂȘncias de algo como aquilo foram logo evidentes quando sua visĂŁo turvou. _Pietra._ Consegui expelir, o Ășnico traço de ar restante em seu corpo e notou que a causa daquilo tudo fora que ela havia soltado sua mĂŁo. O poeta perturbado dentro dele, que era tudo menos um covarde, pĂŽs-se ainda mais ereto na cama, sentando de uma forma tĂŁo dolorida devido Ă s limitaçÔes, mas ainda assim sem desistir. Pierre gritou internamente, porque por fora nada podia fazer. A voz dela ao dizer seu nome ficou repetindo em sua mente atĂ© que ela pronunciou outra coisa e dessa vez Pierre se sentiu overwhelmed de sentimentos, tanto bons quanto ruins, mas nada daquilo importava porque sua Pietra, criada por sua mente, estava ali lhe dizendo coisas que somente ele lembrava. Aquilo confirmava ainda mais que ela tinha sido projetada pela doença que devia estar acontecendo dentro de sua cabeça. _Je ne me trompe._ Sussurrou, por ainda nĂŁo confiava em sua voz. Mas suas mĂŁos voltaram Ă vida novamente, pela segunda vez em menos de um minuto e ele tomou a mĂŁo dela de volta para si, porque o contato com Pietra era tĂŁo necessitado, tĂŁo precioso que ele apenas queria ficar daquela forma para sempre. _J-Je ne me t-trompe._ Disse novamente, dessa vez entre soluços que escaparam de sua boca porque ele nĂŁo conseguia mais segurar as lĂĄgrimas que ameaçavam cair desde que havia posto seus olhos nela. _Je vous manquĂ©. Por favor⊠por favor, nĂŁo vĂĄ mais embora._ Ela tinha crescido tanto, mas ainda era sua Pietra. E mesmo nĂŁo sendo real, o que doĂa em Pierre de forma absurda, ela estava ali. E ele nĂŁo a deixaria ir uma terceira vez.
Havia um tipo de eletricidade que corria cada vez que o toque com ele era estabelecido, uma explicação de sentimentos que seria muito complexa para a jovem e inocente mente da garota processar. Mas em sua maioria o sentimento que vinha era dor, pura dor. Pierre, seu Pierre. Sua mente podia estar confusa em memĂłrias, mas sabia quem era ele, tinha certeza de quem era, apenas por seu toque, sua respiração e seus olhos... Aqueles olhos cheios de melancolia, melancolia profunda e intensa que nĂŁo podia ser rasgada e retirada dele por mais que ela desejasse com toda sua alma. DoĂa de pensar, de ver, o que seu irmĂŁo tinha se tornado. Seus lĂĄbios rachados e uma expressĂŁo tĂŁo perdida e melancĂłlica quanto era possĂvel, de nĂŁo encontrar em seu olhar qualquer resquĂcio do garoto que ela uma vez tinha convivido e ali apenas haver uma casca vazia, tĂŁo quebrado quanto uma boneca derrubada no chĂŁo. Esperanças? NĂŁo podia ver nenhuma. E naquele momento estava sĂłbrio, dentro de si, apenas imaginar seu estado anterior era insuportĂĄvel. Pelo que ele tinha passado, vivido, temido, chorado, gritado para ter que se encontrar num estado onde a Ășnica opção era simplesmente deixar de viver, deixar de existir? Quantas coisas ele nĂŁo teria sentido? AlguĂ©m tinha lhe estendido a mĂŁo? NĂŁo, nĂŁo dependia disso. Com certeza haviam pessoas que o amavam, se ele tinha escolhido esse caminho era porque ele realmente nĂŁo encontrava mais nenhuma solução, nenhum caminho. NĂŁo era culpa de ninguĂ©m, nem dele, nem de ninguĂ©m a sua volta... NĂŁo existia culpa, apenas dor, nĂŁo havia necessidade de apontar dedos. Olhou para seus braços cobertos e sentiu mais lĂĄgrimas quentes descerem por seu rosto incontrolavelmente. Sentir suas mĂŁos era como fazer parte de algo novamente, algo tĂŁo quebrado e rachado quanto ela, mas com a oportunidade de se juntar novamente. Como machucava bem no fundo de sua alma ver sua palidez, suas lĂĄgrimas, seu pedido. Foi quando nĂŁo conseguiu mais se conter. Abriu os braços e o envolveu num abraço entre soluços altos e desesperados. Apoiava seu joelho no colchĂŁo enquanto chorava torrencialmente. O choro aos poucos se tornou ainda mais alto, dolorido, insuportĂĄvel atĂ© se tornarem gritos, gritos de sofrimento, nĂŁo por si, mas por ele, pelo que ele tinha sido obrigado a passar. Por que ele? Por que a Ășnica pessoa que amava? Por que com a Ășnica pessoa que nĂŁo merecia nada daquilo, uma vĂtima das tristezas da vida? Uma vĂtima de seu prĂłprio corpo e mente preso numa patologia crĂŽnica cujos avisos nunca foram dados?
-- N- N - NĂŁo Ă© su-suaa cul-cu-culpa. -- disse entre os soluços que tiravam-lhe o ar, machucavam seu peito -- NĂŁo, nĂŁo, nĂŁo, nĂŁo Ă©. Eu te... a-mo, eu te a-mo... -- seus braços se apertaram em volta dele e um tremor se instaurava por todo seu corpo. Se aquilo continuasse por muito mais tempo provavelmente teria um colapso ou desmaiaria. Era como se tudo que estava tĂŁo firmemente guardado dentro de si explodisse de uma sĂł vez. -- Me des- desculpa, me desculpa, me desculpa. -- conseguiu dizer, sentindo-se tonta por estar tĂŁo difĂcil respirar. Estava tĂŁo sozinha, tĂŁo solitĂĄria e percebia isso agora. E ele, ele sofria tanto, devia ter sofrido tanto, tanto e ela nem ao seu lado podia estar. Seu pequeno coração doĂa tanto que genuinamente achou que ele fosse explodir e ela iria infartar com apenas dezesseis anos. -- Mon frĂšre... -- afastou-se um pouco depois de longos minutos sem conseguir mover um Ășnico mĂșsculo, o soltando de seu abraço, mas ainda mantendo as mĂŁos bem firmes em seu corpo que era mais ossos que carne. Levantou as mĂŁos e as pousou no rosto dele, respirando profundamente. -- Mon frĂšre... Me desculpa ter demorado tanto... Eu voltei, eu estou aqui... -- aproximou seus lĂĄbios da testa dele e ali depositou um beijo voltando a abraça-lo em seguida, caindo num choro mais silencioso. Suas lĂĄgrimas vinham sem ela entender o motivo, sabia que havia muito mais por trĂĄs delas, apenas nĂŁo conseguia se lembrar o porquĂȘ, a vontade simplesmente era incontrolĂĄvel. -- Je tâaime, je tâaime, je tâaime. -- sussurrou contra as roupas dele. Uma enfermeira entrou no quarto com um olhar alarmado pelo choro alto dela. Tentou dizer algo, mas ela nĂŁo ouviu, simplesmente nĂŁo escutou, tĂŁo imersa dentro da dor, saudade, alĂvio, felicidade, tudo junto. NinguĂ©m a tiraria dele, mesmo que tentasse muito.Â