/TEXTO_Pé esquerdo
Começar o dia com o pé esquerdo. Alguns dos meus dias parecem seguir esse ditado à risca. Mas não são situações ruins que acontecem e fazem o dia parecer errado. São dias em que levantar da cama parece difícil; que levantar da cama É difícil.
Isso pode soar bobo e leviano, tanto que provavelmente alguém deve estar pensando “isso é tão simples”, “pra mim isso tudo é preguiça” ou “é só ter força de vontade”, mas na minha cabeça as coisas não são tão simples assim.
Os pensamentos se aceleram no meu primeiro piscar de olhos. É um turbilhão de coisas, que fervilham na minha cabeça e me trazem uma angústia, um receio de coisas que ainda nem sei o que são. Olho fixamente pro teto, tentando entender o que está acontecendo, com a cabeça agitada e o corpo inerte e sem respostas. Letárgico. Ouço o barulho dos carros passando lá fora, e o máximo que consigo fazer é virar de um lado para o outro, a muito custo, com a respiração pesada e que parece insuficiente. Olho pro teto mias uma vez, numa tentativa de encontrar respostas, mas não consigo entender nada na bagunça agitada dentro da minha cabeça. E ali se passam minutos, que vão passando descontroladamente, sem nada que eu possa fazer para pará-los. A cada minuto que se vai, um pensamento começa a crescer lá dentro: eu estou falhando, pois eu poderia estar fazendo tanta coisa com esse tempo perdido...
Os minutos já viraram uma hora, e nisso já perdi a primeira aula. O sentimento de falha aumenta, a bagunça se intensifica e o corpo continua parado. Travado, inerte e refém da bagunça que chamo de cabeça.
A segunda aula também já se foi, e meu gato sobe na cama, meio choroso e pedindo carinho. Ele deita de conchinha comigo, com a cabeça no meu braço e começa a ronronar enquanto faço carinho em sua barriga. Aquele calorzinho gostoso no meu peito, o ronronar alto do bichinho, que se aninha ainda mais em mim, começam a me acalmar e aos poucos o turbilhão vai diminuindo, a respiração fica mais leve e alguns pensamentos começam a ficar mais claros.
Aos poucos consigo racionalizar algumas angústias e receios, e começo a me desprender do sentimento de falha. Reúno todas as minhas forças e penso no que ainda consigo fazer no tempo que me resta, deixando de lado a culpa por não ter conseguido fazer algo, e que tá tudo bem não estar bem.
Quebro a inércia, me arrumo e saio de casa pra comprar ração pros meus gatos. Quando volto, começo a fazer coisas simples e rotineiras, passo o aspirador de pó no chão, separo a roupa suja pra lavar, faço um café e vou pro estágio.
À noite vou pra academia, na volta peço uma pizza e como enquanto assisto tv. É a recompensa que eu escolhi depois de passar por três dias com a ansiedade à flor da pele, sem conseguir nem sair de casa para ir para a aula. Foram três dias seguidos que começaram com o pé esquerdo, os três do mesmo jeito. Mas depois desta tempestade, veio a bonanza, pois consegui entender o como cheguei em tal ponto, qual foi o gatilho que desencadeou tudo isso e comecei a pensar em maneiras de não deixar isso me afetar tanto quando acontecer de novo.
Fiquei feliz que foram só três dias, que enquanto aconteceram, pareceram inacabáveis, mas que foram só três dias. Há pouco mais de um mês, uma crise dessas duraria no mínimo uma semana, recheada de crises de choro, alguns ataques de pânico e um medo absurdo de sair de casa. Então gosto de pensar que o saldo foi positivo. Quando falo que tá tudo bem não estar bem, falo pensando que o primeiro passo para a melhora é reconhecer que as coisas não estão bem; falo pensando nessa melhora, nessa evolução, que pode parecer tão pequena, mas que é um passo imenso depois de mais de um ano tentando entender e mudar isso na terapia.
Lutar contra a ansiedade é uma luta longa e diária, cansativa e que aparenta nunca ter fim, ainda mais quando cheguei nesse ponto de não conseguir fazer coisas por causa dela, de não conseguir sair de casa, de não conseguir entregar alguns vários trabalhos na faculdade, ou de travar em tantas outras situações rotineiras. Mas foi aí que eu descobri que esta luta não precisa ser tão difícil, que eu não preciso aguentar ela sozinho, que eu posso contar com quem está ao meu lado, e que não sou um louco ou um doido varrido por precisar de ajuda, que tá tudo bem não estar bem, que em algumas lutas eu não me darei tão bem, mas que eu sempre sairei delas. Sempre.
Tá tudo bem não estar bem. Tem algo de confortante em aceitar isso, tem algo que me anima em aceitar isso: que eu estou no caminho certo a caminho da melhora, e se eu acordar com o pé esquerdo num dia qualquer, ficarei mais tranquilo em lembrar que tá tudo bem não estar bem.
















