Levando as definições estritas e rígidas ao chão!
"Homossexual [considere-se a pessoa LGBTQIA+] é exatamente isto: duvidoso, instaurador de uma dúvida. Em outras palavras: alguém que afirma uma incerteza, que abre espaço para a diferença e que se constitui em signo de contradição frente aos padrões de normalidade. Ou seja: trata-se do desejo enquanto devir e, portanto, como afirmação de uma identidade itinerante."
(...)
"Como já mencionamos, boa parte do pânico provocado pela aids certamente teve a ver com suas possibilidades de revelar, trazendo os subterrâneos à tona. E eu pergunto, diante das evidências: acaso não seriam homossexuais as relações eróticas comprováveis, durante o dia ou à noite, em grande parte dos nossos banheiros públicos (masculinos), onde os machos ostentam entre si ereções (e iniciativas libidinosas) tão fáceis e fartas quanto sua mesma capacidade em, fora dali, vangloriar-se das conquistas femininas? Quantos homens brasileiros, depois de cumprir (ou nos intervalos de) seus deveres “sociais”de casar e ter filhos, não se sentem mais “liberados”e partem para uma vida (homo)erótica, porque menos bitolada, ainda que rigorosamente clandestina?
Todas essas questões tornam, portanto, vãs e discutíveis as tentativas de adentrar o campo das definições estritas e das estatísticas. Nesse intrincado e enigmático território do desejo, como calcular de forma adequada o número de pessoas homossexuais existentes no país, se já a própria definição do elemento pesquisado é espantosamente fluida? A aids talvez tenha cumprido, além de outras numerosas funções, essa de borrar os enganosos limites entre o que é e o que não é atividade homossexual. Assim, numa reunião informativa sobre a doença, em São Paulo, um rapaz (naturalmente ansioso por se esquivar do estigma) declarou, a um repórter, estar ali por ter transado com um [sic] travesti; mas, dizendo-se heterossexual convicto, enfatizou ter sido ele o ativo na relação.17 Essa última informação, no caso, fazia sentido apenas como prestação de contas no âmbito social. Ativo ou passivo, casado ou solteiro, o que importa é que esse rapaz (como tantos outros) poderia ter sido flagrado, pelo vigilante vírus, em meio a uma relação homossexual. Isso se torna ainda mais assustador num país como o Brasil, farto em atividades “extracurriculares” e onde “É por debaixo dos pano/ Que a gente comete um engano/ Sem ninguém saber”. Ora, no caso da aids, também “É por debaixo dos pano/ Que a gente entra pelo cano/ Sem ninguém ver” — conforme a canção popularizada por Ney Matogrosso." (Destaques nossos)
Trecho do livro Devassos no Paraíso - A Homossexualidade no Brasil da Colônia à Atualidade de João Silvério Trevisan.
Os trechos do livro vão mostrar o posicionamento do autor em querer considerar as "homossexualidades" (a forma que o autor nomeia as sexualidades de pessoas LGBTQIA+) relacionadas ao "devir", ou seja, ressaltando as características imprecisas do desejo.
Ao mesmo tempo, lembra o quanto muitas práticas homoeróticas são exercidas na nossa sociedade por rapazes considerados "muito machos" exibindo seus membros genitais aos colegas, a cultura dos toques e as ditas "brincadeiras". O autor traz isso para mostrar o quanto muitas pessoas dessas estão exercendo relações homoafetivas e não consideram de tal forma. Nesse tópico, o livro de Trevisan mostra como essa ideia de "masculinidade" aqui no Brasil está relacionada intimamente com a homoafetividade.
Isso se expande nos estudos queer, expandindo essa questão além do binarismo. Contudo, não é o foco do autor nessa obra, ainda que seja uma ótima obra para ter uma visão geral da história LGBT no Brasil desde a colonização até mais ou menos o novo milênio, explorando bastante a movimentação da população LGBT nas décadas de 70, 80 e 90.
Postado em 6 de junho de 2022.















