Sobre a “aceitação” das pessoas LGBT pela sociedade capitalista
“Tais constatações se distanciavam da crença, veiculada por parte da mídia ansiosa em detectar novas tendências, de que o consumismo do chamado pink money resgatara de um modo definitivo os homossexuais para a sociedade capitalista. Em certa medida, já se passara a aceitar o bom-mocismo de pessoas HIV positivas que confessavam publicamente essa nova ‘qualidade’ do seu carácter, ou o exotismo da lesbian chic com ‘presença maciça na moda, no cinema e na música’, conforme hiperbólica constatação de um jornalista. No entanto, esse costumava ser um resgate tácito, um ato de condescendência que tolerava apenas sob rigorosas circunstâncias, aceitando uma homossexualidade clean, da qual estivesse depurado todo e qualquer resquício de ‘rebeldia’. Tal cooptação evidenciava-se, por exemplo, no caso da união civil entre pessoas do mesmo sexo, amplamente abordada pela mídia e que, apesar dos reacionários brasileiros de plantão, adquiriu certa simpatia internacional até mesmo em setores conservadores mais inteligentes. Mas, como essa ‘integração’ resultava de um beneplácito concedido pela sociedade ‘civilizada’, a reprovação continuava latente, pronta para disparar a condenação moral no momento oportuno. Não por outro motivo, casais homossexuais continuaram por um longo período proibidos de adotar crianças, ainda que reconhecidos legalmente.” (grifos meus)
Trecho do livro Devassos do Paraíso - A homosexualidade no Brasil, da colônia à atualidade de João Silvério Trevisan.
O trecho vem depois de uma pesquisa de dados da Datafolha de 1998 sobre a opinião da sociedade sobre a união civil entre pessoas LGBT.
Postado em 16 de maio de 2022.














