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𝐓𝐇𝐈𝐒 𝐈𝐒 𝐓𝐇𝐄 𝐄𝐍𝐃.
❪ᅟ𝐓𝐑𝐈𝐆𝐆𝐄𝐑 𝐖𝐀𝐑𝐍𝐈𝐍𝐆ᅟ❫ ━━━ TW: Morte e gore.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀06 de Junho.
Gaeul queria dizer que ter tomado a decisão de ficar para trás havia sido muito difícil, mas ele estaria mentindo. O futuro já tinha fechado as portas, o mínimo que poderia fazer por aqueles que amava era lutar para que conseguissem sair daquele inferno em segurança, e decidiu que usaria até o seu último fôlego para cumprir essa tarefa.
Enquanto as cinco correntes em seu punho pareciam ter ganhado vida própria, atacando as máscaras esqueléticas de todos os bingeos no alcance, Gaeul corria em direção a floresta por onde aquelas criaturas pareciam estar saindo. No caminho, gritou o máximo que podia, pedindo para que as pessoas recuassem e fossem para o portal, que voltassem para Avalon o mais rápido possível. Acabou sendo surpreendido pelo professor Leon querendo convencê-lo a ir junto com todos, o que achou um absurdo; apesar de no fundo saber que o homem só estava fazendo aquela tentativa pela mulher que ele amava… Yuna, sentiria falta da linda noona, de quem passava as tardes irritando desde que se conhecia por gente. Mas, obviamente, não poderia retornar e cumprir esse desejo dela. Gaeul falou para Leon com toda a firmeza que ele deveria se preocupar com a maioria ali já que era professor. Isso e mais algumas palavras um tanto rudes serviram para tirar o homem do seu pé.
O príncipe seguiu o seu caminho apesar da respiração descompassada. A briga das feras divinas ainda acontecia nas proximidades e, com um breve olhar, notou que Samjokgu estava em vantagem. Com sorte acabaria logo com tudo aquilo e colocaria Kumiho para dormir por milhares de anos. Ainda assim, era um tanto doloroso para ele ver sua patrona, com quem convivia desde o nascimento, naquela situação. Apesar disso, voltar atrás não era uma opção agora, nem mesmo para recuperar a própria vida.
“Fique perto, Bora!” Pediu ao que os passos ficavam mais devagar conforme sumia para dentro da floresta, se misturando por entre as árvores esqueléticas enquanto servia de isca para todas aquelas almas famintas. Gaeul olhou para trás, porém não conseguiu sequer um último vislumbre de seus companheiros, nem mesmo dos irmãos ou Peach, apenas viu uma horda de bingeos vindo ao seu encontro. Caçando-o.
“Gaeul…” o chamado da daemon era fraco e cansado, representando a situação do seu humano, que rapidamente entendeu a mensagem e parou de correr. Àquela altura tudo parecia doer. Seu corpo fervia como se tivesse sido jogado em uma piscina de ácido e estivesse se desfazendo aos poucos, mesmo que continuasse intacto.
O Kwak se apoiou em uma das árvores secas, com a raposa em meio às suas pernas. Sabia que não iriam conseguir fugir e nem resistir aos ataques por muito tempo. Seu físico estava afetado, não conseguia espremer mais nada dele. Então, usou o resquício de energia para manter as correntes da relíquia em movimento, girando ao redor da árvore em que eles se apoiavam, como um ciclone de metal em alta velocidade, impedindo qualquer bingeo de se aproximar sem acabar tendo um dos membros decepados.
Depois de um tempo era possível notar que as correntes não se moviam tão rápido quanto antes. Gaeul já estava sentado na raiz exposta da árvore, a cabeça apoiada contra o tronco e o peito se movimentando minimamente. Esticou a mão esquerda para pegar Bora e colocá-la confortavelmente em seu colo. “Obrigado por sempre ter sido a melhor parte de mim.” Agradeceu, dando um carinho fraco no focinho da daemon, que nada conseguiu dizer, somente lhe deu uma lambidinha carinhosa nos dedos, transmitindo nesta simples ação todos os sentimentos que Gaeul já conhecia.
Eles eram um afinal. Desde o começo até o fim.
Em algum momento o rugido da luta divina ao longe se extinguiu. Finalmente um dos animais tinha saído vencedor. Gaeul sequer percebeu isso, já estava zerado de forças quando as correntes negras caíram inertes no chão pantanoso e ele assistiu os bingeos pela brecha que ainda conseguia manter aberta em seus olhos. Sabia o que viria agora… seria devorado.
Bora respirou profundamente, expirando seu último sopro de vida. Ali não existia brisa, mas a raposa foi se desfazendo da ponta do rabo peludo até a cabeça, virando uma poeira brilhante e dourada que dançava no ar, até finalmente chover sobre o príncipe coreano. Era linda.
Ele agora não tinha mais alma. Estava sozinho. Os bingeos o deixariam em paz, desapontados.
Logo, Gaeul também sequer tinha vida. O último aperto da corrente em seu coração lhe trouxe alívio da dor imensurável que vinha sentindo. Primeiro afrouxou, como se tivesse desistido de o fazer sofrer, mas logo depois deu o seu aperto final, o mais forte de todos. A pequena adaga na ponta dela adentrou no grande músculo vermelho no mesmo instante, causando uma pressão que acabou fazendo o coração explodir brutalmente e abrir um buraco no tórax.
Assim como as almas esfomeadas que habitavam o Gamangnara, ele agora também tinha aquele espaço vazio no peito. Entretanto, diferentemente das criaturas, sua figura pálida parecia uma estátua de mármore, representando a história de um jovem príncipe que descansava naquela sombria floresta sem vida. Qualquer um que a visse saberia que, obviamente, havia sido abandonada ali, pois era uma imagem muito calma e bela, até mesmo brilhante. Algo incomum para o inferno.
𝐘𝐎𝐔 𝐀𝐍𝐃 𝐌𝐄 𝐀𝐍𝐃 𝐓𝐇𝐄 𝐃𝐄𝐕𝐈𝐋 𝐌𝐀𝐊𝐄𝐒 𝐓𝐇𝐑𝐄𝐄.
❪ᅟ𝐓𝐑𝐈𝐆𝐆𝐄𝐑 𝐖𝐀𝐑𝐍𝐈𝐍𝐆ᅟ❫ ━━━ TW: Menção a dissociação de personalidade e violência contra mulher.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀03 de Junho.
Se tinha uma coisa que deixava Kwak Gaeul fora de si eram seres intrometidos e linguarudos. Desde a infância, odiava que se metessem nas suas coisas. Talvez fosse o motivo de ter tido tanta antipatia por Hyesu logo no começo, antes de tudo pelo o que passaram e das coisas mudarem drasticamente. Ela e Taeul eram sem dúvida a dupla de pessoas mais irritantes que vagavam pela terra. "Acabamos aqui." A voz rouca e fria anunciou enquanto fechava o zíper do saco de dormir em que a princesa sul coreana havia sido colocada, ela estava completamente desacordada depois de um forte golpe recebido na cabeça, que deu fim a briga preliminar que iniciou há poucos minuto.
Kumiho não tinha tempo para brincar com crianças. Deixaria isso com Gaeul agora, era a hora dele fazer sua parte no serviço. Jogou o daemon coelho desacordado junto com a dona antes de o tecido preto ser completamente lacrado. O rapaz então usou os joelhos fortes para erguer o peso, colocando-a em seguida sobre um dos ombros. ━ Vamos logo, Bora. Quero voltar a tempo de comer um pedaço do meu bolo. ━ Ouviu-se a voz do Kwak, desta vez normal e sem quaisquer sinais da recente possessão.
Aquele andar do edifício estava vazio, a não ser por ele e pela raposa branca, que estivera de vigia enquanto a missão na sala do Jornal era concluída. A maioria das luzes estavam apagadas. Apenas alguns feixes iluminavam o caminho pelo qual os dois seguiam, ocultos nas sombras, passando silenciosamente e sem chamar a atenção para si. Obviamente iriam desconfiar se o vissem carregando aquilo do nada pelos terrenos da Academia, mas por sorte o saco parecia também com aqueles de guardar barracas para acampamento e, além disso, as pessoas sempre o evitaram, não seria agora que resolveriam abordá-lo.
Bora e ele não encontraram empecilhos durante todo o trajeto até o prédio da Loraj. Agora que estava casado, morava lá com Peach e teve dias o suficiente para conhecer melhor cada um dos cantos daquela casa; exceto, é claro, o imenso labirinto subterrâneo, ao qual estivera pouquíssimas vezes. Entretanto, naquela noite Gaeul tinha uma mapa. Era uma imagem detalhada do caminho a seguir, gravada em sua memória pela patrona que tivera a boa vontade de dividir um pouco do seu plano com ele. Gaeul estava feliz por isso, afinal compartilhava da irritação de Kumiho ao descobrir que pessoas haviam se intrometido no acordo deles, inclusive chamando um fantasma para enfrentá-la novamente, que acabou por deixar a imensa raposa ferida na noite anterior.
Eles teriam sua vingança. Custe o que custar. Samjokgu pagaria. Assim como Taeul e todos os infelizes enxeridos que ele arrastou para aquela sua loucura. Começando por quem lhe era mais importante: Hyesu.
A princesa não se movia, exceto pelo suave ir e vir de sua respiração. Deveria estar abafado lá dentro e Gaeul não teve cuidado nenhum levando aquele peso, nem se importando de desviar das pilastras e quinas no caminho.
Minutos depois, finalmente alcançaram a entrada do labirinto. O príncipe deu uma última olhada no corredor vazio para garantir que não estavam sendo seguidos, e depois sumiu escuridão a dentro, indo cada vez mais fundo na terra. Ele e a daemon ouviram muitos barulhos estranhos no percurso, ecoando entre as paredes de pedra do labirinto, porém não conseguiram ver nenhuma das criaturas que os produziam. Era ótimo não terem obstáculos ali.
Os passos silenciosos dos dois seguiram um ritmo constante, fazendo-os atingir o ponto final em pouco menos de uma hora. Gaeul tinha a visão perfeita, mesmo naquela pouca luz que parecia vir de lugar nenhum; ao virar a última curva, seus olhos avistaram o enorme rasgo no ar, como se alguém tivesse cortado a realidade com uma faca e aberto aquele tecido para o que estava por trás: um outro mundo. Era seco, frio, escuro e monocromático.
Enquanto passavam pelo portal rodeado por uma generosa camada do pó dourado, Gaeul se pegou pensando em todas as informações que tinha sobre aquele lugar. Sabia que na mitologia coreana existiam várias camadas no que muitos julgavam como o mundo da pós vida, e entre elas, aquela ali era a que as pessoas chamariam de inferno.
Para ele, contudo, era o Gamangnara.

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𝐅𝐎𝐑𝐄𝐒𝐓 𝐕𝐄𝐍𝐆𝐄𝐀𝐍𝐂𝐄.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀24 de Maio.
Os dias da lua de mel haviam sido proveitosos e rápidos. Foi um prazer inimaginável passar aquele tempo com Peach, apenas os dois e sem preocupações. Porém, parte de si achava aquela rotina doméstica bem tediosa e só queria voltar para o mundo real, onde poderia se satisfazer de outras formas mais caóticas. Por isso, enquanto estava de mãos dadas com a esposa dentro do carro que os levava de volta para a academia, Gaeul mantinha uma sombra de sorriso no rosto, ansiando pelo retorno à Avalon. Afinal, o incidente do último fim de semana com os irmãos Kwak tinha chegado ao seu conhecimento e agora o príncipe tinha coisas a conversar com Haneul e Shindeul.
Subitamente o percurso foi parado no que seria um trânsito envolvendo veículos e pessoas. Bora ficou agitada ao seu lado e lhe pediu para que abrisse a porta, pois queria sair para cheirar os ares. E assim Gaeul o fez, seguindo logo atrás da daemon ao perceber que Peach também tinha deixado o carro, curiosa.
Ainda estavam longe da instituição, então não deveriam ter parado. Mesmo que fosse um acidente, seria preciso apenas contornar e seguir caminho.
Gaeul percebeu algo de errado assim que se aproximou do grupo de pessoas reunidas ali. Assim como Bora, os cabelos em sua nuca se eriçaram, sentindo um poder imenso que parecia provir de todos os cantos. “Tá sentindo, não está? Há algo errado!” A raposa falou antes de pular e virar um corvo branco, indo pousar no ombro do norte coreano, que já abria espaço entre os outros corpos para ver o que parecia ser a raiz do empecilho.
Era uma barreira imensa, grossa e amarronzada. Gaeul estava prestes a tocá-la quando Peach apareceu ao seu lado e deu um chute naquela coisa desconhecida, despertando um curto riso no coreano.
━ É um sinal divino de que deveríamos ter ficado mais uma semana. ━ Ela disse, mas o príncipe duvidava disso. Além dos arrepios, sentia uma fonte de energia crescendo cada vez mais em seu âmago. E sabia que, nos últimos tempos, não existia lugar mais perigoso e emocionante do que a Academia Avalon. Estava feliz por ter voltado. ━ Gaeul… ━ Humano e daemon viraram o rosto ao encontro da tailandesa que, ao julgar pela expressão preocupada, deveria ter descoberto algo através da conexão que tinha com a natureza.
Os deuses estão tendo a sua vingança… Noah… O mundo estará condenado.
Ao digerir o que ouvia e ver as imagens no aparelho celular da esposa, onde informava a morte das plantações ao redor do mundo inteiro, Gaeul precisou reprimir um sorriso ao lado de Peach. Estivera livre da presença de Kumiho nos últimos dias, mas naquele momento sentia a mesma felicidade, poder e satisfação que a patrona. A floresta sagrada era mesmo sagrada para eles, então era satisfatório saber que a destruição dela não ficaria impune, mesmo se tratando de Noah; Gaeul conhecia bem o cavaleiro, ele era o seu capitão no time de Rugby e ainda tinha lhe apresentado o tal Círculo de Fogo. Mas nada disso importava. Que Noah pagasse por seus atos profanos.
Quando Peach falou de justiça, Gaeul concordou baixinho, envolvendo o corpo menor em um meio abraço. A mão vaga finalmente foi ao encontro da barreira, sua palma fria encostando a superfície árdua e quente. Conseguia sentir a vida correndo sob seus dedos, um pulsar forte e sutil, selvagem e raivoso.
O Kwak queria poder ajudar a fazer aquela justiça pela natureza, mas infelizmente estava incapacitado, trancado do lado de fora. Então apenas seguiu torcendo e esperando pela resolução de tudo aquilo.
…
Horas haviam se passado e nada parecia ter mudado no ambiente. O príncipe já estava impaciente, questionando aos deuses quanto tempo mais aquilo tudo levaria. Achar um humano não deveria ser problema para eles, certo? Por que eram tão incompetentes?
Então, em meio a noite que cobria o arquipélago, finalmente a barreira começou a se mover, deslocando-se para dentro da terra até desaparecer por completo, sem deixar quaisquer rastros de sua presença. ━ Já era hora! ━ Exclamou animado, pegando Peach pela mão e a arrastando consigo a pé pelo resto do caminho. Esperava ter a chance de ver um pouco de ação ainda… Entretanto, seus orbes escuros viram algo muito melhor…
Gaeul parou de súbito, ficando de boca aberta com a visão de todos aqueles seres magníficos marchando em conjunto. Entes eram criaturas muito antigas, sábias e poderosas. Eram protetores das florestas. Não devia ser surpresa que tivesse vindo atrás do culpado pelo incêndio - e nem demorado tanto, já que eram conhecidamente lerdos. Ainda assim, o príncipe mostrou seu respeito, soltando momentaneamente a mão de Peach e colocando-se de joelhos na terra enquanto se sentia uma formiga entre os gigantes. Bora voltou a sua forma raposa para acompanhá-lo na reverência; E assim eles ficaram até o último tremor dos enormes passos, quase tão antigos quanto a terra, sacudirem os cascalhos ao seu redor.
𝐓𝐇𝐄 𝐌𝐎𝐍𝐒𝐓𝐄𝐑 𝐈𝐍 𝐌𝐄 𝐍𝐄𝐕𝐄𝐑 𝐒𝐋𝐄𝐄𝐏𝐒 … 𝐒𝐎 𝐍𝐄𝐈𝐓𝐇𝐄𝐑 𝐃𝐎 𝐈.
❪ᅟ𝐓𝐑𝐈𝐆𝐆𝐄𝐑 𝐖𝐀𝐑𝐍𝐈𝐍𝐆ᅟ❫ ━━━ TW: Menção a feridas, gore, terror e machismo.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ 12 de Maio.
Mesmo se programando para chegar um par de dias antes do evento, a viagem de avião ainda levaria longas horas até que alcançasse o seu destino e Gaeul aproveitaria o tempo vago da melhor forma possível.
Escrevia seus votos enquanto bebericava um dos drinks servidos no jatinho. Era difícil escolher as palavras mais corretas, mas o príncipe se esforçou ao máximo para o fazer, querendo atingir o nível de perfeição que sua noiva merecia. Folhas e folhas foram amassadas e descartadas no chão de carpete. Era frustrante lutar com as palavras, especialmente quando ele já se julgava dominador delas.
Respirou fundo. Precisava descansar a mente e espairecer um pouco. Decidiu que logo depois de uma soneca ele retornaria para o discurso, estaria mais leve e certeiro. Gaeul pediu um travesseiro extra para a comissória e inclinou a poltrona luxuosa, colocando os tapa olhos e se concentrando na própria respiração até ser puxado finalmente para a inconsciência onírica.
Havia três dias que estava tentando contatar sua patrona sem sucesso. Kumiho, como sempre, fazia tudo conforme lhe dava na telha e decidiu aparecer - mais uma vez - em seu pacifico descanso. Por isso, a mente do norte coreano despertou para um cenário muito familiar: ele estava na sala principal d'O Palácio do Sol em Pyongyang. Era ali que seu pai, o rei, fazia suas reuniões e tomava as mais importantes decisões para a nação. Gaeul costumava brincar com seus dinossaurinhos sob a mesa quando era pequeno e, ao ficar mais velho, passou a prestar atenção e fazer notas mentais de tudo o que presenciava ali.
Sentada na cadeira central da longa mesa estava um linda mulher de pele alva e longos cabelos negros. Kumiho lhe recebeu sorrindo, indicando a poltrona logo a frente para que ele se acomodasse. Parecia estar de bom humor, o que era uma surpresa para o seu protegido.
Gaeul deixou-se afundar no estofado, os dedos das mãos cruzados e apoiados sobre a mesa conforme fixava o olhar no da patrona. O silêncio parecia se esticar e ele decidiu que, como estava mesmo querendo contatá-la, deveria falar primeiro.
— Peach e eu vamos...
— Eu sei! Não é maravilhoso? — A divindade o interrompeu com os dedos agitados no ar em animação.
— Você não sa...
— Eu sei tudo sobre você, Gaeul. Eu sinto. — Aquela afirmação foi o suficiente para lhe dar a certeza de que a patrona realmente sabia de tudo. Quis falar de suas breves inseguranças sobre o futuro para ela, mas sabia que jamais poderia. Insegurança era fraqueza e isso Kumiho não tolerava. — Você vai finalmente enfrentar as batalhas mais difíceis de um homem. Isso irá exigir muito de você, então espero que não me decepcione e acabe derretido por dentro. Ouviu? Não caia nas tentações da doce e falsa ilusão humana.
O príncipe acenou minimamente em concordância. Sentia a boca seca. O riso musical despertado subitamente pela raposa lhe causou arrepios na nuca. Era estranho vê-la tão animada.
— Como você tem se mostrado uma raposinha obediente e inteligente, eu vou lhe dar dois presentes para você começar essa nova fase da sua vida como merece. — Gaeul segurou a respiração inconscientemente, receoso do que poderiam ser os tais presentes que receberia. — O primeiro é um update e já está na sua mão. Gostou?
Um pouco confuso, o Kwak baixou a visão para as mãos unidas e, surpreso, identificou um objeto na direita. Eram cinco anéis escuros, todos interligados entre si e a uma pulseira no pulso por correntes de ferro enegrecido. De alguma forma, Gaeul não havia notado aquilo aparecer ali. Era como se o objeto já fizesse parte do seu corpo há tempos, não percebendo quaisquer mudanças com o encaixe dele.
— Sua nova relíquia! — A deusa apresentou, puxando-lhe a mão para apontar cada um dos anéis, até se deter no mindinho. — Esse aqui é novo. Você vai adorar! Vou te ajudar a treinar por alguns minutos e logo você pega o jeito. Vai ser uma carta na manga, muito útil. Agora... o segundo presente para o meu futuro rei!
O rapaz observou a relíquia em silêncio, imaginando o que aquilo significava e porque Kumiho parecia tão caridosa naquela madrugada. Havia algo por trás de todas as ações da patrona e ele deveria colocar o máximo de atenção para descobrir o que era o quanto antes.
As coisas ficaram ainda mais estranhas quando a divindade retirou algo de sob a mesa, exatamente do lugar em que o pequeno Gaeul se escondia durante as reuniões do pai. Seus olhos foram arregalados ao reconhecer o músculo vermelho e pulsante envolto em uma grossa corrente, cujo a ponta empunhava uma adaga pequena e curta, muito bem posicionada no centro do coração e sem feri-lo, como se fosse um lindo laço decorativo para o presente.
— É seu!
— Eu não o quero! Esse não foi o nosso trato.
— Fiz um novo trato, raposinha.
— Não importa, eu não o quero!
— Nãnaninanão. Tsc, tsc. Não é assim que a banda toca, Gaeul. Já se esqueceu de quem é o patrono e o protegido aqui? — Kumiho inclinou o tronco sobre a mesa, diminuindo a distancia entre eles, com o coração acorrentado no meio. Gaeul deu um salto para se afastar daquilo, ficando de pé ao lado de onde estivera sentado. — Não tenha medo, ele não morde! — A deusa falou com um risinho doce, mas a face subitamente ficou inexpressiva e os olhos raivosos habituais deram as caras. — Você não vai conseguir ficar mais forte se não lidar com sua natureza e superar suas fraquezas. Você tem ido bem até agora, raposinha. Eu lhe abri a porta e mostrei o caminho da vitória. Basta apenas que você o siga... Agora, pega logo isso!
As palavras da patrona deveriam fazer todo o sentindo, mas a mente do coreano estava turva com as lembranças doloridas da ultima vez que carregou aquilo no peito. Era verdade que os dias seguintes sem ele haviam sido muito mais fáceis. O príncipe a tudo ignorava e afastava, nada sentia. A vida era apenas um jogo de tabuleiro no qual Kumiho lhe ensinou a avançar burlando as regras. Gaeul se perguntava se continuaria avançando no mesmo ritmo com aquela farpa de volta em seu tronco. E, mesmo com as duvidas e um franzir nada satisfeito de sobrancelha, o Scion recolheu a parte que lhe faltava, segurando-a com a ponta dos dedos, como se temesse ser contaminado.
— Muito bem! — A satisfação da patrona era audível e Gaeul a olhou a tempo de ver o corpo intangível ultrapassar a mesa como se fosse vento até que a mulher se colocou ao seu lado. — Ouça o que vou lhe dizer com absoluta atenção... Não importa o que aconteça, não tenha medo de mostrar os dentes, meu pequeno. Lembre-se de que você não foi trazido a este mundo coberto de sangue para se tornar uma coisa gentil e domesticada. Ela vai lhe tornar sim um consorte real, mas você é muito mais do que isso. Você é mais do que um adereço, uma aliança. Você não é um pet. — Teve a mão com a relíquia novamente tomada pela raposa ao que era guiado para fora da sala principal. — Agora vamos treinar um pouquinho, hm?
Incapaz de dizer quanto tempo depois, Gaeul despertou novamente. Desta vez no avião particular onde tudo tinha começado. O peito clamava desesperadamente por ar e, assim que encheu os pulmões como um ser quase afogado que retornou a superfície, ouviu o rimbombar estranhamente familiar ecoando em seus tímpanos. O palpitar acelerado e incessante, como uma velha lembrança, parecia tomar todo o seu corpo. Assim mostrando que a parte sacrificada estava mesmo de volta.
O que iria fazer? Retornar ao status quo estava fora de cogitação. Kumiho o tinha enganado e agora lhe devolvia aquilo junto com presentes. Um imenso cavalo de Tróia, isso sim.
Gaeul pensou e pensou, como uma raposa tonta que andava em círculos sem parar em lugar nenhum. Foram vinte minutos antes de pousarem que sua daemon, Bora, deixou o assento do fundo para lhe lembrar que tinha algo importante com o qual lidar agora. Ainda precisava escrever os seus votos.
E desta vez, surpreendentemente, as palavras vieram mais facilmente.
𝐅𝐎𝐑 𝐌𝐘 𝐅𝐀𝐓𝐇𝐄𝐑, 𝐖𝐇𝐎 𝐈𝐒 𝐍𝐎𝐓 𝐄𝐕𝐈𝐋.
...
𝑾𝑬𝑳𝑳, 𝑴𝑨𝒀𝑩𝑬 𝑨 𝑳𝑰𝑻𝑻𝑳𝑬 𝑩𝑰𝑻.
❪ᅟ𝐓𝐑𝐈𝐆𝐆𝐄𝐑 𝐖𝐀𝐑𝐍𝐈𝐍𝐆ᅟ❫ ━━━ TW: Menção de Abuso psicológico, agressão, machismo, preconceito, violência doméstica e campo de concentração.
FLASHBACK
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀2008. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀
Gaeul estava animado em sair apenas com o pai naquele dia das crianças. Isso queria dizer que ele ganharia um presente especial, certo? Ao menos foi o que seu pai deu a entender com todo aquele suspense e o proibindo de contar aos irmãos. Gaeul esperava que o presente valesse mesmo a pena porque o caminho de carro até ele parecia que nunca iria acabar. Bom... até que acabou.
A visão do alto daquela estrada, que se assemelhava a uma linha no meio da montanha, deveria ser linda como todas as outras, só que não era. Grande parte do terreno plano bem abaixo de onde estavam era repleto de cabanas e construções quadradas. O lugar parecia ser povoado por crianças da mesma idade que ele, mas Gaeul era inteligente e sabia que só estavam pequenos daquela forma pela distancia em que ele os olhava.
Observando bem, ele conseguiu ver algumas grades e guardas marcando os limites da cidadezinha e que, curiosamente, todos os moradores dali usavam a mesma roupa. Gaeul notou um grupo afastado de pessoas ainda mais minúsculas e decidiu que aquelas sim eram crianças; e todas pareciam jogar uma espécie de beisebol improvisado, com pedaços de paus e uma bola estranhamente grande.
— Posso ir brincar com eles? — Gaeul perguntou conforme o carro seguia subindo cada vez mais pela estrada. Bora, a daemon mutável, na atual forma de um passarinho azul, piou baixinho, bem animada com aquela possibilidade.
— É claro que não! Onde já se viu meu filho se misturando com essa gente? — O pai respondeu com uma pitada de raiva no tom, mas de certa forma achando graça da burrice do filho. — Senta direito! Já estamos chegando.
Gaeul não entendeu a que tipo de gente o pai se referia. Afinal, eles ainda estavam na Coreia do Norte e todos ali eram irmãos. Ao menos havia sido isso que ele aprendeu nas aulas e não era nenhum burro para esquecer tão fácil. Porém, mesmo assim, decidiu obedecer seu Appa e ficar quieto no banco traseiro.
Entretanto, não demorou muito para Gaeul acabar se agitando novamente. Ele meteu a carinha entre os assentos da frente para ver melhor a grandiosa rocha da montanha adiante se abrindo silenciosamente como uma porta e revelando sua garganta cavernosa e iluminada. “Estamos indo ver o batman?” ele pensou, se animando ainda mais com esse tal presente que o pai vinha prometendo. Mas logo em seguida ele se xingou, pois sabia que aquele tipo de super herói nem existia. Dãh.
O veículo seguiu por mais alguns quilômetros caverna adentro, indo cada vez mais fundo conforme passavam por barreiras vigiadas por soldados, que rapidamente liberavam o caminho ao reconhecer o carro do Grande Líder.
— O que é meu presente, Appa? — Gaeul questionou incapaz de conter sua curiosidade. Os olhos castanhos brilhando de ansiedade e refletindo o perfil gorducho do rei ao seu lado.
— Aigoo! Você é mesmo impaciente como a sua mãe. — O pai se virou para bagunçar seus cabelos e foi interrompido pelo parar final do carro. — Hora de sair...
Gaeul não precisou ouvir mais nada, se apressando em abrir a porta e pular para fora do carro. Imediatamente notou que ali havia um grupo de pessoas, e que elas não eram do tipo comum. O principezinho conhecia muito bem cada uma daquelas medalhas e insígnias que carregavam em seus uniformes. Eram militares do mais alto escalão, todos eles.
Ouviu a voz grave do pai conversando com alguns deles e deu a volta no veículo parado para chegar mais perto. Logo sentiu a mão pesada do rei pousando em seu ombro e fazendo Bora escapar voando na última hora para ir parar no outro lado. Gaeul ouviu o senhor Kwak perguntar algo e alguém dizer “Já estão prontos!”, antes do grupo começar a ser guiado até uma porta camuflada na parede da caverna.
— Você já é um homem, meu filho. E homens precisam de responsabilidade para serem úteis nessa vida. Então... eu decidi começar a te dar algumas. — Percebeu que o rei falava com mais firmeza que o habitual, então deu mais atenção as suas palavras— mesmo que estivesse completamente chateado em saber que o seu prometido presente, no final das contas, era absolutamente nada. O pequeno Kwak não queria responsabilidade. Ele queria um novo kit de química avançada, mas o seu pai preferiu ignorar completamente os seus pedidos daquela vez. Por qual motivo? Só porque ele tinha nove anos e era o mais velho dos meninos? Que besteira! Taeul e Shindeul, assim como as meninas, todos tinham ganhado aquilo que pediram. Por que ele não? Aish!
— Eu não quero isso! — Reclamou em seu tom exigente de criança mimada. — Quero o kit de química ou um meteorito...— Foi repreendido por um tapa bem dado em sua nuca, deixando a região vermelha e ardida.
— Fique quieto quando eu estiver falando! Você não é mais uma criança, então aprenda o seu lugar. — Gaeul respondeu com um bico grande e olhar raivoso, mas permaneceu calado e escutando. — A sua irmã nasceu primeiro e é ela que vai reinar quando eu morrer. Mas uma mulher não tem capacidade de comandar um país sozinha, então é preciso que os homens cuidem de tudo por baixo dos panos. Mantendo a boa aparência. — O pai lhe empurrou pela porta que levava para uma uma sala grande e quase vazia; estava ocupada apenas por uma mesa de metal, onde armas de diferentes modelos descansavam. — Noeul é inteligente, mas não tem a força e nem casca necessária para ser o líder que a nossa Coréia precisa. Então, você como meu herdeiro mais velho e irmão dela vai precisar ajudar. Começando pelo trabalho sujo.
A ultima palavra do rei pareceu ter funcionado como um sinal de chamada, pois uma segunda porta, localizada no fundo da sala, foi aberta nesse instante, e de lá saíram guardas guiando algumas pessoas. Gaeul contou dez. E todos pareciam usar as mesmas roupas. Fazendo-o achar que deveriam pertencer a cidadezinha que ele viu lá fora minutos antes, aquela em que os meninos estavam jogando beisebol.
Assim que os dez foram postos de joelhos no chão encardido, o seu pai lhe incentivou a chegar mais perto junto com ele. Gaeul percebeu que, apesar das faces inchadas e maltratadas, os prisioneiros eram de idades diversas e dos dois sexos também. O que será que tinham feito para estar com aquela aparência?
— Lembra o que conversamos sobre invejosos, traidores e inimigos? Que todos eles parecem estar lá fora, buscando um jeito de nos atacar e destruir? — Gaeul acenou afirmativamente em resposta a pergunta. — Muito bem! Então, alguns deles conseguem se infiltrar em nossa terra sagrada e tentam fazer o mal a ela e ao nosso povo. — O pai de Gaeul se afastou para ir dar uma olhada nos objetos sobre a mesa, deixando o garoto sozinho ali, encarando os olhos amedrontados e sofridos dos ajoelhados. —Espiões sulistas. Ladrões. E cidadãos ingratos, que não valorizam o próprio país e tentam sair daqui carregando inúmeras calúnias. Traidores. Todos eles.
Enquanto o pai falava, o príncipe reconheceu o homem ajoelhado mais próximo a si. Ele tinha algumas poucas mechas de cabelo branco entre os frios extremamente negros e uma pinta no lado esquerdo da testa. Era com certeza um dos cozinheiros do palácio; aquele que sempre lhe dava doces escondido antes da hora do jantar. Gaeul estivera sentindo mesmo a falta dele nas ultimas semanas.
— Cadê o seu daemon borboleta? — O menino perguntou ao conhecido, notando pela primeira vez a ausência das almas alheias naquele cômodo. Em contraste, Bora piou em seu ombro também curiosa. Mas ambos não receberam nada mais do que um breve olhar.
— GAEUL! — Teve a atenção chamada pelo rei, dando um pequeno salto no lugar. — Não está me ouvindo? Acabei de dizer que todos são traidores. Não fale com esses dejetos humanos... Aqui! A sua responsabilidade. — O príncipe se virou para se deparar com uma arma sendo oferecida. Gaeul não se assustava com armas, era crescido e já tinha usado uma delas durante a temporada de caça. Apesar disso, pegou o objeto um pouco receoso, sentindo o seu peso e sabendo por aquilo que ela estava completamente carregada. — Lembra o que eu te disse sobre as pragas na lavoura?
— Uma praga atraí milhares de outras e elas destroem tudo o que lutamos para construir. — Gaeul citou palavra por palavra, mostrando que tinha boa memória. — Exatamente! Está vendo isso ai? São todos pragas. Dejetos que querem estragar aquilo que nos esforçamos para construir nesse país. E o que nós devemos fazer com as pragas? O cérebro do pequeno Gaeul demorou apenas alguns segundos para compreender o que o pai lhe dizia. Ele engoliu seco antes de responder baixinho e inaudível.
— Fale mais alto, garoto!
— N-nós as eliminamos.
— Garoto esperto! Isso mesmo... Então, pode começar a eliminar por esse aqui. — A mão pequena que segurava a arma foi guiada pela maior, deixando o cano apontado para o familiar cozinheiro. Nessa hora, o coração de Gaeul batia tão rápido quanto as asas de beija flor da alma em seu ombro. Suas mãos suavam e ele temia que pudesse derrubar a arma por acidente.
— Mas... Appa... Mas... Mas... — gaguejou.
— Mas o que, Gaeul? Faça logo! — O tom subitamente rude do pai lhe fez tremer e despencar a chorar. As lágrimas translúcidas e quentes marcando caminho no seu rosto infantil e de bochechas salientes. — Que porra! Para de chorar, menino! Agora! — Apesar das ordens gritadas em seus ouvidos, o Kwakzinho parecia incapaz de segurar o choro ou controlar os soluços assustados que deixava escapar. Então ele teve os braços puxados até se ver de frente para o rei, encarando o rosto redondo e vermelho do mais velho... Appa não parecia nada feliz. — Homens não choram, me ouviu? Isso é coisa de garotinha! Agora para com isso e faz o que eu mandei. Não me dê o desgosto de ter tido três filhas mais velhas ao invés de duas.
Aquelas palavras obviamente não ajudavam o garoto a se acalmar, e tudo só pareceu piorar quando o estralo alto do tapa forte no rosto bochechudo ecoou pela saleta. Gaeul teve a face virada com força pelo impacto, os olhos marejados implorando por alguma ajuda dos adultos que a tudo aquilo viam sem mover um músculo. Teve a atenção voltada para o pai quando os dedos dele se afundaram em seu queixo pequeno, forçando Gaeul a olha-lo novamente.
— Para de chorar! Você acabou se mostrando mais uma decepção! O que é uma pena porque eu sempre esperei grandes coisas de você, Gaeul. Mas pelo visto me enganei, não é mesmo? Talvez ainda tenha alguma sorte com o Taeul ou Shindeul. — O nome dos irmãos fez os soluços do príncipe pararem um pouco e isso trouxe um sorrisinho malicioso aos lábios finos do monarca. — Isso mesmo que ouviu! Seus irmãos mais novos devem ter mais coragem do que você. Então vou trazer os dois aqui e dar a eles a responsabilidade e título de homens, já que você claramente não merece... É mesmo só um bebezão chorão.
Kwak Jung-Gun adorava atiçar a competitividade entre seus filhos pequenos e, pela reação de Gaeul, achou que daquela vez também funcionaria colocar uns contra os outros para conseguir o que ele queria. Mas na realidade, a torneira de lágrimas do principezinho foi fechada não pelo desafio apresentado e sim pelo mais puro medo que tomava seu coração. Afinal, Gaeul cresceu sendo ensinado que devia proteger a família a todo custo, e seus irmãos eram a sua família. Taeul e Sindeul eram pequenos. Frágeis. Não poderia deixar que eles enfrentassem algo daquele tipo apenas porque ele próprio estava com medo. Afinal, seus irmãos eram só bebês burros, catarrentos e que nada entendiam... Mesmo que eles fossem apenas um e dois anos mais novos do que si.
— N-não, Appa... Não... — Engoliu o choro, contendo o que ainda restava dos soluços em seu peito. — Não sou um bebê! — Respondeu com mais força e uma pitada de raiva, que fez o pai sorrir ainda mais.
— Não é? Hm. — O tom duvidoso do homem fez Gaeul franzir o cenho, o enfrentando. Então se deixou ser virado e colocado novamente de frente para as pessoas ajoelhadas. A arma em sua pequena mão foi erguida novamente pelo pai. — Então me mostra.
A mão do garoto tremia um pouco e o bloqueio na sua mente ainda o impedia de agir. Foi então que sentiu o empecilho ir embora de vez e sua cabeça ser enchida por uma voz familiar. “É como caçar cervos, Gaeul. A consciência se esvai e eles viram pó. Não tem diferença nenhuma entre homem e animal. Mesmo vocês se achando mais inteligentes!” Kumiho lhe falava em sussurros reconfortantes. As palavras acariciando e acalmando seus nervos, assim como seus pensamentos amedrontados e confusos. “Apenas faça de uma vez, sim? Mostre a ele a sua coragem. O seu controle e poder. Mostre quem você é de verdade! Mostre... ou viva como uma decepção... uma vergonha... para ele e para mim.”
Segundos depois, após respirar fundo e sua mão se firmar minimamente... Gaeul mostrou. E mostrou novamente. Não uma, não duas e nem dez vezes apenas. Já não existiam dedos o suficiente nas suas mãos infantis para contar.
𝐀 𝐑𝐀𝐈𝐍𝐇𝐀 𝐍𝐔𝐍𝐂𝐀 𝐒𝐄 𝐀𝐓𝐑𝐀𝐒𝐀
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ 25 de Abril.
Com a academia praticamente vazia já que grande parte dos nobres haviam viajado para comparecer ao velório da rainha Rosário, o príncipe norte coreano aproveitou a paz que caiu sobre a instituição de Avalon para fazer algo que há tempos não fazia: bagunçar.
O irmão mais novo, Shindeul, foi o seu cumplice naquela madrugada de diversão, no qual os Kwaks invadiram diversos quartos na surdina e espalharam o máximo possível de caos dentro deles, a julgar o que conheciam das pessoas que ali habitualmente repousavam e o que as faria pirar.
O dormitório do duque insuportável sul coreano foi o primeiro alvo e acabou repleto de lixo espalhado por todos os cantos, assim como um presente quentinho e especial de Bora por entre os travesseiros e fronhas de Junho. Depois veio os peixes podres escondidos no quarto de Gen, a inundação do banheiro e inserção do colchão de água furado para Hyesu, a organização impecável do quarto aka lixão de Taeul, a exposição e sumiço de alguns brinquedos sexuais do idiota do Yohan, e etc.
Já estava quase no meio da tarde quando Gaeul se deu por satisfeito. Ele se sentia faminto, precisando repor energia, e por isso acabou meio que convidando/aceitando ir almoçar com Yujin. Porém, achava que, com toda aquela demora para ir encontrá-lo, a dama de companhia parecia estar se arrumando para um evento formal da realeza ao invés de um simples almoço no vilarejo. Naturalmente, após isso, Gaeul foi implicando com a garota o caminho inteiro, mesmo que no fundo apreciasse a companhia dela.
Os dois coreanos escolheram um restaurante asiático para matar a saudade das comidas de casa. Eles estavam ocupados saboreando e conversando — com Gaeul suspeitando que o sugar daddy de Yujin era na verdade o velho imperador chinês e achando isso extremamente nojento, mas inteligente também. Hm.
O príncipe notou de soslaio uma agitação na cena ao vivo que passava na televisão do restaurante. O velório de Rosário estava em todos os canais. Contudo, parecia estar sendo mais animado do que o esperado de um evento como aquele. Em razão disso, de início foi meio difícil entender o que se passava por lá, ainda mais com Yujin tagarelando sem parar ao seu lado. — Ei, ei, shhhhh... — enfiou um pedaço de carne enrolada em alface na boca da amiga, tentando mantê-la ocupada e quieta. — AUMENTA ISSO AI! — Ordenou para o funcionário mais próximo, que após um susto repentino, que quase levou a bandeja lotada que ele carregava para o chão, foi prontamente obedecer.
As íris negras de Gaeul estavam focadas na tela com toda atenção, buscando identificar os indivíduos que se agitavam em frente as câmeras (Quem sabe encontrasse Peach?) e o motivo para tudo aquilo. Foi então que, após algum tempo, um dos príncipes cabeçudos finalmente notou que não era transparente e saiu da frente, dando a chance da audiência de longe ver a mudança súbita que ocorreu no corpo que estava sendo velado. Um breve deslumbre e já era possível reconhecer que, obviamente, aquela sendo velada não era a noiva de Hyunjae. — Mas que porra...? — Bateu as palmas abertas contra a mesa, curvando o corpo alto na direção do aparelho. E, nesse exato instante, assistiu um portal dourado repentinamente se abrir no teto da catedral, cuspindo a verdadeira rainha Rosário de lá. E ainda parecia viva! — Fuck me! — De boca aberta, era difícil acreditar no que seus olhos viam. Podia ser um truque, efeito, ou qualquer coisa assim. Mas, através da sua visão microscópica, Gaeul reconheceu que o pó dourado no outro lado da tela tinha as partículas semelhantes á aquele que surgiu no meio da academia semanas antes. — Só pode ser... — Foi interrompido por um líquido gelado sendo jogado em jato na sua cara. Virou a tempo de ver Yujin que, também assistindo a cena e ficando igualmente surpresa, estava cuspindo todo o refrigerante nele. — ... brincadeira! — Achava que tinha até bebido um pouco daquela mistureba de refri e baba. Ótimo! — Pelos deuses, controla a sua boca furada! — Reclamou, lançando um olhar assassino para a menina, o qual rapidamente se suavizou ao que sua atenção voltava para o programa televisionado e ele tentava se secar com alguns guardanapos.
“Perdi minha aposta!” reconheceu mentalmente para a daemon, que também compartilhava o seu choque pela situação. “Ela saiu de um portal, você viu? De onde será que ela veio? Dessa ou de outra dimensão?” Gaeul não tinha as respostas para aquelas perguntas de Bora. Não ainda. Humano e daemon seguiram em silêncio, tentando ver a conclusão daquele plot twist digno de Hollywood. Até que a raposa comentou baixinho: “Como isso é possível?! Ela enganou a todos. Humanos. Deuses... até a morte.” Isso acendeu uma lâmpada na mente genialmente perversa de Kwak Gaeul.
Não sabia ainda como as coisas relacionadas a morte e a ressureição de Rosário tinham acontecido. Mas uma coisa era certa: o protegido de Kumiho aceitou aquilo como um sinal dos universos para ele.
Tive uma ideia!
𝐒𝐓𝐔𝐏𝐈𝐃 𝐇𝐔𝐌𝐀𝐍 𝐑𝐀𝐂𝐄.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ 18 de Abril. Entre 23:15 e 01:50 AM. ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ FLORESTA.
Ter a mente invadida por uma deusa desconhecida durante seu sono lhe dava uma sensação de exposição imensa. Odiou aquilo. Os outros deuses não sabiam seus limites? Deméter simplesmente apareceu em seus sonhos lhe dando ordens para que realizasse um tipo de sacrifício em nome da sua patrona. Bullshit. Gaeul sabia que a grande raposa de nove caudas pouco se importava com aquelas coisas. Flor carnívora e pertences significativos? Bullshit again. Kumiho gostava mesmo era de coisas que lhe trouxessem prazer e poder, e aqueles objetos estavam longe de ser algo que agradasse a entidade coreana.
Conhecendo sua patrona melhor do que ninguém, Gaeul optou por realizar seu sacrifício semanal a ela mais cedo naquela semana. Afinal, todos pareceram ter seguindo as ordens da deusa grega e ele não queria que Kumiho se sentisse ofendida ou deslocada por não receber nada naqueles breves dias. Sabia que o orgulho das divindades era sensível como cristal e a última coisa que queria era ferir aquela que tanto lhe dava.
Por essa razão, o norte coreano caminhava com sua daemon pelo terreno negro, agora repleto de cinzas e esqueletos de árvores, do que havia restado após o incêndio na floresta sagrada. Aquele era seu lugar preferido em toda Avalon, onde se sentia mais próximo da raposa de nove caudas e por isso sabia o real significado do título “sagrado”. Porém, algum mentecapto conseguiu destruir tudo aquilo num piscar de olhos. Seja por acidente ou vontade própria, o idiota iria pagar mais cedo ou mais tarde. Sabia disso.
O cheiro das cinzas no ambiente externo era mistificado pelo intenso e agradável petricor que exalava da terra úmida. As lágrimas do céu estavam frias e intensas naquela noite. O que Gaeul achou ótimo, pois assim teria menos chances de ser visto ou atrapalhado. Usava um casaco negro impermeável e o capuz deste cobrindo os seus fios vermelhos. Em um dos ombros carregava uma grande bolsa multiuso, que mais parecia um saco de dormir com alguém dentro. Qualquer olhar curioso acharia aquilo no mínimo suspeito. Mas o príncipe duvidava que houvesse alguém mais por ali e, mesmo que estivesse errado, a chuva e escuridão eram o suficiente para mantê-lo invisível no ambiente em que praticamente se camuflava.
Os pelos de Bora já se encontrava completamente molhados aquelas horas, dando a ela a aparência de que era ainda menor do que o habitual. E a raposa, como sempre, guiava seu humano através daquele cemitério que a floresta havia se tornado. E se transformaria ainda mais, literalmente.
Caminharam por quase uma hora até chegarem num pequeno barranco, que se formou devido as chuvas constantes na região. Gaeul e Bora deslizaram com habilidade na terra escorregadia, como se já estivessem habituados com aquela parte do terreno. Contaram exatos doze passos até ficarem de frente para uma abertura arredondada. Uma toca de raposa.
Gaeul precisou usar os poderes para diminuir a altura do corpo e também a largura dos ombros, assim podendo adentrar na toca arrastando a sacola sem problemas. O lugar era escuro e fétido, mas nada ele fez além de um leve franzir no nariz. Então, após engatinhar por poucos metros, a passagem se abria para um espaço maior, no qual ele já conseguia ficar de pé com aquela estatura. Os sapatos molhados tocaram o chão e o ruído seco de algo sendo quebrado sob eles ecoou por toda a escuridão. O príncipe já saberia reconhecer o que era aquilo mesmo sem a visão noturna que lhe era natural.
O chão estava repleto de ossos e restos de animais predados que ele vinha deixando por lá desde o início da graduação. Em um ritual constante de sacrifício e idolatração para sua patrona. Porém, o daquela noite era bastante especial.
Gaeul acomodou o saco sobre a parte mais alta e limpa daquele solo, sendo que ele e Bora se colocaram em lados opostos da oferenda para realizarem suas preces em agradecimento a Gumiho; esta acabou terminando com um: “Humans are the worst. Make them pay.” vinda de ambos.
O deslizar do zíper sendo finalmente aberto era gritante e ribombava nas paredes lamacentas do lugar. Aquele som irritante o fez lembrar do último clamor daquele que tinha carregado nos ombros até ali. Mas Gaeul olhava para o interior do saco sem qualquer emoção ou remorso. Afinal, os dois não se conheciam e aquele era apenas um qualquer que vivia bêbado pelas ruas do submundo de Avalon. Não tinha família. Eram apenas ele e a daemon ratazana.
— Ninguém vai sentir sua falta. — A voz inexpressiva saiu em sussurro. O príncipe então se levantou para remover a corpulência alheia do saco e o deixar ali em meio ao mar de ossos, logo refazendo seu caminho de volta para a floresta de onde então seguiria para o dormitório da Loraj. Lá, teria uma noite tranquila e confortável numa cama quente e dividida com sua noiva. Sendo essa uma realidade completamente diferente daquela do individuo desmaiado que ele estava deixando para trás: solitária, fria e úmida. E se ele tivesse sorte, Kumiho seria rápida e piedosa.
Enquanto Gaeul terminava de engatinhar pelo corredor de saída da toca, logo atrás de Bora, e finalmente escutava o barulho da chuva lhe recebendo de volta, o nortenho pensou: Isso é algo que temos em comum.

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AVALON IS FALLING DOWN.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ 23 de Março. Entre 23:45 PM e 03:00 AM. ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ FLORESTA. ⠀⠀⠀
Odiava aqueles eventos tediosos que a academia insistia em promover diversas vezes no ano, como se ninguém tivesse mais o que fazer além de se vestir elegantemente e ficar vagando por um salão sem qualquer objetivo.
Ao menos Gaeul tinha a noiva consigo daquela vez para se distrair. Andaram de mãos dadas e roubaram beijos um do outro sem qualquer pudor, afinal nada além dos dois era mais importante. Vez ou outra se separavam momentaneamente para falar com outras pessoas, mas rapidamente voltavam para o abrigo confortável que era a presença do seu par.
Estavam em um desses momentos afastados, porém prestes a se unirem quando os olhos finalmente se encontraram em meio ao salão e um sorriso nasceu no semblante de ambos. Todavia não tiveram a chance de se aproximarem o suficiente antes do caos ser instaurado de vez sobre Avalon.
Um grito grave e moribundo que se espalhou em um volume tremendo pelo campus gelou a espinha do coreano. As pálpebras se abriram ao máximo buscando identificar de onde aquilo vinha. “A floresta!” Bora o avisou, sempre posta ao seu lado e compartilhando seus pensamentos. “Está em chamas!”
Após o choque inicial, veio o desespero dos presentes e as pessoas começaram a correr sem qualquer controle pelo salão. Muitos empurravam o príncipe numa tentativa de ultrapassá-lo, quando tudo o que ele queria era chegar até Phitchaya. Mas... onde a princesa tinha ido parar? Será que durante um segundo de distração seu a mesma correu junto com a multidão e desapareceu? Aish!
Enquanto tentava localizar a tailandesa entre os que deixavam o local, Gaeul teve aquela mesma sensação de quando duelou com Geneviève dias atrás: o chão tremendo bruscamente sob seus pés. Esperou que uma cratera fosse se abrir e sugá-lo novamente, mas ela não veio, apenas o forte estrondo de coisas muito grandes sendo destruídas e caindo ao longe. O que diabos está acontecendo? Olhou para a daemon em busca de respostas, só que ela agora parecia mais perdida do que ele. Foi então que a voz de Gumiho sussurrou em seu ouvido. De início parecia apenas uma brisa suave, mas logo conseguiu identificar as palavras de ordem que recebia. Murmurou um — Sim, senhora — antes de ele mesmo sair correndo para fora do salão, completamente esquecido de seu objetivo inicial: localizar Peach.
As pernas longas do coreano corriam como o vento, percorrendo toda a distância do arquipélago até a floresta como se fosse um velocista profissional. Sabia o caminho de cór, pois ficava exatamente ao lado do complexo de ciências onde ele passava a maior parte dos seus dias. Conforme se aproximava, o inferno a céu aberto ficava cada vez mais visível, engolindo tudo ao redor com seu calor insuportável.
— Você pega os menores e eu os outros. Vamos carregar o máximo que der por vez! — Orientou a daemon sem que eles parassem de correr por um segundo. Gaeul ignorou as repreensões que foram gritadas em sua direção quando ele e a raposa praticamente se jogaram no incêndio, sendo engolidos pelas chamas.
As roupas não resistiriam por muito tempo e ele nem pensava nisso. Ocupou-se em continuar correndo, desta vez com Bora na dianteira, que usava o olfato afiado e batalhava contra o calor e as cinzas para sentir os odores das criaturas que ali viviam. “Por aqui!” Ela saiu em disparada com Gaeul em seu encalço, estavam indo em um caminho familiar, o nortenho notou. Já fizeram aquele percurso em noites frias quando iam prestar suas oferendas a patrona. Desta forma, acabaram em uma das pequenas clareiras que compunham o terreno da floresta. O espaço havia se tornado refúgio para um grupo de animais diversos, todos desesperados e tentando escapar do fogo que destruíra seus lares.
Era como se alguém os tivesse ordenado que se reunissem ali e aguardassem por ajuda.
Gaeul começou pelos menores, jogando roedores sobre as costas de Bora e pedindo que ela orientasse os animais que pudessem andar para segui-los, já o resto deveria esperar até o retorno dos dois. Tirou então o blazer chamuscado e praticamente o encheu com algumas famílias de coelhos, sentindo as pernas e ombros sendo tomados por outras criaturinhas desesperadas por salvação antes de iniciarem o caminho de volta.
Foi ainda mais difícil encontrar uma direção segura com o incêndio se alastrando cada vez mais, mas Bora estava confiante e guiou a todos com segurança pelo caminho até o rio. Minutos depois, que pareciam mais uma eternidade, chegaram com os primeiros resgatados até o ribeiro. E, sem perder qualquer tempo, Gaeul umedeceu o blazer - agora vazio - nas águas gélidas do rio, sabendo que aquilo ajudaria quem estivesse com problemas para respirar em meio a toda aquela fumaça.
Então humano e daemon mais uma vez adentraram nas chamas. Fizeram aquilo mais do que dez vezes, indo e vindo, guiando e carregando os animais que encontravam no caminho. Gaeul por vezes precisou usar suas habilidades de metamorfose para criar asas ou uma pele mais grossa e resistente ao fogo. Mas não se importava com as inúmeras queimaduras que adquiriu, elas sarariam depois e tudo o que ele precisava fazer era resistir a dor e continuar.
Durante seus trajetos de salvamento, o Kwak ignorava totalmente qualquer vida humana que suplicasse por sua ajuda. Eles que se fodam! Foram os culpados. Sempre são. A raiva parecia um combustível que o fortalecia e o incentivava a seguir com a missão dada por sua patrona. Porém, seja quem fosse, Gaeul se recusava a salvar a vida de qualquer pessoa ao invés de um dos animais. Afinal estava ali por eles. Não fosse isso, o nortenho estaria apenas assistindo tudo de camarote e esperando a conclusão.
𝗧𝗛𝗘 𝗕𝗥𝗢𝗞𝗘𝗡 𝗔𝗥𝗘 𝗧𝗛𝗘 𝗠𝗢𝗥𝗘 𝗘𝗩𝗢𝗟𝗩𝗘𝗗.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ 29 de Março. Entre 03:00 e 09:00 AM. ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ IGNIS-A02 ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀
Pensar que teria uma noite calma depois daquele duelo contra a monegasca havia sido o seu maior pecado, pois ficou confortável demais, despreparado e com a guarda baixa enquanto pegava no sono abraçado ao corpo feminino ao seu lado.
A escuridão silenciosa de um repouso profundo veio, mas não durou muito tempo. Em seus sonhos, Gaeul abriu os olhos para se deparar exatamente no lugar em que estava quando dormiu. O seu dormitório. Estava literalmente tudo igual, assim como a posição em que ele havia se deitado. Era difícil até mesmo para ele saber se aquilo era um sonho ou realidade.
Bora saiu de sob a cama e lhe lançou um olhar profundo. Disse que estava com os pelos das costas arrepiados e ambos sabiam que aquilo nunca era um bom sinal. Coisa que não tardou a se concretizar quando ouviram um estralar de língua provindo das sombras próximas a entrada do banheiro.
— Quem está ai? — exigiu saber, tirando sutilmente o braço que envolvia o corpo menor com o qual dividia a cama e se sentando contra a cabeceira. — Revele-se.
— Você tem o tom de um verdadeiro imperador, raposinha. — A voz de Kumiho precedeu a silhueta feminina que se pôs diante da janela, saindo das sombras e sendo iluminada pela luz prateada do luar. — É uma pena que seja tão desobediente.
A respiração de Gaeul pausou ao que reconheceu a patrona bem ali no meio da madrugada e em seu dormitório. A aparência dela se assemelhava a da ultima vez: uma atraente mulher, com cabelos longos e olhos profundamente negros. Contudo, desta vez, um par de orelhas peludas e brancas saíam de entre as grossas madeixas que emolduravam o belo rosto da entidade. O nortenho podia dizer, somente pelo olhar frio que recebia, que a raposa não estava contente. E ele já sabia o porque.
— Eu não podia fazer aquilo. — Sussurrou baixo, temendo acordar a garota ao lado e o daemon roedor dela para aquele pesadelo no qual se encontravam. — Ainda não tenho controle do fogo negro. Se eu tivesse usado ele teria causado um enorme acidente. Bora estava na arquibancada e... — Desviou o olhar para a companheira dormindo ao lado, dando a entender que ela também estava naquele cenário que narrava.
— E? — A pergunta sem emoção de Kumiho pareceu ecoar pelo quarto. Um curto tempo de silêncio ficou entre os dois conforme Gaeul tentava pensar em uma complementação a sua resposta e a raposa o olhava sem piscar. — Eu entendo, Gaeul! Entendo seu fraco ponto de vista. — A voz estava mais leve apesar da expressão raivosa continuar carregada no olhar. Kumiho se aproximou lentamente da cama em que a dupla estava acomodada, fazendo um carinho com suas unhas afiadas nos cabelos negros da tailandesa que dormia. — Seria mesmo um desperdício, não é? O gordo do seu pai escolheu bem, ao menos isso. E é claro que precisei dar um empurrãozinho, mas... o resto do trabalho, você está fazendo muito bem, Gaeul. Não vai demorar muito até ela soltar a palavrinha mágica quando olhar pra você com esses grandes olhos de esquilo. — A entidade riu nasalmente, afastando a mão da cabeça da garota e erguendo o olhar para o pupilo. Ao menos naquele existia uma ponta de orgulho.
— Entende? — O príncipe questionou, engolindo em seco e um pouco aliviado que a patrona estava finalmente se afastado de Peach, começando a dar a volta na cama para que pudesse ir até seu lado. — Eu queria vencer. Podia vencer em segundos...
— E por que não venceu? — A mulher lhe interrompeu. — Eu não aceito desobedientes, quanto mais perdedores. Você sabe disso. Vai me dizer que estava com pena? — Suspirou longamente, meneando a cabeça em negação. — Isso é péssimo, raposinha. Vamos precisar acelerar as coisas, não acha? Fortalecer esses seus pontos fracos que ainda restam.
Os olhos do coreano se abriram levemente para assistir a aproximação da deusa. No entanto, ela parou entre ele e a daemon Bora. Parecia congelada e o rosto bonito não estava nada feliz.
— Sim, senhora. Não vai se repetir. — Desviou o olhar numa rápida reverência, sabendo que tinha falhado com a patrona apesar de tudo. Ainda era fraco e inútil para ela. Precisava melhor.
— Ah, não vai mesmo. — O tom ameaçador quase foi apagado pelo sorriso carinho nos lábios cheios da mulher. Ela começou a recuar, se afastando de Gaeul e ficando apenas ao lado de Bora, como se tivesse decidido partir dali. Entretanto, num súbito movimento, as unhas negras da patrona agarraram a raposa do ártico, erguendo-a do chão com um aperto firme na garganta do animal.
Bora guinchou e debateu o corpo no ar. O rabo peludo e as patas agitadas conforme ela tentava se soltar. Ao presenciar aquilo, o príncipe jogou as cobertas para longe e saltou da cama para interferir. Porém não conseguiu dar um passo sequer, já sentindo exatamente o que a daemon sentia: um colar sufocante pressionando firmemente sua garganta e criando empecilhos na respiração.
— N-não... Bora... não. — Conseguiu falar entre sugadas profundas e trôpegas de ar. Uma mão tentando se livrar do aperto invisível no pescoço enquanto a outra se estendia ao encontro da daemon, tentando alcança-la. E os segundos parecerem durar uma eternidade enquanto Kumiho o encarava, sem dar sinais de que pararia de sufocá-los.
— Ela não? Hm... está bem! — Falou e em seguida abriu os dedos de aço, liberando a raposa que, sem nem mesmo esperara qualquer recuperação correu para trás de seu humano. Gaeul ordenou que Bora ficasse sob a cama novamente, protegida. E lançou um rápido olhar para a garota ainda dormindo em sua cama, que parecia afundada em um sonho gentil e calmo. Isso lhe trouxe alívio. Mas quando retornou a atenção para a patrona, perdeu o sutil franzir de cenho que a tailandesa dava em seu sono, que claramente estava sendo abalado por algo.
— Fizemos um pacto, Gaeul! Você se lembra? Devoção total em troca de poder. Eu estou cumprindo a minha parte, mas você infelizmente não está fazendo a sua. — A mulher soltou um novo suspiro. — Agora precisa lidar com as consequências.
Scion e patrona se encararam em silêncio. Gaeul respirou fundo e deu um leve aceno em concordância com o que ouvia. Tal ato trouxe um sorriso aos lábios de Kumiho, mas este aos poucos foi ficando pontudo conforme as presas apareciam cada vez maiores. A bela pele de pêssego foi se preenchendo de pelos brancos e a mulher aos poucos adquiriu a sua forma natural: uma enorme raposa branca com nove caudas.
O príncipe deu um passo para trás, encarando aquela imagem com olhos arregalados e assustados. O focinho raivoso estava a centímetros de seu rosto, babando no chão do quarto. — Não me entenda errado, Gaeul! Mas você precisa ser punido de forma que se lembre e não cometa o mesmo erro no futuro. — A voz da raposa soava em sua cabeça. — Se eu pedir que mate, você mata. Se eu pedir que morra, você morre. — As nove caudas se moveram juntas, agarrando o corpo alto do coreano de uma só vez e apertando-o como nove cobras gigantes e ferozes. Os ossos dele reclamavam e Gaeul trincou o maxilar para evitar gritar de dor. Sentia o corpo todo tentando resistir ao esmagamento, mas parecia impossível fugir daquilo. Talvez ele morresse mesmo ali, como um patronado fracassado... era uma vergonha. — Essa não é sua destruição, meu filho. — Kumiho respondeu seus pensamentos, dando a entender que não chegaria tão longe naquilo. — É o seu nascimento.
E essa foi a última coisa que o Kwak ouviu antes do aperto aumentar e a sequencia de golpes fortes e afiados lhe atingirem.
OBS: A continuação é que a Kumiho realmente deu uma surra nele. O que resultou em: ombros deslocados, três dedos da mão direita quebrados, a perna esquerda quebrada em três partes e duas costelas também quebradas. O pulmão e intestino foram perfurados. Sem contar os diversos arranhões e equimoses (roxos) espalhados pelo corpo.
Tudo isso não foi apenas um sonho. Gaeul realmente acordou com todas essas lesões e vai levar em média uma semana para se recuperar totalmente.
OBS: Peach acabou ativando seu dom de ler emoções enquanto dormia e presenciando determinada parte do sonho de Gaeul, antes de Kumiho expulsá-la de seus domínios.
𝐏𝐀𝐍𝐄𝐌 𝐄𝐓 𝐂𝐈𝐑𝐂𝐄𝐍𝐒𝐄𝐒
TASK 03
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ 28 de Março. Entre 18:00 e 18:45 PM. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀
Para quem tinha Shindeul como irmão, o cheiro de enxofre do vulcão não era nada. O príncipe estava mesmo incomodado é com todo aquele calor e ar abafado abrindo espaço até seus pulmões. Porém, apesar do desconforto teve tempo o suficiente para admirar a terra fervente a sua volta, brilhando e engolindo tudo o que tocava.
A lava era mesmo uma coisa linda.
A princesa do Mônaco também não demorou a chegar. A dupla era pontual, ao menos nisso combinavam. E Gaeul lhe fez um pequeno aceno em cumprimento, pois ainda que estivesse completamente desanimado com o que viria, era bom vê-la.
Os dois eram responsáveis por fechar oficialmente o evento de duelos. E, sendo eles os últimos, deveriam ao menos dar um bom show ao público. Mas o norte coreano duvidava que fossem alcançar resultados grandiosos como das últimas batalhas. Seu desgosto com a adversária era bastante óbvio. Tanto por Geneviève ser uma das pouquíssimas pessoas que ele ainda suportava naquela academia, quanto por ser uma mulher miúda e delicada. Sim, seu lado machista gritava nessas horas. Como Yeeun noona havia anunciado para o mundo ele era um “boiola”. Não ligava, afinal se fosse um duelo de vida ou morte Gaeul não iria se importar com Gen ser do sexo oposto e lutaria até a vitória. Contudo, aquilo era só um treinamento bem inútil, infantil e nada diplomático - ao menos essa última parte lhe agradava.
O sinal de início para o duelo ecoou e Gaeul não mexeu um músculo sequer. A atenção voltada totalmente para Gen e o martelo de pólo que ela empunhava. Não acreditava que aquilo fosse lhe causar danos, mas era bom ficar de olho. Ele então esperou e esperou e esperou. Até que a princesa finalmente veio em sua direção, pronta para o ataque.
Os golpes dela pareciam em câmera lenta na visão de Gaeul e por isso ele conseguia desviar de todos com muita habilidade. O ruído do martelo contornando o vento era alto e sempre muito próximo da sua cabeça, mas nenhum fio rosado foi tocado.
Minutos se passaram até que o nortenho resolvesse fazer algo. Em meio a um dos golpes dado pela garota, Gaeul girou o corpo 360º dando um chute duplo (um de cada pé) contra a barriga da loira; o que resultou no corpo menor voando alguns metros de distância até cair na beira de uma das rochas, bem ao lado do rio flamejante. Aquilo deve ter doído, mas com sorte não teria quebrado nenhuma costela dela.
Esperou pacientemente até Geneviève recuperar o fôlego, a observando de longe. Foi então que as sobrancelhas se ergueram em curiosidade ao ver a amiga aproximar a mão da lava e, de alguma forma, começar a sugar e envolver todo o corpo numa armadura de magma. Que foda!, pensou com um sorriso de canto e não demorando a querer mostrar um de seus truques também.
Os braços de Gaeul borbulhavam enquanto a pele pálida era transformada em grossas escamas douradas, semelhantes a de um dragão. Ao invés das mãos, ele tinha patas com garras afiadas e resistentes ao calor extra que a monegasca decidiu trazer para a luta. Então, desta vez quem retomou o combate corpo a corpo foi o próprio coreano, engolindo a distância entre eles com passos rápidos e, assim que se aproximou o suficiente, disparando uma sequencia de golpes ferozes. Gen tentava atacar de volta, mas Gaeul não lhe dava muita oportunidade. As garras já arrancando lascas enormes de magma da armadura alheia de modo que já era possível para o coreano distinguir a parte lateral do tronco da garota ali dentro.
Só precisava de um único golpe para deixá-la inútil e vencer o duelo.
Todavia, algo inusitado tomou a cena: a rocha seca sob seus pés começou subitamente a tremer, como se passando por um terremoto. O corpo de Gaeul balançou, buscando um equilíbrio que nunca veio, pois quando firmou os pés novamente na rocha, uma enorme fenda se abriu, jogando tudo na garganta faminta do vulcão.
O Kwak usou as garras da mão direita para se agarrar ao que ainda tinha restado do chão. Seu corpo balançando na beirada daquele precipício, prestes a ser engolido pelo diabo que ainda parecia rir da sua cara.
Queime, Gaeul! Queime todos. A voz que ecoou em sua mente era feminina, fria e familiar. A presença de Kumiho era tão opressiva vinda de dentro que fazia todo o calor que ele sentiu até o momento ser apenas uma faísca. Os olhos de Gaeul ficaram completamente negros, refletindo o rio de lava abaixo como se sugassem todo o brilho que lhe era natural. Um sorriso grande e afiado tomou o rosto do príncipe, esticando a mão vaga em direção ao magma, determinado a sentir e dali separar a parte mais feroz e maligna que pudesse encontrar. O fogo negro. Gaeul conseguia senti-lo fluir, subindo até a superfície do vulcão como o sangue que corria por suas veias. Só mais um pouco e poderia atear fogo em tudo ali. Gen, os professores, até os alunos e funcionários que assistiam nas arquibancadas. Só mais um pouco.
“Gaeul?!? GAEUL!” Desta vez quem berrou em sua consciência foi Bora, sua daemon. Ela parecia assustada e desesperada enquanto compartilhava o que acontecia dentro dele. “GAEUL! NÃO!” O pedido foi como um chacoalhão que o tirou daquele transe, devolvendo o branco aos seus orbes e um olhar vagamente perdido. “JÁ CHEGA!” A raposa branca vociferou, puxando o olhar de Gaeul a ela como um imã.
Humano e daemon se encararam por alguns segundos, até Gaeul fazer um sinal de concordância com a cabeça e, logo em seguida, começar a puxar o corpo para cima, de volta para rocha firme. Lá, ele se colocou de pé e fitou Geneviève em silêncio.
E antes mesmo que o duelo pudesse retomar de onde havia parado, Gaeul ergueu a mão e anunciou:
━ Eu desisto!

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𝗧𝗛𝗘 𝗖𝗨𝗥𝗦𝗘
❪ᅟ𝐓𝐑𝐈𝐆𝐆𝐄𝐑 𝐖𝐀𝐑𝐍𝐈𝐍𝐆ᅟ❫ ━━━ TW: Menção de Dissociação de personalidade.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ 17 de Março. Entre 03:00 e 3:09 AM. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ Dormitórios da Ignis.
Após o pacto de sangue, o norte coreano pareceu ter renascido, mais forte e mais resistente. Os dias estavam leves e fáceis de carregar agora. Gaeul passava por eles completamente entorpecido, vivendo apenas sombras tênues do que já sentiu um dia. Porém, suas noites não pareciam ter sido abençoadas da mesma maneira. O príncipe tinha pesadelos vívidos com as pessoas que faziam parte do seu dia a dia, as quais ele fizera questão de afastar por não representarem mais nada para essa casca de carne em que vivia. Ainda assim, durante a noite de descanso, o seu subconsciente gritava com os sentimentos silenciados pela presença onipresente da patrona em seu ser.
Gaeul estava deitado e o suor cobria boa parte dos lençóis e de seus cabelos rosados. Preso mais uma vez em um sonho angustiante e em loop. O relógio na mesa de cabeceira marcava três da manhã quando o corpo do nortenho se sentou de súbito na cama, despertando também a daemon que dormia ao lado. As pálpebras se abriram lentamente, revelando - ao invés das íris negras familiares - olhos azuis esbranquiçados que pareciam frios como se o inferno tivesse sido congelado. Os lábios foram repuxados em um sorriso grande demais, que parecia deformar um pouco o rosto bonito e jovem como um efeito de aplicativo ao vivo. Ao invés dos dentes perolados, eram presas pontudas e ameaçadoras que brilhavam a mostra, despertando um gemido submisso da raposa na cama, que muito inteligente já havia reconhecido a presença da entidade superior e estava encolhida, olhando apreensiva o que estava por vir. Afinal, não havia nada que pudesse fazer além de assistir.
O príncipe ficou de pé e seguiu até o guarda-roupas, escolhendo um enorme casaco negro que foi jogado sobre o corpo, ocultando as peças do pijama. Gaeul deixou o quarto com os pés descalços, que silenciosamente pisavam no chão gelado dos corredores da Ignis, sempre sendo seguido de longe pela daemon assustada. O caminho era familiar aos orbes e ele não tardou a alcançar a área feminina dos dormitórios, parando em frente a porta que ostentava a classificação A02.
Antes que Bora pudesse entender a cena, Gaeul já havia sumido; evaporado bem diante dos olhos dela, mas sua aura ainda era sentida ali perto. Dentro do quarto.
A primeira a notar sua presença invasiva no cômodo foi Lisa, a pantera negra que acompanhava a nova herdeira da Coreia do Norte. Ela rosnou em alerta. Mas, sem apresentar qualquer medo diante da daemon felina, Gaeul saiu de entre as sombras que preenchiam o quarto da garota de cabelos roxos. O andar imponente parecia deixá-lo ainda mais alto do que os seus naturais 1,83 centímetros e tinha a sombra de um monumento quando parou ao lado da cama da irmã, velando o seu sono que não tardou a ser perturbado.
— Boa noite, noona. — O tom era repleto de desprezo. — Senti o seu chamado, minha linda bruxinha dos cabelos roxos. — Ergueu uma mão para acariciar os fios de Haneul, mas algo invisível pareceu detê-lo no meio do caminho, de modo que fechou o punho com força e recolheu de volta. — Ouvi dizer que você gosta de invocar demônios, pequena. Nada inteligente, mas vindo de você não é uma surpresa. — Zombou com um sorriso de dentes afiados. — Mas eu não poderia deixar passar despercebido tamanho elogio de uma artista como você, não é mesmo? Então vim agradecer e dar um presente. — Uma língua comprida e pontuda apareceu para umedecer os lábios rubros em plena excitação. — As pessoas sempre consideraram a inteligência, beleza e poder excessivo como algo maligno. Mesmo que o bem e mal sejam apenas uma ideia criada pelos mortais numa vã tentativa de entender e classificar a nossa existência divina e superior. De qualquer forma, vou conceder seu desejo, tão gritante e exposto naquelas coloridas páginas. — Inclinou o tronco para encarar Haneul mais de perto, carregando o sorriso que não tinha emoção no rosto congelado daquele que a princesa chamava de irmão, mas que obviamente não estava ali; era só a sua pele. — Francis, Francis, Francis. O que achou? — Indicou o corpo de Gaeul. — Belíssimo, não é? Mas, ainda assim, tão longe da realidade. A sua imaginação, por mais fértil que possa ser, bruxinha, nunca alcançará a verdade. Então, se quer uma raposa demônio irei lhe dar.
O hospedeiro de Kumiho congelou como estava. Não piscava ou respirava, apenas encarava a princesa como uma estátua tenebrosa. E então, sem qualquer aviso, abriu a boca em um tamanho absurdo. Do fundo da garganta dele uma luz surgiu, como se alguém estivesse subindo por ela com várias tochas bruxuleantes. Até que a chama apareceu entre as presas ameaçadoras: alaranjada e fluorescente, pousando no meio da boca da entidade.
— A partir de agora você carrega a marca da raposa de nove caudas. É a minha presa. E um demônio nunca descansa da caçada até que o último fio de vida de seu alimento seja arrebentado. — A voz era etérea, uma mistura da rouca de Gaeul e da arrepiante de Kumiho, ecoando no quarto mesmo que os lábios dele não se mexessem, ainda escancarados e contendo a chama como uma lamparina ambulante. — E assim será: a cada traço que você ilustrar um fio de sua vida eu irei tirar. Não adianta se esconder e nem lutar. A sua frágil vida está em minhas mãos agora, e eu não irei descansar até devorá-la. — Um som forte de sucção pode ser ouvido enquanto um tipo de fumaça começava a ser puxada de Haneul para dentro da boca de Gaeul. Era como se ele estivesse se alimentando da sombra da garota, o que acabou dando a chama que guardava uma coloração negra, como o fogo negativo que Kumiho controlava. Um rosnado se misturou a um riso de satisfação, produzindo um som de arrepiar os cabelos da nuca de qualquer um. A boca gigante então se fechou e, na mesma velocidade, o corpo de Gaeul desapareceu. Restando apenas o ecoar de uma voz fria para registrar que eles estiveram ali:
Tick tack.
𝗢 𝗣𝗔𝗖𝗧𝗢
❪ᅟ𝐓𝐑𝐈𝐆𝐆𝐄𝐑 𝐖𝐀𝐑𝐍𝐈𝐍𝐆ᅟ❫ ━━━ TW: Menção de Abuso psicológico e automutilação.
POV
⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀⠀ ⠀⠀ 14 de Março. 03:06 AM. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ Floresta aos arredores da Academia Avalon.
“So you start to take pieces of your own life.
And somewhat selfishly Other people's lives And feed them to the song At what cost This wondrous creature That becomes more precious to you Than the people that you took from
How awful
To make human sacrifices A late night conversation A private thought All placed upon the altar”
A noite era fria e nublada. No solo da floresta uma densa nuvem de neblina se arrastava preguiçosamente, tornando difícil para qualquer criatura que ali vivesse enxergar mais do que um simples metro a frente. Por sorte Bora tinha um olfato afiado e, tomando a dianteira, guiava seu humano naquele terreno irregular entre as altas árvores.
Quando finalmente alcançaram a clareira que era o destino final, o norte coreano se prostrou de joelhos no centro da área aberta. Trouxera consigo um pequeno baú, o colocando entre as coxas para poder abrir sua tampa e de dentro dele puxar uma adaga com punho rubro, tão afiada que ameaçava cortar os olhos de quem a vislumbrasse. Gaeul lançou um breve olhar na raposa que o acompanhava desde o início da vida, esperando por sua confirmação de que estava igualmente pronta para o que viria.
Nos olhos da daemon, Gaeul viu o próprio reflexo carregado de dor, cansaço e tristeza. Nem se reconhecia mais.
Respirou fundo antes de pressionar o fio gélido da adaga contra a pele em seu pulso; primeiro um e depois o outro, causando assim dois ferimentos profundos e compridos, do qual a vida se esvazia quente e carmesim, sendo depositada no conteúdo do baú logo abaixo. Gaeul olhou para o céu noturno uma última vez antes de fechar as pálpebras com força, tendo a imagem da lua ainda marcada em suas íris enquanto fazia uma pequena oração para Kumiho.
Muitos diziam que o número da besta era o 666, mas Gaeul sabia que todos olhavam ao contrário. Era nove. Nove. Nove. Nove. Como as caudas da sua patrona e as vidas que ele tinha tirado naqueles também nove dias de adoração a ela. Para Gaeul o número nove representava uma praga, mas também poder e sorte. E era com essa sorte que pretendia contar naquela noite.
Minutos se passaram. Ou talvez horas? Não saberia dizer. Apenas repetia o mantra de adoração e súplica constantemente e incansável. Demorou para perceber que já não sentia o arder nos pulsos, nem a brisa fresca contornando seu corpo e nem o brilho da lua, pois algo parecia ter se posto entre eles, como uma nuvem grande que o afogou ainda mais na escuridão.
O príncipe abriu os olhos, mas o que viu não era a clareira em Avalon que julgava estar, muito menos a negritude noturna. Seus olhos vislumbravam uma cidade cinzenta, vasta, com poucas construções espalhadas por cada metro quadrado, e rodeada por vales montanhosos. O edifício mais alto e visível estava a quilômetros dele, alto e pontudo como a adaga que estivera segurando. O ar familiar que preenchia seus pulmões era inconfundível e Gaeul teve plena certeza de onde estava.
Era Pyongyang. Sua casa. Seu lar.
Investigando os arredores ele percebeu que, exceto por sua presença e de sua alma, a capital do seu país era uma cidade deserta e fantasma. Apesar do sol baixo, indicando o começo do dia, tinha noção de que aquilo era incomum. Então Gaeul soube... “É uma ilusão!” Reconheceu em seus pensamentos, esperando que Bora também tivesse percebido aquela tênue cortina que os separava da realidade.
— Garoto esperto! — Ouviu o vento sussurrar próximo a orelha, porém não o sentia. Buscou e buscou pela origem da voz, ainda ajoelhada no meio da estrada principal da cidade, com Bora de orelhas erguidas e atentas. Mas a procura não durou muito mais, pois logo uma sombra gigantesca cobriu boa parte do que ele conseguia ver. Tinha uma forma estranha, como se fosse um polvo de muitos braços agitados e nervosos. Entre aquela escuridão, uma figura brotou e começou a se aproximar de Gaeul. E a cada passo que dava ele reconhecia a presença divina.
— Kumiho? — Perguntou apenas para ter certeza. A mulher de pele pálida, cabelos longos e olhos profundamente negros, lhe sorriu em reconhecimento. Gaeul, em todos os seus anos de vida, só tinha visto a patrona em sua forma de raposa, com os dentes e garras a mostra e as nove caudas erguidas em alerta ameaçadoramente. Só que agora a entidade se apresentava a ele em forma humana. Por quê? Existia algo por trás de cada ação de Kumino, ele tinha conhecimento disso. Seja o que fosse, Gaeul estava grato por aquela visão. A divindade era sem dúvida a coisa mais bela que seus jovens olhos já tinham visto.
— Como vai, meu príncipe? — A mulher perguntou sem qualquer emoção, sabendo exatamente como ele estava e dizendo aquilo apenas pelos hábitos que os humanos tinham de tagarelar. — Eu sabia que esse dia chegaria. Dói, não dói?
— Eu estou doente e de um jeito que não consigo me recuperar sozinho. — A voz dele passava rouca e baixa pela garganta que aos poucos parecia ir se fechando. Gaeul olhou para Kumiho com toda força e esperança que conseguiu reunir. — Você pode me curar? Me libertar?
— Você sabe que eu posso, Ga. — Ela riu e o som era uma música confortável que parecia abraça-lo. Entretanto, logo se findou e a entidade começou a aproximar-se com passos curtos. — Dói, não doí? — Kumiho repetiu, desta vez continuando sem dar tempo de Gaeul tentar adivinhar sobre o que ela falava. — A fragilidade humana dói. E é por isso que nós somos superiores a vocês, mortais. A maioria de nós, ao menos a parte inteligente, se mantém longe dessa perturbação, dessa fraqueza que vocês carregam em seus corações moles e de carne.
— Você me prometeu, Kumiho! Prometeu. — Gaeul reforçou, as sobrancelhas erguidas moldurando os olhos úmidos. A deusa apenas suspirou como se estivesse cansada daquele assunto e não precisasse ser lembrada. Ela finalmente estava perto o suficiente para acariciar os fios rosados na cabeça do patronado.
— Você sabe que a minha oferta tem um preço, não sabe? Eu sempre deixei claro que...
— Eu sei! — O príncipe a interrompeu, pois também não precisando ser lembrado dos termos do acordo que lhe era prometido há tantos anos. Kumiho deu outro sorriso, era lindo e doce naqueles lábios carnudos de mulher. Encantadores.
— Muito bem então... Você sabe que posso te livrar de todo esse peso que você vem carregando e parece ter aumentado nos últimos dias. — As mãos macias e de unhas longas desciam agora pelo rosto de Gaeul, acariciando seus contornos. — A sua família é a sua maior fraqueza. — Revelou com um bico, como se dissesse algo triste para uma criança inocente. — Sua irmã mais velha não aguentou a pressão e fugiu como a covarde que ela era. — Gaeul percebeu a maciez na voz da mulher ir desaparecendo no decorrer do discurso. Ela aos poucos parecia expor a raiva que ele mesmo sentia no âmago da alma. — Haneul não sabe nem em que planeta se encontra, mais perdida que ela não existe. Shindeul é o grande babaca de cabeça vazia que sempre foi, e não apresenta sinais de melhoras. E Taeul... ah, seu irmãozinho Taeul... — Ouvir o nome do mais novo fez Gaeul fechar o semblante imediatamente, o que despertou outro riso na raposa. — Sempre agarrado na barra da sua calça, querendo atenção e agora não só isso... Ele quer tudo o que você escolheu não ter, como se assim mostrasse a outra vida que você viveria caso tivesse optado pelo caminho mais fácil. Esfregando na sua cara bonita que ele, sem fazer qualquer esforço, consegue tudo aquilo que você perdeu. Não é mesmo? — O nortenho sentia o peso de cada palavra atingindo seu peito, eram como machadadas cruéis da verdade. — E a sulista... — Gaeul prendeu a respiração. — Tão linda, jovem e doce. Mas como todo o verme daquele lado, trouxe com ela essa praga que te consumiu por dentro. É igual um câncer, sabia? Ele se alojou no seu cérebro e agora se espalha por todo o seu corpo, te apodrecendo por dentro e deixando você nesse estado miserável em que está agora. Fraco, impotente e inútil... Aish! — Kumiho rosnou, enojada, e afastou as mãos do garoto. — O que é isso? Seus olhos chovem por ela ou por todos eles?
Gaeul surpreendeu a si mesmo ao sentir as gotículas translúcidas e quentes abandonando seus olhos. Ele estava chorando? Nem se lembrava da última fez que fizera aquilo. O peito parecia vazio e pesado ao mesmo tempo. Ele se sentia fraco e doente, assim como Kumiho tinha dito.
— Não importa! — A rudez parecia a ponto de estourar sua garganta, mas Gaeul mirou a mulher com seus orbes marejados e o rosto marcado. — Vai me ajudar ou não?
Kumiho pareceu a ponto de esbofetear o príncipe pela ousadia com a qual se dirigia a ela, mas se conteve no meio do ato e, ao invés de um tapa, retomou o carinho na face alheia, afastando as lágrimas pegajosas com os polegares. — Eu vou tirar tudo isso de você, meu Gaeul. Vou ser o tratamento que te livrará de todo esse câncer maligno. E quando eu acabar, vamos conquistar tudo o que viemos planejando há todos esses anos. Mas... — Gaeul sentiu a apreensão tomar conta de si quando a silhueta feminina deu a volta e se colocou atrás dele, jogando os braços leves ao redor de seu pescoço e apoiando o queixo contra sua cabeça. — Você tem que me dar algo em troca. E a única coisa que eu quero é completa devoção.
— Eu já não dou isso?
— Não do jeito que eu estou pedindo agora. Completa devoção é: obedecer sem questionar, fazer sem reclamar... pertencer a mim... e eu a você. Entende? — A vibração de carinho aos poucos retornava no tom de voz usado pela deusa. — Nós seremos um, Gaeul. Eu e você. Eu tiro sua dor e dou todo o poder de que precisa. E você me alimenta.
Gaeul entendia cada coisa apresentada pela patrona sem que ela precisasse dize-lo. Uma criatura como Kumiho, podre até o caroço, se alimentava de vidas e caos. E era o que ele vinha dando a ela durante todos esses anos, não? Que diferença iria fazer continuar assim um pouco mais? Nenhuma.
— Eu aceito, Kumiho! Faço o que você quiser, só... leva tudo embora. Eu estou cansado... de me sentir impotente e... de decepcionar. — Fungou, recordando-se da mensagem que recebeu do irmão no dia anterior com aquela exata palavra. — Eu aceito, já disse! Faça o que tiver que fazer. Mas faça logo!
Kumiho deu pequenos pulinhos no lugar, animada como uma raposa filhote brincando na neve. Apoiou o corpo feminino nas costas largas do coreano, abraçando seu pescoço em um forte laço, quase carinhoso e maternal. Em seguida, deixou um selar fervente e demorado na nuca masculina. Gaeul sentiu o corpo todo borbulhar em reação; conforme a pequena mão soltava seu pescoço e descia suavemente até seu peito, parando com a palma aberta sobre a região do coração.
— Você sempre foi esperto e eu sempre soube que não iria me decepcionar nunca, Gaeul! Agora você terá o que nasceu para possuir: um império. — Gaeul sentiu a mão pressionando seu peito até que as unhas, cinco garras afiadas e negras, começassem a se afundar em sua pele.
— Ei... — Reclamou, pois aquilo doía e muito.
— Afinal, para que ser um rei... — Kumiho sussurrou em seu ouvido. — Quando eu posso transformar você em um deus?
A dor veio quando as garras da raposa finalmente abriram um buraco em seu peito, indo de encontro ao coração pulsante que guardava. Ouvia Bora berrando em sua mente, sentindo exatamente o que ele sentia. Porém, tão rápido quanto o desconforto veio, ele se foi. E Gaeul teve um último vislumbre da bela mulher que Kumiho tomou a forma: ela tinha o rosto bonito agora sujo em vermelho escuro e parecia lhe sorrir, satisfeita pelo último sacrífico que ele tinha feito para ela. Então, a divindade desapareceu numa fumaça negra e densa, que parecia ter vida própria e não demorou para se lançar no buraco aberto no peito dele.
Pois agora, agora sim Kwak Gaeul se sentia preenchido por inteiro.
"But you have to satisfy the monster The monster has loved you for longer Than anyone else.”