Como o bucetismo me aprisionou
VocĂȘ nasce com uma buceta.
O mundo te diz que vocĂȘ Ă© uma menina.
Te manda fechar as pernas, ser dĂłcil, nĂŁo brigar, nĂŁo contestar, nĂŁo questionar, se submeter, se sujeitar, nĂŁo recusar, nĂŁo desejar.
VocĂȘ ouve essas coisas desde que se entende por gente. Ă ordenada a se arrumar, porque mocinha tem que andar bonita, nĂŁo pode ser desleixada. Ă encaminhada para brincar de bonecas, porque meninas tĂȘm instinto materno que tem de ser nutrido. Ă treinada para odiar outras pessoas que, como vocĂȘ, foram designadas meninas, porque elas sĂŁo suas rivais, mas para oferecer amor incondicional Ă s pessoas que foram designadas meninos, porque Ă© a elas que vocĂȘ se sujeitarĂĄ na escola, na rua, no trabalho, no casamento. Ă adestrada para nĂŁo desejar nada alĂ©m de um casamento e filhos, para querer ardentemente procriar, para ver a formação da famĂlia como seu maior objetivo.
Pessoas designadas meninas sĂŁo educadas para serem cidadĂŁos de segunda categoria. Ă proibido a elas contestar, questionar, perguntar. Ă dada a elas a tarefa de nutrizes e parideiras, mas nĂŁo de investigadoras ou criadoras.
Tudo isso ocorre desde muito antes da puberdade.
Quando chega a puberdade, entĂŁo, tudo se exacerba. O mundo se arvora dono de vocĂȘ. Qualquer pessoa se vĂȘ no direito de mandar em vocĂȘ. Mandar que vocĂȘ se esconda, que se perfume, que disfarce, que oculte suas âvergonhasâ.
Lembro atĂ© hoje que, numa aula de Educação Sexual no colĂ©gio catĂłlico [RISOS], a professora disse: âNa adolescĂȘncia, a menina tem que tomar cuidado para nĂŁo cheirar mal.â
Nada foi mencionado acerca dos meninos.
Com os esterĂłides gonadais rugindo no seu corpo, vocĂȘ Ă© ensinada a reprimir sua natureza, a temer e odiar seu corpo, a se resguardar. Seu desejo Ă© chamado de coisa de puta, de vagabunda. Enquanto vĂȘ seus colegas sendo levados ao prostĂbulo pelos pais para perder o cabaço logo cedo.
Obviamente, a educação reservada Ă s pessoas designadas meninas causa um sem-nĂșmero de traumas, dĂșvidas, ressentimentos, inseguranças.
Imagine, então, o peso de ouvir, pela primeira vez na vida, que sua vagina é uma coisa maravilhosa. Sagrada. Mågica. Que seu corpo é lindo mesmo que não caiba na calça 36. Que seu desejo é natural e não interfere no seu caråter. Que a menstruação e as cólicas são uma parte linda da natureza manifesta no seu corpo.
Essa foi a minha histĂłria ao conhecer a Wicca.
Com meus dezesseis anos, no auge da puberdade, eu li pela primeira vez que nĂŁo tinha de odiar meu corpo - que, pelo contrĂĄrio, eu deveria louvĂĄ-lo. Que, sendo mulher, eu era Deusa, a Deusa. A grandiosa, a mĂŁe, a sĂĄbia, a genitora da vida, uma entidade em torno da qual havia nĂŁo apenas uma filosofia, mas um culto.Â
Ă um discurso cativante. Ă empoderador. Ă libertador. Descobrir-se plenamente mulher, despida de toda a negatividade que a sociedade lhe joga nas costas desde o nascimento, Ă© de fato algo transcendental.
Dessa forma, eu fui, sim, integrante do culto Ă Deusa, Ă Mulher, Ă Buceta, ao Ătero. Amei meu corpo ferozmente, momentaneamente despida da disforia que me assolava desde a infĂąncia. Atropelei tudo em nome desse auto-amor. Desdenhei das pessoas designadas meninos. Desconsiderei as pessoas que, como eu, foram designadas meninas, mas que ousavam nĂŁo se reconhecer e se amar enquanto Mulheres. Pensava eu, em meu ofuscamento, ter encontrado a libertação suprema e a verdade do mundo.
Olho para trås e dou graças aos Deuses por não ter conhecido o feminismo radical nessa época. Capricorniano de intelecto e de coração, certamente teria me jogado nisso de corpo e alma e me tornado uma dessas mulheres execråveis.
Dou graças aos Deuses por ter me redescoberto: nĂŁo mulher, mas algo alĂ©m, algo entre. Meu gĂȘnero nĂŁo Ă© algo que sei explicar, mas definitivamente nĂŁo sou mulher. Descobri, felizmente, que nunca o fui. Assim como nĂŁo sou homem e nunca o fui.
Da mesma forma, nĂŁo preciso ser mulher para me amar. NĂŁo preciso ser mulher para amar meu corpo. Amo minhas curvas, minhas linhas imperfeitas. Amo meus seios, amo minha cintura. Amo minha buceta. Amo este corpo que se torna cada dia mais forte, mais meu. Amo-o atĂ© quando cobiço os binders pelas fotos na internet. Amo-o atĂ© quando minha mente dissocia. Amo este corpo porque meu corpo sou eu: Ă© minha alma e espĂrito manifestos, com todas as suas imperfeiçÔes.
Grandes foram as liçÔes que aprendi de Ărtemis Feraia, uma deusa pouco gentil, mas poderosa e rĂșstica. Como as bestas, nĂŁo existe neste corpo nada que nĂŁo me pertença e que nĂŁo seja pleno de beleza; assim como sĂŁo belas as listras rasgando um tigre, assim como Ă© bela a rude pele de um elefante, assim como Ă© bela a bizarra proporção do musaranho, assim como a natureza selvagem Ă© bela e perfeita com todas as suas feiĂșras e estranhezas, sou eu. Assim sĂŁo todas as pessoas, e eu gostaria que mais delas soubessem disso.
Com o amor a mim mesmo sustentado pela minha fé, olhei novamente as idéias que um dia me empoderaram e notei sua mesquinhez, sua pequenez. Hoje vejo o quão próximas elas são do discurso de ódio. Hoje vejo o quanto são erradas, pretensiosas, tóxicas.
Agradeço todos os dias por ter me livrado desses discursos odiosos e patéticos disfarçados de empoderamento. Hoje, ao menos em mente e coração, sou livre: livre das imposiçÔes da sociedade e livre das imposiçÔes dessa sub-sociedade que hoje ganha proporçÔes perigosas entre os discursos subversivos - e que cada vez mais se parece menos com o subversivo e mais com o ódio.
VocĂȘ, pessoa com uma buceta: vocĂȘ tem beleza, poder, magia.
E para ter tudo isso, em nenhum momento Ă© necessĂĄrio vocĂȘ ser mulher.















