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Tig tog

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//Amphibia spoilers THIS |Forknife| |TigTog| Matt, You are out of your mind, you mad genius, Just when I thought I couldn't respect you more.
Google search is so bad these days. I want to archive this page somewhere I can find it (who knows how long tumblr will continue to exist!):
Viv Smythe aka Tigtog talking about her usage of the word TERF, widely credited as its first use online.
From back in the day when we thought The Guardian was good.
A few months ago I posted an events notice for a MichFest Womenâs Festival event in NYC. I screwed up big time in that original post by not
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tigtog intervention (as DEMANDED by katsuki)
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tbh i have some ideas for her that i need to unleash on the world
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Festivais, transgeneridade* e o binĂĄrio de gĂȘnero
Originalmente por tigtog, em http://hoydenabouttown.com/2008/08/17/carnivalia-transgenderism-and-the-gender-binary/
Traduzido por Kumiho Lim. Notas de tradução entre brackets [] ou indicadas com asteriscos* e explicadas no final do texto.
Dois festivais de blogagem feministas forma publicados nesta semana:
- Carnival Against Sexual Violence 53 - The 17th Carnival of Radical Feminists
Ambos os festivais contĂȘm muitos posts excelentes para ponderar, provocar e principalmente incomodar. O que me traz aos posts que provocaram o resto deste post:
Notei um contraste perturbador no modo com que esses dois festivais lidam com discussĂ”es sobre a experiĂȘncia transgĂȘnero* e a transfobia: o Carnival Against Sexual Violence inclui um post sobre como mais um assassinato de uma mulher trans estĂĄ sendo reportado na mĂdia, indicando que o suspeito estava "enfurecido a ponto de perder a cabeça" por ter sido "enganado" a respeito da mulheridade da mulher morta (e o que isso significa para todas as mulheres), enquanto o Carnival of Radical Feminists (edit: implicitamente alinhando todas as radfems com as ativistas radfem trans-exclusionĂĄrias (TERF), o que me ofende) traz um link para mais um post de Miss Andrea [NT. jogo de palavras - lĂȘ-se "mizĂąndria" ou "mizandrĂa"] que defende que a transgeneridade seja tratada apenas como mais um fetiche, e que mulheres trans estĂŁo erradas e provavelmente estĂŁo deliberadamente nos enganando ao declarar que, na verdade, a transgeneridade Ă© algo muito mais fundamental e inerente Ă identidade de gĂȘnero do que um fetiche.
NĂŁo vou dizer que tenho uma varinha mĂĄgica para reconciliar aquelas que aceitam a existĂȘncia de uma identidade de gĂȘnero discordante de seu sexo biolĂłgico e aquelas que nĂŁo aceitam. Tudo o que posso fazer Ă© explicar meu prĂłprio ponto de vista, e explorar aspectos de lĂłgicas usadas por pessoas que talvez nĂŁo as tenham desenvolvido completamente, na esperança de que isto possa levar a um exame mais minucioso do que me parece ser um fortĂssimo preconceito.
Agora, vamos continuar para um argumento que Miss Andrea usou repetidamente e que recebeu muitos elogios por ser um exercĂcio em desconstrução lĂłgica: que pessoas trans*, ao reforçar o binĂĄrio de gĂȘnero com sua identificação com o sexo oposto, ao invĂ©s de se apresentar de forma mais andrĂłgina e genderqueer, de alguma forma atacam a visĂŁo clĂĄssica de gĂȘnero como um construto social. Podemos resumir o argumento desta forma: "quando feministas dizem que gĂȘnero Ă© um construto social, elas querem dizer que ele nĂŁo Ă© "real"; portanto, se dissermos que homens podem se tornar mulheres e vice versa, entĂŁo estamos dizendo que o gĂȘnero Ă© real, e portanto a teoria de gĂȘnero feminista desaparece numa nuvem de fumaça". Isto simplesmente nĂŁo faz sentido, a nĂŁo ser que se tenha, em primeiro lugar, um entendimento muito ruim do conceito de construtos sociais.
Construtos sociais nĂŁo sĂŁo "irreais" ao invĂ©s de "reais", eles sĂŁo artificiais ao invĂ©s de naturais. Coisas artificiais nĂŁo sĂŁo "irreais", ou vocĂȘ, querida leitora, nĂŁo estĂĄ "realmente" lendo este blog. Construtos sĂŁo feitos, e nĂŁo descobertos: este Ă© o conceito fundamental (edit: e coisas que sĂŁo feitas podem ser remodeladas).
Cada uma das grandes hierarquias de raça, gĂȘnero e classe Ă© socialmente construĂda em termos de quem Ă© visto como inferior a quem. Cada uma dessas hierarquias sociais tambĂ©m Ă© baseada em certos significadores fĂsicos - cor da pele/fisionomia e caracterĂsticas sexuais e aquisiçÔes materiais - que sĂŁo usados para justificar a associação de caracterĂsticas "inferiores" nessas hierarquias (p. ex., negros e irlandeses sĂŁo idiotas, mulheres sĂŁo fracas, pobres sĂŁo preguiçosos). Mas o fato desses significadores fĂsicos existirem nĂŁo tem necessariamente uma correlação com a associação de inferioridades sociais, e Ă© justamente nessa associação de inferioridades inatas que o binĂĄrio de gĂȘnero Ă© socialmente construĂdo sobre a estrutura do dismorfismo sexual. O Ășnico aspecto inato da estrutura do binĂĄrio de gĂȘnero, equilibrado sobre o dismorfismo sexual humano, diz respeito a quem pode parir e amamentar bebĂȘs e quem nĂŁo pode, e todo o resto dos papĂ©is de gĂȘnero Ă© cultural, nĂŁo natural.
Miss Andrea afirma que "homens de saia"* estĂŁo simplesmente seguindo o essencialismo de gĂȘnero, mas eu nĂŁo vejo como o argumento dela, de que apenas pessoas nascidas com ovĂĄrios[1] podem ser vistas como mulheres "reais", nĂŁo Ă© exatamente a mesma coisa. Isso Ă© dizer que o gĂȘnero Ă© intrinsecamente alinhado com o sexo biolĂłgico, e ao mesmo tempo dizer que pessoas que tĂȘm um histĂłrico trans sĂŁo aquelas que estĂŁo dizendo que o seu sexo biolĂłgico nĂŁo foi o suficiente para fazĂȘ-las se sentirem confortĂĄveis com seus papĂ©is de gĂȘnero. Isto me parece ser o exato oposto de essencialismo biolĂłgico - atĂ© mesmo nos casos em que uma pessoa em transição adota estereĂłtipos de gĂȘnero em suas vestimentas, porque todo o argumento de que gĂȘnero Ă© um construto social diz que esses estereĂłtipos sĂŁo, em primeiro lugar, artificiais e nĂŁo essenciais.
Obviamente o comportamento de pessoas transgĂȘnero* Ă© um exercĂcio de artificialidade - mas ele Ă© fundamentalmente mais artificial do que o comportamento de pessoas cisgĂȘnero? Se reforçar o gĂȘnero ao se vestir de forma muito feminina Ă© uma coisa fundamentalmente tĂŁo horrĂvel, entĂŁo por que a maioria das crĂticas Ă© reservada principalmente Ă s mulheres trans que o fazem, e apenas uma pequena parte delas Ă© reservada Ă s mulheres cis que abraçam todos os rituais e acessĂłrios da feminilidade?
Ă tambĂ©m importante perceber que a escolha de demonstrar conformidade Ă s expectativas sociais de uma identidade transgĂȘnero pode ser literalmente tanto uma questĂŁo de sobrevivĂȘncia para pessoas que estĂŁo em transição quanto uma preferĂȘncia. Me perturba o fato de que argumentos como os de Miss Andrea estĂŁo se tornando exatamente o mesmo tipo de atitude a respeito de mulheres trans, aquela idĂ©ia de que elas existem apenas para nos enganar, que causa o Ăłdio que resulta em seus assassinatos - especialmente quando alguns dos comentĂĄrios respondem aos argumentos de uma mulher trans com provocaçÔes, chamando-a de "menininho" ou perguntando "vocĂȘ sente falta do pĂȘnis que vocĂȘ cortou fora?". O Ăłdio simplesmente pinga de cada pixel desses comentĂĄrios, e por quĂȘ? NĂŁo Ă© exatamente o mesmo tipo de Ăłdio e nojo que levou Allen Andrade a espancar Angie Zapata atĂ© a morte quando ele descobriu (atravĂ©s de um ato de abuso sexual) que ela nĂŁo era uma mulher nata*?
Demandar que as pessoas que estĂŁo em transição de gĂȘnero dĂȘem um passo para trĂĄs e adotem apenas identidades mais andrĂłginas ou genderqueer, ao invĂ©s de se "apropriar" da mulheridade, Ă© certamente demandar que elas se coloquem em maior risco fĂsico, nĂŁo? Mulheres trans que "passam" tĂȘm muito menos chances de serem atacadas no seu dia-a-dia e atividades de lazer do que indivĂduos em transição que sĂŁo visivelmente "homens de saia". Ă a isso que se resume [o movimento]? Saia do nosso espaço de mulheres, e nĂŁo, eu nĂŁo me importo se vocĂȘ vai morrer porque vocĂȘ nĂŁo tem nenhum lugar seguro para ir? A frieza disso tudo me deixa horrorizada.
OK, eu entendo que algumas mulheres que se identificam fortemente como mulheres natas se sintam desconfortĂĄveis com a presença ou o conceito de mulheres trans - ou sintam-se confrontadas, atĂ© mesmo ameaçadas. Elas falam de mulheres trans que se identificam como lĂ©sbicas e tĂȘm todos os comportamentos sexuais predatĂłrios, direcionados a mulheres, que os homens normativos, sexistas e privilegiados tĂȘm. Eu nĂŁo duvido que existam algumas mulheres trans que exploram mulheres sexualmente, e Ă© certo criticĂĄ-las por isso, mas essas merdinhas sĂŁo razĂŁo suficiente para rejeitar toda e cada mulher trans como uma irmĂŁ em potencial? NĂŁo para mim.
TambĂ©m existem aquelas que dizem que mulheres nascidas homens nunca podem compartilhar de algumas experiĂȘncias de gĂȘnero fundamentais, derivadas da socialização de gĂȘnero como um indivĂduo feminino, desde o nascimento e durante toda a infĂąncia, e portanto nunca podem ser mulheres "reais" porque nĂŁo tĂȘm essa experiĂȘncia compartilhada. A experiĂȘncia compartilhada em si Ă© majoritariamente verdadeira, mas eu me pergunto o quĂŁo realmente crucial Ă© essa distinção. O que dizer, por exemplo, daquelas que descobrem sua identidade trans muito jovens, antes da idade escolar, e cujas famĂlias apĂłiam a sua transição para uma identidade feminina? Certamente mulheres criadas em comunidades hipotĂ©ticas, exclusivamente femininas e sem sexismo, tambĂ©m nĂŁo teriam essa experiĂȘncia compartilhada de uma criação como "o sexo inferior", mas algum grupo de Mulheres Nascidas Mulheres* as excluiria por causa disso? EntĂŁo, essa diferença na criação e desenvolvimento Ă© o bastante para exigir que pessoas em transição se afastem completamente da mulheridade? NĂŁo para mim.
Ainda assim, um ponto que acredito que Miss Andrea tenha acertado Ă© o de que muitas das definiçÔes acerca da transição de gĂȘnero, oferecidas por vĂĄrias organizaçÔes que promovem a aceitação trans, sĂŁo nebulosas e muito generalizadas, chegando mesmo a denominar qualquer coisa que saia da conformidade de gĂȘnero como "transgĂȘnero", o que eu concordo que Ă© exagero se aplicado a meninos que dançam balĂ© ou meninas que jogam futebol. Nem toda divergĂȘncia da normatividade de gĂȘnero Ă© necessariamente relativa a transição de gĂȘnero; algumas delas sĂŁo apenas uma extensĂŁo das expectativas de gĂȘnero.
No entanto, em contraste com a afirmação de Miss Andrea, de que isso reflete uma apropriação das experiĂȘncias das mulheres, e especialmente do feminismo, eu defendo que o que realmente existe Ă© a falta de um vocabulĂĄrio adequado para discutir papĂ©is de gĂȘnero sem cair nas armadilhas do construto binĂĄrio de gĂȘnero. Esse vocabulĂĄrio nunca vai ser desenvolvido nem ganhar evidĂȘncia enquanto algumas pessoas continuarem a dizer que pessoas que transicionaram de gĂȘnero* sĂŁo nada mais que fetichistas crossdressers fraudulentos.
*transgeneridade - traduzido de "transgenderism". A tradução direta seria "transgenerismo" ou "transgenderismo". Optei por "transgeneridade" por ser um termo mais politicamente correto e por ser o Ășnico atualmente usado no Brasil, sendo que "transgenerismo/transgenderismo" nĂŁo existe em PT-BR ou, se existe, nĂŁo tem muito uso. Todas as mençÔes a "transgeneridade" neste texto foram traduzidas de "transgenderism". *pessoas trans - traduzido de "transfolk". O uso de "mulheres trans", "homens trans" e "pessoas trans", neste texto, precisa do recorte do contexto social e militante americano, onde "trans" Ă© o termo socialmente aceito e politicamente correto, e nĂŁo tem o mesmo significado higienizante daqui. *homens de saia - traduzido de "guys in frocks". A tradução literal seria "homens com roupa de mulher". Optei por usar "homens de saia" por ser um termo amplamente usado no Brasil. Tigtog SEMPRE coloca "guys in frocks" entre aspas, evidenciando que ela nĂŁo concorda com essa definição jocosa de mulheres trans e estĂĄ apenas emprestando as palavras de uma ativista TERF. *transgĂȘnero - tradução direta de "transgender". O significado polĂtico e histĂłrico Ă© diferente aqui e lĂĄ nos EUA, onde "transgender" Ă© considerado o termo mais socialmente correto. *mulher nata - "born-woman". Uso problemĂĄtico mas corrente no discurso radfem, referindo-se a alguĂ©m que nĂŁo precisou transicionar para ser lida como mulher. *mulheres nascidas homens - "women-born-male". *Mulheres Nascidas Mulheres - em maiĂșsculas por se referir a um movimento, "Women Born Women". *transicionar de gĂȘnero - tradução direta de "gender-transitioned".
[1] por uma questĂŁo de espaço, nĂŁo incluĂ aqui todas as mulheres nascidas mulheres com vaginas e seios que nĂŁo possuem ovĂĄrios por nĂŁo serem mulheres XX, mesmo que nem elas nem ninguĂ©m saiba disso sem que elas sejam testadas, p. ex. mulheres XY com SĂndrome da Insensibilidade AndrogĂȘnica, mulheres XO com SĂndrome de Turner, e indivĂduos intersexo com condiçÔes mais raras, todos os quais complicam ainda mais os argumentos existencialistas biolĂłgicos.