Idade: 18 anos ( mas eu ajusto de acordo com a história)
Gênero: Feminino
Sexualidade: Hetero
Espécie / Raça: Entidade mágica / interdimensional ( tribrida de lobo, demônio e dragão), mas dependendo da história posso ajustar para ela ser humana
Ocupação : Ex assassina e atual CEO da Eclipse, uma multi nacional de tecnologia e segurança
Animal de vínculo ( ser guardião e companheiro): Lupus, uma entidade mística em forma de lobo, com habilidades mágicas e que pode alterar seu tamanho, assumindo o tamanho de um filhote ou de lobo maior que um monumento.
Afiliação:
Pais biológicos - Kael Lupin e Astraea Lupin
Pais adotivos - Ethan Shirosagi e Aria Shirosagi
Origem: Kael e Astraea vem do mundo astral, um universo diferente onde a espécie deles ( muito poderosa) vive longe de outros seres. Já Ethan é americano com raízes asiáticas, CEO das indústrias Shirosagi, uma empresa de tecnologia e Aria é brasileira, formada em medicina cirúrgica e muito reconhecida por suas habilidades.
Aparência física disfarçada
Altura: 1,73
Peso: Proporcional a idade e altura
Cabelo: Longo de cor loiro escuro
Olhos: Castanho escuro
Aparência física verdadeira
Altura: 1,73
Peso: Proporciona a dade e altura
Cabelo: cabelo liso longo, de cor azul claro com uma franja roxa
Objetivos / Motivações: Tem como principal objetivo descobrir o que ela é (ela só sabe que não é humana), lembrar do passado e descobrir quem são seus pais biológicos.
Gostos: Ler, cantar, dançar, assistir e sorvete
Desgostos: Ela não gosta de coisas que a deixam desconfortável, tipo roupas, comidas ( peixe), bebidas ( chá e algumas bebidas alcoólicas).
Habilidades e Poderes
Competências Físicas: Combate corpo a corpo, agilidade, furtividade
Poderes / Magia (Se aplicável ao universo): Magia avançada, controle de energia mística, alteração de realidade
História
Tudo ocorria bem na vida dela, seus pais Kael e Astraea eram os Reis de seu povo e Kitsumy era sua única, ela teve uma infância normal e amorosa com seus pais e seu animal de vínculo até o incidente acontecer. O irmão de seu pai, um homem com fome de poder armou a morte de seus irmão e cunhada para tomar o trono. Ele fez uma emboscada em um momento de fragilidade, em seus últimos minutos vida Kael e Astraea mandaram sua filha e seu animal de vínculo para a terra, eles criaram pais adotivos e uma vida normal para ela ficar escondida, apagando sua memória sobre aquele mundo, sobre o assassinato de seus pais e sobre seus poderes. Na terra ela foi adotada por Ethan e Aria ( criados por seus pais), onde vivia aparentando como uma humana vigiada por um amigo de seus pais biológicos, mas o passado sempre volta. Aos 10 anos o cenário se repete, seus pais adotivos são assassinados na sua frente, trazendo de volta algumas de suas memórias. Decidida a descobrir a verdade de quem ela é e oque aconteceu no passado, ela é acolhida pelo amigo de seus pais ( um assassino) para um treinamento implacável que a transforma em uma máquina de matar. Ela assume os negócios dos Shirosagi e cria outra empresa que lida com os piores tipos de pessoas. Em meio tudo isso ela conhece ele ( o personagem que será o par romântico dela) e volta a sentir que a vida não é só preto e branco. Será que ela descobrirá a verdade? Ela vai conseguir ficar com o seu par romântico? Isso vai depender da história.
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Contém romance, ciúmes, conteúdo sugestivo. Peter Parker ( Andrew Garfield) x leitora namorados.
Resumo: Depois de anos namorando o Homem-Aranha, a paciência e a autoconfiança de [Nome] são testadas ao limite quando uma transmissão ao vivo exibe uma civil afoita beijando o rosto do herói após um resgate. O retorno tardio de Peter Parker à cobertura é recebido com a mistura exata de frustração acumulada, alívio e uma conversa muito intensa que reajusta as prioridades do herói mascarado.
...
A vida ao lado de Peter Parker vinha acompanhada de um manual invisível de sobrevivência emocional que [Nome] aprendera a reescrever todos os dias.
Eles estavam juntos há quatro anos. Quatro anos dividindo o aluguel de um apartamento compacto no Queens que vivia com o cheiro persistente de café passado às pressas, pilhas de livros de ciência que ameaçavam desabar sobre o tapete e um estoque industrial de band-aids e gaze. [Nome] conhecia cada cicatriz sutil nas costas dele, cada contração de cansaço na mandíbula quando ele passava a noite em claro calibrando os lançadores de teia, e o som exato da respiração dele quando finalmente conseguia relaxar após uma patrulha particularmente brutal.
Ela sabia de tudo. Sabia que o garoto tímido e desajeitado que tropeçava nos próprios cadernos na faculdade era o mesmo vigilante que cruzava os céus de Nova York em um collant azul e vermelho, desafiando a gravidade e a própria mortalidade por um senso de culpa e responsabilidade que parecia não ter fundo.
Ser namorada do Homem-Aranha tinha vantagens indiscutíveis. Peter era carinhoso de um jeito quase desesperado, como se temesse que, a qualquer segundo, o mundo pudesse desabar e arrancá-la de seus braços. Ele escrevia bilhetes bobos em guardanapos de lanchonete, aparecia na janela do quarto dela às três da manhã com um milk-shake de chocolate e uma rosa meio amassada escondida atrás das costas, e a olhava com uma devoção tão crua que qualquer dúvida sobre o amor dele evaporava instantaneamente.
Mas havia o reverso da moeda. Os atrasos crônicos. O jantar de aniversário de três anos comemorado na mesa da cozinha às duas da manhã porque Peter ficara preso em uma perseguição policial de última hora na Ponte do Brooklyn. O som irritante do rádio da polícia chiava em cima da geladeira, transformando qualquer momento de paz doméstica em uma contagem regressiva silenciosa para a próxima emergência.
E, acima de tudo, havia a adoração pública.
Nova York tinha um caso de amor fervoroso com o Homem-Aranha. Muralhas grafitadas com o rosto dele, hashtags diárias nos trending topics, manchetes estridentes no Daily Bugle (mesmo quando tentavam difamá-lo) e, o pior de tudo, a legião de fãs hiperventiladas que viam no herói mascarado o epítome de todas as fantasias românticas possíveis.
[Nome] tentava manter a compostura. Ela repetia para si mesma que era a namorada oficial, a que dividia a escova de dentes com ele, a que conhecia o rosto sem máscara e o nome verdadeiro sussurrado contra a pele quente no meio da madrugada. Ela não precisava competir com uma projeção fantasmagórica em rede nacional.
Até aquela terça-feira.
O sol começava a se pôr sobre Manhattan, tingindo o céu de tons alaranjados e roxos que refletiam nas janelas dos arranha-céus. [Nome] estava sentada no sofá encolhida sob uma manta de tricô, com uma xícara de chá fumegante entre as mãos, enquanto assistia a um telejornal local na TV da sala. A cobertura ao vivo mostrava imagens de um incêndio controlado em um prédio comercial em Midtown, onde o Homem-Aranha acabara de resgatar três funcionários presos no último andar.
A câmera do helicóptero de reportagem aproximou-se do chão, capturando a típica aglomeração de curiosos, repórteres e fãs eufóricos cercando a barricada policial.
O Homem-Aranha, com a máscara puxada até o nariz para respirar melhor, acenava para a multidão, distribuindo aquelas piadinhas habituais que faziam os repórteres revirarem os olhos. Ele estava prestes a disparar uma teia para se retirar quando uma mulher na primeira fila — vestindo um casaco amarelo chamativo e segurando um smartphone — rompeu o cordão de isolamento com uma velocidade impressionante.
Antes que qualquer policial pudesse intervir, a mulher pulou literalmente em cima de Peter.
[Nome] congelou, a xícara parando a centímetros dos lábios.
Nas imagens da transmissão ao vivo, viu-se claramente a surpresa na postura corporal do herói, que deu dois passos cambaleantes para trás para não perder o equilíbrio. E então aconteceu: a mulher segurou o rosto coberto pela máscara de lycra e desferiu um beijo estalado, longo e descarado diretamente na bochecha esquerda dele, bem onde a abertura dos olhos se curvava.
A multidão ao redor rugiu em aplausos e gritos de aprovação. O repórter do canal local riu, comentando ao microfone: "Parece que o nosso Amigão da Vizinhança acabou de ganhar mais do que um agradecimento oficial! Sorte no jogo e sorte no amor, Spider!"
Na tela, Peter podia ser visto gesticulando rapidamente com as mãos enluvadas, rindo de um jeito nervoso, dando tapinhas constrangedores no ombro da mulher antes de disparar uma teia às pressas e sumir por cima do horizonte de prédios, fugindo da cena do crime romântico com uma pressa incomum.
[Nome] permaneceu imóvel por dez segundos inteiros.
O silêncio na sala de estar tornou-se denso, pesado, quase sufocante. O chá, antes reconfortante, agora parecia ter o gosto amargo de cinzas. Ela olhou para a tela da TV, onde o âncora já mudava de assunto para falar sobre o trânsito na Quinta Avenida, e sentiu o sangue ferver nas veias, subindo do estômago até as orelhas em uma onda de puro calor vulcânico.
— Ah, mas não acredito — murmurou para o cômodo vazio, a voz trêmula de uma indignação cega. — Ela teve a pachorra. A audácia. A cara de pau monumental de beijar o meu namorado em rede nacional para o estado inteiro ver.
Ela colocou a xícara na mesinha de centro com tanta força que o líquido espirrou para fora. Levantou-se do sofá, cruzando os braços com tanta força que os dedos cravavam na própria pele. O raciocínio lógico que vinha mantendo seu ciúme sob rédea curta durante anos simplesmente evaporou.
Não era apenas uma fã entusiasmada. Era uma invasão de território em horário nobre. E o pior: Peter nem sequer tinha empurrado a mulher imediatamente; ele tinha ficado lá, absorvendo o beijo, dando margem para comentários de fofoca que iam circular na internet inteira pelos próximos dias.
[Nome] começou a marchar de um lado para o outro na pequena sala, o maxilar travado.
— Quando ele colocar os pés nesta porta... — sussurrou para si mesma, os olhos faiscando de uma fúria silenciosa. — Oh, ele vai se ver com a lei. E a lei sou eu.
Eram quase dez horas da noite quando a janela da sala deslizou para o lado com um rangido suave.
A figura esguia do Homem-Aranha aterrissou agachada no chão de madeira da sala, as solas das botas fazendo um som abafado. Peter endireitou-se imediatamente, puxando a máscara pela gola e jogando-a para trás, revelando o cabelo castanho completamente despenteado pelo vento e o rosto corado pelo esforço físico e pelo frio da noite.
Ele abriu um sorriso largo, aquele sorriso torto e desarmante que costumava derreter qualquer resquício de raiva em [Nome].
— Oi, amor! Desculpa a demora, o tráfego aéreo sobre o Central Park estava insuportável hoje, um pombo gigante decidiu... — Peter parou no meio da frase, o sorriso murchando lentamente ao absorver a atmosfera do ambiente.
[Nome] estava encostada no batente da porta da cozinha, os braços cruzados sob o peito, vestindo uma regata preta e shorts de moletom. Seu rosto exibia uma expressão gélida, os olhos fixos nele com uma intensidade que fez o sentido aranha interno de Peter disparar um aviso estridente de perigo mortal, embora não houvesse nenhum supervilão à vista.
— [Nome]? O... o que aconteceu? Você tá com uma cara... por que tá me olhando assim? — Peter perguntou, dando dois passos hesitantes para a frente enquanto começava a desvencilhar-se do cinto de utilidades e dos lançadores de teia presos aos pulsos.
— Uma cara de quê, Peter? — a voz dela saiu baixa, perigosamente calma, o tipo de calmaria que precede um furacão Categoria 5. — De alguém que passou as últimas quatro horas assistindo ao vivo o namorado oficial virar atração de circo na televisão?
Peter engoliu em seco. O pomo de adão moveu-se com dificuldade. Ele congelou com uma das mãos ainda na fivela do cinto, os olhos castanhos arregalados de pânico súbito.
— Ah... você... você viu aquilo? — ele gaguejou, rindo de forma nervosa e passando a mão pela nuca. — Olha, aquilo foi totalmente louco! Eu juro por Deus, [Nome], eu não esperava! A mulher simplesmente brotou do bueiro, parecia um ninja com aquela jaqueta amarela, e antes que meu cérebro processasse o que estava acontecendo, ela já tinha...
— Me beijado na bochecha. Na frente de milhares de telespectadores. E você deixou! — [Nome] desencostou da parede, dando passos firmes em direção a ele. — Você ficou lá parado, Parker! Com cara de paisagem, parecendo um ator de comédia romântica desajeitado, enquanto a criatura atrevida marcava território no seu rosto!
— Eu não fiquei parado por vontade própria! — defendeu-se ele, recuando um passo até bater as costas levemente na estante de livros. — Se eu a empurrasse com muita força, com a minha superforça, eu podia ter quebrado a clavícula da coitada ou jogado ela contra a parede! Você sabe como é a minha biomecânica, eu me controlo o tempo todo para não estragar as coisas!
— Ah, mas para rir da piada do repórter você teve tempo, né? Para dar tapinha no ombro e fugir saltitando como se estivesse em um musical da Broadway!
— Eu estava morrendo de vergonha! — Peter exclamou, jogando os braços para o alto em desespero, a máscara balançando na mão. — Você acha que eu gosto disso? Você acha que eu saio de casa rezando para alguma desconhecida pular em cima de mim? Eu só quero salvar as pessoas, voltar para casa e comer o resto da lasanha que ficou na geladeira com você! A última coisa que passa pela minha cabeça é flertar com alguém, até porque o amor da minha vida inteira está bem aqui me olhando com cara de quem vai me assassinar a facadas enquanto eu durmo!
— Não me dê uma ideia brilhante dessas agora — retrucou [Nome], embora o canto da boca tenha traçado um milímetro de hesitação.
Peter percebeu a brecha. Com a agilidade felina que caracterizava seu alter ego, ele fechou a distância entre eles em um segundo. Lançou o cinto de teia no chão da sala e envolveu a cintura de [Nome] com os dois braços, puxando-a para o seu corpo com uma firmeza possessiva, mas cheia de uma suavidade trêmula.
— Ei... olha para mim — sussurrou ele, inclinando a cabeça para encaixar o queixo no vão do pescoço dela, respirando fundo o perfume de baunilha que ela usava. — Sabe de quem é esse rosto? Sabe de quem são esses lábios? Sabe quem é a única pessoa no mundo inteiro para quem eu tiro a máscara por vontade própria, sem medo de julgamento, sem precisar fingir ser um herói perfeito?
[Nome] tentou manter a postura rígida, mas o calor do corpo dele contra o seu, a vibração grave da voz rente à sua pele e o desespero genuíno misturado com carinho naqueles olhos castanhos começaram a dissolver a muralha de gelo que ela havia construído.
— Você é um idiota, sabia? — murmurou ela, sentindo os braços cederem e subirem para envolver o pescoço dele, os dedos afundando nos cabelos macios e ligeiramente suados.
— Sou o seu idiota — corrigiu Peter com um sorriso fraco, colando a testa na dela. — E eu juro para você... se aquela mulher aparecer na minha frente de novo, eu juro que não uso superforça nenhuma, eu simplesmente dou meia-volta, chamo um táxi e finjo que sou um civil comum que tem medo de altura.
[Nome] soltou uma lufada de ar que era meio riso, meio suspiro de rendição.
— É bom mesmo. Porque a próxima que tentar se gracinha com o Homem-Aranha vai ter que se ver diretamente com a namorada dele... na base do argumento físico e verbal.
O clima na sala mudou de repente, a eletricidade da briga evaporando e sendo substituída por uma urgência muito mais quente, física e íntima.
Peter enterrou o rosto no pescoço de [Nome], deixando um rastro de beijos rápidos e possessivos que fizeram a pele dela arrepiar dos pés à cabeça. Ela puxou a gola da blusa dele com força, puxando-o para um beijo faminto, profundo, que parecia apagar todas as horas de frustração acumulada ao longo do dia. As mãos de Peter deslizaram pelas costas dela com uma familiaridade absoluta, mapeando cada curva com uma urgência que denunciava o quanto ele também sentira falta dela durante o caos da patrulha.
Sem quebrar o beijo, Peter a ergueu do chão com facilidade, fazendo as pernas dela envolverem sua cintura por instinto. [Nome] abafou um gemido surpreso contra os lábios dele enquanto sentia as costas baterem não contra a parede, mas contra a firmeza segura dos braços do herói que a carregava em direção ao corredor, direto para o quarto.
A porta do quarto fechou-se com um baque abafado, impulsionada por um chute leve de Peter.
Ali, longe das transmissões ao vivo, dos flashes de câmeras, das ruas perigosas de Nova York e das fãs afoitas, não havia o Homem-Aranha. Havia apenas Peter Parker e a mulher que detinha o monopólio absoluto do coração dele.
As roupas foram descartadas pelo caminho com pressa. O tecido da blusa de Peter voou para longe, revelando o tronco musculoso marcado por cicatrizes leves de batalhas que [Nome] conhecia a história de cor. A cama de casal rangeu sob o peso dos dois quando Peter a deitou, posicionando-se por cima dela com um cuidado meticuloso, mesmo com a respiração acelerada e os olhos brilhando de um desejo intenso e focado exclusivamente nela.
Cada toque era uma afirmação de posse mútua. As mãos calejadas de Peter — calejadas pelo atrito constante das teias e pelas lutas contra o crime — percorriam a pele de [Nome] como se estivessem redesenhando o mapa do seu mundo seguro. Ela puxava o cabelo dele, arranhando levemente a pele das costas em um ritmo que misturava a paixão crua com a necessidade de ancorar aquele garoto voador firmemente na realidade.
Os sussurros abafados, as respirações entrecortadas e o som abafado dos lençóis preencheram o quarto durante horas, transformando a tensão e o ciúme acumulados em uma entrega total e inegável. Não restava dúvida nenhuma de a quem pertencia aquele corpo, aquela mente e aquele amor desmedido.
---M
Horas mais tarde, o apartamento estava mergulhado em um silêncio profundo, quebrado apenas pelo zumbido distante do tráfego da cidade e pela respiração ritmada de Peter.
Eles estavam deitados de lado sob os cobertores revolvidos. O braço esquerdo de Peter servia de travesseiro para a cabeça de [Nome], enquanto a mão direita dela desenhava círculos preguiçosos e distraídos sobre o peito nu dele, sentindo as batidas firmes e calmas do seu coração.
A luz da lua entrava pela janela sem cortinas, iluminando o perfil cansado, mas incrivelmente sereno do rapaz. Peter estava com os olhos fechados, quase dormindo, com um sorriso mínimo e satisfeito nos lábios.
[Nome] parou de desenhar os círculos, levantou levemente o tronco e apoiou o queixo no peito dele, encarando-o com uma seriedade fingida, mas firme.
Peter abriu um olho só, piscando preguiçosamente para focar nela.
— Hm? O que foi, amor? Aconteceu alguma coisa? Quer que eu vá comprar sorvete de menta com chocolate às três da manhã? Porque eu vou, juro... — murmurou ele com a voz rouca de sono.
[Nome] estreitou os olhos, balançando a cabeça negativamente.
— Não quero sorvete. Só quero deixar uma coisinha muito clara entre a gente, Parker.
Peter suspirou mansamente, endireitando um pouco o corpo sob o travesseiro para dar total atenção a ela, embora o sorriso brincalhão estivesse voltando aos poucos ao canto da boca dele.
— Pode falar. Sou todo ouvidos.
— Eu fui compreensiva hoje. Me controlei, respirei fundo, não fui parar na delegacia por agressão a civilezinhas atrevidas em rede nacional — começou ela, erguendo o dedo indicador em riste diante do nariz dele. — Mas da próxima vez que qualquer garota tiver a ousadia e a falta de noção de beijar o meu namorado na rua...
Peter engoliu em seco, contendo o riso, mas prestando atenção na ameaça.
— Sim? O que vai acontecer? Vai me proibir de usar o uniforme azul e vermelho?
— Pior — [Nome] aproximou o rosto do dele, sussurrando a sentença com uma clareza cortante. — Você vai passar um mês inteiro dormindo no sofá. Sem direito à manta térmica, sem direito a assistir aos filmes do Star Wars na TV da sala, e com direito a comer apenas miojo requentado. Fui clara?
Peter piscou, fingindo um pavor cômico antes de abrir um sorriso largo e apaixonado, puxando-a para baixo para lhe dar um selinho estalado na testa.
— Cristalina, Capitã. Pode deixar que na próxima eu pulo em cima de um prédio antes que qualquer fã desavisada chegue a meio metro de distância de mim.
— Bom mesmo — murmurou [Nome], aconchegando-se novamente contra o peito dele, fechando os olhos enquanto sentia os braços fortes de Peter a envolverem com a segurança de uma fortaleza intransponível.
Contém fofura, romance, smut leve. Peter Parker ( Andrew Garfield) x leitora.
Resumo: Peter Parker guarda dois segredos: é apaixonado há anos pela sua melhor amiga e é o Homem-Aranha. Acreditando estar na "friendzone", sua vida vira de cabeça para baixo quando ele começa a namorar a leitora... usando a máscara. Dividido entre o medo de ser rejeitado e a culpa de esconder a verdade, uma noite intensa de paixão finalmente revela quem realmente está por trás do herói de Nova York.
...
A chuva de outono batia contra a vidraça embaçada do apartamento pequeno, criando um ritmo constante que parecia abafar o caos do lado de fora. No entanto, dentro daquele quarto iluminado apenas pela luz amarelada de um abajur e pelo brilho fraco de um notebook, o único som que importava era o riso contagiante dela.
S/N estava sentada na ponta da cama de Peter, com os cabelos levemente desgrenhados e um suéter oversized de lã cinza que parecia engoli-la. Ela gesticulava animadamente enquanto explicava alguma teoria absurda sobre física quântica que havia lido em um artigo obscuro, seus olhos brilhando com uma intensidade que fazia o estômago de Peter dar saltos mortais.
Para Peter Parker, momentos como aquele eram uma benção e uma tortura em igual medida.
Ele estava encostado na escrivaninha, segurando uma caneta entre os dedos trêmulos, fingindo prestar atenção absoluta. E ele prestava, afinal, ele lembrava de cada detalhe sobre S/N: o som exato da risada dela quando estava genuinamente feliz, o modo como ela mordia o lábio inferior quando se concentrava, o perfume sutil de baunilha e chuva que parecia impregnar o ar sempre que ela estava por perto.
Eles eram melhores amigos desde o colegial. Eram a dupla infalível: a garota brilhante que conseguia decifrar qualquer enigma acadêmico e o bolsista desastrado que colecionava câmeras quebradas e piadas ruins.
Mas, para Peter, S/N era muito mais do que isso. Ela era o centro gravitacional de seu mundo caótico. O problema era que, na mente de Peter — alimentada por uma autodepreciosa dose de insegurança —, ele não passava do garoto magricela, desajeitado e eternamente atrasado que tropeçava nos próprios cadarços. Na cabeça dele, a "friendzone" era um território permanente, impenetrável e dolorosamente definitivo.
— Você está me ouvindo, Parker? — S/N estalou os dedos na frente do rosto dele, tirando-o do transe. Ela sorria de lado, um misto de diversão e carinho no olhar. — Ou sua mente viajou para algum laboratório da Oscorp de novo?
Peter piscou, sentindo as bochechas esquentarem. Ele coçou a nuca, rindo nervosamente de um jeito que beirava o desesperador.
— Desculpa, S/A. É... o laboratório. Muitas variáveis. Sabe como é — mentiu ele, rezando para que ela não percebesse o quanto ele estava desorganizado por dentro.
S/N suspirou, balançando a cabeça com um sorriso terno. Ela se levantou, ajeitando as mangas do suéter, e deu um tapinha leve no ombro dele.
— Você trabalha demais, Peter. Precisa relaxar um pouco. Olha, preciso ir para casa antes que comece a desabar um temporal, mas amanhã a gente se vê na faculdade, beleza?
— Certo. Quer que eu te acompanhe até o ponto de ônibus? — ofereceu-se imediatamente, a postura endireitando-se com o instinto protetor de sempre.
— Não precisa, bobinho. Moro a duas quadras, e o Homem-Aranha com certeza está patrulhando por aí — ela brincou, pegando sua mochila. — Se cuida, Pete.
Assim que a porta se fechou, o silêncio retornou ao quarto. Peter soltou um longo suspiro, deixando o corpo desabar contra a cadeira.
Se ela apenas soubesse. Se ela soubesse que o herói mascarado de quem ela tanto falava — o cara audacioso que salvava pessoas em cima de pontes e balançava pelos arranha-céus de Manhattan — era exatamente o mesmo garoto desastrado que derrubava café na própria calça quase todo santo dia.
O problema é que Peter tinha medo. Um medo terrível e paralisante. Se S/N o amasse como o melhor amigo, o que aconteceria se ela descobrisse a verdade? E se o Homem-Aranha fosse apenas uma fantasia distante, um salvador anônimo, e o verdadeiro Peter fosse rejeitado de todas as formas possíveis?
Ele não podia arriscar perdê-la. Ela era a única constante em sua vida repleta de perdas.
Ou pelo menos era o que ele pensava até aquela noite, três semanas depois.
A noite estava fria e úmida. O vento cortante de Nova York assobiava entre os prédios altos do Queens, mas para Peter Parker, sob o traje vermelho e azul, o calor da adrenalina era o que importava. Ele vinha de uma perseguição frustrante a um grupo de atravessadores de tecnologia quando seu sentido aranha picou com uma urgência violenta.
Um grito abafado cortou o beco escuro logo abaixo de sua rota.
— Ei! Larga a bolsa dela!
Sem hesitar um segundo, Peter mergulhou em um salto mortal, disparando uma teia que o levou diretamente ao cenário do crime.
S/N estava encurralada contra a parede de tijolos escuros de um beco comercial. Um homem encapuzado segurava a alça da bolsa dela com força, enquanto outro se aproximava com um canivete brilhando fracamente sob a luz fraca de um lampião quebrado.
O coração de Peter quase parou dentro do peito. O traje de repente pareceu pesar toneladas. Era S/N. A S/N.
— Opa, opa, rapazes. Educação passou longe de casa hoje, hein? — a voz de Peter saiu distorcida pelo comunicador da máscara, carregada daquela ironia defensiva típica do Homem-Aranha, mas com um tremor quase imperceptível de puro terror protetor.
Antes que os criminosos pudessem reagir, Peter já estava em movimento. Um chute preciso desarmou o homem com o canivete, mandando a arma voando para longe. Em seguida, um disparo duplo de teia prendeu ambos os braços do segundo agressor contra a parede, imobilizando-os completamente com nós firmes que nem um rinoceronte conseguiria romper.
Tudo aconteceu em menos de dez segundos.
Quando o silêncio retornou ao beco, Peter virou-se lentamente. S/N estava tremendo contra a parede, os olhos arregalados de susto, segurando a própria bolsa contra o peito como se fosse um escudo.
Peter aproximou-se devagar, tomando todo o cuidado para não assustá-la ainda mais. Ele agachou-se levemente, mantendo a distância prudente.
— Você está bem? Machucou alguma coisa? — perguntou ele, a voz saindo muito mais suave do que o normal para o Homem-Aranha, traindo a enorme preocupação que sentia.
S/N piscou, olhando para o herói com uma mistura de choque e fascinação evidente. Ela engoliu em seco, tentando recuperar a compostura.
— E-eu estou bem. Graças a você... Nossa. Você foi... incrivelmente rápido — ela murmurou, dando um passo trêmulo para frente.
Peter sentiu o peito inflamar. Sob a máscara, ele sorriu largamente, embora soubesse que ela não podia ver. Mas então, a mente de Peter engatou em uma daquelas engrenagens perigosas.
E se? E se aquela fosse a oportunidade de escapar da friendzone? E se ele pudesse ter S/N, não como o amigo que ajuda com a lição de casa, mas como o herói que conquistou o coração dela?
Era uma ideia moralmente questionável? Com certeza. Era egoísta? Absolutamente. Mas a perspectiva de ser olhado por ela com admiração e desejo, e não apenas com carinho fraternal, o cegou.
— Sorte a minha estar passando por aqui, senhorita — disse ele, adotando um tom brincalhão e exageradamente confiante, bem diferente do seu eu real. — Nova York é perigosa para garotas tão brilhantes andarem sozinhas a essa hora.
S/N corou na penumbra do beco. Um sorriso tímido, mas carregado de interesse, brotou em seus lábios.
— É... acho que sim. Obrigada, Homem-Aranha. Como posso te agradecer?
Peter sentiu o rosto queimar sob o tecido sintético. Ele deu um passo à frente, o coração acelerado descontroladamente, e, com um gesto calculado, levou a mão até a borda inferior da máscara, levantando-a apenas o suficiente para expor seu nariz, sua boca e o sorriso torto que era marca registrada de Peter Parker. Os olhos castanhos encontraram os dela diretamente na penumbra.
— Que tal... um jantar qualquer dia desses? — sugeriu ele, com a voz falhando minimamente na última sílaba.
S/N congelou. Os olhos dela percorreram os traços dele, a boca ligeiramente entreaberta em surpresa. Mas não houve rejeição, nem confusão negativa. Em vez disso, o sorriso dela se alargou, brilhando com uma intensidade que desarmou Peter por completo.
— Eu adoraria — respondeu ela, sem hesitar um segundo sequer.
A partir daquela noite, a vida de Peter tornou-se um labirinto vertiginoso de dupla identidade levado ao extremo mais perigoso.
Durante o dia, ele era o melhor amigo de S/N. Ouvia-a suspirar e falar apaixonadamente sobre "o Homem-Aranha misterioso" que a havia salvado e convidado para sair. Ela contava cada detalhe dos encontros deles — que aconteciam sempre à noite, em cima de telhados iluminados pelas luzes da cidade, com Peter usando o traje completo, mas mantendo a máscara levantada estrategicamente até o nariz para que ela pudesse ver seus lábios, seu sorriso e beijá-lo.
Para S/N, ela estava namorando um herói enigmático. Para Peter, ele estava finalmente namorando a garota dos seus sonhos, mas vivendo com o terror constante de que a mentira desmoronasse a qualquer momento.
Eles já estavam juntos há quase dois meses. O relacionamento havia evoluído de conversas na borda de arranha-céus para beijos cada vez mais profundos, longos e carregados de uma eletricidade latente que deixava Peter tonto de paixão. Cada toque dela fazia com que ele se sentisse o homem mais sortudo do universo, mas a culpa por estar enganando a mulher que amava corroía suas entranhas silenciosamente.
Era uma noite de sexta-feira. O outono dava lugar a um frio mais rigoroso.
S/N havia convidado Peter (o Homem-Aranha) para um encontro em um loft abandonado no topo de um prédio no Brooklyn, um lugar espaçoso com grandes janelas de vidro que davam vista para o horizonte iluminado de Manhattan. Ela havia levado chocolate quente em uma garrafa térmica e alguns cobertores, determinando que eles teriam uma noite aconchegante longe da agitação das ruas.
O vento uivava lá fora, mas dentro do loft o clima era completamente diferente.
Eles estavam sentados no chão, encostados em pilares de concreto, enrolados no mesmo cobertor grosso. S/N estava entre as pernas de Peter, com as costas apoiadas contra o peito dele, enquanto os braços do herói envolviam a cintura dela, mantendo-a firmemente aquecida.
— Você está muito quieto hoje, teioso — murmurou S/N, virando levemente o rosto para olhar para cima. A máscara dele ainda estava no lugar, cobrindo seus olhos e bochechas, mas com a parte inferior levantada até o nariz, revelando a linha do seu maxilar e seus lábios ligeiramente entreabertos.
— Estou apenas... pensando — respondeu Peter, a voz baixa, quase um sussurro. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, inspirando profundamente o perfume familiar. — Pensando na sorte que eu tenho.
S/N soltou uma risada suave, virando-se um pouco mais para encará-lo de frente. Ela levou a mão fria até a bochecha dele, acariciando a pele macia com uma ternura infinita.
— Sorte a minha, quer dizer. Você me salva de bandidos, me traz chocolate quente e é... incrivelmente doce, mesmo parecendo todo durão com essa roupa colada — provocou ela, com um brilho divertido nos olhos.
Peter sorriu fracamente. O peso da mentira parecia esmagar suas costelas naquele momento. Se ela soubesse que sou apenas o nerd desajeitado que derruba café na blusa dela...
— S/N... — começou ele, a voz saindo tensa, carregada de uma urgência repentina. — E se... e se eu não for quem você pensa que sou?
S/N franziu a testa, confusa com o tom sério e melancólico na voz dele. Ela inclinou a cabeça, estudando os traços visíveis do rosto dele.
— O que você quer dizer com isso? Do que você está falando, amor?
Peter engoliu em seco. O coração batia tão forte contra as costelas que parecia prestes a romper a pele. Ele sabia que precisava contar. Não podia continuar vivendo naquela farsa, especialmente agora, quando os sentimentos entre eles eram tão reais e profundos.
Antes que ele pudesse formular uma resposta, S/N soltou uma risada leve, achando que ele estava apenas brincando ou fazendo drama romântico. Ela se aproximou mais, colocando as mãos na nuca dele, puxando-o para mais perto.
— Não importa quem você seja por baixo dessa máscara, idiota. Eu amo você. Amo o jeito como você me olha, amo o seu sarcasmo, amo cada detalhe seu — sussurrou ela contra os lábios dele.
As palavras dela agiram como uma centelha em um paiol de pólvora. A onda de calor que subiu pelo corpo de Peter foi avassaladora. Escondendo o medo por trás de um impulso de pura paixão, ele puxou S/N pela cintura, colando seus corpos em um abraço firme e urgente, e capturou os lábios dela em um beijo profundo, faminto e arrebatador.
O beijo começou lento, mas rapidamente escalou em intensidade. O choque térmico entre o frio da noite e o calor do contato fez com que ambos perdessem o fôlego. As mãos de S/N deslizaram pelos ombros largos de Peter, puxando o tecido do traje, enquanto as mãos dele traçavam curvas firmes pelas costas dela, puxando-a cada vez mais para perto, como se quisesse fundi-los em um só ser.
A atmosfera no loft tornou-se densa, carregada de eletricidade e desejo contido por semanas de namoro às escondidas.
Enquanto se beijavam com urgência crescente — com Peter inclinando-se sobre ela e S/N puxando-o pelos ombros em um frenesi de carícias —, a mão dela, em um movimento totalmente involuntário e desajeitado pela paixão do momento, enroscou-se na parte superior de tecido da máscara do Homem-Aranha.
Peter sentiu o tecido esticar. Ele tentou recuar por uma fração de segundo, tomado pelo pânico repentino, mas o movimento de S/N foi mais rápido e decidido.
Com um puxão firme, a máscara inteira deslizou pela cabeça de Peter e foi arremessada para o canto escuro do loft.
O silêncio desabou sobre o ambiente de uma forma ensurdecedora.
Peter congelou completamente. O sangue pareceu sumir de suas veias, deixando o corpo gelado. A respiração dele travou na garganta. Ele fechou os olhos por um segundo, esperando o pior — esperando o choque, a repulsa, a sensação de traição ou o grito de raiva por ter sido enganada durante todo aquele tempo.
Pronto, pensou ele, com um desespero absoluto formigando na ponta dos dedos. Você conseguiu, Parker. Acabou tudo. Ela vai te odiar.
Passaram-se alguns segundos. Nenhum som veio de S/N.
Com o coração batendo em ritmo de desespero e as mãos trêmulas ao lado do corpo, Peter abriu os olhos lentamente, preparando-se para encarar o olhar decepcionado da garota que amava.
Mas o que ele encontrou o paralisou ainda mais, embora por um motivo totalmente diferente.
S/N estava estaca, com os olhos arregalados fixos no rosto dele. Ela piscava rapidamente, como se estivesse tentando processar um erro de cálculo monumental em sua mente. O peito dela subia e descia rapidamente.
Peter abriu a boca para se explicar, a voz saindo embargada, trêmula e miserável:
— S/N... por favor, me escuta. Eu... eu posso explicar tudo. Eu não queria mentir, juro que não! É que eu... eu sou apaixonado por você desde o primeiro dia de aula, e quando eu vi que você gostava do Homem-Aranha, eu achei que... que você nunca me olharia duas vezes como o Peter desajeitado que derruba café na sua blusa, então eu...
Ele parou bruscamente, com lágrimas ameaçando se formar em seus olhos castanhos, a culpa pesando toneladas em seus ombros caídos.
— Me desculpa. Por favor, não me odeia...
S/N continuou em silêncio por mais um instante interminável. Ela olhou para o cabelo castanho bagunçado dele, para os olhos marejados, para a mandíbula tensa e para a expressão de pura vulnerabilidade estampada em seu rosto.
Então, lentamente, um canto da boca de S/N se curvou para cima. Em seguida, o sorriso espalhou-se por todo o seu rosto, iluminando suas feições com uma alegria tão pura e genuína que fez o ar faltar nos pulmões de Peter.
Para a surpresa absoluta de Peter, S/N soltou uma risada incrédula, cobrindo a boca com uma das mãos.
— Espera... — ela conseguiu articular, balançando a cabeça em negação, mas com os olhos brilhando de um jeito inexplicável. — Você... o grande, incrível e temido Homem-Aranha... é o meu melhor amigo nerd que chora quando reprova em física?
Peter engoliu em seco, sentindo as bochechas queimarem de vergonha, mas também de um alívio avassalador. Ele assentiu lentamente, encolhendo os ombros.
— Sou eu... o cara que tropeça nos próprios pés e precisa de ajuda para abrir potes de conserva — murmurou ele, envergonhado.
S/N não gritou. Não o empurrou para longe. Em vez disso, um brilho de adoração ainda mais profundo invadiu o olhar dela. Ela avançou rapidamente, envolvendo o pescoço de Peter com os braços e puxando-o para um abraço tão forte que tirou o restante do ar que lhe restava.
— Seu idiota — sussurrou ela contra o ouvido dele, a voz embargada de emoção, enquanto enterrava o rosto na curva do pescoço dele. — Seu grande, imenso, perfeito idiota.
Peter ficou tonto, sem saber exatamente como reagir. Ele ergueu as mãos hesitantes, segurando a cintura dela com cuidado.
— Você... você não está com raiva? — perguntou ele, a voz saindo num sopro frágil. — De verdade? Eu te enganei todo esse tempo, S/N. Eu fiz você achar que...
S/N afastou-se apenas o suficiente para encará-lo nos olhos. Com os polegares, ela limpou gentilmente uma lágrima solitária que havia escapado do olho de Peter, sorrindo com uma ternura que desarmou todas as defesas restantes do herói.
— Raiva? Peter, eu passei as últimas semanas suspirando por um cara mascarado, sem saber que o homem por quem eu já estava apaixonada há anos estava bem na minha frente o tempo todo — disse ela, com a voz firme e doce. — Você achou mesmo que eu precisava de um herói de quadrinhos? Eu já tinha o meu herói. O meu melhor amigo. O garoto mais corajoso, brilhante e incrível de Nova York.
As palavras atingiram Peter como um raio de sol em meio à tempestade. Todo o medo, toda a insegurança e todo o peso que ele carregava nos ombros há meses simplesmente evaporaram, dissolvendo-se no ar frio do loft.
Um sorriso largo, genuíno e radiante abriu-se em seu rosto. Sem conseguir conter a onda de felicidade avassaladora que inundava seu peito, Peter segurou o rosto dela com as duas mãos e a puxou para um beijo profundo, desesperado e infinitamente apaixonado.
D desta vez, não havia máscaras. Não havia segredos, nem disfarces, nem medos escondidos sob o traje vermelho e azul. Eram apenas Peter e S/N, exatamente como sempre deveriam ter sido.
Enquanto o vento continuava a soprar lá fora, sacudindo as janelas de vidro do loft, Peter percebeu que, por mais caótica que sua vida como Homem-Aranha pudesse ser, o verdadeiro superpoder dele sempre havia sido o amor da garota que agora sorria contra seus lábios.
Contém fofura, romance. Peter Parker (Andrew Garfield) x leitora.
Resumo: Peter Parker está completamente apaixonado por sua melhor amiga, mas o medo de estragar a amizade o paralisa. Para suprir a necessidade de estar perto dela, ele assume a identidade do Homem-Aranha, criando uma dinâmica única de salvamentos e confidências nos telhados de Nova York. Quando a leitora pede ajuda ao herói sobre como se declarar para o homem que ama — sem revelar que se trata do próprio Peter —, ele engole o ciúme e incentiva a atitude, mal sabendo que o alvo de sua paixão secreta é ele mesmo.
...
O vento cortante de Nova York sempre trazia consigo o cheiro de asfalto molhado, escapamentos de carros e a eletricidade invisível de uma cidade que nunca dormia. Para Peter Parker, no entanto, aquele ar gelado tinha um gosto agridoce, misturado com a exaustão de carregar o peso do mundo nas costas e a leveza infantil que só surgia quando ele colocava a máscara vermelha e azul.
Mas, esta noite, a verdadeira razão para o seu coração acelerar não vinha de nenhum criminoso fugindo com sacos de dinheiro ou de uma perseguição em alta velocidade pela Ponte do Queensboro. Vinha de um barulho específico: o balançar de tênis converses pendurados na beirada de um telhado, balançando no vazio a dezenas de andares de altura, e a voz dela cantarolando baixinho uma música indie que tocava em seus fones de ouvido.
— Você vai acabar caindo, S/N. E por mais que eu adore o fato de ter reflexos incríveis, meus braços começam a doer só de pensar na papelada do seguro — a voz de Peter saiu abafada pelo tecido da máscara, mas carregada com aquela familiar pitada de diversão brincalhona.
S/N sobressaltou-se levemente, tirando um lado do fone de ouvido e virando o rosto para encará-lo. Um sorriso imediato, daqueles que tinham o poder mágico de desarmar qualquer um dos instintos de sobrevivência do Homem-Aranha, iluminou o rosto dela sob o luar prateado.
— Aranha! Pensei que tivesse me dado um bolo hoje. Já estava quase abrindo um abaixo-assinado para trocar de super-herói guardião — respondeu ela, dando tapinhas no espaço vago ao lado dela no concreto frio.
Peter não pensou duas vezes. Lançou-se em um salto elegante, aterrissando com a graça felina de sempre, mas sentando-se com cuidado para manter uma distância segura — uma distância que ele mesmo se impunha, embora cada célula do seu corpo implorasse para diminuí-la.
Era uma dinâmica bizarra, irônica e profundamente dolorosa. Na vida real, Peter Parker era o garoto um pouco desajeitado, o fotógrafo freelancer que gaguejava quando ela sorria de repente, o melhor amigo com quem ela dividia o lanche na cafeteria da esquina e que ouvia, com um aperto no peito, todas as histórias do dia dela. Sob a máscara, contudo, ele era o Homem-Aranha: confiante, tagarela, audacioso, o cara que a salvava de assaltantes desajeitados em becos escuros e que, sem querer, acabou virando o confidente noturno dela.
— Um bolo? Eu? Nunca na vida. O dever me chamou, sabe como é. Um cara tentou roubar um caminhão de sorvete no Brooklyn. Coisas sérias da justiça moderna — mentiu ele com naturalidade, cruzando as pernas e olhando para o horizonte brilhante de Manhattan. A verdade era que ele tinha passado duas horas inteiras no quarto encarando o teto, imaginando se deveria ir vê-la ou se focar nas fotos atrasadas para o Clarim Diário, até que a vontade de ouvir a voz dela falou mais alto.
S/N riu, um som melodioso que se perdeu entre as buzinas distantes da rua. Ela puxou os joelhos contra o peito, abraçando as pernas, e suspirou. O semblante brincalhão deu lugar a uma expressão mais pensativa, quase melancólica.
Peter percebeu a mudança na hora. Sob a máscara, sua testa franziu, a preocupação substituindo instantaneamente o tom brincalhão.
— Ei... aconteceu alguma coisa? Se algum idiota te aborreceu hoje, juro que dou mais três nós na teia dele antes de pendurar no poste mais alto — disse ele, a voz suavizando-se de maneira quase imperceptível.
— Não, não foi nada disso. Quer dizer... foi, mas não do jeito ruim. É mais... confuso — S/N mordeu o lábio inferior, um hábito que Peter conhecia dolorosamente bem, tanto na luz do dia quanto sob a penumbra da noite. Ela virou o rosto para encará-lo através das lentes brancas da máscara. — Aranha, você é bom com conselhos do coração? Porque, tipo, você parece o tipo de cara que entende de romance dramático de filme dos anos oitenta.
O estômago de Peter deu uma cambalhota violenta. Romance? Coração? O cérebro dele travou por um microssegundo. Será que ela tinha conhecido alguém? Será que havia um cara novo na faculdade ou no bairro que ele ainda não conhecia? O pensamento veio acompanhado de uma pontada afiada de ciúme, misturada com um pânico gelado.
Respira, Parker. Você é o Homem-Aranha, você aguenta socos do Lagarto, você aguenta isso, pensou ele, forçando uma risada leve que soou um pouco mais estridente do que pretendia.
— Romance dramático? Ah, com certeza. Eu sou basicamente o cupido com spandex e elastano. Dispare a artilharia, S/N. O que está rolando nessa cabecinha brilhante?
Ela desviou o olhar por um instante, fitando as próprias mãos apoiadas nos joelhos. As bochechas dela ganharam um tom rosado sutil, mesmo na penumbra. Havia uma hesitação palpável ali, uma timidez que raramente aparecia na personalidade vibrante dela.
— É que... tem esse cara. — Ela começou, a voz um pouco mais baixa do que o normal. — Nós somos amigos há um bom tempo. Tipo, muito amigos. Ele é incrível, sabe? É inteligente, engraçado de um jeito meio bobo que me faz rir mesmo nos meus piores dias, ele tem uns olhos castanhos que parecem guardar o universo inteiro e... e ele é incrivelmente gentil. Do tipo que se importa com todo mundo antes de se importar consigo mesmo.
Peter sentiu o ar sumir dos pulmões. Cada palavra descrita parecia uma flecha certeira apontada para o peito dele. Olhos castanhos? Jeito bobo? Inteligente? Era uma descrição cirúrgica. Mas... espere. Ela estava falando dele? Não, não podia ser. Se ela estivesse falando de Peter Parker, ela não estaria pedindo conselhos ao Homem-Aranha sobre como conquistá-lo, estaria? A menos que... não, isso seria loucura demais. Ela o via como o melhor amigo nerd, o cara que ajudava com a lição de física. O Homem-Aranha era apenas o herói mascarado legal com quem ela jogava conversa fora.
— Wow. Ok. O cara parece ser um verdadeiro exemplar raro — Peter conseguiu articular, sentindo a garganta seca como lixa. Por dentro, um turbilhão de esperança estúpida e desespero lutavam ferozmente. — E... qual é o problema? Se ele é tudo isso, por que você não chega nele e diz o que sente?
S/N soltou um suspiro frustrado, jogando a cabeça para trás em direção ao céu.
— Porque eu tenho medo, Aranha! — desabafou ela, a voz carregada de uma vulnerabilidade genuína que rasgou o coração de Peter. — E se eu estragar tudo? E se ele me ver apenas como uma amiga? Nós nos conhecemos há tanto tempo, a nossa amizade é preciosa demais para eu arriscar jogar tudo no lixo por causa de um sentimento egoísta meu. E se ele não sentir o mesmo? Como a gente volta a ser o que era depois de um fora?
As palavras bateram em Peter com a força de um trem de carga. Eram exatamente, literalmente, os mesmos medos que o mantinham calado todas as vezes que ele olhava para ela na sala de aula ou na cozinha da tia May. Era o reflexo perfeito do seu próprio espelho. Ele queria gritar ali mesmo, arrancar a máscara e dizer: "Garota, eu estou apaixonado por você desde o segundo em que você derrubou todos os seus livros no corredor da escola e eu fui o idiota que tentou ajudar e acabou derrubando tudo também!"
Mas ele não podia. O peso da responsabilidade, o medo de colocá-la na mira dos seus inimigos, a insegurança crônica de que alguém tão incrível quanto ela pudesse realmente querer um cara cheio de problemas como Peter Parker... tudo isso o travou. Ele era um covarde mascarado.
— S/N... — Peter começou, a voz perdendo todo o tom brincalhão, substituída por uma seriedade crua e sincera. Ele se aproximou um pouco mais, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Olha para mim.
Ela virou o rosto, encontrando as lentes brancas da máscara.
— Se esse cara é realmente seu amigo, se ele se importa com você do jeito que você diz... ele não vai estragar as coisas só porque você foi corajosa o suficiente para ser sincera. O pior tipo de arrependimento neste mundo é aquele que vem das coisas que a gente nunca teve a coragem de tentar. Você merece saber. E se ele for inteligente o suficiente — o que eu duvido um pouco se ele ainda não percebeu a garota incrível que tem bem na frente dele —, ele vai cair de joelhos e agradecer aos céus por você gostar dele.
S/N piscou algumas vezes, surpresa com a intensidade repentina na voz do herói. Um sorriso terno, embora ainda um pouco incerto, brotou em seus lábios.
— Você é bem sábio para alguém que passa o dia pulando de telhado em telhado vestindo uma fantasia de Halloween, sabia?
Peter soltou uma risada curta, sentindo um nó doloroso na garganta.
— É um dom. Mas falando sério... o que te impede de dar o primeiro passo? Tipo, de mostrar para ele de um jeito que não deixe nenhuma dúvida?
— Que tipo de jeito? — perguntou ela, inclinando a cabeça para o lado, curiosa.
Peter engoliu em seco. A ideia era dolorosa, mas ele queria a felicidade dela acima de tudo. Se não podia ser ele o dono do coração dela, que fosse alguém que a fizesse feliz — mesmo que a ideia de vê-la com outro o consumisse por dentro.
— Um beijo — disse ele, a palavra escapando antes que pudesse filtrá-la. — Daqueles que não deixam margem para interpretação errada. Daqueles que param o tempo. Se você gosta dele desse jeito, chegue perto, diga o que sente e acabe com qualquer dúvida. Garanto que nenhum homem neste planeta conseguiria resistir a isso.
S/N ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo as palavras. Seus olhos brilharam sob a luz da lua com uma intensidade nova, uma centelha de determinação que parecia ter acabado de nascer ali. Ela respirou fundo, como se estivesse tomando uma decisão monumental.
— É... você tem razão, Aranha. Talvez esteja na hora de parar de ser covarde — murmurou ela, olhando fixamente para ele com uma expressão que fez o sistema nervoso de Peter entrar em pane total. Ela estendeu a mão e deu um tapinha leve no ombro dele. — Obrigada. Sério. Você é o melhor amigo que um super-herói poderia ter. Ou melhor... o melhor herói que uma garota perdida poderia encontrar.
Peter sentiu o peito aquecer de uma forma avassaladora.
— Sempre aqui, S/N. Sempre.
O dia seguinte amanheceu com um sol pálido de outono filtrando-se através das cortinas empoeiradas do quarto de Peter. O apartamento estava silencioso, exceto pelo zumbido distante do trânsito da Queens Boulevard e o som abafado de rádio vindo do andar de baixo, onde a tia May provavelmente preparava o café da manhã.
Peter estava sentado à escrivaninha, com olheiras profundas decorando seu rosto. Ele mal havia dormido. A conversa da noite anterior no telhado rodopiava em sua mente como um carrossel sem freios. Quem seria o cara? Será que ela já tinha ido falar com ele? A simples ideia de S/N se declarando para outra pessoa fazia seu estômago se contrair em nós dolorosos. Ele suspirou pesadamente, tirando os óculos de grau e esfregando os olhos com as costas das mãos.
De repente, batidas firmes ecoaram na porta da frente do apartamento.
Franzi a testa, olhando para o relógio na parede. Eram pouco mais de dez horas da manhã de um sábado. Tia May não estava — ela tinha saído cedo para fazer compras no mercado comunitário.
Será que é o correio? pensou Peter, levantando-se preguiçosamente da cadeira, vestindo uma camiseta cinza amassada e calças de moletom gastas. Ele caminhou a passos lentos pelo corredor estreito e girou a maçaneta, abrindo a porta.
As palavras sumiram da sua boca. O ar evaporou dos seus pulmões.
Era S/N.
Ela estava parada no batente da porta, usando seu casaco oversized favorito e com os cabelos levemente bagunçados pelo vento da rua. Mas não era a presença dela que havia paralisado o sistema nervoso de Peter; era o olhar nos olhos dela. Havia uma eletricidade crua, uma urgência e uma coragem indescritíveis ali.
Antes que Peter pudesse articular um único som — um "oi", um "o que você está fazendo aqui?", um gaguejo qualquer —, S/N deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele com uma rapidez que desafiava as leis da física.
Sua mão pequena e firme segurou a gola da camiseta cinza de Peter, puxando-o para baixo com uma força surpreendente, enquanto a outra mão foi direto à sua nuca, firmando-o no lugar.
E então, o mundo parou.
Os lábios de S/N encontraram os dele.
Não foi um selinho rápido ou acidental. Foi um beijo decidido, quente, carregado de toda a paixão, frustração, carinho e saudade contida que ela vinha guardando durante meses. O gosto de café com menta misturou-se ao calor do momento, e o cérebro de Peter sofreu um colapso total de sinapses.
Por um segundo, ele congelou, completamente estático, com os olhos arregalhados atrás das lentes dos óculos que segurava frouxamente na mão direita. O universo parecia ter desabado e se reconstruído em questão de milissegundos. Ela me beijou. A ficha demorou a cair, mas quando caiu, o instinto falou mais alto.
As barreiras desabaram. O medo evaporou. A timidez sumiu.
Com um arquefar trêmulo, Peter deixou os óculos caírem no carpete (com sorte, sem quebrar), e suas mãos — antes trêmulas de insegurança — envolveram a cintura de S/N com uma firmeza possessiva e desesperada, puxando-a para mais perto, colando seus corpos como se quisesse fundir os dois em um só. Sua boca respondeu ao beijo com uma intensidade que surpreendeu até a ele mesmo, correspondendo a cada segundo daquela entrega com um fervor que traduzia perfeitamente todo o amor guardado em seu peito.
Quando a falta de ar finalmente os obrigou a se separarem, ambos continuaram com os olhos fechados por alguns segundos, encostando as testas uma na outra, respirando ofegantes no silêncio do corredor. O peito de Peter subia e descia em ritmo acelerado, o coração batendo tão forte que parecia querer romper as costelas.
S/N abriu os olhos primeiro. Um sorriso travesso, misturado com um alívio imenso e um rubor profundo nas bochechas, iluminou o rosto dela. Ela passou os dedos distraidamente pela gola da camisa dele, o polegar roçando de leve em sua clavícula.
— Você é um idiota, sabia? — sussurrou ela, com a voz embargada de emoção e um brilho indescritível no olhar.
Peter abriu os olhos lentamente, piscando confuso, ainda tentando processar se aquilo era real ou se ele tinha desmaiado no telhado na noite anterior e estava tendo um delírio febril.
— Eu... o quê? Por quê? O que eu fiz? — gaguejou ele, com os olhos arregalados, o cérebro totalmente frito.
S/N soltou uma risada suave, balançando a cabeça em desaprovação carinhosa.
— Você passou meses ouvindo eu falar sobre o quanto eu gostava do meu melhor amigo bobo, inteligente, que usa óculos e que tem um sorriso torto quando fica nervoso... e continuou bancando o lorde inglês misterioso nos telhados de Nova York, me dando conselhos de amor sobre ele mesmo!
O sangue de Peter gelou e depois ferveu na mesma velocidade. Suas bochechas queimaram de ponta a ponta, assumindo um tom escarlate que competia com o uniforme do Homem-Aranha guardado no armário. Ele abriu e fechou a boca umas três vezes, parecendo um peixe fora d'água.
— Espera... você... você sabia? Desde quando?! — a voz dele saiu esganiçada, misturando pânico absoluto e um choque monumental.
— Desde o dia em que o Homem-Aranha apareceu com um rasgo no ombro esquerdo do uniforme exatamente no mesmo lugar onde você tinha voltado com a blusa rasgada da faculdade depois de "cair da escada", Peter Parker — disse ela, arqueando uma sobrancelha com um sorriso vitorioso e irresistível nos lábios. — Sem contar que o seu Homem-Aranha tem exatamente o mesmo sotaque gago e a mesma mania de tagarelar quando está nervoso que você tem desde o colegial. Vocês péssimos disfarces ambulantes fazem uma dupla e tanto.
Peter sentiu o chão sumir sob os pés. Ele fechou os olhos por um instante, passando a mão livre pelo cabelo cacheado, totalmente derrotado pela própria falta de sutileza.
— Ok... eu sou oficialmente o super-herói mais idiota da face da Terra — murmurou ele, derrotado, embora um sorriso bobo, enorme e inevitável começasse a se espalhar por todo o seu rosto.
S/N riu alto, aconchegando-se ainda mais contra o peito dele, envolvendo os braços ao redor do pescoço de Peter.
— Mas você é o meu idiota mascarado favorito. Agora, vai me convidar para entrar ou vai ficar aí parecendo que viu um fantasma?
Peter olhou para ela, sentindo o peito transbordar de uma felicidade tão pura que parecia mágica. Ele deu um sorriso torto — aquele mesmo sorriso que ela tanto amava — e a puxou de volta para mais um beijo, fechando a porta do apartamento atrás deles enquanto o resto do mundo, com todos os seus perigos e vilões, simplesmente deixava de importar.
Contém fofura, romance, ben tennyson x leitora namorados. A leitora foi escrita como a a minha personagem.
Resumo: Ben Tennyson e a Leitora formam o casal mais unido do universo, mas quando um velho inimigo a sequestra para atrair o herói, Ben entra em pânico. Voando para o resgate, ele se prepara para o pior, apenas para descobrir que sua namorada alienígena ex-assassina já tinha a situação sob controle. Uma lição rápida sobre subestimar a mulher que você ama.
Bellwood estava estranhamente tranquila naquela tarde de terça-feira. O sol se punha no horizonte, pintando o céu de tons alaranjados e roxos, e o cheiro de batatas fritas da lanchonete do Sr. Baumann flutuava no ar. Era o tipo de paz que Ben Tennyson, o herói do universo, raramente tinha tempo para apreciar, mas que, curiosamente, ele valorizava ainda mais agora.
Sentado em um banco de praça, ao lado dele, estava a Leitora. Ela era linda, com aqueles olhos hipnóticos que pareciam ler sua alma e um sorriso que desarmava até os vilões mais endurecidos. Eles estavam dividindo um sundae de caramelo, um pequeno luxo entre as crises intergalácticas que, inevitavelmente, surgiam.
"Sabe," Ben começou, a colher cheia de sorvete a caminho da boca, "às vezes eu esqueço que existe um universo inteiro lá fora querendo me destruir. Com você aqui, tudo parece... normal."
A Leitora sorriu, um sorriso suave que não alcançava seus olhos. Ela sabia que a normalidade era uma ilusão. "Aproveite o momento, Ben. O normal é um luxo para nós."
Ben assentiu, distraído, e colocou a colher na boca. Naquele exato momento, o Omnitrix em seu pulso emitiu um bipe rápido e agudo. Alerta de Emergência Nível 2.
"Ah, sério? Agora?" Ben suspirou, olhando para o visor do relógio. "Driscoll, o Mestre de armas, está tentando roubar um carregamento de tecnologia alienígena no porto. Nada de muito sério, mas não posso deixar passar."
A Leitora se levantou, sacudindo migalhas invisíveis de suas roupas. "Vá, herói. Eu estarei bem aqui quando você voltar." Ela lhe deu um beijo rápido e casto na bochecha.
"Promete?" Ben perguntou, um pouco hesitante. Ele sempre ficava inquieto quando eles se separavam, mesmo por pouco tempo. A história deles era complexa, e o passado dela como assassina de elite a tornava um alvo em potencial, algo que ele odiava.
"Prometo," ela disse, com a voz calma e firme.
Ben sorriu, se transformou em XLR8 e desapareceu em um borrão azul e branco em direção ao porto.
Se ele tivesse olhado para trás, teria visto a Leitora ajustar a postura, a expressão suave se transformar em algo frio e calculista. Ela sabia que aquele assalto no porto era uma distração. O verdadeiro alvo não era a tecnologia. Era ela.
Ela esperou alguns minutos, respirando fundo, absorvendo a energia da Terra, que parecia vibrar com sua própria magia. Ela sentia isso, uma pulsação sombria vindo de um beco próximo. Driscoll não agia sozinho.
"Saiam," ela disse para o ar, com uma voz que cortava o silêncio da praça. "Sei que estão aí."
Dois vultos emergiram das sombras. Eram os capangas de Driscoll, mas não eram humanos. Eles tinham a pele cinzenta e olhos vermelhos e brilhantes, armados com blasters de plasma que sibilavam ameaçadoramente.
"A Srta. Tennyson," um deles sibilou, sua voz gutural. "O Mestre de armas nos pediu para buscá-la. Viva, de preferência."
A Leitora inclinou a cabeça, os olhos brilhando com uma intensidade sobrenatural. Ela não disse nada. Ela simplesmente levantou uma das mãos e murmurou uma palavra em uma língua antiga. Uma onda de choque de energia mágica se espalhou, derrubando os capangas instantaneamente.
Mas eles não eram os únicos. Uma figura alta e magra, envolta em uma armadura de batalha complexa, desceu do céu com um whoosh de propulsores a jato. Era Driscoll.
"Srta. Tennyson," ele disse, a voz modulada pelo capacete. "Que honra. O Omnitrix é o objetivo, mas você é o prêmio. O ponto fraco do herói."
A Leitora riu, um som gélido que parecia emanar do subsolo. "Eu não sou o ponto fraco dele, Driscoll. Eu sou a arma que ele escolheu segurar."
Ela avançou, a magia dançando em suas pontas dos dedos. A luta foi rápida, mas brutal. Os capangas se levantaram e atiraram, mas a Leitora, com a agilidade e a velocidade de uma assassina treinada por séculos, desviou dos raios de plasma como se fossem gotas de chuva. Ela usou a magia para se teletransportar para trás deles, neutralizando-os com golpes precisos e potentes na nuca, nocauteando-os em segundos.
Driscoll, no entanto, era mais formidável. Ele ativou um campo de força pessoal que absorvia os ataques mágicos da Leitora. "Magia não funciona contra mim, assassina. Eu previ isso."
"Isso é o que você acha," ela sibilou, mudando de tática. Ela abandonou a magia por um segundo e correu em direção a ele, usando sua supervelocidade. Ela desferiu um soco poderoso, que fez a armadura de Driscoll tremer, mas o campo de força a protegeu. Driscoll contra-atacou com uma rajada de energia, que ela evitou por pouco.
A Leitora percebeu o padrão. A cada ataque de energia, o campo de força enfraquecia momentaneamente. Ela precisava de um momento exato.
Ela continuou a esquivar e atacar, forçando Driscoll a gastar energia. Ele estava confiante, acreditando que a tinha encurralada.
"Desista, mulher," ele zombou. "O Omnitrix logo será meu e seu Ben Tennyson não poderá salvá-la."
"Você não tem ideia de quem está falando, Driscoll," ela respondeu, sua voz fria.
Ela pulou no ar, preparando um ataque mágico combinado com um soco. Driscoll se concentrou em defender o ataque. Foi o erro dele. A Leitora não atacou com magia. Ela concentrou toda a sua força em um único ponto em suas botas, caindo como um meteoro em cima do campo de força. O impacto foi ensurdecedor. O campo de força estilhaçou.
Driscoll, cambaleando com o impacto, tentou se recuperar, mas a Leitora já estava sobre ele. Ela desferiu uma série de golpes rápidos e precisos, desativando os controles da armadura e nocauteando-o com um soco final no capacete.
Driscoll caiu no chão, inconsciente. A Leitora respirou fundo, o coração batendo um pouco mais rápido. Ela sabia que Ben estaria a caminho.
Ela pegou o comunicador de Driscoll e enviou uma mensagem codificada para Rook, o parceiro de Ben, pedindo que ele e os Encanadores cuidassem do vilão.
"Bom trabalho, Sra. Tennyson," Rook respondeu pelo comunicador.
"Sra. Tennyson?" ela murmurou, com um sorriso pequeno. "Acho que ainda não."
Ela olhou para a praça. O sundae derretido estava no chão. Uma pena.
Ela arrastou o corpo inconsciente de Driscoll para o beco, onde os capangas caídos estavam amarrados com cordas de energia mágica. Ela esperou.
...
Enquanto isso, no porto, Ben, transformado em Quatro Braços, estava terminando de amarrar os capangas de segunda categoria do Mestre do Preparo. Era um trabalho rotineiro, mas o bipe em seu pulso o deixou inquieto. Rook estava ocupado em outra missão, então Ben estava sozinho.
"Isso é tudo, pessoal," Ben disse, estalando os dedos. "Mais um dia, mais um vilão chato."
Ele olhou para o Omnitrix. O alerta havia cessado, mas o pressentimento ruim em seu estômago se intensificou. Ele sentiu uma perturbação na Força, ou melhor, na magia. Algo estava errado.
Ele se transformou em Araia Jato e voou de volta para a praça onde tinha deixado a Leitora. Ele aterrissou no banco vazio. O sundae estava no chão. Ela não estava lá.
"Leitora?" ele chamou, a voz ecoando na praça silenciosa. Nenhuma resposta.
O pânico começou a subir em sua garganta. O Omnitrix ainda estava em modo de emergência. Ele olhou para o chão e viu um pequeno dispositivo eletrônico quebrado. O rastreador que ele havia colocado nela, sem que ela soubesse, para garantir que ela estivesse segura.
"Driscoll," Ben rosnou, a voz tremendo de raiva e medo. "Ele a levou. Ele a usou como isca."
Ele se transformou em Besta e farejou o ar. Ele pegou um cheiro familiar. Mofo, metal e a fragrância sutil e inconfundível de jasmim, o perfume da Leitora. O rastro levava a um beco próximo.
Ele correu, a velocidade de Besta o levando em um borrão alaranjado. Ele virou a esquina do beco e parou bruscamente.
A cena que o aguardava era... diferente do que ele esperava.
Os três capangas de Driscoll estavam amarrados em uma pilha, amordaçados e parecendo que haviam passado por um triturador. Driscoll estava caído no chão, inconsciente, com a armadura fumegante e o capacete amassado.
E, no meio de tudo isso, sentada calmamente em uma caixa de madeira que ela havia encontrado no beco, estava a Leitora, bebendo uma xícara de chá.
"Ben?" ela perguntou, com a voz calma e serena. "Você demorou. O chá já estava esfriando."
Ben ficou paralisado. O pânico que o consumia se transformou em uma confusão total. Ele olhou para a pilha de capangas, depois para Driscoll, e finalmente para a xícara de chá nas mãos da Leitora.
"O que... o que aconteceu aqui?" ele gaguejou, sua voz voltando ao normal, a transformação de Besta se desfazendo em um lampejo verde. "Eu... eu pensei que você tinha sido sequestrada. Eu estava com tanto medo..."
A Leitora colocou a xícara de chá na caixa. "Eu fui. E eles descobriram que sequestrar uma ex-assassina não é uma boa ideia." Ela se levantou, alisando o vestido. "Driscoll queria atrair você. Eu o deixei. Foi mais fácil do que lutar com ele no meio de uma multidão."
Ben correu até ela, passando os braços em volta dela, enterrando o rosto em seu pescoço. "Eu fiquei com tanto medo," ele repetiu, a voz abafada. "Eu achei que você... eu não sei o que eu faria se você se machucasse."
A Leitora o abraçou de volta, passando a mão por seus cabelos castanhos. "Eu sei, Ben. Eu sei. Mas eu sou uma sobrevivente. Eu me cuido há muito mais tempo do que você imagina."
Ben se afastou um pouco, olhando para ela, com os olhos verdes marejados. "Mas... você é minha namorada. Meu trabalho é te proteger. Eu sou o herói."
"Você é o herói do universo, Ben," ela disse, com um sorriso terno. "Mas eu sou a heroína da minha própria história. Eu te escolhi, mas isso não significa que eu precise de um resgate. Eu não sou uma donzela em perigo. Driscoll subestimou a mim, e você subestimou a minha capacidade de lidar com a situação."
Ben suspirou, a tensão esvaindo de seu corpo. Ele olhou para o corpo inconsciente de Driscoll. "Rook está a caminho," ela disse. "Ele vai levar os prisioneiros."
Ben olhou para ela, o rosto suavizando. "Você está bem? Sério?"
"Estou bem. Nenhum arranhão. Só um pouco de tédio por ter que esperar por você."
Ben sorriu, um sorriso genuíno. Ele se sentia um pouco tolo, mas o alívio era imenso. "Sabe, a próxima vez que alguém tentar te sequestrar, eu gostaria que você pelo menos fingisse que precisou de um pouco de ajuda. Só para eu me sentir útil."
A Leitora riu. "Eu nunca fingiria, Tennyson. Você é muito útil em outras coisas."
Ela deu um passo à frente e colocou as mãos em seus ombros. "Você estava tão preocupado que esqueceu que eu sou uma máquina de matar aposentada, não é?"
"Eu... eu acho que sim," ele admitiu, corando levemente.
"Foi muito fofo, no entanto," ela sussurrou, com um sorriso malicioso.
"Fofo?" ele perguntou, o rosto ficando ainda mais vermelho.
"Sim. O herói do universo, tremendo de medo por causa de sua namorada. É romântico."
Ela se inclinou e o beijou. Não foi um beijo rápido e casto como o da praça. Foi um beijo longo, apaixonado e cheio de alívio. Ben respondeu com entusiasmo, seus braços envolvendo a cintura dela, puxando-a para mais perto.
Quando eles se separaram, Ben estava completamente corado. "Você... você me deixa sem palavras," ele gaguejou.
"Eu sei. E eu adoro isso."
Naquele momento, o som de uma sirene Encanador se aproximou. Rook aterrissou no beco com sua Proto-Arma. "Ben! Leitora! Eu recebi a mensagem. O que... oh." Ele parou ao ver a cena.
"Parece que a Srta. Tennyson já cuidou de tudo, Rook," Ben disse, com um sorriso orgulhoso, passando o braço em volta dos ombros da Leitora. "Ela é incrível."
Rook olhou para a pilha de capangas e para Driscoll inconsciente. "Impressionante, de fato. Como sempre, Leitora. Os Encanadores agradecem."
"Sem problemas, Rook," ela disse, com um aceno de cabeça.
"Bom, já que o trabalho está feito," Ben disse, "eu acho que merecemos outro sundae. Dessa vez, sem interrupções."
"Eu adoraria," ela disse.
Eles caminharam para fora do beco, de mãos dadas. Ben olhou para o céu estrelado, o medo da noite substituído por uma sensação de paz e admiração. Ele tinha a namorada mais incrível do universo, uma ex-assassina que não precisava de resgate, mas que o amava o suficiente para fazer com que ele se sentisse o herói.
"Sabe," ele disse, com um sorriso maroto. "Aquele beijo..."
"Sim?" ela perguntou, fingindo inocência.
"Foi melhor do que o sundae."
A Leitora riu, um som que fez o coração de Ben vibrar. "Eu concordo. Mas ainda quero meu sundae."
E eles caminharam em direção à noite, uma dupla improvável, mas perfeitamente equilibrada, prontos para qualquer desafio que o universo lhes reservasse, sabendo que, juntos, eles eram imbatíveis.
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Conteúdo fofo e romântico. Aang x leitora namorados.
Resumo: Anos após o término da guerra que remodelou o mundo, Aang e sua namorada compartilham uma rotina de calmaria, reconstrução e amor profundo. Em meio à simplicidade de um fim de tarde no Templo do Ar do Sul, longe dos holofotes políticos de Cidade República e das grandes festividades das nações, Aang decide dar o passo mais importante de sua vida. Sem banquetes luxuosos, discursos grandiosos ou alianças de ouro cravejadas de pedras preciosas, ele faz o pedido de casamento da maneira mais pura, genuína e autêntica possível: um momento íntimo, reservado apenas para os dois, embalado pela brisa das montanhas. Tomado por uma insegurança típica de quem acha que merecia oferecer mais, Aang surpreende-se ao ver a reação da leitora, que reconhece naquele gesto simples a essência exata do homem que ama, aceitando de imediato com o coração transbordando de felicidade.
...
O Templo do Ar do Sul guardava uma quietude que parecia suspensa no tempo. Enquanto Cidade República crescia a passos largos, erguendo arranha-céus de metal e trilhos de bondes elétricos sob a liderança conjunta de políticos e dobradores, os antigos santuários nas montanhas permaneciam como o refúgio perfeito onde o mundo moderno não conseguia ditar o ritmo.
O sol começava a descer no horizonte, tingindo o céu de tons profundos de âmbar, violeta e rosa suave. A luz dourada da tarde banhava as cúpulas de pedra e os pátios de treinamento, onde o silêncio só era quebrado pelo assobio brando do vento batendo nas fendas das rochas e pelo chamado distante de um bispo voador pastando nos campos mais altos.
Aang estava sentado na borda da sacada de pedra do santuário principal, com as pernas balançando sobre o abismo vertiginoso. Suas vestes tradicionais laranjas e amarelas balançavam levemente com a brisa, e em seu colo repousava o báculo de madeira entalhada.
A leitora caminhou pelo corredor de pedra, os passos leves quase imperceptíveis, carregando duas xícaras de chá de jasmim fumegante que ela havia preparado na cozinha rústica do templo. Ela sorriu ao vê-lo dali, com a cabeça raspada reluzindo sob a luz do sol poente e a flecha azul brilhando com uma suavidade serena.
— Você vai acabar congelando se ficar sentado aí fora sem prestar atenção na temperatura — disse ela, aproximando-se e estendendo uma das xícaras para ele.
Aang virou o rosto, e os olhos cinzentos iluminaram-se com aquele sorriso doce, moleque e profundamente apaixonado que nunca mudara desde os dias em que corriam juntos pelos acampamentos da resistência.
— Eu nunca congelo quando o vento está do meu lado — respondeu Aang, aceitando a xícara com as mãos calejadas, roçando de leve os dedos nos dela. — E menos ainda quando você aparece.
Ela sentou-se ao lado dele, encostando o ombro no braço musculoso de Aang. A brisa da montanha trazia o cheiro de pinheiro e terra molhada, misturado com o aroma floral do chá. Eles permaneceram em silêncio por alguns minutos, apenas apreciando a vastidão do horizonte, onde as montanhas pareciam tocar o teto do mundo.
Era um momento perfeito. Simples, cotidiano, desprovido de qualquer protocolo oficial. Não havia conselhos de líderes para ouvir, nem embaixadores batendo à porta, nem ameaças de facções renegadas. E era justamente essa simplicidade que fazia Aang apertar a xícara com um pouco mais de força, sentindo o coração bater mais rápido no peito, não por medo de uma batalha, mas por causa de algo muito mais definitivo.
...
Aang respirou fundo, tomando um gole pequeno do chá quente, mas a mente dele parecia girar em um turbilhão de pensamentos que nada tinha a ver com a serenidade da paisagem.
Ele olhou de soslayo para a leitora. Ela observava o pôr do sol com um sorriso tranquilo nos lábios, os cabelos soltos balançando levemente ao vento. Ela estava com ele em cada fase daquela jornada insana: desde os dias desesperadores em que fugiam da Nação do Fogo até a reconstrução caótica das cidades, passando pelas noites em que Aang chorava em silêncio, consumido pelo peso de ser o último dobrador de ar. Ela nunca exigira grandiosidades dele. Nunca pedira títulos, riquezas ou honrarias. Ela apenas amara o garoto por quem ele era, e continuava amando o homem em que ele havia se transformado.
“Mas será que isso é suficiente?”, pensou Aang, sentindo uma pontada de insegurança apertar seu estômago. “Outros casais reais ganham festas em capitais, colares de prata trabalhados por mestres ourives, banquetes com líderes de todas as nações... E eu aqui, sentado numa rocha, prestes a perguntar se ela quer passar o resto da vida comigo sem sequer ter comprado uma joia de verdade.”
O Avatar coçou a nuca, visivelmente tenso, o que não passou despercebido pela leitora. Ela virou o rosto para ele, franzindo levemente a testa com aquela intuição fina que ela desenvolvera após anos convivendo lado a lado com ele.
— Aang? O que foi? — perguntou ela, inclinando a cabeça. — Você está com essa cara de quem acabou de tentar dobrar fogo perto de barris de pólvora. Aconteceu alguma coisa em Cidade República? O conselho está exigindo mais relatórios?
Aang sobressaltou-se levemente, engolindo em seco. Ele colocou a xícara de chá na borda da pedra, com cuidado para não derramar, e virou o corpo para encará-la de frente. As mãos dele tremiam um pouco — um tremor que nem o Senhor do Fogo Ozai conseguira provocar anos atrás.
— Não... não é nada com o conselho — gaguejou Aang, limpando as mãos nervosamente na túnica. — Quer dizer... Cidade República está em paz. Os relatórios podem esperar. É que... bem...
Ele parou, respirando fundo para tentar organizar as ideias que pareciam se espalhar como folhas ao vento.
— Aang, você está me deixando nervosa — disse a leitora, abrindo um sorriso terno, embora visivelmente curiosa com a postura travada do namorado. — Pode falar. Seja o que for, nós já passamos por coisas piores do que uma reunião de conselho atrasada. Lembra de quando ficamos presos na caverna dos dois amantes?
Aang soltou uma risada nervosa, coçando a cabeça novamente.
— É... verdade. Naquela época eu era só um garoto assustado tentando entender o mundo. E agora... bem, passaram-se os anos, nós crescemos, construímos uma vida juntos. Você esteve comigo nos momentos mais escuros e nos dias mais felizes.
Ele estendeu a mão direita, hesitando por um segundo antes de segurar a mão dela com firmeza. A pele dela estava morna, contrastando com o vento frio da montanha.
— Eu estive pensando muito sobre nós — continuou Aang, a voz saindo um pouco mais baixa, mas carregada de uma sinceridade crua que fez o ar ao redor deles parecer estático. — E sobre o futuro. Eu sei que não sou perfeito. Sei que às vezes viajo demais, que fico perdido nos meus pensamentos sobre o passado, e que não sou o tipo de homem que entende de etiqueta sofisticada ou de festas grandiosas na alta sociedade de Ba Sing Se.
— Aang, do que você está falando? — ela sussurrou, sentindo o coração começar a bater mais forte no peito, percebendo finalmente para onde aquela conversa estava caminhando.
— Eu não preparei um banquete — continuou ele, com os olhos cinzentos fixos nos dela, brilhando com uma vulnerabilidade comovente. — Não tenho um colar de ouro incrustado com rubis da Nação do Fogo para te dar, nem uma praça cheia de embaixadores para testemunhar. Eu só tenho a mim mesmo, o meu amor por você... e este templo, que é a minha casa, mas que só se torna um lar de verdade quando você está aqui comigo.
Ele respirou fundo, reunindo toda a coragem que restava em seu espírito, e inclinou o corpo para a frente, ajoelhando-se diretamente sobre a pedra fria da sacada.
— Você quer... quer passar o resto da sua vida aturando minhas viagens, meus voos de báculo e o meu jeito avoado? Quer casar comigo?
...
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Aang permaneceu de joelhos, com as mãos dela firmemente seguradas entre as suas, sentindo o suor frio brotar em sua testa. Os segundos arrastavam-se como se o tempo tivesse decidido desacelerar propositalmente. Dentro da cabeça do Avatar, um turbilhão de dúvidas começou a gritar: “Será que foi simples demais? Será que ela esperava algo melhor? Um pedido em um grande palácio? Um anel brilhante?”
Mas a dúvida evaporou no exato segundo em que ele viu o rosto dela.
Os olhos da leitora estavam marejados de lágrimas brilhantes, que ameaçavam transbordar a qualquer momento. Um sorriso enorme, genuíno e radiante abriu-se em seus lábios, iluminando suas feições com uma beleza que superava qualquer obra de arte das quatro nações.
Antes que Aang pudesse dizer mais alguma coisa para se justificar sobre a simplicidade do momento, ela largou a xícara de chá no chão com um baque abafado, jogou-se de joelhos sobre a pedra e o abraçou com tanta força que quase o derrubou para trás, enterrando o rosto na curva do pescoço dele.
— Sim! — soluçou ela, rindo entre as lágrimas, apertando os braços ao redor dos ombros dele. — Sim, mil vezes sim, seu bobo!
Aang soltou um suspiro de alívio tão profundo e estrondoso que parecia ter esvaziado todo o ar de seus pulmões. A tensão em seus ombros desapareceu instantaneamente, substituída por uma onda avassaladora de felicidade pura. Ele a abraçou de volta com a mesma intensidade, erguendo-a levemente do chão enquanto ria, com os olhos fechados, sentindo o calor do corpo dela contra o seu.
— Sério? — perguntou ele, ainda com um resquício de incredulidade brincalhona na voz, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. — Não achou... não achou simples demais? Eu não comprei nenhuma joia chique, não tem nenhuma cerimônia pomposa...
A leitora deu um tapinha leve, mas firme, no ombro dele, limpando uma lágrima que escorreu por sua bochecha, embora o sorriso não saísse de seu rosto nem por um segundo.
— Joias chiques? Cerimônias pomposas? Aang, você está ouvindo a si mesmo? — perguntou ela, balançando a cabeça com um misto de carinho e diversão. — Se você tivesse aparecido com um colar de rubis caríssimo ou organizado uma festa cheia de nobres engomados em Ba Sing Se, eu é que teria recusado e mandado você de volta para o lombo do seu bispo voador!
Aang piscou, surpreso.
— É sério? Mas... por quê? Qualquer outra pessoa...
— Porque eu não amo o Avatar das lendas, Aang. Eu amo você — interrompeu ela, segurando o rosto dele com as duas mãos, olhando fundo em seus olhos cinzentos com uma convicção inabalável. — O garoto brincalhono, bondoso, meio avoado, que prefere comer torta de frutas em uma vila distante do que participar de banquetes políticos. Este pedido... aqui, nas montanhas, com o vento soprando, sem discursos ensaiados, sem câmeras ou embaixadores... foi a coisa mais romântica, sincera e totalmente a sua cara que você poderia ter feito. Foi perfeito.
Aang sentiu o coração derreter por completo. O peso daquela insegurança boba desapareceu como fumaça levada pelo vento.
— Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida — sussurrou Aang, com a voz embargada de emoção, antes de puxá-la para um beijo profundo, lento e apaixonado.
Não havia pressa. O sol continuava a descer no horizonte, banhando as montanhas e as cúpulas do Templo do Ar do Sul em uma luz dourada e mágica. A brisa soprava suavemente ao redor deles, fazendo as vestes balançarem como se os próprios espíritos estivessem abençoando aquela promessa silenciosa.
Quando finalmente se separaram, com os rostos corados e sorrisos bobos estampados, Aang a abraçou de lado, puxando-a para mais perto enquanto olhavam juntos para o horizonte infinito. A vida à frente ainda traria desafios, política, viagens e responsabilidades imensas, mas naquele momento, na simplicidade daquela rocha, eles sabiam que o futuro pertencia inteiramente a eles.
Contém angústia leve, fofura, romance. Aang x leitora dobradora casados.
Resumo: Anos após o estabelecimento da paz nas Quatro Nações, Aang e sua esposa, uma talentosa e brilhante dobradora, desfrutam de um casamento profundo e harmonioso. No entanto, a posição do Avatar atrai inevitavelmente perigos e inimigos rancorosos. Aproveitando-se de uma breve viagem de Aang, um grupo de mercenários decide sequestrar a leitora para usá-la como ferramenta de chantagem. O que os capangas ignoram, contudo, é que a leitora não é apenas uma poderosa dobradora, mas também uma estrategista brilhante; calculando que poderia desmantelar a ameaça antes do retorno do marido, ela se deixa capturar propositalmente para ser levada direto ao covil do inimigo. O plano impecável sofre apenas um revés imprevisto: consumido por uma saudade implacável, Aang retorna dos Templos do Ar dois dias antes do previsto e encontra a residência vazia, marcas de luta e um ultimato cruel. Tomado pelo pânico absoluto, o Avatar busca o apoio desesperado de Katara, Sokka, Toph e Zuko para rastrear o esconderijo. Quando o grupo finalmente invade a fortaleza para resgatá-la, deparando-se com os capangas nocauteados e o líder rendido e espancado pela própria refém, o alívio de Aang ao encontrá-la ilesa rapidamente se transforma em uma bronca desesperada, marcada pelo medo de perdê-la e pela nova e irrevogável regra: de agora em diante, ela irá para onde quer que o vento do Avatar sopre.
...
O Templo do Ar do Leste sempre guardara uma solidão peculiar, mas nos últimos anos, desde que Cidade República se reerguera como o coração pulsante do novo mundo, as viagens de Aang adquiriram um peso distinto. Como Avatar, seu dever o chamava para mediar fronteiras, apaziguar disputas agrárias e restaurar santuários esquecidos. No entanto, cada partida trazia consigo uma fenda invisível em seu peito — uma saudade aguda que apenas a presença de sua esposa conseguia cicatrizar.
Aang estava a dois dias de concluir sua missão nas montanhas orientais. O plano original era simples: meditar nos santuários ancestrais, revisar os registros dos antigos monges e retornar para o aconchego de seu lar, onde os braços dela o esperavam com a calmaria de sempre.
Na residência oficial nas colinas de Cidade República, contudo, a calmaria havia sido brutalmente interrompida na noite anterior.
A leitora estava na biblioteca particular, revisando um tratado de comércio marítimo, quando o som sutil de passos abafados no telhado de telhas de cerâmica chamou sua atenção. Dobradores de terra renegados, remanescentes de facções que se opunham à unificação das nações, vinham monitorando os passos do Avatar havia semanas. Incapazes de atingir Aang — protegido pelas correntes de ar e pela vigilância constante de aliados —, eles decidiram mirar no elo mais fraco que imaginavam encontrar: a esposa solitária.
Três homens invadiram o escritório pela janela, saltando com lâminas envenenadas e correntes de metal reforçado.
Se estivesse em pânico, qualquer outra pessoa teria gritado por socorro. Mas a leitora não era apenas uma dobradora de água experiente, cujos fluxos eram rápidos como o mercúrio; ela era, acima de tudo, uma estrategista fria e calculista. Enquanto os mercenários avançavam com sorrisos cinicos, acreditando que a surpresa lhes daria a vitória imediata, a mente dela operava com a precisão de um relógio mecânico.
“Se eu lutar aqui, destruiremos a casa, chamaremos a atenção da guarda e o perigo continuará rondando, esperando por outra oportunidade para atacar quando Aang estiver por perto”, pensou ela, desviando com um passo lateral fluido de um golpe de lâmina, enquanto com a mão esquerda chicoteava uma fina camada de água contida em um vaso decorativo, congelando instantaneamente os pés do segundo invasor ao piso de madeira.
O líder do grupo, um homem corpulento com cicatrizes de queimadura no pescoço, bufou, preparando-se para desferir um golpe mais pesado.
— Renda-se, mulher do Avatar! Você vem conosco, e o seu querido marido terá que ajoelhar se quiser vê-la inteira outra vez!
A leitora ergueu o queixo, fingindo vacilar. Ela deixou que o medo transparecesse em seu rosto — uma atuação impecável —, permitindo que eles a imobilizassem com correntes de metal e a conduzissem para fora através dos telhados escuros.
Por dentro, contudo, ela já havia traçado todo o cenário. “Eles têm um esconderijo nas antigas fundações industriais abandonadas no Setor Oeste, perto da baía subterrânea. O cheiro de enxofre e óleo queimado nas botas deles não nega. Vou deixá-los me levar, descobrirei a base, destruirei a liderança dessa célula terrorista antes do amanhecer, e quando Aang voltar daqui a dois dias, nem saberá que nada aconteceu. Ele não precisará se preocupar.”
Era um plano perfeito. Arriscado, audacioso e executado com maestria. Mas ela havia subestimado uma única variável: o quanto o próprio Aang não suportava mais ficar longe dela.
...
O vento soprava com uma urgência anormal quando o bisão voador aterrissou bruscamente no pátio da residência, bem antes do entardecer do segundo dia.
Aang desmontou antes mesmo de o animal tocar o solo por completo. Um pressentimento gélido, uma pontada aguda no fundo da mente que fazia seu instinto de Avatar gritar em alerta, o havia consumido durante todo o voo de volta. Ele não aguentara esperar mais quarenta e oito horas; a saudade estava insuportável, o peito apertado de um jeito que desafiava a lógica da meditação.
— Amor? — chamou Aang, abrindo a porta principal da casa com um golpe de ar que empurrou as folhas de madeira para dentro.
O silêncio que o recebeu foi pesado, denso e errado.
Não havia o som de pergaminhos sendo manuseados, nem o aroma suave de chá de jasmim que sempre marcava o fim da tarde dela. Aang entrou a passos largos, e o coração parou por um segundo ao ver a sala de estar revirada. Vazos quebrados no chão, marcas profundas de lâminas nas paredes de gesso e uma estante tombada atestavam que uma luta violenta havia ocorrido ali poucas horas antes.
— Não... não, não, não... — sussurrou Aang, correndo pelo corredor até o escritório.
A janela estava escancarada, deixando a cortina de linho balançar livremente com a brisa da tarde. Sobre a mesa de trabalho, repousava um pedaço de pergaminho grosseiro, preso por uma adaga enferrujada.
Aang arrancou a adaga com as mãos trêmulas e leu a nota. As letras rabiscadas à pressa queimavam em seus olhos:
"Se o Avatar quer ver sua preciosa esposa respirando outra vez, pare de interferir nas rotas comerciais do Sul. Venha sozinho à antiga fundição da Baía Industrial até o amanhecer, ou ela pagará o preço."
O papel escapou de seus dedos, flutuando suavemente até tocar o chão de madeira.
O mundo ao redor de Aang pareceu desabar. A respiração faltou em seus pulmões, e uma tontura violenta o fez cambalear para trás, escostando as costas na parede. A imagem dela — sorrindo, ajustando suas roupas, beijando-o na despedida há poucos dias — chocou-se contra a brutalidade daquela ameaça. O medo irracional, o pânico absoluto de perdê-la, de falhar na única coisa que mais importava em sua vida, espalhou-se por suas veias como um veneno paralisante.
Ele não conseguia pensar. O peso de ser o Avatar, de ter salvado o mundo, parecia insignificante diante do vazio aterrorizante daquela casa vazia.
— Eu preciso de ajuda — murmurou ele para si mesmo, a voz falhando, as lágrimas ameaçando transbordar de seus olhos cinzentos. — Eu não consigo... eu não consigo pensar direito.
Em um piscar de olhos, Aang correu para fora, montou no báculo com desespero e disparou pelos céus de Cidade República em direção ao apartamento onde Sokka e Katara residiam, antes de rumar para a oficina de Toph e o consulado da Nação do Fogo.
...
A oficina de metalurgia de Toph trepidava levemente com o som de martelos batendo em placas incandescentes, mas o clima no interior do galpão transformou-se em gelo puro no segundo em que Aang irrompeu pela porta, pálido, com as vestes empoeiradas e os olhos arregalados de puro pânico.
— Aang? O que aconteceu com você? Está vibrando como um tambor desregulado — disse Toph, erguendo a cabeça dos blocos de metal, sentindo imediatamente a instabilidade nos passos do amigo.
— Ela foi levada! — Aang mal conseguia formular as frases inteiras, a voz embargada pelo desespero. — Sequestraram a minha esposa! Deixaram um bilhete... na fundição da Baía Industrial. Eles querem me atrair lá, mas eu não sei quantos são, eu não sei como ela está...
A porta lateral do galpão abriu-se com estrondo e Sokka entrou correndo, seguido de perto por Katara e Zuko, que haviam sido alertados por um falcão de emergência enviado por Toph instantes antes.
— Aang acalmou-se! Respira! — ordenou Katara, correndo para segurar os ombros do amigo, cujos tremores eram visíveis. — O que foi escrito no bilhete? Quem fez isso?
Aang estendeu o pergaminho amassado com as mãos trêmulas. Sokka o tomou rapidamente, lendo o conteúdo em voz alta, enquanto os olhos de Zuko se estreitavam em uma fúria contida e mortal.
— Remanescentes da antiga facção nacionalista do Reino da Terra — analisou Sokka, o tom brincalhão de costume totalmente substituído pelo de um estrategista militar experiente. — Eles querem vingança pelas leis de integração que o Conselho aprovou mês passado. Sabiam que você estaria viajando e atacaram o alvo mais vulnerável.
— Vulnerável?! — explodiu Aang, dando um passo à frente com os punhos cerrados e o ar ao seu redor começando a girar em pequenas rajadas descontroladas. — Ela não é vulnerável! Mas eles estão em maior número, e se algo acontecer com ela... Eu juro pelos espíritos que vou destruir aquela fundição inteira tijolo por tijolo!
— E você vai, Aang. Vamos todos — disse Zuko, desembainhando mentalmente a urgência da situação, com a cicatriz no rosto contraindo-se levemente. — Mas precisamos de um plano. Ir correndo feito loucos para uma armadilha só vai dar vantagem numérica a eles.
— Plano o caramba — rosnou Toph, batendo o pé no chão com força, fazendo o piso de pedra rachar em uma linha reta. — Eu sinto as vibrações daquele lugar a quilômetros de distância. Há meia dúzia de capangas armados em volta de um armazém central, e uma assinatura de energia de dobra de água contida no subsolo. Vamos entrar rasgando o teto e acabar com eles antes que tenham tempo de respirar.
Aang, consumido pela urgência e pelo medo de que cada segundo pudesse ser tarde demais, não hesitou.
— Toph está certa. Vamos agora.
...
A antiga fundição da Baía Industrial era um complexo colossal de ferro oxidado, tubulações de vapor sibilantes e galpões escuros que cheiravam a graxa e salitre. A noite caía sobre a baía, projetando sombras longas e fantasmagóricas sobre as estruturas metálicas.
O plano de infiltração foi executado com precisão cirúrgica: Toph abriu uma fenda no concreto do teto do galpón principal, desativando os mecanismos de tranca das portas secundárias com dobras rápidas de metal. Zuko e Sokka entraram flanqueando os corredores laterais para neutralizar os guardas externos, enquanto Katara e Aang avançavam pelo eixo central, prontos para qualquer confronto.
O coração de Aang martelava contra suas costelas como um tambor de guerra. Cada segundo parecia durar uma eternidade.
Ao chegarem à porta principal da sala de comando subterrânea — uma pesada estrutura de ferro batido com vigas reforçadas —, Aang não esperou. Ele ergueu as mãos e desferiu uma rajada massiva de ar comprimido que explodiu as dobradiças da porta, mandando o metal voando para dentro com um estrondo ensurdecedor.
— Ninguém se mexe! — berrou Aang, saltando para dentro do recinto com os olhos brilhando em busca de sua amada, pronto para desatar uma tempestade de proporções titânicas sobre quem ousasse tocá-la.
O grupo inteiro invadiu o cômodo logo atrás dele, armas em punho, posturas de combate ativadas.
Mas pararam instantaneamente. O ímpeto de batalha congelou no ar, transformando-se em uma expressão de profunda e cômica confusão.
No centro da sala de comando, cercada por pilhas de caixas de metal tombadas, a cena era completamente diferente de tudo o que haviam imaginado.
Não havia refém amarrada chorando de medo. Não havia capangas cercando uma vítima indefesa.
O líder dos mercenários, o homem corpulento de pescoço queimado, estava estirado no chão, desacordado, com as mãos firmemente algemadas às próprias costas por uma corrente grossa que Toph reconheceria como obra de mestre. Ao redor dele, quatro capangas jaziam gemendo de dor, presos contra as paredes por grossos jatos de água congelada que funcionavam como algemas térmicas intransponíveis.
E bem no centro de toda aquela carnificina controlada, estava a leitora.
Ela vestia suas roupas habituais de viagem, perfeitamente limpas e ajustadas, com exceção de um pequeno arranhão quase imperceptível na bochecha. Em sua mão direita, um filete de água circulava calmamente, girando em círculos lentos enquanto ela olhava para a porta com uma expressão de surpresa genuína.
— Aang? — perguntou ela, piscando várias vezes ao ver o marido estático na entrada, com o báculo erguido e os olhos arregalados do tamanho de luas. — O que... o que vocês estão fazendo aqui? Como assim voltaram de viagem? Ainda faltavam dois dias para o solstício!
O silêncio no recinto durou três segundos inteiros.
Sokka abaou a espada bumerangue lentamente, olhando da leitora para os capangas desmaiados, e depois para o cunhado.
— Espere um minuto... — murmurou Sokka, coçando a cabeça com uma expressão de total incredulidade. — Você... você acabou com todos eles sozinha?
— Bem, sim — respondeu a leitora, franzindo levemente a testa, parecendo quase incomodada por ter sido interrompida no meio do seu raciocínio. — Eu calculei que, se me deixasse capturar na noite passada, eles me trariam direto para o covil principal. Assim eu eliminaria a liderança desta célula terrorista pela raiz, terminaria toda a papelada de investigação antes de Aang voltar, e ele nem precisaria se preocupar com nada. Foi um plano perfeitamente lógico.
Katara colocou a mão na testa, soltando um longo suspiro misturado com uma risada incrédula.
— Pelos espíritos... você se deixou sequestrar de propósito só para adiantar o serviço de polícia?
— Exatamente — confirmou a leitora, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Toph abriu um sorriso largo, cruzando os braços com pura admiração.
— Ah, eu adoro essa mulher! Os capangas achavam que estavam no comando, mas na verdade foram feitos de capacho por uma esposa entediada com a burocracia!
Enquanto os amigos riam e absorviam a audácia da situação, Aang continuava imóvel na soleira da porta.
A adrenalina violenta que o mantivera em pânico durante toda a viagem de regresso começou a recuar, dando lugar a uma onda avassaladora de alívio tão profunda que suas pernas quase fraquejaram. Sem dizer uma única palavra, ele soltou o báculo, que caiu ruidosamente no chão de concreto, e atravessou o cômodo em dois passos largos.
Antes que ela pudesse dizer mais alguma palavra, Aang a puxou com força bruta para os seus braços, envolvendo-a em um abraço tão apertado, desesperado e feroz que a leitora sentiu o fôlego faltar em seus pulmões.
— Aang... — começou ela, surpresa com a intensidade física da reação dele.
— Você é louca! — sussurrou Aang, com a voz embargada, enterrando o rosto na curva do pescoço dela, sentindo o calor e o perfume familiar de sua pele, atestando que ela estava ali, inteira, viva e perfeitamente bem. — Você tem noção do que passou pela minha cabeça quando cheguei em casa e encontrei tudo quebrado? Você tem noção do medo que eu senti?
...
A tensão no galpão mudou de figura instantaneamente. Percebendo a profundidade do desespero que o Avatar havia enfrentado nas últimas horas, Sokka pigarreou discretamente, dando um toque no ombro de Katara e Toph.
— É... bom, parece que a situação está sob controle por aqui — murmurou Sokka, virando-se em direção à saída. — Vamos deixar os prisioneiros para a polícia de metal de Cidade República recolher. Zuko, me ajude a carregar aqueles malucos antes que eles acordem e comecem a chorar.
Em poucos segundos, o grupo retirou-se silenciosamente da sala de comando, fechando os destroços da porta e deixando o casal sozinho no meio do silêncio da fundição.
A leitora permaneceu nos braços de Aang, sentindo o tremor sutil que ainda sacudia o corpo do marido. Ela recuou um pouco, segurando o rosto dele com as duas mãos, olhando diretamente para os olhos cinzentos que estavam marejados de lágrimas contidas.
— Aang, me desculpe — disse ela, com a voz suavizada por um remorso genuíno ao ver o estrago emocional que sua ousadia havia causado. — Eu realmente achei que conseguiria resolver tudo rápido. Pensei que te pouparia da preocupação. Eu não queria te ver assustado.
Aang respirou fundo, fechando os olhos por um instante para recuperar a compostura, antes de encará-la com uma seriedade severa que ela raramente via nele.
— Nunca mais faça isso — disse Aang, a voz firme, baixa e carregada de uma autoridade inegável que exigia total obediência. — Nunca mais coloque sua vida em risco dessa maneira, independentemente do quão boa seja a sua estratégia. Você acha que eu me importo com o trabalho? Com o estresse? Com os inimigos? Se eu tivesse chegado e encontrado você machucada... se eu tivesse perdido você... nada neste mundo, nem a paz entre as nações, teria importado para mim. Eu teria perdido a minha razão de viver.
As palavras dele atingiram o coração da leitora com uma força maior do que qualquer golpe de dobra. Ela percebeu o tamanho do sacrifício emocional que sua independência havia cobrado dele. Aang não era apenas o Avatar que protegia o mundo; ele era um homem profundamente apaixonado que dependia da presença dela para manter seu próprio espírito em equilíbrio.
— Eu entendi, Aang — murmurou ela, com os olhos brilhando de emoção, enquanto passava os braços ao redor do pescoço dele. — Prometo que nunca mais vou agir sozinha desse jeito. De agora em diante, qualquer plano de estratégia política vai envolver você diretamente.
Aang suspirou profundamente, sentindo a última centelha de medo evaporar de seu peito. Ele deu um sorriso fraco, embora ainda mantivesse as mãos firmemente cravadas na cintura dela, como se temesse que, ao soltá-la, ela pudesse desaparecer como fumaça.
— Bom. Porque a partir de hoje há uma nova regra entre nós — disse Aang, com um tom meio sério, meio brincalhão, enquanto se inclinava para encostar a testa na dela. — Onde quer que o Avatar vá, a estrategista oficial vai junto. Sem exceções, sem missões solo e sem sustos.
A leitora riu baixinho, sentindo o alívio e a ternura substituírem a adrenalina da batalha.
— Acordo fechado, Avatar — sussurrou ela, antes de puxá-lo para um beijo profundo, lento e apaixonado que selou a paz definitiva entre o vento e a água.
Aang a ergueu do chão com facilidade, usando uma leve corrente de ar para levá-la para fora da fundição escura, em direção ao céu aberto onde o bisão voador os aguardava para levá-los de volta para casa. Cidade República podia continuar girando com seus problemas, sua política e seus perigos, mas naquele momento, nos braços um do outro, o mundo estava exatamente onde devia estar: em perfeita e inabalável harmonia.
Contém angústia, consolo, fofura, romance e smut leve. Aang x leitora casados.
Resumo: Anos após o fim da Guerra dos Cem Anos e a fundação de uma era de paz, a vida de Aang ao lado de sua esposa é marcada pela harmonia e por um profundo amor compartilhado. No entanto, por mais que a luz de Cidade República e o carinho de seus amigos iluminem seus dias, o Avatar carrega nas costas uma cicatriz invisível e perene: a culpa implacável pelo destino trágico dos Nômades do Air. Quando uma melancolia profunda e sufocante o consome, trazendo de volta os fantasmas do passado e o peso solitário de ser o último de sua espécie, cabe à leitora descer às profundezas da dor dele com argumentos firmes, acolhimento e uma paciência inabalável. Entre lágrimas, lembranças dolorosas e a urgência de lembrá-lo de que ele não está sozinho, ela consegue puxá-lo de volta à superfície. E, para selar essa cura e abrir as portas para um amanhã que ele jamais achou que veria, ela lhe faz uma proposta revolucionária: que juntos, através da carne e do sangue, eles comecem a repovoar o mundo com novos dobradores de ar, fechando a proposta com um convite íntimo e arrebatador para celebrarem a vida ali mesmo, na cama do santuário.
...
O Templo do Ar do Sul erguia-se sobre os penhascos rochosos como um monumento esculpido nas nuvens, banhado pela luz dourada de um entardecer que tingia o horizonte com tons de âmbar e violeta. Para qualquer visitante, aquele lugar emanava uma paz quase sobrenatural, um refúgio intocado pelo tempo onde os ventos sussurravam as histórias de um povo que viveu em perfeita harmonia com o céu.
Mas para Aang, o vento, às vezes, carregava ecos dolorosos.
Ele estava sentado na borda da sacada de pedra do santuário principal, com as pernas balançando sobre o abismo vertiginoso. O báculo do Avatar repousava horizontalmente sobre seus joelhos, e suas mãos calejadas acariciavam distraidamente a madeira entalhada. Ao longe, o sol começava a se esconder atrás da cordilheira, projetando sombras longas e melancólicas sobre os pátios desertos.
A vida ao lado da leitora era, na maior parte do tempo, a concretização de um milagre. Ele tinha amigos que o amavam — Katara, Sokka, Toph, Zuko —, uma cidade que prosperava em união, e uma esposa cujo amor era o porto seguro onde sua alma cansada finalmente encontrava descanso. Ele sorria, ria das piadas de Sokka, ajudava nas negociações de Cidade República e cumpria seu dever como Avatar com uma dedicação inexcedível.
No entanto, por mais brilhante que fosse o sol, as nuvens escuras nunca desapareciam por completo.
A leitora o observava da soleira da porta do quarto. Ela conhecia cada respiração daquele homem. Sabia identificar o momento exato em que a postura de Aang mudava, quando os ombros caíam ligeiramente e o brilho divertido em seus olhos cinzentos era substituído por uma névoa pesada, distante e cinzenta. Ela caminhou em silêncio pelo piso de pedra, os passos leves quase imperceptíveis sobre o assoalho, e parou a poucos centímetros dele, sentindo o ar rarefeito e frio da montanha bater em suas roupas.
— Aang? — chamou ela, a voz suave como uma brisa mansa.
Ele não virou o rosto de imediato. Demorou alguns segundos até que seus ombros desabassem em um suspiro trêmulo, carregando um cansaço que nenhum sono conseguia curar.
— Eu tentei meditar hoje à tarde, no santuário dos monges antigos — começou Aang, a voz saindo rouca, quase um sussurro perdido no vento. Ele finalmente ergueu os olhos para encará-la, e neles havia uma vulnerabilidade crua que rasgou o coração da leitora. — Tentei me conectar com Roku, com Kyoshi, com Yangchen... com todos os Avatares do passado. Mas tudo o que eu conseguia ouvir era o silêncio. Um silêncio ensurdecedor, como se o tempo tivesse parado naquele dia de cem anos atrás.
A leitora deu um passo à frente, ajoelhando-se na pedra fria diante dele. Ela segurou as mãos calejadas de Aang entre as suas, sentindo o quanto elas estavam geladas.
— Você sabe que eles estão sempre com você, Aang. Eles guiam seus passos todos os dias — disse ela, mantendo a voz firme e compassada, buscando ancorá-lo na realidade.
— Guiam para quê? Para salvar um mundo que sobreviveu à custa do meu povo? — a voz dele quebrou, e uma única lágrima solitária escapou, traçando um caminho brilhante por sua bochecha antes de cair e se perder no abismo abaixo. — Se eu não tivesse fugido daquele templo... se eu tivesse ficado e enfrentado a tempestade com os meus irmãos, com o Monge Gyatso... eles ainda estariam aqui. Estariam meditando nestes pátios, cuidando dos lêmures, voando pelos céus. E eu não seria o último. O último de todos. A linhagem inteira de dobradores de ar repousa sobre os meus ombros, e se algo acontecer comigo, o vento simplesmente deixará de ter uma voz humana.
A culpa, aquela velha e implacável companheira que o atormentava desde o momento em que despertara no iceberg, havia retornado com uma força devastadora. Não era apenas tristeza; era o peso esmagador de um pecado que ele nunca cometera conscientemente, mas do qual se julgava o único e exclusivo culpado.
...
A leitora apertou com mais força as mãos dele, sentindo o tremor sutil que percorria o corpo de Aang. Ela sabia que palavras vazias de consolo — como "não foi culpa sua" ou "o passado ficou para trás" — não funcionariam desta vez. Ele já ouvira aquilo milhares de vezes, e a dor era profunda demais para ser apagada com clichês. Era preciso confrontar a escuridão com argumentos reais, sólidos e inflexíveis.
— Olhe para mim, Aang — pediu ela, erguendo o queixo dele com a ponta dos dedos até que os olhos cinzentos e marejados se fixassem nos seus.
Ele hesitou, mas obedeceu.
— Você passa a vida inteira carregando a culpa de ter sobrevivido, como se a sua própria existência fosse um erro — começou a leitora, a voz carregando uma seriedade firme que cortou o ar gélido da montanha. — Mas deixe-me te lembrar de uma coisa que você insiste em esquecer: naquela noite, você era apenas uma criança de doze anos assustada, fugindo de um peso que o mundo tentou colocar em seus ombros antes da hora. Você não iniciou a guerra. Você não acendeu as chamas que destruíram os templos. Foi a Nação do Fogo, sob o comando de Sozin, que escolheu o caminho da destruição.
— Mas se eu estivesse lá... — tentou argumentar Aang, a voz sufocada pelo choro contido.
— Se você estivesse lá, os monges estariam mortos *e* você também estaria morto — rebateu ela, sem pestanejar, com uma franqueza cortante que o fez recuar levemente. — E se você estivesse morto, o mundo estaria perdido para sempre. Não haveria quem derrotasse Ozai. Não haveria equilíbrio. Não haveria Cidade República, nem harmonia entre as nações, nem esta paz que você construiu com tanto suor e sangue.
Aang fechou os olhos com força, respirando trêmulo, enquanto as palavras dela penetravam em suas defesas, desfazendo nó por nó a armadura de culpa que ele vestira por tanto tempo.
— Você chora pelos que se foram, Aang, e isso prova o quão nobre é o seu coração — continuou ela, suavizando o tom, envolvendo o rosto dele com as mãos trêmulas de emoção. — Mas você está esquecendo de olhar para o presente. Você não é apenas o último dobrador de ar do passado; você é a ponte para o futuro. O ar não morreu. Ele sopra através de você todos os dias. Cada vez que você usa sua dobra, cada vez que você sorri, cada vez que você protege alguém, você está honrando a memória deles. Eles não gostariam de ver você se destruindo pela culpa de ter vivido. Eles gostariam de ver você ser feliz.
O silêncio reinou por alguns instantes na sacada. Apenas o som do vento assobiando pelas fendas da rocha preenchia o espaço entre eles.
Aang abriu os olhos. A tempestade em seu interior parecia ter diminuído de intensidade, dando lugar a uma calmaria melancólica, mas limpa. As lágrimas haviam cessado, e o olhar dele, embora ainda carregado de marcas profundas, encontrou na firmeza e no amor incondicional da esposa a âncora que precisava para não afundar de vez.
— Eu te amo tanto — sussurrou Aang, a voz embargada, inclinando-se para encostar a testa na dela, fechando os olhos enquanto deixava escapar o último suspiro de angústia. — Eu não sei o que seria de mim sem você me puxando de volta para a luz.
— Você nunca precisará saber disso, porque eu sempre estarei aqui — respondeu a leitora, depositando um beijo suave e demorado na testa dele, bem no centro da tatuagem da flecha azul.
...
Eles permaneceram ali abraçados na penumbra da sacada até que a noite cobrisse completamente as montanhas e as primeiras estrelas começassem a pontilhar o céu limpo do sul. A tensão que antes comprimia o peito de Aang havia se dissolvido, substituída por um calor reconfortante que irradiava do abraço da esposa.
A leitora afastou-se ligeiramente, segurando os ombros dele, e um sorriso misterioso, carregado de uma determinação resoluta, curvou os cantos de seus lábios.
— Sabia que ainda há uma coisa que você nunca tentou para resolver o problema de ser o último dobrador de ar? — perguntou ela, a voz soando quase brincalhona, mas com um fundo de seriedade que chamou imediatamente a atenção do Avatar.
Aang franziu a testa, piscando surpreso. Ele a encarou, tentando decifrar o brilho travesso que havia surgido nos olhos dela na penumbra.
— O que quer dizer? Eu já visitei todos os templos, conversei com os espíritos, tentei ensinar os conceitos básicos para alguns acólitos... mas a dobra de ar é exclusiva dos Nômades. Não existem outros.
— E quem disse que você precisa procurar em ruínas antigas ou depender do passado para trazer o seu povo de volta? — retrucou ela, inclinando a cabeça com um sorriso desafiador.
Aang a fitou por alguns segundos, processando lentamente as palavras. O cérebro do Avatar trabalhou a mil por hora até que a ficha finalmente caiu, fazendo o sangue correr quente por suas veias e suas bochechas adquirirem um tom avermelhado intenso que nem a penumbra da noite conseguiu esconder.
— Você quer dizer... — Aang gaguejou, a voz falhando enquanto seus olhos se arregalavam em pura incredulidade e espanto. — Você quer dizer que... nós...?
— Exatamente, Avatar — disse a leitora, dando um passo à frente e deslizando os braços ao redor do pescoço dele, colando o corpo ao seu com uma proximidade que fez o coração de Aang disparar no peito de uma forma totalmente diferente daquela de minutos atrás. — Se o problema é que você se sente o último da sua espécie, por que não resolvemos isso juntos? Podemos trazer novos dobradores de ar para este mundo. Do nosso sangue. Da nossa união.
Aang ficou completamente paralisado. A ideia atingiu-o com a força de um furacão elemental. Anos de luto, de solidão e do peso insuportável de carregar o legado de uma nação inteira pareceram evaporar em um único segundo, substituídos por uma onda avassaladora de esperança, alegria e um desejo profundo e imediato.
— Filhos? — sussurrou ele, a voz trêmula de emoção, com as mãos grandes pairando incertas sobre a cintura dela, como se temesse que aquilo fosse apenas uma miragem da sua imaginação. — Você... você quer ter uma família comigo? Quero dizer... construir um futuro de verdade, com crianças correndo por estes pátios, rindo, dobrando o ar?
— É claro que sim, seu bobo — riu a leitora baixinho, com os olhos brilhando de pura ternura ao ver a expressão de totale assombro e felicidade estampada no rosto do homem que amava. — Eu amo você, e não consigo imaginar nada mais perfeito do que ver um monte de mini-Aangs correndo por aí, carecas, com tatuagens de flecha de mentirinha e derrubando vasos no templo.
Uma gargalhada genuína, leve e cristalina — uma risada que Aang não emitia há meses —, ecoou pelos corredores de pedra do templo, espantando os últimos vestígios de melancolia para longe.
— E para começar a planejar essa nossa futura tribo do ar... — continuou a leitora, descendo as mãos pelos ombros largos de Aang até segurar a gola de sua túnica, puxando-o para perto com um olhar intensamente sedutor — acho que podemos começar a celebrar o projeto agora mesmo. O que acha de irmos para a cama comer... quer dizer, celebrar? Se é que você me entende.
Aang engoliu em seco, sentindo o calor do corpo dela contra o seu e a promessa implícita daquele convite derrubar qualquer resquício de timidez que ainda restasse nele. A tristeza que o consumira horas antes havia sumido, incinerada pelo fogo da paixão e pela promessa de um amanhã repleto de vida.
— Eu acho — sussurrou Aang com um sorriso malicioso e completamente rendido, levantando-a do chão com facilidade e girando-a levemente antes de caminhar a passos largos em direção ao quarto — que nós temos muito trabalho a fazer pelo futuro das Quatro Nações.
...
A porta do quarto fechou-se com um baque suave, abafando o som do vento que soprava lá fora.
Dentro do aposento, a luz bruxuleante da lareira projetava sombras douradas sobre os lençóis desfeitos, desenhando o contorno dos corpos que se encontravam em uma harmonia perfeita. Não havia mais culpa, nem o peso solitário do passado, nem o medo do que viria amanhã. Havia apenas o toque febril da pele contra a pele, o som das respirações entrecortadas e a urgência mútua de transformar toda a dor acumulada em uma explosão de vida e prazer.
A leitora gemia baixinho, puxando Aang para mais perto enquanto as mãos dele traçavam linhas firmes e apaixonadas por suas costas, marcando cada centímetro com a devoção de quem finalmente encontrava o seu verdadeiro lar no universo. Cada beijo era uma promessa, cada movimento uma renovação, um grito silencioso contra a morte e a destruição que tentaram apagar o seu povo.
O ar ao redor deles começou a girar suavemente, impulsionado pela emoção avassaladora que transbordava do coração do Avatar. Uma lufada de vento invisível e quente levantou as pontas dos lençóis e fez as chamas da lareira dançarem com mais intensidade, como se os próprios espíritos dos antigos Nômades do Ar estivessem ali, abençoando aquela união e celebrando o início de uma nova era.
Horas mais tarde, quando a tempestade de paixão finalmente deu lugar a um silêncio calmo e reconfortante, os dois jaziam emaranhados nos cobertores macios. A cabeça da leitora repousava confortavelmente sobre o peito musculosou de Aang, ouvindo o ritmo constante, forte e sereno do coração dele.
Aang acariciava os cabelos dela com uma mão, enquanto com a outra segurava o báculo encostado na cabeceira da cama. Ele olhou para o teto de madeira esculpida, sentindo uma paz absoluta que jamais experimentara antes. A culpa de ser o último havia finalmente desabado, substituída pela certeza luminosa de que ele não era o fim de uma história, mas sim o começo de outra infinitamente mais bonita.
— Aang? — murmurou a leitora com a voz arrastada de sono, dando um leve beijo na pele do peito dele.
— Sim, meu amor? — respondeu ele, a voz suave e repleta de uma felicidade indescritível.
— A partir de amanhã, vamos precisar de muito mais pergaminhos para planejar a creche dos dobradores de ar.
Aang sorriu na penumbra, apertando o abraço ao redor da esposa, sabendo que, não importava o tamanho do desafio que o mundo trouxesse no futuro, o vento em sua vida agora soprava na direção certa.
Contém smut leve, muito sugestivo, fofo. Aang x leitora casados.
Resumo: Anos após o fim da guerra e a derrota do Senhor do Fogo, a vida ao lado de Aang mudou de maneiras que a leitora jamais imaginou. Aquele garoto franzino e brincalhão deu lugar a um homem maduro, incrivelmente atraente e dono de uma presença magnética que atrai olhares por onde passa — especialmente o de mulheres que parecem ignorar completamente o anel dourado em seu dedo anelar. Aang, em toda a sua essência bondosa e um tanto densa, continua completamente alheio às investidas alheias, o que alimenta o ciúme silencioso da leitora. Cansada de dividir a atenção do marido com o resto do mundo e de ver pretendentes desavisadas testando seus limites, ela decide dar um basta definitivo. Através de uma noite inesquecível de intimidade e paixão, ela faz questão de marcar cada centímetro do corpo dele, deixando claro com atitudes e muito fogo que o Avatar tem dona e que ela não tem a menor intenção de ceder o seu lugar para ninguém.
O santuário dos Nômades do Air, no Templo do Ar do Sul, continuava a ser o refúgio favorito deles, mas a calmaria das montanhas muitas vezes era interrompida por embaixadores, dignitários e admiradores fervorosos.
A leitora estava escorada no batente de madeira da varanda principal, vestindo um roupão leve de linho, enquanto observava Aang no pátio inferior. Ela deu um suspiro misturado com divertimento e um leve roçar de frustração, cruzando os braços.
Quem diria que aquele menino careca, magricela e cheio de sardas que caíra de um iceberg anos atrás se transformaria no homem que estava diante dela agora? Os anos de responsabilidade, meditação e treinamento físico esculpiram o corpo de Aang de uma forma impressionante. Os ombros estavam mais largos, o tronco exibia músculos definidos e firmes sob as túnicas tradicionais, e a mandíbula marcada trazia uma maturidade que exalava um charme magnético irresistível. Ele era, sem exageros, um homem deslumbrante. E a leitora certamente não era a única a notar isso.
No pátio, um grupo de jovens nobres da Tribo da Água do Norte — que visitavam o templo em missão diplomática — ria alto ao redor do Avatar. Uma delas, vestindo peles finas e com um sorriso excessivamente charmosa, inclinava-se levemente para a frente, tocando o antebraço de Aang sob o pretexto de pedir explicações sobre as técnicas de dobra de ar.
A leitora estreitou os olhos. Ela conhecia aquele olhar. Não era interesse político; era puro e descarado flerte.
O pior de tudo não era a audácia das mulheres que frequentavam os eventos e templos; o pior era a completa e irritante inocência de Aang. Ele sorria de volta com toda a gentileza do mundo, respondia à pergunta com aquela paciência infinita de Avatar, totalmente cego às segundas intenções da garota. Ele nem sequer percebia que, a cada dois segundos, a mão da visitante deslizava propositalmente mais perto de sua pele, ignorando de forma cínica e conveniente o grosso anel dourado de ouro batido que brilhava firme em seu dedo anelar esquerdo.
— Sabe, se você continuar franzindo a testa desse jeito, vai acabar criando rugas permanentes antes dos trinta — comentou Katara, surgindo levemente por trás dela com uma bandeja de chá de jasmim nas mãos. A dobradora de água seguiu o olhar da amiga e soltou uma risada contida. — Ah. A delegação do Norte de novo?
— Elas não têm o menor respeito — resmungou a leitora, descruzar os braços e desencostar da madeira com um movimento brusco. — Aquele anel brilha como uma lanterna no escuro, Katara. E, mesmo assim, parece que a palavra "casado" foi apagada do vocabulário delas.
— Você sabe como Aang é — Katara sorriu compreensiva, servindo duas xícaras de chá e estendendo uma para a amiga. — Para ele, todo mundo é apenas um amigo que precisa de ajuda ou de uma boa palavra sobre equilíbrio espiritual. Ele não tem maldade nenhuma.
— Eu sei que ele não tem maldade — a leitora pegou a xícara, sentindo o calor do vapor subir contra o rosto. — Mas *eu* tenho. E estou cansada de ser a esposa paciente que fica sorrindo polidamente enquanto meia dúzia de atrevidas tenta marcar encontro com o meu marido sob o pretexto de estudar a cultura nômade.
No pátio abaixo, a jovem do Norte riu de uma brincadeira boba de Aang e jogou a cabeça para trás, passando os dedos pelos cabelos em um gesto ensaiado de sedução.
A leitora sentiu o sangue ferver nas veias. Não era uma raiva direcionada a Aang — ela sabia que ele a amava com cada batida do seu coração —, mas a possessividade, somada ao fato de eles estarem casados há anos e ainda terem que lidar com esse tipo de situação ridícula, atingiu seu limite.
Ela colocou a xícara de chá com força suficiente sobre a mesinha de pedra para fazer o líquido espirrar.
— Chega — murmurou a leitora, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa.
Katara ergueu as sobrancelhas, contendo um sorriso divertido enquanto dava um gole em seu chá.
— Vai lá, leoa. Mostre a elas de quem é o território.
...
A leitora desceu as escadas de pedra do templo com passos firmes, a postura ereta e o olhar fixo no centro das atenções. Assim que pisou no pátio de treinamento, o murmúrio da conversa entre Aang e a delegação começou a rarear.
A jovem da Tribo da Água do Norte virou-se, erguendo o queixo com uma ponta de superioridade ao ver a esposa do Avatar se aproximando. Mas a expressão de tédio educado da visitante sumiu instantaneamente ao cruzar com o olhar da leitora — um olhar que prometia tempestades muito piores do que qualquer dobra de ar poderia conjurar.
— Aang — chamou a leitora, a voz clara, melodiosa, mas carregada de uma autoridade que fez até os guardas de metal do templo endireitarem a postura.
O Avatar virou-se imediatamente, o rosto iluminando-se com aquele sorriso doce e puro que fazia o coração dela derreter em qualquer outra circunstância.
A leitora não o deixou terminar. Ela cruzou a distância que os separava em poucos passos, parando colada ao corpo dele. Sem dizer uma palavra de cumprimento à visitante, ela ergueu a mão, envolveu a nuca de Aang com os dedos firmes e puxou-o para baixo, selando os lábios dele em um beijo profundo, possessivo e público.
O mundo ao redor pareceu silenciar.
Aang ficou estático por um segundo, totalmente surpreso com a iniciativa repentina — especialmente porque ela não costumava ser tão demonstrativa na frente de convidados oficiais. Mas a surpresa durou pouco. O cheiro inconfundível dela, o calor do corpo pressionado contra o seu e o gosto familiar fizeram com que o instinto falasse mais alto. Ele cedeu imediatamente, fechando os olhos, erguendo uma das mãos grandes para segurar a cintura dela e aprofundando o beijo sem se importar com quem estava assistindo.
Ao fundo, tossidelas constrangidas ecoaram. A jovem do Norte deu dois passos para trás, vermelha de vergonha e irritação, murmurando algo sobre "precisar verificar os aposentos" antes de praticamente arrastar os companheiros de delegação para longe do pátio.
Quando finalmente se separaram, a respiração de ambos estava ligeiramente acelerada. A leitora encostou a testa na dele, olhando diretamente em seus olhos cinzentos e arregalados.
— O... o que foi isso? — perguntou Aang, piscando várias vezes, completamente desnorteado, com as bochechas coradas de um tom rosado adorável. — Aconteceu alguma coisa no conselho? Alguém te aborreceu?
A leitora soltou uma risada curta, incrédula com a pureza genuína dele. Ela deslizou a mão pelo peitoral largo de Aang, sentindo a firmeza dos músculos sob a túnica, antes de subir os dedos para tocar o anel dourado que brilhava em seu dedo anelar.
— Ninguém me aborreceu, Aang. Pelo menos, não mais do que o necessário — sussurrou ela, mordendo o lábio inferior com um sorriso felino. — Só decidi lembrar a você — e a quem mais estiver esquecido — exatamente de quem é este homem lindo, gostoso e incrivelmente distraído.
Aang engoliu em seco, sentindo o calor subir pelas orelhas. Mesmo depois de tantos anos de casados, ela ainda conseguia deixá-lo completamente sem defesas com poucas palavras.
— Você sabe que eu só tenho olhos para você, não sabe? — murmurou ele, com a voz rouca, descendo as mãos pela cintura dela para puxá-la ainda mais para perto, ignorando totalmente que estavam no meio do pátio aberto.
— Eu sei — a leitora sorriu, os olhos brilhando com uma promessa silenciosa que fez o estômago de Aang dar cambalhotas. — Mas hoje à noite, eu vou fazer questão de que você nunca mais se esqueça disso nem por um segundo. E nem os espíritos vão conseguir te salvar da minha cobrança.
Aang engoliu em seco novamente, sentindo um arrepio gostoso percorrer sua espinha. A inocência do Avatar podia até fazê-lo perder as sutilezas do mundo lá fora, mas ele sabia muito bem — e com um entusiasmo avassalador — o que aquela promessa significava.
...
A noite caiu sobre o Templo do Ar do Sul, banhando os telhados e as cúpulas de pedra em uma luz prateada e profunda. O vento uivava suavemente lá fora, batendo de leve nas janelas de papel de arroz, mas dentro do quarto privativo do casal, a atmosfera estava densa, quente e carregada de uma eletricidade palpável.
A lareira do aposento projetava chamas cintilantes que dançavam nas paredes, desenhando sombras douradas sobre a pele.
A leitora estava sentada na borda da cama baixa, vestindo apenas uma camisola de seda escura que contrastava com a maciez dos lençóis. Ela observava Aang caminhar pelo quarto. Ele havia tirado a parte superior da túnica de Avatar, revelando o torso nu e perfeitamente esculpido pelos anos de treinamento, dobra elemental e o vigor natural de seus anos de maturidade.
Para um homem que passava metade do tempo meditando e a outra metade salvando o mundo, ele mantinha uma forma física que fazia qualquer um suspirar. E a leitora pretendia provar cada centímetro daquilo.
Aang parou perto da mesinha, percebendo o modo como os olhos dela o devoravam. Um sorriso brincalhão, misturado com uma ponta de nervosismo gostoso, cruzou seus lábios.
— Você está me olhando como se quisesse me jogar de cima do penhasco — provocou ele, dando um passo à frente com as mãos apoiadas na cintura.
— Não pense em voar para longe tão cedo, Avatar — respondeu ela, a voz baixa, arrastada e carregada de um magnetismo irresistível. Ela fez um gesto com a mão, chamando-o para perto com um leve movimento dos dedos. — Venha aqui.
Aang não precisou ser convidado duas vezes. Ele caminhou até a cama e ajoelhou-se diante dela, apoiando as mãos nos joelhos da esposa. Os olhos cinzentos fitavam-no com uma intensidade quase predatória, um contraste delicioso com a ternura habitual que ela sempre dedicava a ele.
— O que foi aquilo no pátio hoje mais cedo? — perguntou ele, a voz saindo em um sussurro rouco, enquanto subia as mãos pelas coxas dela, acariciando a pele macia sob a seda. — Você estava... incrivelmente feroz.
— Feroz? — A leitora inclinou-se para a frente, colando os lábios nos dele em um selinho lento antes de morder de leve o lábio inferior de Aang. — Eu estive paciente por anos, Aang. Anos assistindo a garotas de todas as nações fingirem que não veem o anel na sua mão só porque acham que podem ter um pedaço do homem mais desejado das Quatro Nações.
Aang soltou uma risada baixa, o peito vibrando contra o corpo dela.
— Elas não significam nada para mim. Você sabe disso. Eu sou seu, completamente seu.
— Eu sei que é — sussurrou ela, deslizando os dedos pelas costas largas dele, sentindo os músculos se contraírem sob o seu toque. — Mas às vezes os homens precisam de uma revisão prática sobre quem manda na casa. E hoje, meu amor, eu vou deixar bem claro para o mundo inteiro — e principalmente para você — que eu não divido o que é meu.
Antes que Aang pudesse responder, a leitora empurrou-o levemente para trás, fazendo-o deitar-se de costas sobre os lençóis macios. Ela subiu sobre ele, prendendo os quadris do Avatar com os seus, sentindo o calor imediato que irradiava do corpo dele.
Aang prendeu a respiração. A postura dominante dela, combinada com o fogo nos olhos, fez com que qualquer resquício de racionalidade evaporasse de sua mente. Ele ergueu as mãos, segurando a cintura dela com firmeza, os dedos cravando-se levemente na seda escura.
— Mostre-me, então — desafiou ele, com um sorriso torto e sedutor, a voz pingando desejo.
E ela mostrou.
A noite transformou-se em uma sinfonia de respirações entrecortadas, sussurros apaixonados e o som abafado dos lençóis sendo puxados e amassados pelo ritmo frenético daquela entrega. Cada toque era uma reafirmação, cada movimento de Aang respondendo à paixão avassaladora da esposa criava uma onda de calor que parecia incendiar o quarto inteiro.
A leitora fez questão de usar cada segundo para marcar seu território. Seus dedos arranharam de leve as costas musculosas dele, deixando rastros vermelhos e visíveis daquela possessividade que ela guardara durante dias. Os lábios dela cobriram o peito, o pescoço e os ombros de Aang, deixando marcas firmes e profundas na pele clara — um lembrete físico e inegável, para qualquer um que visse no dia seguinte, de que aquele homem pertencia única e exclusivamente a ela.
Aang gemia baixos sons de rendição contra o ouvido dela, com as mãos firmes guiando e acompanhando cada movimento, totalmente rendido, sem fôlego e sem a menor vontade de escapar daquela prisão deliciosa. Para ele, não importava se o mundo inteiro estivesse assistindo ou se mil pretendentes batessem à porta do templo; naquele momento, sob o peso do amor e da paixão avassaladora da esposa, ele pertencia inteiramente a ela, de corpo, alma e espírito.
...
As primeiras luzes da alvorada começavam a tingir o céu de Cidade República e dos picos montanhosos do sul com tons de dourado e rosa suave.
No quarto, o silêncio era agora tranquilo e reconfortante.
Aang estava deitado de costas, respirando calmamente. A leitora repousava a cabeça confortavelmente sobre o peito dele, ouvindo o ritmo constante e firme de seu coração, com uma perna cruzada sobre a dele em um abraço possessivo.
O corpo do Avatar exibia, em sua pele clara, as marcas evidentes da noite anterior — arranhões leves nas costas, marcas suaves de beijos no pescoço e nos ombros, um mapa perfeito da paixão e do ciúme descarado de sua esposa.
Aang mexeu o braço esquerdo, acariciando os cabelos soltos dela, enquanto com a outra mão girava distraidamente o anel dourado em seu dedo anelar. Ele olhou para o teto de madeira esculpida, com um sorriso bobo e satisfeito estampado no rosto.
— Sabe... — começou Aang, com a voz ainda rouca de sono. — Acho que entendi o recado.
A leitora abriu um olho só, erguendo o queixo para encará-lo com um sorriso vitorioso nos lábios.
— Ah, é? E qual foi a conclusão a que o grande Avatar chegou?
Aang olhou para baixo, encontrando os olhos dela, e deu um sorriso ladino, inclinando-se para depositar um beijo suave em sua testa.
— Que tentar flertar com alguém quando se tem uma esposa dobradora ciumenta e extremamente territorial é um péssimo negócio para a saúde. A partir de agora, se alguém da próxima delegação tentar se aproximar, eu mesmo vou citar o código civil da República e mostrar a minha aliança bem de perto.
A leitora riu baixinho, um som gostoso que ecoou pelo quarto silencioso. Ela apertou o abraço ao redor do corpo dele, sentindo-se finalmente em paz, com o marido exatamente onde ele devia estar: inteiramente dela.
— Ótimo — murmurou ela, fechando os olhos novamente e aconchegando-se ainda mais contra o peito quente do Avatar. — Porque da próxima vez, eu não vou usar apenas palavras.
Aang soltou uma risada suave, puxando os cobertores para cobrir os dois enquanto o sol subia de vez no horizonte, iluminando um mundo em paz e um amor que nem mil guerras poderiam abalar.
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Contém angústia leve, briga, reconciliação, romance. Aang x leitora casados.
Resumo: Anos após a queda da Nação do Fogo e o fim da Guerra dos Cem Anos, a República das Nações Unidas ergue-se como um farol de harmonia. Aang, agora um Avatar plenamente realizado e casado há anos com uma estimada dobradora — figura central na política da nova metrópole —, divide-se entre a imensidão de suas responsabilidades espirituais e o peso da saudade. Após uma longa temporada de viagens pelos Templos do Ar, Aang retorna ao lar e se depara com uma realidade que a distância o impediu de ver: sua esposa está imersa em suas próprias obrigações governamentais, e a convivência cotidiana foi substituída por breves acenos e silêncios pesados. Consumido por uma insegurança silenciosa e por um ciúme inesperado ao vê-la cercada de admiradores e aliados políticos, o Avatar confronta o medo de que o tempo e o vento tenham apagado a chama de seu amor. No entanto, o que ele interpreta como um esfriamento na relação não passa do ato final de uma maratona burocrática, preparada por ela para finalmente resgatar o homem com quem dividiu sua alma e seu destino.
O mármore da nova prefeitura de Cidade República reluzia sob a luz dourada do entardecer, refletindo a grandiosidade de uma era que muitos julgavam impossível. Onde antes reinavam as cinzas e a bota opressora dos uniformes escarlates, erguia-se agora uma metrópole vertical, de telhados pontiagudos que homenageavam a arquitetura das quatro nações, unidos em pontes de pedra e ferro. Era a concretização viva do sonho de Aang: um mundo que aprendera a respirar em conjunto.
Na ampla sala de reuniões do Conselho Superior, os ecos de uma votação unânime ainda vibravam nas paredes revestidas de mogno e painéis de papel de arroz. O sol de fim de tarde cortava o ambiente em feixes diagonais, iluminando pilhas de pergaminhos, mapas hidrográficos e tratados de comércio que cobriam a mesa central.
— Com a assinatura do tratado de desarmamento das fronteiras do Sul, o fluxo de mercadorias entre as Tribos e o Reino da Terra está oficialmente estabilizado — anunciou Katara, a voz firme e límpida, carregando a autoridade de quem não apenas presenciava a história, mas a redigia com as próprias mãos. Como conselheira sênior, sua postura ereta e o olhar analítico inspiravam respeito imediato em todos os embaixadores presentes.
Ao lado dela, Sokka examinava um pergaminho com uma luneta improvisada, resmungando sobre a logística de distribuição de carvão para as províncias do norte antes da chegada do rigoroso inverno. Na outra extremidade da sala, Toph cruzava os braços, os pés desposoados firmemente plantados no chão de pedra, sabendo exatamente onde cada pessoa respirava, sussurrava ou fingia prestar atenção. Mais ao fundo, Zuko, com as vestes tradicionais da Nação do Fogo readequadas ao estilo diplomático da cidade, cruzava os braços em aprovação silenciosa.
E lá estava ela.
Entre os secretários e delegados, a leitora — sua esposa, sua companheira de incontáveis batalhas silenciosas nos bastidores da diplomacia — ajustava os últimos detalhes do decreto de integração urbana. Os cabelos, presos com grampos, balançavam levemente a cada gesto preciso. Ela falava com calma, usando metáforas da dobra de água para explicar a necessidade de flexibilidade nas leis de zoneamento dos novos bairros residenciais. Sua voz, antes sussurrada nas tendas de refúgio e nos acampamentos improvisados do Exército da Libertação, agora ecoava como uma força coesa, capaz de acalmar os ânimos exaltados de chefes de clãs e comerciantes ambiciosos.
A porta lateral da sala se abriu com um sopro de ar fresco, trazendo consigo o aroma inconfundível de petrichor e folhas de pinheiro dos picos montanhosos.
— A reunião está encerrada — disse uma voz suave, mas que carregava o peso de mil tempestades superadas.
Aang cruzou o umbral. Vestia as tradicionais túnicas laranjas e amarelas dos Nômades do Ar, embora o manto de viagem estivesse empoeirado pela longa jornada desde o Templo do Ar do Leste. Em suas costas repousava o planador de madeira entalhada, e em seus olhos, outrora marcados pelo desespero de um mundo em ruínas, brilhava a serenidade de quem finalmente encontrara seu lugar no universo. Ou assim ele acreditava.
— Aang! — exclamou Katara, os traços severos de conselheira derretendo-se em um sorriso fraterno enquanto se levantava para abraçá-lo.
— Irmãozinho! — Sokka largou o pergaminho e correu para dar-lhe um tapa amigável e desajeitado nas costas, quase derrubando o báculo do Avatar. — Bem-a tempo! Acabamos de resolver a questão dos impostos portuários. Se demorasse mais um dia, eu teria declarado guerra à guilda dos pescadores.
Zuko aproximou-se com um sorriso contido, cumprimentando-o com um aceno respeitoso de cabeça.
— É bom vê-lo de volta, Avatar. Cidade República tem estado calma, mas a burocracia nunca dorme.
Toph, escorada na ombreira da porta, cruzou os braços e abriu um sorriso maroto.
“Vejo que o garoto aerófobo finalmente lembrou onde fica a porta de casa”, provocou ela mentalmente, sentindo a vibração dos passos leves de Aang no piso de mármore. “Aposto que passou as últimas semanas conversando com lêmures-voadores e ignorando os relatórios que a sua esposa mandou pelo falcão-correio.”
Aang sorriu de canto, sentindo o calor do reencontro com seus velhos amigos, mas seu olhar rapidamente desviou-se para a figura que permanecia recostada à mesa de reuniões.
A leitora terminava de enrolar o último mapa, o rosto iluminado pelos últimos raios de sol. Quando ergueu os olhos e encontrou os dele, seus lábios se curvaram em um sorriso terno, mas havia algo contido ali. Uma exaustão sutil, quase imperceptível para quem não conhecia cada linha de expressão daquele rosto. Ela deu um passo à frente, mas foi imediatamente interceptada por um diplomata do Reino da Terra, um nobre de vestes pesadas de seda verde que parecia insistir em um ponto secundário do tratado agrário.
Aang sentiu o estômago dar um nó. Um frio súbito, que nada tinha a ver com a brisa das montanhas, invadiu seu peito.
...
A noite desceu sobre Cidade República como um manto de veludo azul-escuro, pontilhado pelas lâmpadas de gás que iluminavam as ruas pavimentadas e os bondes elétricos que cruzavam os canais.
Na residência oficial do Avatar, situada nas colinas verdejantes que contornavam a baía, a lareira da sala principal estalava, projetando sombras dançantes nas paredes cobertas de tapeçarias tradicionais. Era um espaço projetado para ser um santuário de paz, um refúgio onde as pressões do mundo exterior deveriam se dissolver.
Mas, naqueles aposentos, o silêncio não tinha o som da paz; tinha o peso da ausência.
Aang estava sentado na borda do sofá de linho, olhando fixamente para as brasas que se consumiam lentamente. Em suas mãos, ele girava distraidamente um pequeno amuleto de pedra-sabão que ela lhe dera anos atrás, nos dias sombrios antes da invasão final.
A porta se abriu com um clique suave. A leitora entrou, carregando uma pasta grossa de couro sob o braço. Seus ombros estavam tensos, e ela soltou um longo suspiro, fechando os olhos por um segundo antes de perceber que ele a observava.
— Você ainda está acordado? — perguntou ela, a voz soando suave, embora cansada. Ela caminhou até a mesinha de centro, depositando a pasta com um baque abafado sobre a madeira polida. — Achei que estivesse exausto da viagem.
— Eu estava — respondeu Aang, a voz contida. Ele levantou o olhar para ela, tentando mapear as mudanças que o tempo e a distância haviam esculpido na rotina deles.
Havia olheiras leves sob os olhos dela, e os cabelos estavam soltos de qualquer maneira, caindo em ondas suaves sobre os ombros da túnica de linho cru. Ela não olhou diretamente para os olhos dele; em vez disso, suas mãos já começavam a tatear a mesa em busca de uma pena e um tinteiro.
— A viagem foi longa — continuou Aang, levantando-se devagar. — Os Templos do Ar estão... silenciosos. O vento sopra nos corredores vazios, e às vezes parece que o tempo parou lá em cima. Mas aqui embaixo, o mundo não para de girar, não é?
A leitora parou com a pena suspensa sobre um pergaminho em branco. Ela virou o rosto para ele, franzindo levemente a testa, intrigada com o tom daquela frase.
— O mundo tem estado em transição constante, Aang. Você sabe disso melhor do que ninguém. Os distritos industriais precisam de regulamentação de emissão de vapor, as escolas recém-abertas no Setor Oeste pedem livros didáticos, e o conselho municipal mal consegue acompanhar o crescimento populacional...
— Você tem falado muito sobre o conselho ultimamente — interrompeu Aang, dando um passo à frente. O tom não era de acusação, mas havia uma vulnerabilidade crua em sua postura que a fez parar imediatamente. — Nas cartas que mandei pelos falcões... você demorava dias para responder. E quando respondia, eram apenas resumos de atas de reuniões e relatórios de infraestrutura.
Ela piscou, surpresa. O peso daquela constatação pairou no ar entre eles, denso e desconfortável.
— Aang, eu estive gerindo a transição legislativa de três províncias ao mesmo tempo. O volume de trabalho...
— Eu sei, eu sei — disse ele, passando a mão raspada pela cabeça careca, o símbolo da flecha azul brilhando fracamente sob a luz da lareira. — Você é essencial para este governo. Todo mundo sabe disso. Sokka diz que você é o cérebro por trás de cada lei sensata que é aprovada. Katara diz que você mantém a moral do conselho em pé. Até a Toph elogiou a sua postura firme diante dos magnatas do carvão.
A leitora largou a pena de vez sobre a mesa. O tinteiro balançou levemente, derramando uma minúscula gota preta que manchou a borda do papel. Ela cruzou os braços na altura do peito, encarando-o com uma mistura de incredulidade e exaustão.
— Onde você quer chegar, Aang?
— Quero chegar ao ponto em que eu olho para a minha esposa e sinto que ela ainda está aqui comigo — desabafou ele, a voz quebrando-se ligeiramente no final. As palavras saíram antes que ele pudesse filtrá-las, carregadas pelo acúmulo de meses de solidão nos picos gelados e nas florestas esquecidas. — Eu passei os últimos quatro meses viajando de um templo a outro, tentando reacender o espírito dos Nômades do Ar em ruínas, tentando encontrar vestígios de um mundo que se foi. E quando finalmente volto para casa, pensando em finalmente descansar ao seu lado, encontro uma estranha que só tem tempo para discursos políticos e reuniões com embaixadores.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Nem mesmo os estalos da lareira pareciam romper a densidade daquele instante.
A leitora sentiu o peito apertar. Cada fibra de seu ser queria correr até ele, envolvê-lo em seus braços e lembrá-lo de todas as noites em que ela chorara de saudades enquanto olhava para a lua da janela daquele mesmo escritório. Mas o cansaço extremo, somado ao choque de ser confrontada com uma acusação que ela jamais esperava ouvir dele, ergueu uma muralha invisível entre os dois.
— Se você acha que eu mudei por escolha própria... se você acha que este gabinete, estas pilhas de papéis e estas negociações intermináveis são um luxo para mim... — A voz dela tremeu, não de fraqueza, mas de uma frustração profunda que vinha se acumulando há meses. — Você está completamente cego pelo seu próprio mundo, Aang.
Sem esperar por uma resposta, ela virou as costas, pegou a pasta de couro e caminhou em direção ao corredor que levava ao escritório privativo, fechando a porta com um baque seco que ecoou por toda a casa.
Aang ficou sozinho na sala escura, o coração apertado, sentindo o vento gélido da dúvida soprar pela fresta da janela que ele esquecera de fechar.
...
Os dias seguintes foram marcados por uma trégua fria e polida.
Na superfície, nada havia mudado. Aang continuava a cumprir suas obrigações como Avatar, mediando uma disputa territorial entre mineiros da Nação do Terra e pescadores da Tribo da Água do Sul nas margens do rio Tu Zin. A leitora continuava a ser o pilar administrativo de Cidade República, desdobrando-se em reuniões matinais, inspeções de obras públicas e recepções diplomáticas.
Mas dentro daquela casa nas colinas, o ar havia se tornado rarefeito.
No quarto, as respirações eram cautelosas. Eles dormiam na mesma cama, mas havia um oceano de silêncio entre seus corpos. Quando Aang estendia a mão na penumbra para tocar o braço dela, a leitora, exausta após dezesseis horas consecutivas de trabalho com relatórios fiscais, já estava profundamente adormecida, incapaz de corresponder ao carinho. Para Aang, cada noite daquelas alimentava a terrível sensação de que a distância física de suas viagens havia se transformado em uma distância emocional definitiva.
E foi nesse terreno fértil de insegurança que a semente do ciúme começou a brotar.
Na quinta-feira seguinte, a prefeitura organizou um banquete de gala no Salão dos Quatro Povos para celebrar a assinatura definitiva do Tratado de Integração Comercial. A elite da cidade — líderes de guildas, comandantes da polícia de dobra de metal, conselheiros e embaixadores estrangeiros — enchia o salão com o murmúrio elegante de conversas em dezenas de dialetos diferentes.
Aang estava em um canto próximo às janelas arqueadas, segurando uma taça de suco de lótus branco que mal tocava. Seus olhos vagavam pelo salão até encontrá-la.
A leitora vestia um longo vestido de seda azul-marinho, bordado com fios prateados que imitavam o movimento das ondas. Ela estava no centro de um grupo animado de dignitários. Ao lado dela, inclinado levemente para a frente com um sorriso encantador e uma postura impecável, estava o Lorde Kael, um jovem diplomata do Reino da Terra recém-chegado de Ba Sing Se, famoso tanto por sua inteligência afiada quanto por sua genealogia aristocrática.
Kael riu de algo que ela disse, e com um gesto galante, tocou levemente o cotovelo dela para guiá-la em direção à mesa de buffets. Ela respondeu com um sorriso polido, inclinando a cabeça em sinal de concordância.
Para qualquer observador neutro, era apenas a dinâmica padrão de um evento diplomático de alto nível. Mas para Aang — que passara semanas isolado, sentindo-se inadequado, temendo que o mundo moderno estivesse engolindo a mulher que ele amava —, aquela cena funcionou como uma faísca em um paiol de pólvora.
Uma onda de calor subiu por seu pescoço. Seus dedos apertaram a taça de cristal com tanta força que o líquido no interior oscilou perigosamente.
“Quem ele pensa que é para tocá-la daquele jeito?”, pensou Aang, o sangue zumbindo em seus ouvidos. “Ele passa duas horas conversando com ela enquanto eu passei semanas tentando encontrar um único momento para conversar sem interrupções. Ele sequer sabe o quanto ela odeia chá de jasmim frio, e mesmo assim está ali, sorrindo como se o mundo pertencesse a ele.”
— Ela é brilhante, não é? — a voz de Sokka ecoou de repente ao lado dele, arrancando o Avatar de seu transe furioso. O guerreiro da Tribo da Água mastigava um canapé de camarão com entusiasmo, olhando na mesma direção. — Kael é um bom aliado para o conselho. Inteligente, rápido com os números, sabe navegar na alta sociedade de Ba Sing Se como ninguém.
Aang lançou a Sokka um olhar tão gélido que o cunhado quase engasgou com o salgado.
— Ele está muito perto dela — rosnou Aang, a voz contida por uma casca de gelo.
Sokka piscou, surpreso, antes de soltar uma risada curta e incrédula.
— Perto de quem? Da sua esposa? Aang, pelo amor dos espíritos, ele é um diplomata! Eles estão discutindo as cotas de importação de grãos do setor agrícola. Quer que ela fale de negócios gritando do outro lado do salão?
— Ele riu de uma piada que ela contou — insistiu Aang, o maxilar trancado. — E tocou no braço dela. Eu passei meses longe, Sokka. Meses tentando proteger o mundo, e agora parece que o mundo está me substituindo no meu próprio lar.
Sokka parou de mastigar. O sorriso desapareceu de seu rosto, substituído pela expressão séria de quem conhecia Aang desde os doze anos, quando o garoto costumava carregar o peso do mundo nos ombros sem saber como pedir ajuda.
— Escuta aqui, cabeça-de-vento — disse Sokka, pondo a mão pesada no ombro do Avatar. — Você está olhando para a situação com as lentes erradas. A leitora não está se afastando de você porque quer. Ela tem estado sob uma pressão insuportável para fechar o ciclo de transição política antes do solstício. E se você tivesse prestado atenção nos últimos dias — em vez de ficar remoçando suas próprias inseguranças nos cantos —, saberia o porquê.
Aang virou-se para encará-lo, o cenho franzido.
— O que você quer dizer com isso?
Mas Sokka apenas deu dois tapinhas no ombro dele, pegou outro canapé e apontou com a cabeça para o outro lado do salão.
A leitora havia se desvencilhado de Kael. Seus olhos varriam o salão com urgência, ignorando os chamados dos demais embaixadores. Quando encontrou Aang no canto escuro perto da janela, o semblante dela se iluminou com uma intensidade que fez o coração dele dar um salto doloroso no peito.
Ela caminhou diretamente em sua direção, ignorando o protocolo, com passos rápidos e decididos que deixaram o Lorde Kael com uma expressão de total confusão para trás.
...
A leitora parou a centímetros de Aang. O peito dela subia e descia rapidamente, não por cansaço físico, mas pela urgência acumulada de semanas de silêncio forçado.
— Aang — começou ela, a voz ligeiramente trêmula, mas firme. — Você pode vir comigo agora? Por favor.
Aang, ainda sob o efeito residual do ciúme e da frustração, cruzou os braços, mantendo a postura defensiva.
— Para onde? Para mais uma reunião com o Lorde Kael e seus assessores do Reino da Terra? Porque parece que você já tem companhia suficiente para a noite...
Antes que ele pudesse terminar a frase, a leitora deu um passo à frente, segurou firmemente a gola de sua túnica de Avatar e o puxou com uma força surpreendente, tirando-o do alcance dos olhares curiosos do salão e arrastando-o para uma varanda lateral deserta que dava para os jardins iluminados pela lua.
O som da festa sumiu, abafado pelas pesadas portas de vidro. A brisa noturna da baía bateu em seus rostos, mas a temperatura entre os dois era escaldante.
— Do que você está falando, Aang? — perguntou ela, os olhos brilhando com lágrimas contidas de pura frustração. Ela soltou a túnica dele, mas permaneceu bem próxima, apontando o dedo indicador para o peito dele. — Ciúme? Sério? Você acha mesmo que eu estava dando atenção para o Kael porque me importo com a opinião daquele aristocrata presunçoso?
Aang abriu a boca para responder, mas as palavras travaram em sua garganta diante da intensidade daquele olhar.
— Você passou os últimos quatro meses viajando — continuou ela, a voz agora embargada, quebrando a couraça de resistência que ela mantivera durante semanas. — Você viajou pelos templos vazios, procurou por fantasmas do passado, meditou nas montanhas. E eu fiquei aqui. Sabe por quê? Porque alguém precisava garantir que, quando você voltasse para casa, ainda existisse um lugar para você voltar. Um mundo em paz. Uma nação onde você não precisasse mais pegar em armas para salvar a sua família.
Ela respirou fundo, puxando um pequeno pergaminho selado com cera vermelha de dentro da bolsa presa ao vestido e enfiando-o com força nas mãos de Aang.
— O que é isso? — perguntou ele, a voz num sussurro rouco, olhando para o documento.
— É a minha carta de renúncia ao Conselho Superior — respondeu ela, as lágrimas finalmente escapando por seus cílios e traçando caminhos brilhantes em suas bochechas. — Terminei. Cada lei, cada tratado, cada negociação com os magnatas do carvão e com os embaixadores de Ba Sing Se... está tudo finalizado, assinado e entregue. A transição acabou, Aang.
Aang sentiu o mundo parar de girar. Seus olhos correram pelas linhas do pergaminho, reconhecendo a caligrafia impecável dela, o selo oficial do governo e a assinatura datada daquela mesma tarde. Não havia mais pendências. Não havia mais reuniões intermináveis.
— Mas... por que você não me disse? — perguntou ele, a culpa desabando sobre seus ombros como uma avalanche.
— Porque eu queria que fosse uma surpresa — disse ela, a voz falhando enquanto cobria o rosto com as mãos, permitindo-se, pela primeira vez em meses, desmoronar diante dele. — Eu queria terminar tudo antes do solstício para podermos pegar o Appa e passar semanas sozinhos no Templo do Ar do Sul, longe de relatórios, longe de políticos, longe de tudo. E enquanto eu estava trabalhando dia e noite para conseguir isso... para podermos finalmente sermos nós dois de novo... você estava na sala principal me olhando como se eu fosse uma estranha que preferia os negócios à sua companhia. E pior... com ciúmes de um nobre tonto que eu mal consigo tolerar!
O peso do remorso atingiu Aang com a força de um furacão elemental. Ele percebeu o quão cego havia sido. Consumido por suas próprias inseguranças de ex-sobrevivente e pelas sombras da solidão nos templos abandonados, ele negara o esforço titânico que ela fizera para construir, junto com ele, o futuro que ambos sempre desejaram.
— Meu amor... — Aang sussurrou, a voz quebrada pela dor de vê-la chorar.
Ele deu um passo à frente e a envolveu com seus braços, puxando-a contra o peito com toda a força de seu ser. A leitora soluçou contra sua túnica, os punhos cerrados apertando o tecido enquanto enterrava o rosto na curva de seu pescoço.
— Desculpa — murmurou ele, beirando as lágrimas, enfiando o rosto nos cabelos dela e respirando o perfume familiar de jasmim e vento que ele tanto negara a si mesmo durante os meses de viagem. — Me desculpa, por favor. Eu fui um tolo. O vento me deixou solitário, e eu achei... achei que tinha perdido você para o mundo que ajudamos a criar.
— Você nunca vai me perder, Aang — respondeu ela, erguendo o rosto para encará-lo, os olhos brilhando na penumbra da varanda sob a luz prateada da lua cheia. Um sorriso suave, carregado de todo o amor que resistira à guerra, ao tempo e à distância, brotou em seus lábios. — Eu sou sua. E o mundo lá fora pode esperar o quanto quiser.
Aang não hesitou mais. Segurando o rosto dela com ambas as mãos, com a mesma delicadeza com que moldava o ar ao seu redor, ele a beijou.
Não havia pressa, não havia relatórios pendentes, não havia conselhos, guerras ou tratados diplomáticos. Havia apenas o calor dos dois corpos fundindo-se na brisa mansa da noite, o som distante das ondas batendo no porto de Cidade República e a certeza absoluta de que, após todas as tempestades, a paz finalmente encontrara morada em seus corações.
Contém muita fofura, romance, relacionamento poliamoroso. Qifrey x leitora femina x Olruggio casados.
Resumo: Em um lar construído nas entrelinhas da magia e do carinho, Qifrey, Olruggio e sua esposa dividem os dias ensinando as quatro aprendizes no ateliê. Enquanto o afeto transborda facilmente pelos abraços de Qifrey e da leitora, Olruggio esconde seu coração sob camadas de praticidade e carrancice. No entanto, ao criar aparatos mágicos para as meninas, o mago decide que é hora de retribuir o amor que recebe à sua maneira, culminando em uma noite silenciosa de revelações e surpresas tocantes.
A luz do fim de tarde entrava pelas janelas altas do ateliê em feixes dourados e empoeirados, dançando suavemente sobre as mesas cobertas de pergaminhos, tinteiros e pedaços de tecido recortados. O cheiro de pinho misturado com o aroma sutil de ervas secas e o metal aquecido das penas de desenho preenchia o ambiente, criando uma atmosfera que exalava acolhimento. Era um santuário isolado do mundo exterior, onde as regras rígidas dos Cavaleiros Moralis pareciam se curvar diante da calmaria de um lar genuíno.
Na bancada central, Coco tentava concentrar-se em traçar uma linha reta com o seu pincel, a ponta da língua levemente para fora em sinal de extrema concentração. Agott, logo ao lado, revisava os próprios cálculos com uma seriedade quase adulta, enquanto Richeh e Tetia cochichavam baixinho sobre autilidade de um novo feixe de fitas mágicas que acabaram de estampar.
Observando tudo de canto, encostado no batente da porta com os braços cruzados sobre o peito e o cenho franzido de quem parecia carregar o peso do mundo — ou apenas irritado com o barulho de uma chaleira fervendo —, estava Olruggio. Ele vestia suas túnicas escuras habituais, a capa pesada jogada sobre os ombros e a expressão típica de quem preferia estar dormindo em sua própria oficina. Mas ele não estava. Ele continuava ali, vigiando as meninas com aquele olhar severo que enganava qualquer um que não conhecesse a imensidão do seu senso de responsabilidade.
Poucos passos adiante, no tapete da sala de estar integrada, Qifrey estava sentado no chão, rindo abertamente enquanto ajudava Tetia a desenredar uma fita de cetim mágico que havia dado um nó cego. Os cabelos prateados do bruxo brilhavam sob a luz do entardecer, e seus óculos característicos escorregavam levemente pela ponta do nariz.
— Assim não, Tetia. Veja, se você inclinar o traço do selo em dois graus para a esquerda, a energia flui sem travar — explicava Qifrey com uma paciência infinita, sua voz calma carregando uma doçura que fazia qualquer um se sentir seguro.
Você, recém-chegada da cozinha com uma bandeja fumegante de xícaras de chá de maçã e especiarias, parou por um instante na entrada, absorvendo a cena. Seus olhos encontraram os de Qifrey. Ele ergueu o rosto, percebeu sua presença e abriu um sorriso terno, daqueles que pareciam desarmar qualquer vestígio de tormenta na alma dele. Sem cerimônia, você se aproximou, entregou uma xícara a ele e depositou um beijo carinhoso em sua testa alva. Qifrey fechou os olhos por um segundo, aceitando o carinho com naturalidade, segurando sua mão livre por um instante antes de você se virar para distribuir o restante das xícaras.
No ateliê, o casamento entre os três não seguia moldes tradicionais, mas encaixava-se com a precisão de engrenagens mágicas perfeitamente lubrificadas. Qifrey e você eram a maré quente e expressiva da casa; os abraços repentinos, os cafunés distraídos nos cabelos das aprendizes, as palavras doces sussurradas ao pé do ouvido e os elogios constantes eram a linguagem diária de vocês dois.
Olruggio, por outro lado, resmungava. Resmungava sobre melação excessiva, sobre desperdício de tempo com mimos e sobre como aquela casa estava virando um abrigo de transbordamentos emocionais desnecessários. Mas nenhum dos dois se importava com as reclamações resmungadas do mago da barba por fazer. Afinal, bastava olhar para os detalhes: era Olruggio quem sempre reforçava as proteções mágicas ao redor do ateliê nas noites mais frias, quem consertava os lampiões antes que estragassem de vez e quem, com uma careta mal-humorada, sempre deixava a xícara do seu chá favorito exatamente onde você costumava sentar para descansar.
Da sua posição, você olhou de relance para Olruggio, que continuava escorado na madeira. Notando que ele a encarava de volta, você sorriu de canto e lhe estendeu a última xícara de chá, acompanhada de um olhar cúmplice e afetuoso.
Olruggio pigarreou sonoramente, desviando o olhar para o teto com um estalar de língua impaciente.
— Eu não pedi chá com especiarias doces — resmungou ele, cruzando os braços com ainda mais força, embora tenha estendido a mão grande e calejada para pegar a xícara de qualquer maneira. Seus dedos roçaram de leve nos seus, e o calor da pele dele contrastava com o tom ríspido. — Vocês mimam demais essas crianças. E a si mesmos também. Daqui a pouco ninguém aqui vai saber amarrar os próprios sapatos sem que haja um abraço ou um elogio envolvido.
— Oh, cale a boca, Olruggio — Qifrey respondeu na mesma moeda, mas com um riso soprado e genuíno nos lábios, jogando um pedaço de giz mágico amassado na direção dele. — Um pouco de carinho nunca fez mal a nenhum bruxo. Pelo contrário, faz bem para a alma. Principalmente para uma alma amarga como a sua.
— Minha alma não tem amargura nenhuma, tem pragmatismo — retrucou Olruggio, virando as costas de forma dramática e caminhando de volta para a sua bancada de trabalho, resmungando algo incompreensível sobre "perda de tempo com sentimentalismo".
O que Qifrey e você não sabiam — e o que continuou em absoluto segredo durante toda aquela semana — é que, enquanto as madrugadas silenciosas cobriam o ateliê e as aprendizes dormiam profundamente em seus quartos, Olruggio não estava apenas cuidando das varreduras de rotina ou checando os selos de contenção.
Nos últimos dias, aproveitando o momento em que desenhava os aparatos mágicos de utilidade prática para o treinamento das meninas, o mago havia dedicado suas horas de descanso a algo totalmente diferente. Algo que exigira precisão cirúrgica, horas de foco e, acima de tudo, uma paciência que ele raramente demonstrava ter para si mesmo.
A noite caiu de vez sobre a colina, banhando o ateliê em um manto de estrelas e silêncio. As quatro aprendizes já haviam recolhido seus materiais e recolhido aos dormitórios, exaustas e felizes com as pequenas ferramentas de utilidade que ganharam mais cedo — um estojo que organizava tintas automaticamente para Coco, um peso de papel que estabilizava folhas para Agott, e fitas que mediam comprimentos sozinhas para Richeh e Tetia.
Na sala principal, a lareira estalava suavemente, projetando sombras douradas nas paredes. Qifrey estava sentado no sofá, com as pernas estendidas e os olhos fechados, aproveitando o silêncio para relaxar após um longo dia de estudos. Você estava recostada no ombro dele, desenhando círculos distraídos na barra de sua túnica, enquanto conversavam em sussurros sobre os planos para a colheita de ervas da semana seguinte.
Foi nesse exato momento que passos pesados e decididos ecoaram pelo corredor de tábuas de madeira.
Olruggio entrou na sala carregando duas caixas pequenas feitas de madeira de carvalho escuro, polida com cera de abelha e marcada discretamente com selos de preservação. Ele caminhava com uma rigidez ensaiada, o maxilar trancado e o olhar fixo no chão à sua frente, como se estivesse marchando para o próprio julgamento em uma corte de magistrados.
Qifrey abriu os olhos imediatamente, sobressaltando-se levemente com a rigidez do amigo. Você endireitou a postura no sofá, piscando surpresa.
— Olruggio? Aconteceu alguma coisa com os selos do perímetro? O alarme disparou? — Qifrey perguntou, erguendo-se meio corpo do estofado, com o sobressalto típico de quem sempre esperava o pior.
— Não. Os selos estão perfeitos. Ninguém invadiu nada — respondeu Olruggio, com a voz grave saindo um tom acima do normal, denunciando o nervosismo que ele tentava mascarar a todo custo.
Ele parou bem no centro da sala, diante do sofá. O silêncio pesou por um segundo, quebrado apenas pelo estalar de uma brasa na lareira. Sem dizer uma palavra a mais, Olruggio estendeu os braços de uma vez só, desovando bruscamente as duas caixas de carvalho no colo de vocês, como se fossem artefatos altamente voláteis que ele quisesse tirar de perto das mãos o mais rápido possível.
— Prontos. Fiquem com isso. Acabou — disparou ele, virando o rosto de imediato para a janela escura, cruzando os braços com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. As pontas de suas orelhas estavam visivelmente avermelhadas, entregando o calor que subia pelo pescoço.
Você olhou para a caixa em seu colo, depois para o rosto visivelmente envergonhado de Olruggio, e por fim para Qifrey, que estava estático, com os olhos azuis arregalados de pura incredulidade por trás das lentes dos óculos.
Com mãos trêmulas pela surpresa, Qifrey foi o primeiro a destravar o fecho delicado da caixa que repousava sobre as pernas dele. A tampa se abriu sozinha, revelando um conjunto de dois itens magníficos. O primeiro era um par de óculos de armação de metal reforçado, com lentes duplas ajustadas especificamente para aliviar a tensão ocular e compensar a fadiga da visão de Qifrey — algo que Olruggio jamais admitira ter percebido, mas cujos mínimos detalhes de desgaste ele havia notado ao longo dos anos. Ao lado dos óculos, repousava um pequeno pingente de bolso em formato de estrela-do-mar prateada, feito com a mesma liga mágica que Olruggio usava para criar seus aparatos de secagem instantânea; um amuleto que repelia a umidade e a água, desenhado exclusivamente para afastar o pavor irracional que Qifrey guardava em segredo desde a infância.
Você abriu a sua caixa logo em seguida. Dentro dela, acomodado sobre um veludo azul-marinho, havia um broche de prata em formato de pena de escrever, cujos traços internos continham um selo complexo de preservação de calor. Era um aquecedor de bolso portátil e eterno, moldado para manter suas mãos sempre aquecidas durante os invernos rigorosos do norte, além de vir acompanhado de um pequeno frasco de tinta mágica que mudava de cor conforme o seu estado de espírito — um capricho técnico que exigira dias de lapidação de fórmulas complexas.
O silêncio na sala tornou-se espesso, carregado de uma emoção tão profunda que sufocou qualquer tentativa de piada ou resmungo.
Qifrey tirou os óculos antigos lentamente, seus dedos tocando a armação nova com uma delicadeza reverente. Quando colocou o novo par, ajustando-o ao rosto, o campo de visão estressado de seus olhos relaxou instantaneamente. Ele levou a outra mão até o pingente prateado da estrela-do-mar, sentindo o metal frio e seguro contra a palma da mão. Ele engoliu em seco, e quando ergueu o rosto para olhar para Olruggio, os olhos dele estavam marejados de uma forma que você raramente via.
Você, por sua vez, apertava o broche de pena contra o peito, sentindo a garganta fechar de tanta ternura. Olhar para aquilo — sabendo o quanto Olruggio detestava demonstrar vulnerabilidade, o quanto ele passara noites em claro trabalhando escondido na oficina para criar algo puramente afetuoso, sem nenhuma utilidade prática extrema para o ateliê, mas sim para o coração de vocês — era avassalador.
— Olruggio... — a voz de Qifrey saiu embargada, quase um sussurro frágil. — Isso... isso é...
— Não comecem — cortou Olruggio imediatamente, com a voz áspera, ainda virado de costas para vocês, olhando fixamente para o reflexo de seu próprio rosto no vidro escuro da janela. As bochechas dele agora estavam completamente vermelhas, e ele gesticulava de forma brusca com as mãos. — Eu só... eu estava testando novos encantamentos de metalurgia e condensação de prata. Sobrou material das ferramentas das meninas. E eu detesto ver vocês dois espalhando aquela melação grudenta pela casa inteira sem que haja um equilíbrio mínimo de utilidade prática nos arredores. Foi só um teste de laboratório, entendido? Nada demais!
Vocês se entreolharam por um breve segundo antes de desatarem a sorrir — um sorriso largo, genuíno e repleto de um amor transbordante.
Sem dar tempo para que Olruggio pudesse ensaiar mais nenhuma desculpa defensiva, Qifrey levantou-se agilmente do sofá, cruzando o espaço entre vocês dois em dois passos largos. Antes que o mago carrancudo pudesse protestar, Qifrey o puxou firmemente pelos ombros, envolvendo-o em um abraço apertado, firme e sufocante, colando o corpo de Olruggio contra o seu próprio.
— Idiota — sussurrou Qifrey contra o ombro dele, rindo baixinho enquanto sentia o corpo teso de Olruggio hesitar por um microssegundo antes de ceder minimamente ao impacto.
Antes que Olruggio pudesse reclamar do abraço indesejado, você se levantou do sofá e completou o cerco, colando-se às costas de Olruggio e envolvendo os braços ao redor da cintura dele, apertando-o em um abraço coletivo que o prendia no centro do afeto que ele tanto tentava evitar, mas que secretamente buscava.
Olruggio congelou completamente. As mãos dele ficaram suspensas no ar por um instante, sem saber para onde ir, crispadas em punhos nervosos. Ele abriu a boca para resmungar alguma ameaça de expulsão da sala, para dizer que aquilo era ridículo, que ele já estava velho demais para abraços coletivos sem sentido no meio da noite.
Mas as palavras morreram na garganta.
O calor dos dois corpos colados ao seu, a sinceridade palpável daquele carinho despido de qualquer julgamento e o peso reconfortante das caixas de carvalho sobre a mesinha de centro o desarmaram por completo. Soltando um suspiro longo, derrotado e profundamente aliviado, os ombros largos de Olruggio relaxaram. Lentamente, ele fechou os olhos e cedeu, descendo os braços pesados para envolver a cintura de vocês dois em um abraço desajeitado, porém firme e duradouro.
— Vocês são insuportáveis... — murmurou Olruggio contra a gola da túnica de Qifrey, com a voz abafada e estranhamente suave, enquanto a lareira estalava docemente na noite silenciosa do ateliê.
A lareira continuava a estalar baixinho, projetando uma dança de brasas alaranjadas que parecia aquecer não apenas o ambiente, mas a própria estrutura daquele lar moldado por tintas, pergaminhos e magia. No centro da sala, presos naquele abraço coletivo que desafiava todas as defesas e resmungos de Olruggio, o tempo parecia ter desacelerado.
Qifrey foi o primeiro a afastar o rosto, embora suas mãos continuassem firmemente apoiadas nas costas largas de Olruggio. Quando as lentes dos óculos novos se alinharam com o rosto do bruxo carrancudo, o sorriso que iluminava o semblante de Qifrey era de uma suavidade desarmante. Não havia ironia, nem zombaria; apenas uma vulnerabilidade cristalina e um contentamento profundo.
— Obrigado, Olruggio — murmurou Qifrey, com a voz limpa de qualquer vestígio de embargamento, enquanto seus dedos deslizavam carinhosamente pela manga da túnica escura do outro, ajeitando de forma distraída o tecido que havia amassado com o impacto do abraço. — Acredite ou não, você acertou exatamente no que eu mais precisava, mesmo que eu nem soubesse disso. Esse pingente... e os óculos... significam mais para mim do que você imagina.
Você, ainda com os braços enlaçados na cintura dele, encostou a testa nas costas de Olruggio, sentindo a respiração dele estabilizar-se sob o seu toque.
— Ele tem toda a razão, Olruggio — você acrescentou, erguendo o rosto para olhá-lo de sosgayo, com um sorriso terno brincando nos cantos dos seus lábios. — Você passa noites inteiras garantindo que o ateliê seja seguro, que as meninas estejam protegidas e que nós dois tenhamos o básico para respirar em paz. Mas raramente lembra de cuidar de si mesmo, e ainda mais raramente aceita o quanto o seu coração é enorme. Esse broche... não é só um aquecedor de bolso. É a prova de que, por mais que você resmungue sobre a nossa "melação", você nos enxerga de verdade. Cada detalhe.
As orelhas de Olruggio, que haviam começado a desbotar do vermelho-vivo, voltaram a corar intensamente. Ele virou o rosto para o lado, pigarreando com força, tentando recuperar a pose de homem durão e inabalável que ele tanto prezava — ou achava que prezava.
— Ora, parem com isso... Parem de dar significado a coisas que eu só fiz porque sobrou tempo e sucata de metal na bancada de trabalho — resmungou ele, tentando dar um passo para trás para se desvencilhar do abraço, embora a força que ele fizesse fosse tão nula que parecia um convite mudo para continuarem presos ali. — Eu sou um ferreiro e um criador de aparatos, não um filantropo de corações sensíveis. Se eu fiz algo funcional, foi puramente para garantir que vocês dois não fiquem cegos ou com hipotermia por pura falta de atenção enquanto cuidam daquelas quatro pestes no andar de cima. É questão de logística do ateliê!
Qifrey soltou uma risada baixa, um som melodioso e genuíno que fez os ombros de Olruggio relaxarem de vez. Sem soltá-lo, Qifrey inclinou-se levemente e depositou um beijo suave e demorado bem na bochecha áspera e levemente por fazer de Olruggio, bem perto do canto do olho.
Olruggio congelou de novo, os olhos arregalados por trás da penumbra, enquanto você, aproveitando o momento, esticou-se um pouco mais para depositar outro beijo carinhoso na outra bochecha dele, selando o gesto com um abraço ainda mais apertado.
— Logística ou não, nós te amamos, seu velho urso resmungão — você sussurrou, sentindo Olruggio finalmente soltar um suspiro longo, derrotado pelas carícias coordenadas que o cercavam por todos os lados.
Lentamente, percebendo que não havia para onde fugir daquele cerco de afeto, Olruggio cedeu de vez. Os braços dele envolveram vocês dois com um pouco mais de firmeza, puxando-os para mais perto, num gesto raro e desprovido de qualquer armadura. Ele enterrou o rosto nos cabelos de Qifrey por um breve segundo, murmurando algo inaudível que parecia muito com um "vocês são impossíveis", antes de fechar os olhos e permitir-se, apenas por aquela noite, absorver o calor daquele lar que ele ajudara a construir com tanto suelo e silêncio.
Contém fofura, romance, smut leve. Aang x leitora casados.
Resumo: Anos após a queda da Nação do Fogo e o fim da Guerra dos Cem Anos, Aang cumpriu seu destino como o Avatar completo. Entre viagens diplomáticas para manter o equilíbrio mundial e as responsabilidades de sua nova vida, o garoto franzino deu lugar a um homem forte e imponente. No entanto, o peso do mundo e a maturidade não apagaram sua essência brincalhona. Em uma pausa em suas viagens, S/N, sua esposa e companheira desde os dias mais difíceis da rebelião, redescobre que o homem por quem se apaixonou na juventude se tornou desproporcionalmente atraente — e que ele continua completamente alheio ao efeito devastador que tem sobre ela.
A brisa que soprava pelas frestas da tenda de lona grossa trazia o cheiro característico da Ilha Kyoshi: salitre, terra úmida e o perfume sutil das flores de ameixeira que brotavam nas encostas rochosas. Era noite alta. O mundo dormia em relativa paz, embalado por quase uma década de harmonia restaurada após a derrocada do Senhor do Fogo Ozai. Para a maioria das pessoas, o Avatar era uma figura quase mítica, um símbolo imortal de justiça esculpido em estátuas de bronze e retratado em pergaminhos antigos.
Mas para S/N, o Avatar era apenas o homem que ressonava levemente deitado ao seu lado, com um braço pesado e quente cruzado sobre a cintura dela, mantendo-a presa a um abraço possessivo, porém inconsciente.
S/N encarava o teto da tenda, observando as sombras projetadas pela luz fraca de uma lanterna de papel que teimava em não se apagar. Ela suspirou, sentindo o calor irradiando do corpo nu do marido contra suas costas.
Era inacreditável pensar em como as coisas haviam mudado.
Fechando os olhos por um segundo, ela conseguia voltar no tempo com uma clareza dolorosa e nostálgica. Ela lembrava perfeitamente de Aang quando o conheceu no auge do desespero daquela guerra terrível. Ele não passava de um garoto magro, assustado, com o peso de milênios de reencarnações e o fardo de um povo extinto esmagando seus ombros de doze anos. Naquela época, Aang tinha pernas finas como gravetos e uma carência quase palpável de infância. Ele era o garoto que só queria pular de planador, comer tortas de frutas e fugir das responsabilidades cósmicas para jogar pai sho com os monges ou correr pelo pátio do Templo do Ar do Sul.
E, no entanto, foi exatamente nesse meio — entre fugas desesperadas de navios da Nação do Fogo, noites mal dormidas em acampamentos lamacentos com Katara, Sokka, Toph e, mais tarde, o próprio Zuko — que o amor deles havia nascido. Não de forma grandiosa ou cinematográfica, mas nas frestas do caos. Foi S/N quem cuidou dos ferimentos dele após a invasão do Templo do Ar Ocidental; foi ela quem o segurou quando ele chorou de culpa por não conseguir dominar o fogo a tempo; foi no ombro dela que ele encostou a cabeça nas noites em que pesadelos com o Estado Avatar o acordavam sufocado em suor frio.
Eles cresceram juntos no olho do furacão. Prometeram um ao outro que, se sobrevivessem àquele inferno de chamas e cinzas, veriam o mundo florescer de verdade.
E eles sobreviveram.
A guerra acabou. A cicatriz nas costas de Aang, deixada pelo raio de Azula, havia se transformado em uma marca prateada e áspera sob os dedos dela. Mas o corpo de Aang... bem, o corpo de Aang havia passado por uma metamorfose que S/N jamais poderia ter previsto em seus sonhos mais selvagens.
S/N virou-se levemente na cama, contendo um gemido de frustração bem-humorada enquanto seus olhos percorriam a silhueta do marido à luz da lanterna.
O garoto franzino e esguio havia sumido para sempre.
O treinamento intensivo para dominar os quatro elementos, combinado com anos de acrobacias diárias, combates com mestres e a exigência física implacável de ser o mediador de quatro nações inteiras, havia esculpido Aang de uma maneira quase insultuosa. Ele agora media mais de um metro e oitenta. Seus ombros haviam se alargado de forma impressionante, formando uma linha em "V" perfeita que se estreitava em uma cintura firme e abdômen trançado por gomos definidos — resultado de incontáveis horas de dobra de terra e flexões de ar. Os braços, antes finos, estavam cobertos de músculos densos e veias saltadas que contornavam as tatuagens azuis de mestre do ar em suas flechas corporais, agora esticadas e imponentes sobre sua pele bronzeada pelo sol de centenas de viagens.
"Como diabos um monge vegetariano pacifista consegue ficar com esse físico de deus grego?" — pensou S/N, mordendo o lábio inferior, sentindo o calor subir pelas bochechas.
O pior de tudo — ou o melhor, dependendo do ponto de vista de sua sanidade — era que Aang parecia absolutamente, irremediavelmente ignorante a respeito do estrago visual que causava. Para ele, ele ainda era o mesmo garoto careca que adorava fazer piadas bobas e comer bolinhos de arroz até passar mal. Ele andava por aí sem camisa metade do tempo quando estavam acampados ao ar livre, simplesmente porque "o ar circulava melhor na pele", sem ter a menor noção de que guardas reais, embaixadores e a própria esposa precisavam fazer um esforço hercúleo para manter a concentração em suas falas diplomáticas em vez de babar em cima de seus peitorais marcados.
Uma mão pesada e quente subiu pela coxa de S/N, tirando-a de seus devaneios.
— Você está acordada há horas, amor... — a voz de Aang saiu rouca, profundamente grave pelo sono, vibrando direto no peito dele contra as costas dela. Os olhos cinzentos ainda estavam meio fechados, pestanejando contra a penumbra. Ele enterrou o rosto no vão entre o pescoço e o ombro dela, respirando fundo o seu cheiro. — Aconteceu alguma coisa? Os espíritos estão inquietos de novo?
S/N sentiu um calafrio percorrer a espinha quando os lábios dele roçaram de leve em sua clavícula. Céus, a voz dele havia mudado tanto desde a adolescência. Aquele tom agudo de pré-adolescente sumira, substituído por um timbre encorpado e magnético que fazia qualquer frase banal soar como uma promessa pecaminosa.
— Não, os espíritos estão dormindo profundamente, Aang — respondeu S/N, virando-se finalmente de frente para ele, cruzando os braços sobre o peito nu dele, sentindo a textura firme e rija da pele do marido sob seus dedos. — Só estou aqui, admirando a vista.
Aang abriu um pouco mais os olhos, piscando confuso. Ele sorriu, aquele sorriso aberto, radiante e infantil que derretia o coração de S/N desde os dias em que andavam de Appa pelos céus. Ele levantou uma sobrancelha, claramente confuso.
— A vista? Nós estamos no meio de um desfiladeiro rochoso na fronteira com o Reino da Terra, S/N. A única vista que tem aqui fora são arbustos espinhosos e algumas cabras montesas.
S/N conteve uma risada incrédula. Ela estendeu a mão, traçando o contorno do peitoral largo dele com a ponta dos dedos, descendo lentamente pelas costelas até pousar bem em cima do abdômen rígido. Aang prendeu a respiração por um segundo, seus olhos cinzentos escurecendo de repente, perdendo um pouco da inocuidade brincalhona.
— Eu não estava falando das cabras, seu bobo — murmurou S/N, inclinando-se para cima e mordiscando de leve o queixo dele, onde uma barba rala e bem aparada começava a nascer. — Estou falando de você. Sabia que você é um homem perigoso, Avatar?
Aang piscou, genuinamente surpreso. Ele corou levemente nas bochechas — o bom e velho Aang ruborizando como um adolescente —, mas logo abriu um sorriso convencido, embora ainda parecesse um pouco perdido na piada. Ele a puxou mais para perto, colando os corpos de forma que S/N perdeu o fôlego por um instante.
— Perigoso? Eu? — Ele riu baixo, um som rouco que vibrou contra os seios dela. — S/N, eu passei a tarde inteira ajudando uma velhinha a resgatar o porco de estimação dela de um poço e depois meditei por duas horas sobre a importância da compostura dos elementos. Eu sou a criatura mais inofensiva do planeta.
— Inofensiva? — S/N bufou, segurando o rosto dele com as duas mãos e o encarando fixamente. — Aang, você tem ideia de como fica quando tira a túnica para treinar dobra de fogo perto do acampamento? Katara quase derreteu a própria cabaça de água na semana passada só de olhar para você flexionando as costas, e Zuko teve que desviar o olhar e tossir fingindo engasgo umas cinco vezes no conselho de ontem porque você estava com a camisa aberta discutindo impostos portuários com os lojistas da Tribo da Água do Sul.
Os olhos de Aang arregalaram-se. Ele corou furiosamente, desta vez cobrindo a própria nuca com a mão livre, visivelmente desconcertado.
— O... O quê?! Zuko estava tossindo por causa da poeira da estrada! E a Katara é como uma irmã para mim, ela só estava... quer dizer, eu só estava tirando o suor! Estava muito quente naquele vale!
— Estava vinte graus, Aang! V-in-te graus! — S/N riu alto, incapaz de se conter, enterrando o rosto no peito dele para abafar as gargalhadas enquanto sentia os músculos dele se contraírem com o movimento. — Você é inacreditável. Você viaja pelo mundo inteiro, resolve crises diplomáticas complexas, acalma revoltas políticas, dobra os quatro elementos com uma facilidade assustadora, tem braços que parecem ter sido esculpidos em rocha pura por um mestre artesão de Ba Sing Se... e age como se ainda fosse aquele garoto magrelo que comia torta de banana escondido na despensa do templo.
Aang permaneceu em silêncio por alguns segundos. Ele olhou para baixo, fitando o próprio corpo largo e musculoso à luz fraca, como se estivesse vendo aquelas formas pela primeira vez através dos olhos dela. Em seguida, um sorriso lento, malicioso e incrivelmente charmoso espalhou-se por seus lábios. Ele deslizou as mãos pelas costas de S/N, puxando-a para cima de seu corpo, encaixando-a perfeitamente sobre si.
O calor que emanava dele era quase tórrido. Aang ergueu a cabeça do travesseiro, aproximando os lábios do ouvido dela, sua voz descendo para um sussurro grave que fez todo o pelo do corpo de S/N se arrepiar.
— É mesmo? — ele provocou, com um toque de diversão na voz, enquanto seus dedos traçavam lentamente a espinha dela com uma precisão cirúrgica que só um mestre do Ar poderia ter. — Então quer dizer que a minha esposa favorita acha que o Avatar cresceu bastante?
— Você sabe muito bem que cresceu — sussurrou S/N, sentindo o coração disparar no peito enquanto as mãos de Aang apertavam levemente sua cintura, erguendo-a um pouco para que ela sentisse cada centímetro da força dele. — E para constar... eu não estou reclamando nem um pouco. Na verdade, acho que o Conselho deveria te obrigar a usar roupas mais apertadas nas reuniões. Seria ótimo para as negociações de paz.
Aang soltou uma gargalhada gostosa, um som limpo e contagiante que encheu a tenda inteira. Ele virou o corpo rapidamente, imobilizando S/N sob o peso dele com cuidado protetor, apoiando-se nos cotovelos enquanto a encarava com aquela adoração infinita que nunca, em nenhum único dia, havia mudado desde que se apaixonaram na juventude.
As flechas azuis em seus braços brilharam fracamente com o reflexo da luz, mas os olhos dele brilhavam muito mais.
— Sabe, S/N... — murmurou Aang, descendo os lábios para colar na testa dela, depois no nariz e, finalmente, selando-os nos dela em um beijo profundo, lento e cheio de promessas. — O mundo pode precisar do Avatar para manter o equilíbrio... mas, para todo o resto, eu sou só o seu marido. E se eu sabia de uma coisa desde o dia em que te conheci, era que eu faria de tudo para merecer ficar ao seu lado para sempre.
S/N sorriu contra os lábios dele, enlaçando os braços no pescoço largo do marido e puxando-o para mais perto, esquecendo-se completamente do mundo lá fora, das fronteiras, das nações e da política. O vento soprava lá fora, balançando a lona da tenda, mas dentro daquele abraço, eles tinham todo o universo que jamais precisariam.
Oi, tudo bem gente? Espero que sim. Como diz o título nesse post eu quero apresentar a minha personagem. Acredito que todos que leiam onishorts de leitor (a) com algum personagem, seja de anime, manga, jogos otome, entre outros acaba criando o seu próprio personagem naquele cenário. Eu tenho a minha própria e sempre penso em onishorts usando ela e já faz muito tempo que eu já tenho ela.
Então decidi que eu vou usar ela em alguns posts meus além de só fazer de leitor(a), não só capítulos únicos, mas também histórias com vários capítulos. Claro, vou fazer os ajustes dependendo do cenário, mas o geral dela não vai mudar. Logo logo vou postar só falando dela e colocar o link aqui.
Contém fofura, romance, multiverso. Ben tennyson x leitora namorados.
Resumo: Durante uma intensa batalha contra um vilão interdimensional, um ataque de Ben danifica o dispositivo de transporte do inimigo, desencadeando um colapso multiversal e temporal. A explosão traz para a base dos Encanadores versões alternativas de Ben de diferentes eras: o jovem Ben 23 de onze anos, o Ben de quatorze anos (da época da Força Alienígena, bem antes de começarem a namorar) e o maduro Ben 10 Mil. Enquanto o equipamento passa por reparos, a convivência forçada revela um segredo inesperado e caótico: todas aquelas versões de Ben compartilham o mesmo amor e atração pela leitora, culminando em revelações sobre o futuro, despedidas emocionantes e a certeza absoluta de que, em qualquer canto do cosmos, o destino deles sempre estará conectado a ela.
A Zona Subterrânea de Undertown vibrava com o zumbido abafado de energia plasma e o cheiro metálico de fumaça de laser. O chão de concreto tremia sob as botas de Ben Tennyson, cujos dedos deslizavam velozes sobre o seletor circular do Omnitrix.
— Ok, grandão. Vamos ver se você aguenta o tranco desta vez! — exclamou Ben, pressionando o núcleo com um estalo firme.
Uma luz verde e cegante explodiu pelo beco escuro, dissipando-se para revelar um alienígena musculoso, de pele roxa e blindagem rochosa: Gravattack. Com um sorriso confiante, o Galvaniano gravitacional ergueu os braços, manipulando o campo ao seu redor para desviar uma rajada massiva de energia pura disparada por Kromus, o senhor da guerra interdimensional que vinha aterrorizando três realidades consecutivas.
Do outro lado do campo de batalha improvisado, você se mantinha firme ao lado de Rook Blonko, disparando rajadas precisas com sua Proto-Arma para conter os capangas robóticos de Kromus.
— Cuidado, Ben! Ele está canalizando o núcleo do gerador dimensional para o próprio exoesqueleto! Se ele disparar aquilo aqui, vai rasgar o tecido do espaço-tempo de Bellwood! — alertou Rook, sua voz firme cortando o som estridente das armas de plasma.
— Eu já cuido disso! — a voz ecoou grave e estrondosa dentro do corpo maciço de Gravattack.
Ben flutuou alguns centímetros acima do solo, concentrando toda a sua massa estelar em um único ponto. Kromus, rugindo de raiva em seu traje cibernético reluzente, ergueu um cetro prateado repleto de cristais instáveis. Uma fenda roxa começou a se abrir no ar, um portal rugindo com a força de mil tempestades de vácuo.
— Ninguém vai a lugar nenhum hoje! — gritou Gravattack, lançando uma esfera compacta de gravidade pura diretamente contra o dispositivo de pulso de Kromus.
O impacto foi ensurdecedor. O feixe gravitacional colidiu com a energia caótica do portal no exato milissegundo em que Kromus tentava estabilizá-lo. Houve um clarão branco que consumiu toda a visão, seguido por um silêncio absoluto e um estalo seco, como o de vidro estilhaçado.
O vilão foi arremessado contra a parede de metal reforçado, desmaiando instantaneamente. Mas o dano real não era físico. O gerador dimensional de Kromus sibilava e faiscava, emitindo ondas de choque eletromagnéticas que começaram a distorcer a realidade ao redor de vocês.
— O aparelho… Ele está colapsando! — gritou você, correndo em direção a Ben, que acabara de voltar à sua forma humana com um clarão verde.
Antes que Ben pudesse responder, o ar ao redor de vocês dobrou-se sobre si mesmo. O céu de Undertown piscou em tons de púrpura, azul-neon e dourado. Um vórtice espiralado abriu-se no centro da rua, sugando os destroços e, em seguida, expelindo figuras em meio a relâmpagos temporais.
Quando a poeira baixou e as luzes estabilizaram, o beco parecia uma convenção bizarra de uma única pessoa.
Caídos no chão, tossindo e tentando recuperar o fôlego, estavam três figuras vestidas de verde, mas com idades, estilos e olhares completamente diferentes.
— Ai… Minha cabeça. Onde foi que eu errei no cálculo do salto? — resmungou um garoto loiro e de camisa azul-clara e colete preto. Ele olhou para o próprio pulso, onde um protótipo de Omnitrix azul brilhava fracamente. — Espera… Esse não é o meu laboratório!
— Pelo amor de Primus… O que aconteceu com o meu traje? E quem é você, nanico? — perguntou uma voz mais firme, impaciente e adolescente. Era um garoto de quatorze anos, usando camisa e a clássica jaqueta verde, olhando furioso ao redor antes de fixar os olhos em você com uma expressão de surpresa misturada com confusão.
Mas o silêncio mais pesado recaiu sobre a terceira figura. Um homem alto, de cabelos levemente grisalhos nas têmporas, feições maduras marcadas por cicatrizes heroicas e um traje avançado dos Encanadores. O Ben Tennyson do futuro — Ben 10 Mil — levantou-se lentamente. Seus olhos verdes, cansados de tantas guerras galácticas, encontraram os seus.
E, de repente, o homem mais poderoso do universo congelou.
Uma hora depois, a base dos Encanadores estava em polvorosa. Max Tennyson supervisionava os técnicos que analizavam o dispositivo destruído de Kromus, enquanto na sala de descanso principal, o clima era de pura estranheza quântica.
Você estava sentada em um dos sofás metálicos, tentando processar a situação. Três versões de Ben Tennyson estavam na mesma sala, discutindo animadamente (ou discutindo consigo mesmos, o que era basicamente a mesma coisa).
— Eu estou te dizendo, o meu Omnitrix é muito mais estiloso! Tem o Chicote e o Gelo-Frio! — gabava-se o Ben 23, cruzando os braços com um biquinho infantil, embora seus olhos azuis fitassem você de relance a cada dois segundos com uma curiosidade evidente.
— Ah, cala a boca, tampinha! Na minha idade você mal sabia diferenciar um Galvaniano de um Tetramando! — retrucou o Ben de quatorze anos, o cenho franzido, embora suas bochechas estivessem levemente coradas toda vez que ele percebia você olhando para ele.
O Ben de quatorze anos estava em um estado particular de choque. Na linha temporal dele, vocês dois ainda eram apenas amigos de infância e colegas de equipe relutantes; o romance entre vocês só começaria de verdade dali a um ano. Vê-la ali, um pouco mais velha, confidente e como a namorada oficial do Ben de dezesseis anos, estava fazendo curto-circuito em sua mente adolescente.
E então havia o Ben 10 Mil.
Ele estava encostado na ombreira da porta, com os braços cruzados, observando você com um sorriso melancólico e profundamente afetuoso nos lábios. Ele não discutia com os outros. Ele apenas apreciava a cena.
O Ben de dezesseis anos — o seu namorado atual — cruzou os braços, sentindo-se extremamente incomodado. Ele olhou para o seu eu do futuro, depois para o seu eu de quatorze anos, e por fim para o pirralho do Ben 23.
— Querem parar de encarar a minha namorada?! — esbravejou o Ben atual, irritado, aproximando-se de você e colocando a mão protetoramente em seu ombro. — Tipo, eu sei que eu sou incrível, mas isso já é narcisismo cósmico demais!
O Ben 10 Mil soltou uma risada curta, rouca e nostálgica. Ele se aproximou lentamente, ignorando o ciúme evidente do seu eu mais jovem.
— Deixe os garotos respirarem, Ben. Eles só estão lembrando do que demoraram anos para ter a maturidade de valorizar — disse o Ben do futuro, com uma serenidade que irritava o adolescente. Ele olhou diretamente para você, e seus olhos brilharam com uma suavidade que fez seu coração palpitar. — É muito bom ver você de novo… assim.
Você piscou, confusa.
— Desculpe, Ben…? O que você quer dizer com "assim"?
O Ben atual olhou para o futuro, estreitando os olhos.
— Espera aí. Por que você está olhando para ela desse jeito? Qual é o seu problema?
O Ben 10 Mil suspirou, dando um sorriso fraco. Ele se abaixou ligeiramente para ficar na sua altura, com um respeito que raramente demonstrava a quem quer que fosse.
— Na minha linha temporal… nós somos casados há mais de dez anos — revelou ele, com uma naturalidade tranquila que fez o silêncio absoluto cair sobre a sala.
O Ben de dezesseis anos engasgou com a própria saliva.
— O QUÊ?!
— Casados?! — gritou o Ben de quatorze anos, corando violentamente da ponta das orelhas até o pescoço.
— Uou… Quer dizer que nesse universo eu caso com ela? Caramba, meu eu tem bom gosto! — comemorou o Ben 23, sorrindo de orelha a orelha.
Você sentiu o seu rosto queimar instantaneamente, o calor subindo pelas suas bochechas enquanto você desviava o olhar, sem saber onde enfiar a cara.
— É… sério? — você murmurou, olhando de soslaio para o homem mais velho.
— Mais sério impossível — respondeu o Ben 10 Mil, com um carinho genuíno na voz. — Quando o gerador de Kromus quebrou e eu fui puxado por aquele portal, meu coração não disparou por causa do perigo. Disparou porque, por um segundo, achei que tinha voltado no tempo para o dia em que começamos a namorar de verdade. Ver você com dezesseis anos de novo… com essa mesma blusa, com esse mesmo jeito teimoso de cruzar os braços quando fica nervosa… É como ver o melhor capítulo da minha vida inteira se repetindo na minha frente.
O Ben atual olhou para você, depois para o seu eu futuro, e por fim resmungou, cruzando os braços com um bico emburrado:
— Ótimo. Descobri que no futuro eu sou um romântico incurável e brega. Que maravilha.
Mas por dentro, o Ben de dezesseis anos não conseguia conter o calorzinho no peito. Saber que, não importava o quanto o universo mudasse, o amor entre vocês resistiria ao teste do tempo era a confirmação mais reconfortante que ele poderia receber.
...
Enquanto os técnicos Encanadores trabalhavam na bancada central, ajustando os condensadores de táquions para mandar cada versão de volta para a sua respectiva realidade, o clima na sala de descanso foi se acalmando.
O Ben de quatorze anos estava sentado num canto distante, fingindo ler um manual de naves Vulpimancer, mas seus olhos continuavam escapando para onde você estava conversando com o Ben atual. Ele parecia perdido em pensamentos, remoendo a revelação de que, em breve, aquela garota incrível seria o centro do mundo dele.
Mais perto da janela que dava para os neon azuis de Undertown, o Ben 23 estava sentado na borda, balançando as pernas com desânimo. Ele olhava para o próprio Omnitrix azul, visivelmente cabisbaixo.
Você percebeu a tristeza do garoto e caminhou devagar até ele, agachando-se para ficar na altura dos seus olhos.
— Ben? Tudo bem? — perguntou você com suavidade.
— Mais ou menos… É meio chato, sabe? Eu venho parar num universo maneiro, conheço uma versão incrível de quem… bem, de quem eu namoro em outro universo, e daqui a pouco vou ter que voltar para a minha dimensão e nunca mais vou ver isso. No meu universo, as coisas são meio sozinhas. Eu não tenho o avô Max , e eu não tenho… bom, eu não tenho você lá.
O Ben 23 suspirou, chutando levemente o chão com o tênis.
Você sentiu um aperto no coração ao ver a vulnerabilidade daquela versão tão jovem de Ben. Você estendeu a mão e deu um leve tapinha carinhoso no ombro dele.
— Ei, olha para mim, Ben.
O garoto ergueu o rosto, fitando seus olhos.
— O multiverso é infinito, certo? Se existe um universo onde eu conheci o Ben de dezesseis anos, e o futuro onde eu sou casada com o Ben 10 Mil… com certeza absoluta existe um universo onde você, no seu tempo, vai encontrar a sua versão de mim, ou alguém tão especial quanto, que vai aturar todas as suas piadas bobas e te acompanhar nas maiores loucuras cósmicas.
Um sorriso terno e esperançoso começou a se desenhar no rosto do garoto.
— É, você tem razão… Se tem um Ben Tennyson em cada canto do cosmos, tem que ter alguém com a mesma paciência infinita para aguentar a gente em algum lugar, né?
— Exatamente — você riu baixinho.
Do outro lado da sala, o Ben de dezesseis anos observava a cena. Ele cruzou os braços, sentindo uma pontinha de orgulho misturada com aquele ciúme inegável de ver outras versões de si mesmo interagindo tanto com a garota dele. Mas, ao mesmo tempo, ele não pôde deixar de sorrir. Afinal, por mais versões alternativas que existissem no multiverso — fossem elas crianças mimadas, heróis adolescentes ou veteranos casados —, todas elas compartilhavam exatamente a mesma fraqueza: você.
— Atenção, senhores Tennyson! — a voz do avô Max ecoou pelos alto-falantes da base. — Os estabilizadores dimensionais estão prontos. O portal de retorno está estabilizado por apenas noventa segundos. Preparem-se para a partida!
O feixe de luz verde do portal principal abriu-se no centro da sala, zumbindo com energia pura.
O Ben 10 Mil foi o primeiro a se levantar. Ele caminhou até você, parando a poucos centímetros. O homem maduro olhou para o Ben atual e depois para você, com um sorriso cúmplice.
— Cuide bem dela, garoto. Você não tem ideia da sorte que tem — disse o Ben do futuro, piscando para o seu eu mais jovem. Em seguida, ele olhou para você e segurou sua mão por um breve segundo. — Até daqui a alguns anos… meu amor.
Antes que você pudesse responder, totalmente corada, o Ben 10 Mil deu um passo firme em direção ao portal e desapareceu em um clarão dourado.
O Ben de quatorze anos levantou-se rapidamente, ajeitando a jaqueta. Ele olhou para você, corou violentamente de novo, pigarreou e disse:
— É… bom, tchau! E… obrigado por não me achar um total idiota. A gente se vê por aí na linha do tempo!
Ele correu desajeitado para dentro do portal, sumindo em um feixe verde.
Por fim, o Ben 23 pulou da janela, aterrissando agachado perto do portal. Ele olhou para você com um sorriso maroto e acenou.
— Tchau, fofa… Quer dizer, tchau, namorada do meu eu de outra dimensão! Vou procurar a minha versão de você assim que chegar em casa, prometo!
Com um sinal de positivo, o Ben 23 mergulhou no vórtice, que começou a fechar-se lentamente até sumir por completo, restando apenas o silêncio e o cheiro de ozônio na base dos Encanadores.
O beco e a sala voltaram ao normal. Os técnicos comemoravam o conserto bem-sucedido, e o avô Max acenou com a cabeça antes de se afastar para checar os relatórios finais.
Apenas você e o Ben de dezesseis anos restaram ali, parados no meio da sala silenciosa.
Ben coçou a nuca, um pouco sem graça, olhando para o chão por um instante antes de erguer os olhos verdes — os mesmos olhos que, como o tempo provaria, continuariam olhando para você com a mesma intensidade por toda a eternidade.
— Sabe… — começou Ben, dando um sorriso meio torto e aproximando-se de você com aquela confiança típica que você tanto amava. — Eu tava pensando aqui… Se o meu eu do futuro disse que a gente é casado há dez anos, acho que é melhor a gente começar a praticar desde já, não acha?
Você riu, balançando a cabeça em sinal de descrença, mas dando um passo à frente para envolver os braços ao redor do pescoço dele.
— Você é impossível, Ben Tennyson.
— Mas você me ama assim — retrucou ele, puxando você para perto pela cintura, com um sorriso radiante.
E enquanto as luzes de Undertown brilhavam lá fora, protegidas mais uma vez pelo herói mais poderoso (e multiversalmente apaixonado) do universo, vocês sabiam que, não importava quantas dimensões existissem, o seu lugar era sempre ali, ao lado dele.
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Contém fofura, romance, ciel phantomhive x leitora duquesa.
Resumo: Um noivado arranjado por pura conveniência corporativa e acordos políticos entre a nobreza britânica une o jovem conde Ciel Phantomhive e a duquesa de uma próspera província industrial. O que deveria ser apenas uma fusão de impérios comerciais e alianças estratégicas transforma-se em um jogo silencioso de descobertas, onde tabuleiros de xadrez, livros de contabilidade e madrugadas frias revelam que a fachada de gelo e futilidade do mundo vitoriano esconde almas profundas, apaixonadas e surpreendentemente vulneráveis.
A névoa de Londres, densa e impregnada com o cheiro de carvão queimado e o vapor do Tâmisa, parecia tentar invadir as frestas da carruagem preta com o brasão dos Phantomhive cravado nas portas de carvalho envernizado. No interior, iluminado apenas pela luz trêmula de uma lamparina de bolso, o silêncio era espesso.
Ciel Phantomhive ajustou o tecido pesado de seu casaco azul-escuro, sentindo o peso invisível de mais um dia exaustivo. À sua frente, no assento oposto, a jovem duquesa mantinha a postura impecável. Ela não olhava pela janela para a paisagem lúgubre da cidade; em vez disso, lia à luz escassa um relatório de distribuição de carvão e minério de ferro proveniente das minas do norte de sua propriedade.
O noivado deles havia sido anunciado há exatos três meses. Nos salões da alta sociedade, nos jornais de fofocas e entre os sussurros invejosos de lordes e damas em bailes abafados, a união era tratada pelo que de fato era: uma transação comercial monumental. A Corporação Phantomhive precisava expandir suas rotas de comércio de jogos sem inflacionar os custos com intermediários, enquanto o ducado da família da leitora precisava de estabilidade financeira e da influência inquestionável do Cão de Guarda da Rainha para afastar as tentativas de monopólio de concorrentes estrangeiros.
Para a sociedade, era a fusão perfeita entre dois gigantes econômicos. Para a alta aristocracia, acostomada com casamentos arranjados por conveniência, era perfeitamente natural que o jovem conde frio e distante se unisse a uma jovem nobre cuja linhagem era tão antiga quanto as pedras de Westminster.
Mas Ciel lembrava-se perfeitamente de suas expectativas iniciais. Ele temia outra Elizabeth.
Lady Elizabeth Midford era sua prima e noiva por um acordo anterior — uma garota adorável, vibrante, mas cuja existência parecia gravitar inteiramente em torno de fitas, vestidos de babados, laços cor-de-rosa e festas de chá. Elizabeth era a personificação da inocência vitoriana, uma boneca de porcelana que feria os olhos de Ciel com sua total desconexão da realidade brutal em que ele operava. Toda vez que Elizabeth entrava na mansão Phantomhive exigindo que ele usasse tiaras de gatinho ou comesse bolos confeitados, Ciel sentia uma exaustão física que rivalizava com a dor de suas feridas antigas.
Quando os acordos para o novo noivado começaram a ser redigidos, Ciel assumiu, com o cinismo inerente à sua alma precoce, que esta nova duquesa seria apenas mais uma peça decorativa. Alguém educada para sorrir educadamente em banquetes, tocar piano de forma aceitável e acenar com as mãos enluvadas de renda para o público.
Ele não poderia estar mais errado.
A carruagem estacou diante da imponente fachada da Mansão Phantomhive. Sebastian Michaelis, com sua casaca impecável e um sorriso que misturava polidez e zombaria silenciosa, abriu a porta com um movimento fluido.
— Bem-vindos de volta, meu lord, vossa graça — disse o mordomo, curvando-se em um ângulo perfeito de noventa graus.
A leitora foi a primeira a descer, recolhendo as camadas de sua saia de veludo roxo-escuro com uma elegância que não exigia esforço. Ela entregou sua sombrinha a Sebastian sem sequer olhar para ele, os olhos violetas fixos na grande escadaria de mármore do hall de entrada.
— Sebastian — disse ela, com aquela voz calma e de tom ligeiramente metálico que costumava desconcertar os criados mais novatos —, os balancetes trimestrais da filial de Manchester chegaram pelo correio da tarde?
Sebastian piscou, um vislumbre de genuína surpresa cruzando suas feições demoníacas antes de retornar à máscara de perfeição.
— Sim, minha lady. Estão sobre a escrivaninha no escritório particular do jovem conde. Juntamente com as cartas de cobrança da alfândega.
— Excelente. Vamos tratar disso antes do jantar. O estômago de Ciel costuma reclamar se ele passa mais de dez horas seguidas sem revisar as contas do balanço de rendimento de açúcar.
Ciel, que acabara de descer da carruagem, estreitou os olhos, sentindo as bochechas queimarem levemente.
— Eu não reclamo, duquesa. Eu constato fatos — retrucou ele, ajeitando o tapa-olho que cobria o contrato faustiano.
— Constatar fatos com o estômago roncando não altera a biologia humana, Ciel. A menos que você tenha descoberto um método para converter ações da bolsa em suco gástrico, o que duvido muito, visto que suas últimas apostas na Companhia das Índias Orientais renderam apenas dor de cabeça.
Sebastian conteve um riso abafado com uma tosse educada, enquanto afastava-se para cuidar dos casacos. Ciel fuzilou a noiva com o olhar, embora houvesse no fundo de sua íris azul um brilho de desafio que ele havia perdido para com qualquer outra pessoa no mundo.
Dentro do escritório, o fogo na lareira estalava, projetando sombras dançantes nas estantes repletas de livros encadernados em couro. Era o santuário de Ciel, um lugar onde o mundo exterior — com suas intrigas parlamentares, assassinatos políticos e rituais macabros — parecia distante.
Enquanto Sebastian servia o chá preto fumegante, a leitora já havia se instalado na poltrona em frente à lareira, abrindo o grosso livro de contabilidade com uma naturalidade desconcertante. Ela não pediu licença para sentar-se na cadeira pessoal do conde; simplesmente puxou os papéis para perto e pegou uma pena-tinteiro.
Ciel permaneceu em pé por alguns instantes, observando-a.
Ela não usava espartilhos excessivamente apertados que a impedissem de respirar ou pensar — uma escolha pragmática que Ciel secretamente aplaudia, pois demonstrava que ela valorizava a própria saúde acima da estética sufocante imposta pela rainha Victoria. Seu cabelo estava preso em um penteado complexo, mas solto o suficiente para deixar escapar alguns fios rebeldes que emolduravam um rosto de traços delicados, porém marcados por uma firmeza inconfundível.
Ela não era Elizabeth. Elizabeth choraria se visse a quantidade de trabalho acumulado ou se sentisse o cheiro de pólvora e sangue que, por mais que Ciel tentasse lavar, parecia impregnar as paredes da mansão. A leitora, por outro lado, respirava aquele ambiente com a serenidade de quem pertencia a ele.
— Você errou aqui — disse ela de repente, apontando com a ponta da pena para uma coluna de números na página de despesas de transporte.
Ciel aproximou-se, irritado por ter sua competência matemática questionada em seu próprio território. Inclinou-se sobre o braço da poltrona, a proximidade fazendo com que o perfume sutil de lavanda e papel velho dela chegasse até ele.
— Onde? O frete marítimo para Liverpool subiu devido aos ventos desfavoráveis do mês passado. O cálculo está correto.
— O frete subiu, sim. Mas você esqueceu de deduzir o subsídio de isenção de imposto portuário que consegui negociar com o Ministério da Marinha na semana passada. O documento foi enviado para cá na terça-feira. Se você tivesse lido a correspondência em vez de jogá-la na pilha de "assuntos irrelevantes", saberia que economizamos duzentas libras naquela rota.
Ciel olhou para o papel, depois para ela. Os olhos dela brilhavam com uma satisfação intelectual incontida. Não havia arrogância na correção, apenas o prazer puro de resolver um quebra-cabeça lógico.
— Você revisou a correspondência ministerial por mim? — perguntou Ciel, erguendo uma sobrancelha.
— Alguém precisa cuidar dos interesses do nosso futuro império corporativo, Ciel. Se eu deixar tudo nas suas mãos, você vai acabar hipotecando a fábrica de tecidos para financiar algum equipamento esquisito que o cientista maluco do seu tio inventou em um porão em Paris.
Ciel abriu a boca para rebater, mas fechou-en logo em seguida. Ela tinha razão. Na semana anterior, ele quase fechara um contrato duvidoso com um inventor francês que prometia máquinas voadoras movidas a vapor comprimido.
— Aquele projeto tinha potencial — murmurou Ciel, desviando o olhar para a xícara de chá, sentindo um calor incomum subir pelo pescoço.
— Potencial para nos levar à falência antes do final do ano fiscal — respondeu ela com um sorriso irônico nos lábios, voltando a mergulhar nos números.
Ciel recuou, sentando-se em sua própria cadeira. Olhou para ela por longos segundos, enquanto a luz da lareira iluminava o perfil de seu rosto. Ele se perguntava, não pela primeira vez, como uma mulher da nobreza havia desenvolvido aquela mente afiada. Em um mundo onde as mulheres eram educadas para tocar harpa e bordar almofadas, a leitora havia passado a infância estudando tratados de economia política na biblioteca poeirenta do ducado de seu pai.
Isso a tornava perigosa. Isso a tornava fascinante.
— Terminado o trabalho com os livros — disse Ciel, cruzando as pernas e apoiando o queixo na mão enluvada —, há algo que preciso discutir com você sobre o baile da próxima terça-feira na residência do duque de Westminster.
A leitora ergueu os olhos do papel, suspirando levemente.
— Ah, o baile onde todos os lordes hipócritas virão nos cumprimentar enquanto tentam descobrir qual de nossas empresas vai falir primeiro. Adoro reuniões sociais. O cheiro de perfume barato misturado com falsidade é revigorante.
— Exatamente por isso — disse Ciel, um canto de sua boca curvando-se em um sorriso cúmplice que raramente exibia para o mundo. — O duque tem tentado obter o monopólio das ferrovias do norte. Ele vai tentar nos sondar durante a valsa. Quero que você aceite dançar com ele.
A leitora estreitou os olhos, a pena parando a um centímetro do papel.
— Você quer que eu extraia informações dele enquanto giro pelo salão?
— Quero que você o destrua intelectualmente enquanto finge estar encantada com os elogios dele sobre o seu vestido. Você é perfeitamente capaz de fazer isso. E, para ser sincero, será divertido ver o velho conde gordo engasgar com o próprio champanhe quando você apontar as falhas estruturais no plano de expansão ferroviária dele.
Um sorriso lento, perigoso e incrivelmente belo floresceu no rosto da duquesa. Era um sorriso que combinava perfeitamente com a alma sombria dos Phantomhive, embora pertencesse a uma mulher de sangue nobre e limpo.
— Seria um desperdício recusar uma oferta dessas — murmurou ela, fechando o livro de contabilidade com um baque abafado. — Mas, já que terminamos os negócios por hoje, tenho uma proposta para você, meu conde.
Ciel ergueu a sobrancelha, desconfiado.
— Que tipo de proposta?
A leitora levantou-se, caminhou até um canto do escritório onde havia uma pequena mesa de mogno com um tabuleiro de xadrez entalhado em marfim e ébano. As peças já estavam dispostas, prontas para o início de uma partida.
— Uma partida. Sem servos, sem relatórios, sem política. Apenas você, eu e o tabuleiro.
Ciel olhou para o tabuleiro, depois para ela. O xadrez era a sua grande paixão intelectual, um reflexo exato de sua visão de mundo: um jogo de estratégia fria, sacrifícios calculados, onde cada peão tinha um propósito e a morte de uma peça era apenas um custo necessário para o xeque-mate final.
— Você ousa me desafiar no xadrez? — perguntou Ciel, com um tom de falso desafio, embora seus olhos estivessem brilhando de entusiasmo. — Sou eu quem costuma vencer os melhores estrategistas de Londres em menos de vinte minutos.
— Os seus oponentes em Londres são velhos ministros entediados que jogam enquanto pensam na próxima amante ou na próxima garrafa de vinho do Porto — retrucou a leitora, sentando-se na cadeira de espaldar alto e puxando as peças brancas para perto de si. — Eu não sou um ministro entediado, Ciel. E garanto que não vou facilitar só porque você tem um título de conde e uma carranca intimidadora.
Ciel levantou-se, sentou-se na cadeira oposta e olhou fixamente para os olhos da noiva. O silêncio na sala tornou-se denso, carregado de uma eletricidade invisível.
— As pretas primeiro, duquesa. Mostre-me do que sua mente é capaz.
A partida começou de forma agressiva. Ciel abriu com a defesa siciliana, buscando controlar o centro do tabuleiro com precisão cirúrgica. Ele esperava um erro tático nas primeiras dez jogadas, uma hesitação típica de quem estudava o jogo apenas como passatempo de salão.
Em vez disso, encontrou uma muralha de lógica.
Cada movimento da leitora era calculado com frieza. Ela sacrificou um cavalo na décima segunda jogada apenas para abrir uma linha de ataque devastadora contra a ala do rei de Ciel. O conde sentiu um calafrio de surpresa pura percorrer sua espinha. Ele teve que reorganizar toda a sua defesa em segundos, movendo seus bispos e torres com uma urgência que raramente precisava demonstrar.
As horas passaram sem que nenhum dos dois percebesse. A lareira começou a crepitar mais baixo, à medida que a madeira se transformava em brasas vermelhas. Sebastian entrou no escritório silenciosamente para verificar se precisavam de mais chá, mas, ao ver a intensidade nos olhos de ambos, recolheu-se sem dizer uma palavra, fechando a porta com suavidade extrema.
No tabuleiro, a situação era crítica. Ciel tinha apenas o rei, uma torre e dois peões acuados no canto esquerdo. A leitora mantinha a dama, um bispo e um exército de peões avançados cercando o monarca negro.
Ciel olhou para o tabuleiro, depois para o rosto dela. Os cabelos dela haviam escapado completamente do penteado, caindo em ondas suaves sobre os ombros. Ela mordia levemente o lábio inferior em um sinal de concentração extrema, o rosto corado pelo calor da lareira e pela adrenalina da disputa.
Não havia nada ali da garota frágil ou da fútil dama da sociedade que a rainha desejava ver em um baile de gala. Havia apenas uma mente brilhante, apaixonada e indomável.
Ciel moveu sua torre para tentar um xeque desesperado.
A leitora olhou para a jogada, sorriu com um canto dos lábios, ergueu a dama de marfim com os dedos delicados e a colocou na casa decisiva.
— Xeque-mate, meu conde.
O silêncio reinou por um momento eterno. Ciel olhou para o tabuleiro, verificando as diagonais, as linhas de fuga, as possibilidades matemáticas. Não havia saída. Ele havia perdido.
Ele, Ciel Phantomhive, o prodígio tático do submundo britânico, fora derrotado em uma partida legítima de xadrez dentro de sua própria mansão por sua noiva.
Em vez de sentir raiva ou frustração, uma onda de um humor estranho e caloroso explodiu no peito de Ciel. Ele encostou-se no espaldar da cadeira, cruzou os braços e soltou uma risada curta, genuína e cristalina — um som que raramente escapava de seus lábios.
A leitora piscou, surpresa.
— Você está rindo? Perdeu a partida de forma humilhante no seu próprio escritório e está rindo?
— Estou rindo porque percebi o tamanho do erro de cálculo que cometi durante todos esses meses — disse Ciel, inclinando-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa e olhando-a diretamente nos olhos, sem a menor sombra de frieza ou distância em sua expressão.
— Erro de cálculo? Sobre o quê?
— Sobre você.
A leitora franziu o cenho, curiosa.
— Quando assinamos este contrato de noivado, eu achei que estava ganhando apenas mais um ativo corporativo para fortalecer as minas e as ferrovias dos Phantomhive. Pensei que teria ao meu lado mais uma boneca de porcelana que passaria os dias reclamando do vento frio e exigindo viagens desnecessárias a Paris para comprar vestidos de seda francesa.
A leitora desviou o olhar por um segundo, sentindo o peso das palavras, mas Ciel continuou, a voz suavizando-se de uma forma que ele próprio não reconhecia.
— Achei que você seria como todas as outras damas da nobreza: vazias, previsíveis, obcecadas por aparências. Mas você não é nada disso. Você é inteligente, implacável, brilhante nos negócios, melhor do que eu no xadrez quando me pego distraído... e, por algum motivo absurdo que ainda estou tentando compreender, você não foge quando sente o cheiro de pólvora ou quando vê o peso que carrego nos ombros.
A leitora sentiu o coração acelerar no peito de uma forma que nenhuma negociação comercial ou proposta de casamento formal jamais conseguira provocar. As bochechas dela coraram de verdade, não mais pelo calor da lareira, mas pela intensidade crua e sincera que irradiava do olhar azul de Ciel.
— E você — disse ela, a voz ligeiramente trêmula, mas firme —, eu também fui enganada. Disseram-me que o conde Phantomhive era um monstro sem coração, um garoto frio que trocou a própria alma por vingança e que tratava as pessoas ao seu redor como meras peças em um tabuleiro de crueldade.
Ela estendeu a mão sobre a mesa de mogno, os dedos passando a centímetros das peças de marfim, até repousar suavemente sobre o dorso da mão enluvada de Ciel.
— Mas um monstro sem coração não passaria horas revisando contas para garantir que os operários das fábricas recebam salários justos antes do inverno. Um garoto frio não riria depois de ser derrotado no xadrez apenas porque reconheceu o valor intelectual de quem está ao seu lado. E muito menos ficaria com essa expressão... incrivelmente fofa quando é provocado por uma besteira sobre o preço do açúcar.
Os olhos de Ciel se arregalaram levemente.
— Fofo? — repetiu ele, com um tom de ultraje indignado, embora houvesse um sorriso inegável dançando em seus lábios. — Eu sou o conde Phantomhive! O Cão de Guarda da Rainha! O homem que comanda o submundo de Londres! Eu não sou "fofo"!
— Oh, sim, você é absolutamente fofo quando tenta bancar o tirano implacável logo depois de perder uma partida de xadrez — disse ela, rindo baixinho, um som melodioso que parecia afastar de vez toda a escuridão e o peso daquela mansão gótica.
Antes que Ciel pudesse formular uma tréplica espirituosa ou fingir uma ofensa digna de seu título, a leitora inclinou-se um pouco mais sobre a mesa. A distância entre os dois diminuiu até que Ciel pudesse sentir o calor do corpo dela e o aroma suave de lavanda que parecia inundar todo o espaço ao seu redor.
Ela não hesitou. Com um movimento suave, ela levou a outra mão até o rosto de Ciel, os dedos roçando levemente a borda do tapa-olho antes de subirem para acariciar a bochecha dele, bem onde a pele estava levemente corada.
Ciel congelou por um segundo. Ninguém — absolutamente ninguém — ousava tocá-lo daquela forma tão direta, tão despida de protocolos, formalidades ou medo. Nem mesmo Elizabeth, em seus momentos mais efusivos, demonstrava aquela espécie de intimidade consciente e madura.
O conde fechou os olhos por uma fração de segundo, sentindo o toque quente e acolhedor. Toda a couraça de gelo, cinismo e dor que ele construíra ao redor de sua alma desde a noite fatídica em que sua mansão queimou parecia trincar, cedendo lugar a uma sensação avassaladora de calor e pertencimento.
Quando ele abriu os olhos novamente, o azul profundo de sua íris encontrou o violeta intenso dos olhos dela.
— Você percebe, não é? — murmurou Ciel, a voz agora um sussurro rouco que mal competia com o estalar das últimas brasas na lareira. — Que este noivado já não tem mais nada a ver com carvão, ferro ou acordos corporativos.
A leitora sorriu, os olhos brilhando com uma certeza absoluta, enquanto os dedos dela continuavam acariciando sua bochecha.
— Nunca teve, Ciel. Nós apenas demoramos um pouco para admitir as regras do verdadeiro jogo.
Ciel levantou a mão e cobriu a mão dela com a sua, segurando-a firmemente contra o seu rosto. Não havia contratos assinados em pergaminho timbrado que pudessem descrever o que estava nascendo ali naquele escritório escuro e aconchegante. Era algo muito mais complexo, muito mais perigoso e infinitamente mais apaixonado do que qualquer aliança política que o Império Britânico já pudesse conceber.
E, pela primeira vez em muitos anos, Ciel Phantomhive percebeu que não precisava de nenhuma vingança ou de nenhum pacto sombrio para encontrar uma razão genuína para sorrir. O xeque-mate já havia sido dado, e, pela primeira vez na vida, ele não se importava em perder tudo para ela.
Contém fofura, romance, briga e reconciliação. Ben Tennyson x leitora femina, amigos de infância.
Resumo: Amigos de infância desde os tempos em que dividiam parquinhos e raspadinhas de uva, Ben Tennyson e a leitora viram a vida mudar drasticamente quando o garoto encontrou o Omnitrix. Anos depois, transformada na confidente invisível de um herói global, ela carrega o fardo silencioso de ver garotas o assediarem constantemente e ele aceitar a atenção com um sorriso distraído. Exausta dessa dinâmica que consome sua alma, ela decide despejar seus sentimentos de infância — guardados desde antes do relógio — como um ultimato desesperado para conseguir seguir em frente. Ao ver a garota fugir sem lhe dar chance de resposta, o herói do universo percebe que o maior desafio de sua vida não é derrotar vilões cósmicos, mas encontrar as palavras certas para consertar o estrago e confessar que sempre sentiu o mesmo.
Para ela, contudo, ele ainda era o garoto de joelhos ralados que engasgava com refrigerante quando ria muito forte.
O cheiro de poeira, metal aquecido e o característico aroma adocicado de batata frita barata misturavam-se no ar abafado do caminhão de lanches na praça central de Bellwood. Para o resto do mundo, o jovem sentado no banco desgastado era o salvador do universo, o portador do Omnitrix, o herói de mil batalhas intergalácticas que estampava capas de revistas e atraía multidões de fãs estridentes por onde passava.
A leitora apoiou o queixo na palma da mão, encarando a própria tigela de sorvete de menta com gotas de chocolate já derretido. Ao seu lado, Ben devorava seu terceiro hambúrguer duplo com bacon, gesticulando animadamente enquanto contava alguma história exagerada sobre uma perseguição em uma lua de silício que ela já tinha ouvido em versões ligeiramente diferentes umas dez vezes naquela mesma semana.
— E aí, mano, o Tetrax disse que eu quase destruí o sistema de navegação do cargueiro, mas quer saber? O plano funcionou perfeitamente. No fim das contas, quem salvou o dia fui eu — riu ele, passando a mão pelos cabelos castanhos despenteados e lançando aquele sorriso de canto que costumava derreter corações em arenas intergalácticas.
Antes que ela pudesse responder com seu habitual sarcasmo defensivo, uma sombra cobriu a mesa.
Duas garotas vestindo jaquetas universitárias com o brasão da faculdade local pararam bem ao lado de Ben. Ambas carregavam celulares em riste, os olhos brilhando com uma mistura de adoração e ousadia juvenil. A mais alta, com longos cabelos loiros presos em um rabo de cavalo perfeito, debruçou-se levemente sobre a mesa, ignorando completamente a presença da leitora.
— Ei... Você é o Ben Tennyson, né? O herói? — a garota perguntou com um tom deliberadamente arrastado e sedutor, mordendo o lábio inferior. — Minhas amigas disseram que eu estava louca achando que era você sentado aqui comendo lanche de rua como uma pessoa normal. A gente podia tirar uma foto? Quer dizer... se você não estiver ocupado com a sua namorada, é claro.
A última frase veio acompanhada de um olhar de relance rápido e desdenhoso na direção da leitora, como se esta fosse apenas parte do mobiliário da lanchonete.
Ben riu daquele jeito despreocupado, o tipo de charme natural que ele parecia emitir sem esforço desde que completara dezesseis anos e ganhara aquela onda absurda de popularidade pós-Guerra dos Vilgaxianos e eventos com os Encanadores. Ele ajeitou a gola da jaqueta verde com o número 10 estilizado e abriu aquele sorriso aberto que fazia o estômago da leitora dar nós dolorosos.
— Claro que não estou ocupado, e eu nunca recuso uma boa companhia para fotos — respondeu Ben, com a voz rouca e calorosa que já causava suspiros em três galáxias diferentes. Ele se levantou parcialmente do banco, puxando a loira para perto para uma selfie, enquanto a amiga dela registrava tudo com gritinhos abafados de empolgação. — Bellwood tem as garotas mais bonitas do universo, tenho que admitir. O que uma gata como você faz mais tarde?
A troca de flertes durou mais dois minutos agonizantes. Piadas internas baratas, elogios exagerados sobre os olhos dela, promessas vagas de talvez aparecer na festa da faculdade no sábado à noite se o trabalho com os Encanadores permitisse. Para Ben, aquilo era apenas terça-feira. Era o fluxo normal de sua existência heroica: atenção inesgotável, sorrisos fáceis, validação constante de estranhas que só enxergavam a jaqueta, o relógio e os monumentos de bronze erguidos em sua homenagem.
Mas para a leitora, sentada ali na penumbra daquele banco de plástico, cada palavra trocada era como uma agulha enfiada devagar sob a sua pele.
Quando as garotas finalmente se afastaram rindo e sussurrando entre si, jogando olhares cúmplices para trás, Ben voltou a se sentar. Ele mordiscou o que restava do hambúrguer, parecendo genuinamente satisfeito com a própria popularidade, totalmente oblíquo à tempestade silenciosa que se formava ao seu lado.
— Elas foram legais — comentou Ben de boca semi-cheia, balançando a cabeça de forma casual. — Sabe, às vezes eu esqueço o quanto o pessoal daqui acompanha as missões espaciais. É meio surreal.
A leitora não disse nada. O silêncio dela, no entanto, era denseo o suficiente para cortar vidro. Suas mãos tremiam levemente sob a mesa, os dedos cravados com força na bainha de sua blusa de moletom cinza. Ela olhou para o copo de sorvete derretido, depois ergueu os olhos para o rosto dele — aquele mesmo rosto que ela conhecia desde os tempos em que dividiam giz de cera na pré-escola, o rosto pelo qual ela se apaixonara antes mesmo de o primeiro alienígena verde cair do céu em um meteoro de fogo.
— Ben — ela chamou. Sua voz saiu baixa, quase irreconhecível.
— Hã? Que foi? — ele perguntou, mastigando, finalmente percebendo que a amiga estava estranhamente quieta.
— Chega.
— Chega de quê? O hambúrguer tá meio frio, mas dá pro gasto...
— Chega disso tudo, Ben! — ela explodiu, levantando-se de supetão do banco com tanta força que o recipiente de metal raspou barulhentamente contra o chão. Várias cabeças na lanchonete se viraram na direção deles, mas ela não conseguia se importar com mais nada. O peito arfava, a garganta queimando com um gosto amargo de lágrimas contidas por anos.
Ben piscou, surpreso, largando o lanche no prato. O sorriso brincalhão desapareceu de seu rosto, substituído por uma expressão genuinamente confusa.
— Do que você tá falando? Ficou louca? O que foi que eu fiz agora?
— É isso! É exatamente isso que você faz o tempo todo! — A leitora apontou o dedo na direção da porta por onde as garotas tinham acabado de sair, a voz embargada por uma raiva impotente que rapidamente cedeu espaço à pura vulnerabilidade. — Você fica aí sorrindo, jogando gracinha, aceitando cantada de qualquer garota que aparece na sua frente só porque elas acham que você é o grande herói do universo! Você coleciona atenção como se fossem figurinhas de Hadez, enquanto eu... enquanto eu fico aqui sentada, aguentando essa merda toda dia após dia!
O sorriso de Ben sumiu por completo. Ele se levantou devagar, com as mãos erguidas em sinal de rendição defensiva, o cenho franzido em uma mistura de choque e irritação mal contida.
— Ei, calma aí! Do que você tá me culpando? Eu só fui educado com as garotas! Quer que eu seja grosso com as pessoas que pedem uma foto? Desde quando você se importa com quem vem falar comigo?
— Desde antes daquele relógio maldito cair do céu e estragar tudo! — a frase escapou de seus lábios antes que ela pudesse contê-la, ecoando de forma cortante no espaço reduzido da lanchonete.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até o zumbido da máquina de milk-shake pareceu diminuir.
Ben congelou no meio do movimento de ajeitar os braços. Seus olhos verdes se arregalaram, fixos nela com uma intensidade assustada. As palavras pareciam ter ecoado em sua mente sem encontrar qualquer sentido imediato.
— O... o quê? — ele balbuciou, a voz saindo rouca e fraca.
A leitora sentiu uma lágrima traidora escapar pelo canto do olho, queimando em sua bochecha. O alívio aterrorizante de finalmente ter colocado aquilo para fora misturava-se ao pânico absoluto de ver o segredo mais bem guardado de sua alma exposto daquela maneira patética. Ela balançou a cabeça negativamente, dando dois passos para trás, afastando-se da mesa.
— Eu te amo, seu idiota — confessou ela, a voz tremendo descontroladamente enquanto a dor transbordava de cada poro. — Eu te amo desde antes do Omnitrix, desde antes da gente ter idade para saber o que o amor significa. Eu te amo quando você é o herói arrogante que salva o mundo e quando você é só o garoto chato que come cereal direto da caixa na minha sala. E é exatamente por isso que eu não aguento mais ficar aqui do seu lado, fingindo que sou só a sua melhor amiga, assistindo você dar carinho e atenção para qualquer garota aleatória enquanto o meu coração se despedaça um pouco mais a cada dia.
Ben abriu a boca para falar, os lábios se movendo sem emitir som algum. Ele parecia ter levado um golpe físico no estômago; a cor tinha sumido levemente de seu rosto bronzeado, e suas mãos caíram frouxas ao lado do corpo, incapazes de gesticular ou encontrar uma defesa rápida.
— Eu precisava te dizer isso — continuou ela, a voz agora um sussurro trêmulo, enquanto virava as costas em direção à saída. — Não para te obrigar a sentir o mesmo, mas porque eu precisava me livrar desse peso para poder ir em frente. Para conseguir te esquecer, Ben. Adeus.
— Espera! — Ben finalmente recuperou a voz, dando um passo à frente com o braço estendido como se pudesse segurar o ar que a separava dele. — Esuda... quer dizer, espera aí! O que você tá dizendo? Olha pra mim, a gente precisa conversar sobre isso...
Mas ela não olhou para trás. Empurrando a porta de vidro da lanchonete com força, ela mergulhou na noite fresca de Bellwood, desaparecendo rapidamente entre o movimento das ruas iluminadas pelos néons e letreiros holográficos da cidade.
Ben ficou estático no meio do estabelecimento, com os olhos cravados na porta vazia. O barulho de fundo da lanchonete parecia distante, como se estivesse abafado por debaixo d'água.
Para conseguir te esquecer.
As palavras ecoavam em sua cabeça como um alarme de incêndio desregulado. O herói que já havia derrotado invasores intergalácticos, viajado por dimensões paralelas e salvo realidades inteiras sentiu-se, pela primeira vez em anos, completamente impotente, paralisado e aterrorizado.
...
Nos dias que se seguiram, a rotina de Ben Tennyson colapsou em um caos silencioso.
Para o mundo exterior, ele continuava cumprindo seus deveres como Encanador. Ele impediu um assalto a banco liderado por capangas de Albedo no distrito comercial, ajudou Rook Blonko a desmantelar um esconderijo clandestino de tecnologia galáctica ilegal no subúrbio e atendeu a três chamadas de emergência de alta prioridade emitidas pela central espacial. Mas, por dentro, o herói de dezesseis anos estava completamente perdido.
A ausência da leitora era um vazio palpável que consumia cada segundo do seu dia.
Na quarta-feira seguinte à discussão, Ben apareceu na porta da casa dela duas vezes. Na primeira, bateu palmas e chamou por seu nome com aquela falsa segurança que costumava usar quando tentava esconder que estava encrencado; ninguém atendeu. Na segunda, à noitinha, ele apenas ficou sentado na calçada em frente ao portão de entrada, encarando a janela escura do quarto dela no segundo andar, com o Omnitrix piscando fracamente em seu pulso em uma frequência irregular, como se estivesse reagindo ao seu estado emocional instável.
Na quinta-feira, Rook percebeu que algo estava terrivelmente errado com seu parceiro.
— Ben, com todo o respeito à sua eficiência tática habitual, você já errou a calibração do canhão de plasma do Proto-Truck três vezes consecutivas nesta manhã — ponderou o Revonnahgander, ajeitando seu cinto de utilidades enquanto examinava os monitores da base dos Encanadores. — Além disso, sua taxa cardíaca tem oscilado erraticamente desde o início do turno. Há algum vestígio de toxina alienígena em seu organismo? Ou é apenas a sua costumeira falta de foco induzida por consumo excessivo de batatas fritas?
Ben, sentado em uma cadeira giratória com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto enterrado nas mãos, soltou um suspiro profundo que parecia carregar o peso de um planeta inteiro.
— Não é toxina nenhuma, Rook — murmurou ele abafado através dos dedos.
— Então é um problema de natureza pessoal? — Rook cruzou os braços, inclinando a cabeça com aquela curiosidade polida e analítica típica de sua espécie. — Durante minhas leituras sobre os costumes humanos, aprendi que conflitos interpessoais não resolvidos costumam diminuir a eficácia operacional em até setenta por cento. Se houver algo que eu possa fazer para mediar a situação...
— Você não pode, Rook. Ninguém pode — Ben ergueu o rosto, os olhos vermelhos e cansados, revelando noites mal dormidas e uma ansiedade que ele simplesmente não sabia como canalizar. — Eu estraguei tudo. Tipo, de um jeito épico. Pior do que quando eu deixei o Maltruant escapar com o Portal do Tempo.
— É a sua amiga? Aquela que costuma nos acompanhar nas raras ocasiões em que você não está correndo atrás de criminosos cósmicos? — perguntou Rook, piscando seus grandes olhos redondos. — Notei a ausência dela nos últimos dias. Ela sempre trazia lanches e demonstrava uma tolerância notável para com as suas piadas ruins.
Ben gemeu, jogando a cabeça para trás contra o encosto da cadeira.
— Ela disse que me ama.
O silêncio que se instalou na sala de controle foi pesado. Rook piscou lentamente, processando a informação com a seriedade solene de um diplomata encanador.
— Bem, isso me parece uma declaração de afeto bastante clara e direta. Nas culturas de Revonnah, tais confissões geralmente exigem uma resposta imediata acompanhada de presentes rituais, como flores de silício ou a caça de um predador de pequeno porte. Por que isso constitui um desastre para você? O que você respondeu?
— Eu não respondi nada! — Ben disparou, levantando-se da cadeira de um salto e começando a andar de um lado para o outro na sala metálica, gesticulando freneticamente. — É aí que tá o problema! Ela soltou aquilo do nada, jogou na minha cara depois de ver umas garotas dando em cima de mim na lanchonete, e antes que eu pudesse formular uma única frase coerente com o meu cérebro, ela simplesmente virou as costas e foi embora!
— Ah. Compreendo — ponderou Rook, coçando o queixo com uma das mãos peludas. — Você congelou. O herói que enfrenta vilões intergalácticos sem pestanejar foi derrotado pela sinceridade emocional de sua melhor amiga de infância.
— Não precisa jogar na minha cara, Rook! Eu já me sinto um completo imbecil! — Ben passou as mãos pelos cabelos, puxando os fios levemente em frustração. — O pior é que... cara, eu fiquei em choque não porque eu não esperava, mas porque... quer dizer, eu sempre soube que ela era especial, mas eu fui um idiota completo. Eu fiquei tão acostumado a ter todo mundo bajulando o Omnitrix e a minha fama de herói que acabei tratando o que a gente tinha como garantido. E agora ela acha que eu não ligo para ela, que eu só tenho olhos para garotas vazias que querem tirar foto com o relógio!
— E você tem olhos para elas, Ben? — perguntou Rook, com uma franqueza desconcertante e afiada.
Ben parou de caminhar imediatamente. Ele olhou para o parceiro, com a expressão de quem acabara de receber um soco no estômago. O reflexo de seu próprio rosto na tela de vidro polido da central parecia o de um estranho — um garoto que usava a capa de salvador do universo para esconder o quanto tinha medo de se entregar de verdade a alguém que o conhecia antes de ele ter qualquer poder.
— Claro que não, seu alienígena azul metido a xerife — murmurou Ben, com a voz falhando ligeiramente, enquanto o peso da culpa finalmente se assentava em seu peito. — É óbvio que não. Desde sempre, ela é a única pessoa neste mundo inteiro que realmente importa para mim sem precisar de nenhum superpoder ou transformação alienígena. E eu fui incapaz de dizer isso a ela na hora certa.
— Então a solução me parece lógica, Tennyson — disse Rook, endireitando o tronco com postura militar, embora houvesse um leve brilho de diversão compreensiva em seu olhar. — Palavras perdidas não podem ser recuperadas, mas novos atos podem corrigir erros antigos. Se você realmente se importa com ela, não espere que o destino resolva isso. Vá até lá e diga a verdade, mesmo que você gagueje mais do que um Galvanico Mecamorfico com curto-circuito.
Ben encarou o parceiro por alguns segundos. Um lampejo daquele antigo entusiasmo destemido, misturado com a urgência genuína de quem não podia perder a coisa mais importante de sua vida, acendeu-se em seu olhar verde.
Ele olhou para o pulso. O Omnitrix deu um bipe suave, como se aprovasse a decisão.
— É. Você tem razão, Rook. Chega de fugir.
...
A noite já havia caído sobre Bellwood, cobrindo as ruas arborizadas com uma penumbra suave iluminada apenas pelos postes de luz amarelados e pelas janelas iluminadas das casas.
A leitora estava sentada no batente da janela do seu quarto, com os joelhos puxados contra o peito e enrolada em uma manta grossa de lã. Ela encarava o céu estrelado, segurando uma caneca de chocolate quente que já tinha esfriado há tempos. Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar nos últimos dias. Uma parte dela sentia um alívio melancólico por finalmente ter posto para fora todo o sufoco que guardara por tantos anos; a outra parte, no entanto, sentia um vazio esmagador, como se o alicerce de toda a sua vida tivesse desmoronado de vez.
Ele não veio atrás de mim, pensou ela com um aperto doloroso no peito, sentindo uma nova lágrima ameaçar rolar por sua bochecha. Para ele, eu devo ser só mais uma garota dramática da infância que pirou sem motivo.
Um som familiar cortou o silêncio da rua deserta.
Não era o barulho de um carro comum, nem o zumbido sutil do Proto-Truck dos Encanadores. Era um som mecânico pesado, acompanhado pelo característico clarão verde esmeralda que iluminou as copas das árvores e o telhado das casas vizinhas.
A leitora sobressaltou-se, levantando-se abruptamente da janela e encostando o rosto no vidro para olhar para fora.
Lá embaixo, no meio da rua vazia, iluminado pelo brilho residual de uma transformação recente, estava Ben. Ele não usava a jaqueta dos Encanadores; vestia apenas sua camiseta preta habitual com o símbolo verde no peito e calças jeans gastas. Mas o detalhe que a fez prender a respiração não era a roupa, e sim o fato de que ele parecia completamente esbaforido, como se tivesse corrido maratonas intergalácticas para chegar ali.
Antes que ela pudesse recuar ou fechar a janela, Ben ergueu os olhos na direção do segundo andar. Ao vê-la ali parada, o rosto dele se iluminou com uma mistura desesperada de alívio e pura urgência.
— Ei! — a voz dele ecoou pela rua silenciosa, alta o suficiente para acordar os vizinhos, mas ele claramente não estava nem aí. — Não ouse fechar essa janela!
A leitora sentiu o coração disparar violentamente contra as costelas. Ela abriu a janela de correr com um puxão brusco, o vento frio da noite batendo em seu rosto.
— O que você tá fazendo aqui, Ben Tennyson?! — exclamou ela, tentando manter o tom zangado e defensivo, embora sua voz tenha falhado miseravelmente na última sílaba. — Vai embora! Vai procurar alguma fã na praça para tirar foto!
Ben não respondeu de imediato. Em vez disso, ele deu dois passos firmes para frente, respirando fundo como se estivesse reunindo toda a coragem que utilizara para enfrentar vilões cósmicos em confrontos de vida ou morte — e, pelo modo como suas mãos tremiam levemente, aquilo parecia muito mais aterrorizante do que lutar contra Vilgax.
— Eu não quero fã nenhum! — gritou ele de volta, a voz grave e carregada de uma emoção crua que fez o estômago da leitora dar uma guinada violenta. — Eu não quero garota da faculdade, eu não quero autógrafo, e eu não quero atenção de mais ninguém!
A rua silenciou-se completamente. Apenas o barulho distante de um grilo quebrava a quietude da noite.
A leitora engoliu em seco, sentindo o calor subir pelas suas bochechas, enquanto o encarava com os olhos arregalados.
— Ah, é? — ela respondeu, tentando disfarçar o tremor em sua voz. — Então o que você veio fazer aqui na minha calçada a essa hora da noite, fazendo escândalo? Veio me dar um sermão sobre como a nossa amizade é importante e que eu estraguei tudo com o meu drama?
Ben balançou a cabeça veementemente. Ele deu mais um passo à frente, colocando as mãos nos bolsos da calça por um segundo antes de puxá-las de volta, incapaz de ficar parado.
— Eu não vim dar sermão nenhum. Eu vim dizer que fui um imbecil — confessou ele, sem desviar os olhos verdes dela nem por um segundo. A voz dele perdeu toda a fanfarronice habitual, soando incrivelmente vulnerável, sincera e real. — Um completo idiota sem noção. O maior idiota de todo o universo, incluindo as dimensões alternativas e os recantos mais distantes da Zona Nulificada.
Ela piscou, surpresa com a autocrítica tão direta.
— Ben...
— Deixa eu terminar, por favor, senão eu perco a coragem — interrompeu ele, respirando fundo e gesticulando com as mãos de forma tensa. — Sabe... quando o Omnitrix caiu do céu, minha vida virou de cabeça para baixo de um jeito louco. Todo mundo passou a me olhar diferente. Queriam meu autógrafo, me chamavam de herói, me tratavam como se eu fosse intocável. E eu... eu gostei disso. Admite, eu adoro aparecer. Mas o problema é que eu deixei toda essa besteira subir à cabeça a ponto de não perceber o que estava bem na minha frente o tempo todo.
Ele deu mais um passo em direção à parede da casa, olhando para cima com uma intensidade que parecia queimar a distância entre eles.
— Você acha que eu não percebia as garotas dando em cima de mim? Quer dizer, eu percebia, sim, mas eu agia como um bobão porque achava que era isso que esperavam do "grande Ben Tennyson". Eu nunca quis te machucar. Nunca quis que você se sentisse invisível, justamente você... que é a única pessoa neste mundo que sempre esteve comigo quando eu não passava de um garoto esquisito com uma queda por sorvete de menta e monstros de desenho animado.
As lágrimas que a leitora tentara segurar voltaram a transbordar, mas desta vez não havia amargura nelas — apenas uma onda avassaladora de calor que desfez cada nó de gelo acumulado em seu peito nos últimos dias.
— Você não respondeu nada na lanchonete, Ben — disse ela com a voz embargada, os dedos apertando a borda da janela até ficarem brancos. — Você ficou em choque e me deixou ir embora chorando. Eu achei que você só sentisse vergonha de mim.
O rosto de Ben suavizou-se em uma expressão de pura ternura e desespero contido. Ele deu mais um passo, ficando bem embaixo da janela do segundo andar, tão perto que parecia prestes a tentar escalá-la do jeito antigo.
— Eu fiquei em choque porque levei alguns segundos para o meu cérebro processar a sorte absurda que eu estava tendo — disse ele, com um sorriso fraco e genuíno surgindo nos lábios. — Eu não respondi na hora porque fiquei paralisado pensando: "Caramba, a garota mais incrível, inteligente e perfeita do universo inteiro, que me conhece de verdade e me aguenta desde os dez anos, finalmente disse que me ama... e eu quase perdi ela por ser um idiota vaidoso."
A leitora soltou um soluço abafado, cobrindo a boca com uma das mãos enquanto sentia o coração bater descompassado no peito.
— Você... você tá falando sério, Ben? — sussurrou ela, com a voz tremendo de esperança. — Ou é só mais uma das suas piadas para consertar as coisas?
Ben ergueu a mão esquerda, aquela mesma mão onde o relógio brilhava com uma luz verde suave e acolhedora, e bateu levemente no próprio peito, bem em cima do coração.
— Eu juro por tudo que é mais sagrado, por todos os aliens do Omnitrix, pelo meu avô Max e pelas batatas fritas do senhor Baumann — afirmou ele, com uma seriedade absoluta e um brilho apaixonado nos olhos verdes. — Eu te amo desde antes daquele relógio cair na minha cabeça. E quer saber de uma coisa? Salvar o universo inteiro não vale absolutamente nada se eu não tiver você aqui do meu lado para rir da minha cara quando eu fizer alguma besteira.
O silêncio voltou a envolver a rua, mas desta vez era um silêncio leve, quente e repleto de promessas.
A leitora enxugou rapidamente as lágrimas com a manga do moletom, deixando escapar um riso misturado com soluços, antes de olhar para ele com um brilho desafiador e carinhoso no olhar.
— É bom saber que você finalmente admitiu isso, Tennyson. Porque eu não ia passar o resto da vida aguentando seus fãs sem ter pelo menos o título oficial de namorada do herói.
Ben soltou uma risada aliviada, um som alto e genuíno que cortou a noite e fez o coração da garota se aquecer por completo. Ele apoiou as mãos na mureta da varanda do andar inferior, esticando o corpo o máximo que podia.
— Sendo assim... será que a namorada oficial do herói poderia descer aqui e me dar um abraço? Porque eu passei os últimos três dias achando que ia morrer de culpa, e um abraço ajudaria bastante a salvar o dia de novo.
A leitora balançou a cabeça com um sorriso radiante, sentindo todo o peso do mundo desaparecer de seus ombros. Sem pensar duas vezes, ela virou-se para dentro do quarto, desceu correndo as escadas de madeira da casa na ponta dos pés para não acordar os pais, e destrancou a porta da frente com um movimento rápido.
Assim que a porta se abriu, nem houve tempo para palavras ou discursos ensaiados.
Ben estava lá no batente, com os braços abertos e aquele sorriso inconfundível que ela amava desde a infância. Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, ela avançou e jogou os braços ao redor do pescoço dele, enterrando o rosto no vão entre seu ombro e sua nuca, respirando o cheiro familiar de sabonete, terra e eletricidade estática.
Ben a abraçou de volta com força, puxando-a contra o peito como se quisesse garantir que ela nunca mais escaparia de seus braços. O Omnitrix em seu pulso deu um último bipe suave e carinhoso na noite, como se o universo inteiro estivesse finalmente em perfeita ordem.
E naquele instante, sob o brilho suave das estrelas de Bellwood, nenhum dos dois precisava de superpoderes para saber que aquela era a única batalha que realmente importava — e que eles tinham vencido para sempre.