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A paranoia de uma nova Guerra Fria
Não há dúvidas de que vivemos uma nova Guerra Fria, que já fechou as fronteiras do mercado global internacional e acirrou disputas comerciais, militares e tecnológicas entre Estados Unidos (o farol democrático do mundo livre) e a China (regime ditatorial apoiador de um novo Eixo do Mal light). Aviões secretos, chips modernos e algoritmos de redes sociais são armas nesse embate.
Como era de se esperar, a imprensa também participa desse jogo. Colunistas e pesquisadores de think-tanks obscuras tentam controlar o debate em torno da geopolítica, revelando cenários sombrios hipotéticos que parecem próximos de se tornar reais.
Uma nova coluna no NY Times é um exemplo revelador. Argumenta como o TikTok poderia (ou já estava) ser usado em uma guerra, influenciando pesadamente a opinião pública em favor da China, que estaria prestes a invadir Taiwan — embora a China não tenha invadido nação alguma desde que anexou o Tibete. A data estabelecida por David French — um comentarista conservador que já foi editor da The Dispatch e da National Review, ambas publicações conservadoras — na coluna é setembro de 2026. Como afirma ele:
"Não há guerra de tiros – ainda – mas a guerra de informação está em curso e a República Popular da China tem uma imensa vantagem. Se tiver o nível de controlo sobre o TikTok que o governo dos EUA acredita, então terá poder sobre os feeds das redes sociais de cerca de metade da população americana e usará esse acesso para semear o máximo de confusão e divisão que puder."
O argumento central parece esquecer que uma rede norte-americana foi acusada de ser usada para interferir em eleições dos Estados Unidos. O Facebook e o Instagram estiveram no centro de um escândalo de roubo de dados, que supostamente afetou profundamente a população do país. Pouca coisa mudou desde então, além de um alinhamento explícito de Mark Zuckerberg (e outras big techs) com o governo Trump. Zuck, que definia sua rede como praticamente apolítica, afirmou recentemente que conteúdos políticos voltarão com força ao feed.
Sim, ele está com um visual muito socável...
David ainda completa, naquela que talvez seja a linha mais verdadeira de seu texto: "Em muitos aspectos, este é o primeiro caso no Supremo Tribunal de uma nova guerra fria, desta vez com a China".
David Lynch (1946-2025)
David Lynch foi talvez o maior cineasta do século XX, capaz não apenas de possuir uma marca própria, mas imprimir um imaginário todo especial no cinema. Com ele, o cinema deixava de ser um mero entretenimento e se torna um inconsciente coletivo, uma máquina onde desejos e horrores conviviam nas mesmas proporções. Seus filmes gravitam entre o policial e o horror psíquico completo, uma subversão do conceito de horror cósmico ao mostrar que os monstros inomináveis estão ao nosso lado, dentro de nós, em nossos dispositivos. Com ele, o design de som dos filmes nunca mais foi o mesmo e uma cena puramente novelesca e exagerada pode facilmente se tornar algo macabro.
É simplesmente inesquecível assistir a famosa cena da ligação de A Estrada Perdida, ou mesmo os momentos mais messiânicos da jornada de Laura Palmer.
Amazing scene from David Lynch's Lost Highway
Fará muita falta.
Gagueira como Ideologia
Para falar sem gaguejar, eu só escolho palavras que consigo dizer sem gaguejar e junto todas essas palavras. Então, eu sempre acabo dizendo coisas que não fazem muito sentido. Quando eu estava na escola primária Havia um texto em nosso livro escolar chamado: "Carregue o sol no centro de seu coração." Mas eu não conseguia falar "coração". Eu ficava falando "co-co-coração", então eles me apelidaram de "galinha". Uma outra vez, tive que correr até o médico depois de uma crise de falta de ar. Dizem que, se você ficar cantando sem parar, você para de gaguejar. Tentei isso muitas vezes. Gagueira é uma ideologia. O Sol gagueja, como se nascesse entre os prédios. A Quinta Sinfonia de Beethoven gagueja. A paz no Vietnã gagueja entre os territórios queimados. As nuvens gaguejam no céu. O Estreito da Coreia é uma fronteira que gagueja. Você percebeu? Ordem e obediência são estáveis. Mas o Sol gagueja. O coração gagueja. Movimentos de resistência gaguejam. Gaguejam. Gaguejam e gritam. Eu sou um gago envergonhado. Mas é porque eu gaguejo. Isso porque eu consigo pensar direito sobre as palavras. Em minha própria boca. Minhas próprias palavras.
— Throw Away Your Books, Rally in the Streets (1971)
Em um tipo de experimento e manifesto, o filme nos convida a conhecer a alienação social da juventude japonesa pós-II Guerra, que se recusa a abraçar o niilismo, mas enxerga a degradação e destruição das relações sociais. Pais, professores, líderes comunitários e políticos não são exemplos de vida, e a América é uma força capaz de corroer tradições milenares, com seu consumismo barato e prazer fácil. É um filme sintonizado com o cinema social da época, e tentou ainda desconstruir a própria força da ideologia do filme. E o trecho sobre a gagueira, sem qualquer conexão narrativa com o restante, é um recorte exato disso.
4,000,000,029,057. Remember that number. It’s going to come up again later. But let’s begin with another number entirely: 145,000 -- as in,
Apesar de serem apontados como a maior potência militar da história moderna, os Estados Unidos parecem incapazes de ganhar uma guerra de forma "satisfatória". Na maioria dos casos, sofreu derrotas totais — Vietnã e Afeganistão.
Um artigo exaustivo do jornalista Nick Turse dá certos números a essa iniciativa de guerra total e até coloca um número na mesa: mais de US$ 4 trilhões gastos apenas com a interminável Guerra ao Terror. Sem uma vitória para estampar nos jornais.
Mas, estrategicamente, tenta transmitir a imagem da vitória. Para isso, chupinhou uma tática dos vietcongues: para não perder, basta não parar de lutar.
No Vietnã, esses militares visavam “ superar a guerrilha ”. Isso nunca aconteceu e os Estados Unidos sofreram uma derrota esmagadora. Henry Kissinger – que presidiu os últimos anos desse conflito como conselheiro de segurança nacional e depois secretário de Estado – forneceu sua própria visão concisa de um dos princípios centrais da guerra assimétrica: “O exército convencional perde se não vencer. O guerrilheiro ganha se não perder”.
[Tom Dispatch]

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Cortes de Jesus [OFICIAL]
E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como a fumaça de uma grande fornalha, e com a fumaça do poço escureceu-se o sol e o ar. E da fumaça vieram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o poder que têm os escorpiões da terra.
— Apocalipse 9: 2 e 3
De férias, fui visitar meus pais. E com eles, meu passado como membro de uma igreja evangélica. Ao (re)visitar uma igreja, percebi que o ambiente religioso, aos poucos, parece ser transformado pelo virtual. Por motivos óbvios, muitas igrejas passaram a transmitir os cultos ao vivo durante a pandemia, mas não interromperam a prática com o fim do isolamento social. Transmissões agora são parte da rotina de muitas igrejas, mesmo as não tão grandes.
Cultos se transformaram em jogos visuais: "irmãos" reassistem à transmissão depois do almoço e pinçam detalhes que deixaram passar — roupas de outros membros, pedaços da mensagem, quem foi e quem não foi. Com um pouco de prática, cortam os vídeos e os redistribuem por grupos de Zap, seja com arquivos ou links de YouTube. Fofocas e interpretações bíblicas são comentadas no mesmo ambiente, transformando tudo em conteúdo. Vi ao menos quatro pessoas de um grupo de WhatsApp da minha mãe envolvido em coisas do tipo.
Como possível consequência, meus pais observaram, se seguiu certa rotatividade de membros, que escolhem que dias vão ao templo ou quando frequentam de casa. Alguns dos que vão presencialmente também reagem à observação da câmera: escolhem roupas específicas e sentam em lugares específicos.
Em outras palavras: surgem personas temporárias para o arquivamento virtual, uma sobreposição às personas já conjuradas em dias de culto, reação aos pequenos ritos e julgamentos integrantes da cultura de vigilantismo velado de muitas denominações cristãs.
É bem possível que tais transformações causadas pelo virtual se aprofundem ainda mais. Além de todos os membros hoje assistirem cultos com celulares na mão, eles estão cada vez mais conscientes de que também pode estar sendo vistos nos celulares de outras pessoas, ao vivo.
Esse entrelaçamento entre religião e o ambiente virtual provavelmente causará sintomas similares ao de viver em contato constante com redes sociais: tudo se transforma em conteúdo, os pastores são produtores e os integrantes seus consumidores. A mídia como intermediária dilui o poder de transformação religiosa, mas amplia seu poder de comunicação massivo.
Obviamente ainda é bem cedo, mas não é difícil imaginar um futuro em que igrejas levarão mais a sério a competição de streamings. Afinal, é muito mais fácil atrair mais membros no poroso mundo virtual. Mas será a relação desses membros (seguidores de redes sociais) profunda o bastante para garantir um fluxo constante de dízimos e ofertas? O que tais igrejas terão a oferecer no mundo virtual quando disputarem atenção com outros pesos pesados das redes sociais, incluindo influenciadores e marcas com seus mascotes digitalizados?
O ambiente virtual provavelmente será a fronteira onde o ecumenismo genuíno e forçado ocorrerá. O sinal da Besta apocalíptico. Streamings cada vez mais são meros canais para zapear, e precisam fidelizar clientes com mais frequência que igrejas, que pensam em estratégias para anos ou até décadas à frente — pense na derrocada da Igreja Católica no Brasil, varrida por igrejas evangélicas, com táticas mais envolventes e agressivas que o conhecido e burocrático distanciamento entre membros e padres da denominação apostólica.
Assim como as redes sociais causaram a uniformização da informação sob o signo do "conteúdo" e da "viralização", igrejas precisarão viralizar para competirem com todos os outros atrativos de redes já sedimentadas de entretenimento criado para o vício e engajamento. Na internet, todas as igrejas serão parecidas — a segunda fase de um movimento que começou com a televisão aberta.
Não há dúvida da penetração da mensagem cristã e de suas igrejas, mas tal poder pode se pulverizar e reorganizar no ambiente online, como já ocorre com a ascensão de pastores midiáticos, como Silas Malafaia, que já tem certa vocação midiática por excelência.
Outra possibilidade já ocorre com a consolidação do WhatsApp como uma internet por si só, ao menos no Brasil. É lá que muitos organizam fotos, compartilham todos os links de interesse e distribuem vídeos, o que o torna um programa de fácil utilização por igrejas evangélicas.
Mas pensar de forma imediatista é ignorar as transformações causadas pela internet nos últimos anos. Pense em organizações de notícia, que receberam as redes sociais de braços abertos até serem apunhaladas por elas e hoje implorarem por migalhas. Em um primeiro momento, o poder de viralização e fortalecimento das igrejas é óbvio no país após a simbiose com redes sociais, redes de comunicação massiva, conservadorismo pesado e política, mas tal dispersão de atenção e virtualização de relações pode ser fatal para instituições que dependem da manutenção constante de mensagens e a alimentação de um item cada vez mais raro — a fé.
Plataformas de petróleo como artefatos distópicos
De fato, poucas construções combinam tão bem certa imponência assustadora, completamente contrária à natureza, com objetivos igualmente nefastos.
Comunidades suspeitas
Nas últimas semanas, circularam por diversas redes e comunidades, dutos digitais, documentos secretos vazados do Pentágono. O que mais chamou a atenção foram planos de logística e posições de unidades envolvidas na Guerra na Ucrânia, tanto russas quanto ucranianas. Chama a atenção que tais documentos (alguns classificados como ultrassecretos) circularam não nas mãos de espiões inimigos, mas em servidores do Discord, boards do 4chan e finalmente o Telegram.
Como estamos na era onde a verdade praticamente não importa, os registros receberam todo tipo de análise. Os ucranianos os chamaram de propaganda russa, os russos como prova de profundo envolvimento dos Estados Unidos na guerra em seu quintal, os norte-americanos olharam com cautela, mas extraoficialmente concordaram que tinha uma aura de veracidade em boa parte da documentação — certos números foram apontados como falsificações. Em grupos pró-Rússia do Telegram, alguns chegaram a suspeitar de uma psyops norte-americana para desacreditar russos. Assim é o mundo da espionagem — e cada vez mais a internet assume para si sua missão primordial: ser a rede de comunicação entre militares e outros agentes de segurança.
Mas o componente mais estranho é justamente quem iniciou toda essa movimentação: um guarda que fotografou e vazou os dados secretos. Jack Teixeira não parece ser um idealista, como outros delatores — Chelsea Manning e Reality Winner são as principais. O jovem de 21 anos trabalhava na ala de inteligência da Guarda Nacional e também era administrador do um servidor Thug Shaker Central, do Discord.
Segundo o New York Times, no local "20 a 30 jovens e adolescentes que frequentemente discutem armas, memes racistas e videogames". Além disso, Teixeira ajudava alguns integrantes (incluindo menores de idade) com depressão. E vazava documentos secretos na proto-maçonaria que mantinha no serviço de mensagens. Aparentemente, ele era professoral a ponto de querer atenção de tais seguidores.
Teixeira primeiro compartilhou informações vazadas digitando informações e postando o texto no canal. Quando isso não envolveu seus seguidores o suficiente, um membro disse que recorreu à postagem de centenas de capturas de tela dos documentos classificados, o que chamou mais atenção — Washington Post.
Após sair do Discord, os documentos (que eram fotografados, e não digitalizados, algo muito mais complexo de fazer), os documentos seguiram o caminho para o 4chan e depois Telegram, onde conseguiram a atenção da mídia. Como informa o Bellingcat, que fez um rastreamento do caminho seguido pelos registros:
Estranhamente, os canais Discord nos quais os documentos datados de março foram postados eram focados no jogo de computador Minecraft e no fandom de uma celebridade filipina do YouTube. Eles então se espalharam para outros sites, como o imageboard 4Chan, antes de aparecer no Telegram, Twitter e, em seguida, nos principais editores de mídia em todo o mundo nos últimos dias.
O perfil da fonte do vazamento causou estranhamento em analistas ouvidos pela mídia norte-americana. Tal perfil, descrito como "exibicionista que quer demonstrar seu conhecimento interno", parece mais difícil de rastrear do que os perfis mais comuns (idealistas e gente a fim de grana).
Será esse o início de uma nova era em que documentos secretos circularão sem muitas cerimônias nos mais diversos canais? Se pensarmos que o auge do Medium foi um texto de Jeff Bezos em que revelava como foi chantageado por jornalistas de um tabloide, escrito totalmente sem aviso, talvez o Discord e outras redes descubram o poder de atrair pessoas com algo dizer, nem que tais coisas sejam segredos incriminadores, e invistam para receber tais conteúdos como o Santo Graal estava pronto para servir a Cristo.
Mas a imagem que fica é justamente do jovem que lia um livro quando foi abordado por forças federais.
Ressonâncias XIII
OldBoy
A Fantástica Fábrica de Chocolate
Boy Erased
Eu, Tônia
Herói
Kill Bill Vol. 2
Matrix Revolutions
Os Cavaleiros da Tempestade
Police Story
Yakuza Apocalypse
Cosplay commandos are posting nationalist thirst traps to mobilise the SIMPs – but why?
O fenômeno parece fácil de compreender, mas ainda assim vê-lo em funcionamento é um tanto chocante. Influencers fofinhas misturam um visual importado das waifu com uma cultura militarista. O objetivo praticamente explícito é fazer propaganda militar pura e simples — tanto para recrutar quanto para influenciar a opinião sobre ações militares. Como todos as ferramentas modernas, qualquer tipo de crítica é vencida pela união de massificação e estética.
Um do parágrafo dessa matéria da Dazed esboça a complexidade em camadas do que se denominou uma óbvia operação psicológica militar — e o fato de ser óbvia e quase descarada não elimina sua eficácia.
Conhecida nos círculos de memes esotéricos como a garota psicopata, Haylujan, também conhecida simplesmente como Lujan, autodenomina-se “especialista em operações psicológicas” do Exército dos EUA, cuja presença online levou a inúmeros memes especulando que ela é uma pós- operação psicológica irônica destinada a recrutar pessoas para o exército dos EUA. Lujan, que na verdade trabalha para a divisão de operações psicológicas do exército dos EUA, publica inúmeros TikToks e memes que fazem parte disso.
Tanto EUA quanto Israel parecem seguir o expediente de usar garotas com rostos praticamente infantis para atrair novos soldados e infectar tubos online com uma nova estética militar. Um caso estranho é a filipino-americana Bella Porch, uma das maiores tiktokers do mundo, que teve carreira militar.
Tal empreendimento parece ser uma consequência direta da militarização da cultura gamer, onde militares usam encontros de jogo para recrutar futuros soldados — nos EUA não existe serviço militar obrigatório, e campanhas de recrutamento são necessárias de tempos em tempos.
"Ao fazer as pessoas duvidarem do que é real – essas garotas estão realmente no exército? As acrobacias são reais? Seus rostos são reais? A guerra é real? Eles apenas aumentam a confusão e a dissociação geral e podem levar à dessensibilização, em última instância” - Dra. Christiana Spens, autora de The Fear and Shooting Hipsters.
Como é uma psyop interna, a iniciativa borra a realidade e usa o ambiente virtual para transformar a imagem da guerra com essa associação direta com um dos maiores frutos da cultura online: as E-Girl.
Se levarmos em conta Baudrillard, que aponta que a capacidade de produção de sentido e signos superou a demanda (algo empiricamente observável no nosso século), a ideia pode ser ainda mais simples: fazer alguém de fato se importar com a existência de forças militares.
Hoje tudo mudou: o sentido não falta, ele é produzido em toda parte, e sempre mais - é a demanda que está declinante. E é a produção dessa demanda de sentido que se tornou crucial para o sistema. Sem essa demanda, sem essa receptividade, sem essa participação mínima no sentido, o poder só é o simulacro vazio e o efeito solitário de perspectiva.

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"Todo mundo se torna poroso"
Antes de todos os escândalos de coleta esquizofrênica de dados praticada por agências governamentais que agem por uma misteriosa vontade própria, Marshall McLuhan discutiu os efeitos desse tipo de paranoia.
Não assisti a versão completa do vídeo, mas o argumento central dele parece ser que a coleta é um mero efeito colateral assustador, uma vez que nos tornarmos descarnados como seres midiáticos é o verdadeiro efeito sem retorno da era da comunicação de massa.
A programadora e escritora conhecida como 'protetora dos hackers' é a mulher responsável por criar o termo '' cypherpunk''.
A história dos hackers e do desenvolvimento tecnológico (e, mais importante, da cultura e linguagem ao redor dela) é cheia de fantasmas, guerrilheiros anônimos e códigos secretos. Aqui está a biografia rápida de uma dessas personagens importantes: Jude Milhon, ou St. Jude.
Para Milhon, o hacking é uma ''forma inteligente de contornar os limites sejam eles impostos pelo governo, seu servidor de IP, sua própria personalidade ou as leis da física.
O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar — William Gibson (Neuromancer)
Faz tempo que estou enrolando para escrever um texto completo apenas sobre essa frase de abertura de um dos livros mais importantes do século passado, mas fica aqui o registro do desejo.
Triângulo da Tristeza
A essa altura já é fácil falar: essa nova leva de filmes que denunciam a corrupção e podridão de uma burguesia heterogênea e apodrecida não apenas carece de poder cinematográfico, como também se esforça para ser tão chata quanto o objeto para qual aponta o dedo.
Triângulo da Tristeza é o integrante com mais grife desse clube cinematográfico (ganhou a Palma de Ouro em Cannes), acompanhado do insosso O Menu, o ao menos violento e graficamente interessante Infinity Pool, e o engraçadinho Glass Onion.
Com algumas exceções, boa parte deles se envolve em um esforço exagerado para escancarar a mensagem, num óbvio movimento de mercado de adulação de massas que contemporaneamente parecem necessitar de tal reserva social. O alvo são os ricos, e tais filmes investem tempo para desnudar os novos fronts da guerra de classes, sem nunca de fato se envolverem diretamente com a questão.
A história é simples: ricaços interagem em um navio. A primeira parte mostra um casal de namorados que discute sobre pagar contas de um jantar, manipulação e salários altos. A segunda é o cruzeiro exclusivo em si.
O problema, para mim, é que o filme necessita desesperadamente da sátira escancarada para funcionar. Sem o componente exagerado ele é um mero exercício de vazio de voyeurimo de ricos que até poderia ser interessante se não fosse desprovido de drama. A opção rende bons momentos, como o jantar caótico no navio, e até o festival de vômitos, mas impede o filme de se renovar e aproveitar em outras possibilidades que ele até tenta explorar em vão.
Quando percebemos é tarde demais: o terceiro ato na ilha não consegue mais ser sério, tampouco uma sátira. A mensagem, no fim, é totalmente esvaziada.
Alguns consideraram o filme hipócrita (custou milhões e aponta o dedo para ricaços), um argumento tão bobo que mal merece ser refutado. A maior fraqueza do filme é a posição de seu diretor: no intuito de demolir tanto socialismo quanto capitalismo, ele ficou sem nada nas mãos a não ser uma longa piada que em certo momento se desgasta. Nem um possível niilismo é encorajado, de forma que só resta uma dinâmica de classes de posições invertidas.
Tem lá suas boas escolhas estéticas (o jantar com manipulação e até o festival de vômitos) mas o filme sofre justamente por certa necessidad
Talvez o vazio do filme seja apenas reflexo do mundo que ele deseja espelhar. Mas isso não é o bastante.
Cachorros X-9
Assim que os primeiros cães-robô dançaram pela primeira vez em videozinhos engraçados da Boston Dynamics todos nós já sabíamos: era mera questão de tempo para tais monstruosidades caminharem pelas ruas programados para vasculhar a cidade e selecionar indesejáveis. A Prefeitura de Nova York anunciou que uma frota delas ganhará as ruas.
Por hora são três tipos de máquinas: os que disparam projeteis em automóveis suspeitos no melhor estilo dos stalkers munidos com AirTags, os que avaliam situações perigosas a exemplo de tiroteios, e, claro, os controlados por uma inteligência artificial que patrulharão instalações e condomínios.
A retórica de Keechant Sewell, comissário de polícia de NY, aparentemente saída diretamente de filmes B de ficção é igualmente impressionante:
Para proteger nossa cidade moderna em um mundo voltado para o futuro, é essencial que nossos oficiais estejam equipados com as ferramentas, treinamento e tecnologia necessários para fazer esse trabalho com segurança e eficácia.
Em menos de cinco anos será possível ver versões armadas de tais produtos.

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Abaixo de Zero
Anos 50: surgem os beatniks. Sujeitos livres que agora encontravam um país para ser descoberto, com paisagens que não não eram os cacos da Zona de guerra europeia. Românticos e um tanto poéticos, eles encontraram nas drogas e religião forças impulsionadoras para expandir o próprio modo de vida e se tornaram símbolos dos Estados Unidos por algum período. Jack Kerouac assim a descreveu: uma geração de loucos, iluminados hipsters, fez subitamente a América ascender e avançar, seriamente a vadiar e a pedir boleia em todo o lado (...) significa características de uma espiritualidade especial que não agia em conjunto mas eram Bartlebies solitários olhando para fora da janela da parede nua da nossa civilização.
Anos 90: o horizonte de eventos foi devidamente explorado e nos confins do universo só resta o Enigma e a Culpa, nada entre os dois. A Humanidade agora perdeu toda e qualquer inocência e só restou saída na acumulação e no Espetáculo um modo de vida que, no fundo, já não oferece o mesmo senso de descoberta de décadas antes. Abaixo de Zero é o símbolo desse momento cultural e ontológico, específico dos norte-americanos, agora plenos vírus multiplicadores de seu Sonho apodrecido e maligno.
Em Abaixo de Zero contemplamos a frieza destrutiva de uma geração de riquinhos, que parece ver no abismo a certeza de que a vida é mera nuança da Morte. Não há fim, sentido e mal um princípio em todas as ações. Clay, o protagonista, parece o inocente que vaga em certos círculos infernais — não abrasivos, mas frios e desprovidos de qualquer emoção. Seus amigos tomam conhecimento dos pais por fofocas de revistas, ele evita sentir qualquer coisa por ser mais fácil assim. Alguns desvairados tentam quebrar essa roda perpétua com atos insanos (estupros, snuff movies).
É radical por ser vazio. Mas não um gesto em si, mas um movimento de queda. Não há nada muito depois do que o romance propôs, caso seja levado como retrato de uma geração. O que vem depois é justamente o sucesso: O Psicopata Americano, uma armadura que quase abandonou a humanidade para viver nas ruínas conceituais de um sistema que sabe perfeitamente que deu errado — e essa sabedoria melancólica é justamente a maior fonte de sua força. É o exemplo de crítica que se funde tão umbilicalmente ao alvo que pode parecer um mero espelho, um produto indistinto do mal que condena.
Por isso resta a pergunta: o que há depois disso aqui? Apenas o retorno por uma estrada sangrenta e colonizada pelo mais puro mal.
Cenas de Branded to Kill (1967)
Um dos maiores de todos.