at wit’s end [piratas au]
A cela era escura e úmida, e mal tinha espaço para Brandon esticar as pernas. Ele não conseguiria ignorar seu companheiro de prisão e antigo amigo no canto do cubículo compartilhado nem mesmo se quisesse.
Iluminado parcamente pela pouca luz que escapava entre frestas da porta, o rosto dele se assemelhava muito mais ao fantasma que alguns alegavam que ele era. Respiração rápida e ofegante, a costumeira postura imponente de liderança não se mostrava em nenhum lugar à vista. Os olhos estavam selvagens, vasculhando cada centímetro do espaço diminuto à procura de algum tipo de saída além da porta bem trancada à frente dos dois. Um esforço em vão.
Fazia mais de uma década desde que Brandon vira aquele comportamento no outro homem. Então, ambos eram jovens inexperientes em sua primeira missão oficial, a caminho de seus postos nas Ilhas. A gigantesca embarcação de viagens onde estavam fora atacada por piratas – e esses não eram os vigilantes e anti-heróis que Brandon aprendeu a reconhecer nas últimas semanas, mas os da pior espécie, bandidos inescrupulosos e cruéis.
Eles tinham dezesseis anos, e se viram presos em uma situação quase sem escapatória. Eles tinham dezesseis anos, tinham acabado de aprender a atirar com um mosquete, e ainda temiam a morte como esta sombra eterna. Mas o medo que Brandon vira no rosto de seu amigo era, acima de tudo, não da morte, mas do peso da responsabilidade que tinham para com os outros passageiros. Anos depois, aquele momento de resiliência e parceria ainda lhe daria forças em seu posto de comodoro.
Agora, o que o assustava era o fato de que não havia responsabilidade. Nenhuma vida dependia deles além da deles próprios. Ele o conhecia o suficiente para saber que já saíra de situações infinitamente mais complicadas do que aquela. Então por que estaria agindo desta forma?
“Merlyn” Arriscou chamar a atenção do homem, mas foi ignorado. Seu corpo tremia, apesar da temperatura estar agradável, algo bem incomum para as noites abafadas do verão das ilhas. “Jonathan, você está bem?”
E se sentiu estúpido logo após a pergunta, porque ele claramente não estava. A respiração se tornara rasteira e desesperada como um homem que se afogava, e os tremores que lhe abatiam estavam fortes o suficiente para que ele nem mais conseguisse ficar de pé. As mãos estavam entrelaçadas nos cabelos, afastando as mechas loiras do rosto. Ele fechara os olhos agora, e murmurava para si mesmo algo que Brandon não conseguia compreender. Uma fina camada de suor brilhava por toda sua pele e molhava os trapos que usava.
Brandon se agachou, alcançando a altura do outro. Ainda sem resposta, estendeu um dos braços para tocá-lo em uma tentativa fraca de conforto de alguém que não tinha experiência nenhuma no assunto. Isso finalmente pareceu despertar alguma reação do pirata, que simplesmente saltou sob o toque, e disse, rouco e fraco como o ex-comodoro nunca vira antes.
“Não toque em mim.” Mas não havia real intenção por trás das palavras, e Brandon se recusou a se mover. Após alguns instantes, Jonathan ergeu os olhos para encontrá-lo, e assumiu uma expressão de fúria mesclada com seu desespero. O tom se agravou para um grito raivoso em sua voz falha: “NÃO TOQUE EM MIM!”
O loiro tentou desvencilhar-se o melhor que podia, e ao não conseguir de imediato, recorreu para as pernas, passando a estendê-las o máximo que podia para chutar Brandon, que se frustra rapidamente. Ele só estava tentando ajudar.
“John! Mas que merda-”
“Cale a boca!” E as palavras carregam uma certeza, uma fúria que Brandon não esperava da situação, fazendo-o congelar onde estava. “Você não tem direito- a culpa é sua!”
E por um momento ele não entende a afirmação, porque aquilo tudo fora uma armadilha. Nenhum deles tivera como prever a situação, Brandon nem mesmo imaginava que estava sendo caçado pelo Império, e Jonathan sabia disso.
“Faz alguma ideia do quanto- eu confiava em você! Era a única pessoa que eu chamava de amigo e–” Ele não completa a frase, tendo que parar para ofegar.
Com a sensação de chumbo preenchendo seu estômago, Brandon percebe que não é sobre hoje que o outro homem está falando. Em algum momento de seu pânico, ele passou a ser afetado por outra situação por completo, sobre o passado dos dois. E Brandon de súbito entende que o ódio que vira no convés do Tormenta, que fora contido antes de explodir em mais violência, era apenas uma máscara superficial que o capitão usava para esconder algo muito pior. A raiva não era nada, nada comparado a dor da traição que Jonathan carregava. Em seu corpo completamente maculado, essa era uma cicatriz que ainda estava crua e exposta.
Os murmúrios trazem Brandon de volta ao presente.
“E agora eles vão- eles vão- Eu não consigo respirar. Não consigo-”
E se Brandon não estava péssimo antes, isso o destrói. Porque John estava certo. Todo esse trauma, todo esse horror, nada disso teria acontecido se ele apenas tivesse ficado de bico fechado, se tivesse entendido antes.
Mas era tarde demais. Não tinha como mudar o passado, e o presente era desesperador demais por si só.
“Me desculpe, John. Me desculpe.” É tudo que pode dizer, e toda sua sinceridade é despejada ao máximo em cada uma das palavras. “Eu não sabia, não sabia que fariam-”
“Cala- boca- Brandon” Ele o interrompe ainda sem fôlego, as palavras entrecortadas.
É a primeira vez que ele o chama pelo seu nome desde que tudo acontecera.
E isso é o suficiente para tirá-lo de seu torpor, o pensamento analítico e estratégico do Comodoro Mitchell sendo trazido de volta à ativa. Se Jonathan continuasse assim, ele acabaria desmaiando. Claramente, não adiantava explicar para ele o lógico, de que ele não ficaria sozinho ali ou que logo seus companheiros viriam libertá-los. Ele precisava de algo mais físico do que isso, de um norte. Jonathan é um Capitão, e precisa de uma bússola.
Brandon podia não ser o melhor com sentimentos, mas ele era ótimo com lógica.
Ele agarra uma das mãos do outro homem e bota sobre seu próprio peito. Com a mão livre, toca no rosto do outro, fazendo com que olhasse em seus olhos.
“Jonathan. Respire comigo. Vamos.”
Brandon se esforça para manter um ritmo calmo e estável em sua respiração. O outro homem está tenso, e demora para que ele se acostume ao toque. Ao final, ele acaba cedendo. Mesmo com dificuldade, consegue assumir uma cadência mais desacelerada com os próprios pulmões. Os dois continuam assim pelo que parecem horas; até Jonathan estar inspirando e expirando de forma quase normal outra vez.
Mesmo relutante, Brandon decide soltar a mão que estava segurando firme até o momento. Ele se arrasta um pouco para trás, querendo dar o máximo de espaço possível para Jonathan, agora que estava consciente de novo. O outro homem respira fundo e de forma quase rítmica, e se mantém afastado das paredes, os olhos bem fechados.
“Eles não vão demorar.” O comodoro diz, tentando assegurá-lo novamente. O pirata apenas afirma com a cabeça como resposta.
O silêncio reina na cela apertada, e Brandon não sabe ao certo quanto tempo passa antes que seu coração tome conta do seu cérebro, e quando dá por si, já está falando:
“Eu sei que você me odeia, e tem todos os motivos para isso, mas eu só queria dizer que me arrependo de tudo.” Ele engole em seco, sentindo o gosto acre das palavras e da verdade que carregavam. “Amargamente.”
“Não.” É tudo que Jonathan diz, e o silêncio se instaura novamente entre os dois. Uma eternidade pungente se passa antes que ele abra os olhos e complete o pensamento, o encarando firmimente, como se para exprimir o que estava há muito enterrado e escondido. “Eu não te odeio, Brandon. Por mais que eu tentasse, por mais que eu quisesse, todo esse tempo.” Ele suspira, balançando a cabeça, desviando o olhar. “Eu nunca conseguiria.”
Ele recosta a cabeça na parede para se apoiar, mas não volta a fechar os olhos. Sua expressão é cansada, resignada à realidade que demorara tanto a aceitar.
E Brandon está chocado demais para responder-lhe qualquer coisa.
Mas ele também não tem muito tempo para pensar, porque pouco depois os dois escutam o inconfundível som de explosões abalando o forte em alguma ala mais afastada.
Jonathan se levanta do chão, oferecendo o braço para ajudar Brandon.
“Eles estão aqui. Vamos embora.”










