jungjae podia sentir o peso do olhar. era o tipo de olhar que não precisava pedir uma resposta, mas que fazia seu peito apertar, como se cada segundo de silêncio fosse uma corda tensionando ao redor da garganta, implorando para que ele simplesmente falasse. mas ele escolheu algo mais evasivo. desviou os olhos, fingiu estar muito ocupado com o bolo. a resposta veio. simples. direta. cortante. e foi como se todo o ar tivesse sido empurrado para fora dos pulmões dele. jae se engasgou levemente, levando a mão à boca e tossindo baixinho, tentando manter alguma dignidade. tomou um gole de chá às pressas — que antes tinha um gosto reconfortante, mas agora parecia mais amargo, como se a água tivesse guardado ressentimento da chaleira.
não havia mais como escapar da sensação de estar despido ali, diante da frustração não dita de hyunsik. jae respirou fundo. os dedos brincavam com o anel no próprio dedo mínimo, girando o metal distraidamente, como se aquilo fosse lhe dar uma resposta melhor do que a sua própria cabeça. ❝ algumas realidades são mais difíceis de encarar ❞ disse, por fim, a voz baixa, mas firme o suficiente para não parecer um sussurro. não olhou de imediato. manteve o olhar perdido em algum ponto da xícara vazia. palavras assim não se diziam com facilidade, mas também não eram desculpas. era o mais próximo de uma confissão que conseguiria chegar naquela manhã.
jae odiava aquele tipo de silêncio — o tipo que o fazia se perguntar se havia dito demais, ou de menos, ou se o tempo todo estava apenas tentando proteger algo que já não existia mais. às vezes, hyunsik era uma lembrança. outras, era uma promessa que ele nunca soube se podia ou devia cumprir. o problema é que ele sempre parecia ser os dois ao mesmo tempo. por isso, jungjae demorou um pouco mais antes de continuar. era como se a própria garganta, apertada pelo peso de tudo que não conseguia dizer, resistisse a liberar as palavras. mas, uma vez que elas começaram a sair, fluíram como um rio estreito e torto, carregando cansaço e saudade.
❝ nada tem feito muito sentido ultimamente ❞ ele disse, finalmente levantando o olhar, ainda que por um segundo apenas — tempo suficiente para reconhecer a sombra de preocupação nos olhos de hyunsik, tempo suficiente para desejar não ter dito nada. voltou a encarar a xícara, agora quase fria. ❝ antes eu achava que sabia o que tava fazendo, sabe? eu tinha um plano... um lugar. uma direção. agora... ❞ eu só sinto que estou perdido. não sei se eu devia continuar aqui em jeju ou se devia voltar pra vida que construí. também não sei se aquilo ainda é pra mim ou talvez eu só esteja cansado demais pra tentar descobrir — mas ele não falou nada disso.
❝ se o harabeoji estivesse aqui... ❞ jungjae sorriu de lado, mas não havia alegria ali — só aquele tipo de saudade que fazia o peito doer devagar. o sorriso era um reflexo pálido do que já fora, um gesto automático de alguém que se acostumou a disfarçar falta com humor ❝ ele provavelmente diria alguma coisa completamente aleatória, tipo… se você não sabe se tá no caminho certo, para de andar e toca uma música até descobrir ❞ a frase soou com a entonação exata do avô: meio absurda, meio genial. o tipo de coisa que jae sempre escutava rindo, mas acabava pensando sobre por dias depois. ❝ ou ele me diria pra escutar você ❞ ele deixou o silêncio se acomodar por um instante antes de voltar a olhar hyunsik. um novo sorriso se desenhou, pequeno, mas muito mais sincero que o anterior ❝ às vezes eu achava que ele preferia que você fosse o neto dele ❞