Ascensão
“Recobrei a luz, não sei dizer quanto tempo depois. Sinto-me imerso em natureza. Já me senti assim antes. Foi quando passei pela ascensão de Vívido para Extraplanar. Mas naquela época, eu não consegui pensar em nada. Tudo era um grande clarão, e eu ouvia vozes. Espera, eu não ouço nada. Preciso reacender minha consciência.”
E abrindo a janela da alma, não havia nada ao seu redor em centenas de milhares de anos luz. As estrelas nunca estiveram tão distantes. E sua luz própria, nunca havia irradiado tanto. Após controlar o seu ser, e tornar-se a face de um humano, vieram as perguntas que sempre vinham, “o que eu escolhi, e porque não me lembro?”.
Capítulo 1
O Despertar Para Uma Função
_Quando uma fagulha de consciência reacendeu, a única coisa que eu conseguia entender, mas sem exatamente pensar com as palavras que estou usando agora para explicar, era que eu via pontos de luzes se movendo ao meu redor, e vozes, que diziam frases soltas, sem contexto, e sempre que uma dessas frases se encaixava em algum sentido, me vinha uma exaustão indescritível, e eu tornava a perder a consciência… Mas eu já expliquei sobre isso, porque essa pergunta novamente. Descobriu algo que não encaixa?
_ Não, não é isso, Cassiel. Eu apenas queria saber se alguma memória de seu desligamento do plano vívido se manifestou. Sua ascensão se deu de um modo muito raro, muito delicado e demorado. Há milênios, não víamos um ser demorar mais que um século para resgatar seu estado de consciência.
_ Entendo. Nada mudou. Como vocês dizem, com o tempo eu tenho parado de questionar. Mesmo sentindo que eu não concorde com isso.
_ Você concordará logo. Seu crescimento em seu resgate de consciência está, em contra partida ao século desacordado, em um ritmo extremamente acelerado. Não demorará muito para você atingir seu grau pleno de Extraplanar.
_Juntar pensamento e sentimento.. Sei.
_ Não haja como uma criança, apesar de estar aparentando ser uma, por enquanto, sabemos que não é o caso. Seja paciente.
_ Tudo bem. Vou indo agora, Calisto me aguarda para descermos ao plano vívido.
_Certo. Se precisar de algo, venha até mim.
_Obrigado, Camus.
Ao sair do salão luminoso, Cassiel se dirige entre os corredores transparentes de Celéstia, um ponto de ligação entre planos, do material, ao imaterial. Sem que se concentre nos seres que passam por ele, tornam-se apenas borrões luminosos para seu olhar desatento. O jovem espírito não tem estado satisfeito com as descobertas que fez conforme recobrava a consciência. Disseram-lhe que se ele Acendeu sua evolução em Celéstia, com certeza era por ter escolhido ser um Ceifador, pois a Natureza nunca erra. Então, era uma questão de tempo até que sua mente e seus sentimentos se encaixassem, demonstrando o sentido que ele viu seguindo esse caminho. Mas mais que essas dúvidas, estar na presença de um ser tão obscuro quanto Calisto, para Cassiel não fazia sentido. Calisto parecia muito mais um ser de escuridão, que um ser de luz. E Calisto não parecia estar disposto a querer companhia, mal falava com Cassiel. Isso o incomodava intimamente. Após algum tempo se dirigindo entre os corredores, em meio aos outros seres de luz que ele ignorava, Cassiel chegou ao salão onde Calisto o esperava.
_ Como consegue se atrasar sendo um Extraplanar? - Perguntou Calisto, por baixo de seu capuz negro.
_ Como consegue ficar simulando esse manto negro num lugar onde todo mundo irradia luz pura? - Retrucou Cassiel se referindo à como Calisto se materializava - Sempre um manto e um capuz negros, ao contrário de todos os outros seres, que comumente, se materializavam como Vívidos de roupas brancas.
_ Não precisamos parecer com os humanos depois de nossa ascensão. Demora um tempo, mas logo você também irá se cansar de aparentar ser o que não é mais. Vamos, temos trabalho a cumprir.
Dizendo isso, Ceifeiro e seu aprendiz, se desfazem no ar ao mesmo tempo. Cassiel já começava a ficar mal consigo mesmo. Desde que ele começou seu treinamento como Ceifeiro, ele não vê sentido em ter escolhido essa função. Calisto, há tempos, vem trazendo Cassiel para situações extremamente revoltantes, presenciando muita pobreza, tristeza e sofrimento. Cassiel não conseguia entender. As horas pareciam eternidades, a vida se esvaía na sua frente, uma vez após a outra, e ele se perguntava: “É assim que vai ser toda vez?”. E aos poucos se preparava, e enfiava mais um pouquinho, as palavras daquele homem sombrio, em seu peito, que ficava cada vez mais vazio. O cenário muda novamente. Nitidamente mais pobre, miserável. Caminhando alguns passos ao lado de Calisto, param em frente a uma mãe que chorava, sentada em meio a sacos de lixo, embaixo de um poste que pisca, e cercada por três crianças, e uma em seus braços. O choro incontido manchando seu rosto pela poeira que havia. “Que tristeza” pensou Cassiel. E logo se lembrou que ele e o homem sombrio não estavam ali parados sem motivo. Eles procuravam alguém. Alguém que trazia uma vida pelo fim. Alguém que fizesse valer a viagem até esse mundo estranho.
_É a criança.. nos braços - sussurrou Cassiel para si mesmo.
Calisto o fitou, com seus olhos vazios, se voltou para a criança e nesse momento, a pobre mãe a apertou contra o peito e soltou um choro de desespero que contagiou os outros filhos.
Partiram então, a morte, e seu jovem discípulo, levando com eles, um pequeno brilho luminoso, tirado do pequeno corpo daquela criança que ficou desacordada, e que Calisto fechou dentro de um grande livro negro que ele leva debaixo de seu manto. Cassiel não parava de se perguntar “A vida deles já não é difícil o suficiente? Porque a morte?”. Perguntas que ele sabia que estava ali pra aprender a não fazer.
O cenário muda outra vez, uma rua escura. Sem som, sem pessoas. Sem nada. Até que alguém solta uma fumaça em meio à escuridão de um beco. Então Calisto vai em sua direção, e o jovem anjo do mal o segue sem saber o que os aguarda. Eles param em frente ao homem que traga seu cigarro calmamente sem poder vê-los. E então surgem dois jovens correndo apressados em direção a esse homem calmo, que saboreia seu cigarro. A morte e seu aprendiz acompanham eles com o olhar.
_Aqui, deu tudo certo, vamos antes que a polícia apareça!
O homem que fumava pega um saco plástico da mão do rapaz, que faz um barulho estridente, nitidamente eram jóias.
_ Alguém viu vocês na joalheria? - Pergunta ele aos dois jovens.
_ Não cara, tava vazia… aí fizemos o serviço, vamos logo pra outro lugar pra você pagar logo o que nos dev...
Antes que o jovem terminasse, o homem com as jóias tira uma arma e dispara no outro rapaz, que esperava calado, e diz:
_O problema é que estou de moto para a fuga, e a solução é que seu irmão não é mais simpático que você.
O primeiro jovem agarra seu irmão que cai e começa a berrar por socorro.O jovem anjo da morte não se segura e se vira para seu superior.
_É assim que vai ser sempre?! Sempre levaremos essas pessoas sofridas, enganadas e sem chances?!
O representante da morte o fita seriamente e lhe dá as costas. O jovem anjo sem palavras pela indignação não acredita na cena que assiste. Então Calisto diz, com sua voz rouca, grave, e absolutamente calma:
_ Não viemos buscar nenhum dos jovens delinquentes - caminhando pra longe do jovem aprendiz de ceifeiro. E então, da escuridão do beco, sai o velho com as joias em punho, em fuga na moto, deixando os jovens que roubaram a joalheria. Ele passa por Calisto que para e o assiste perder o controle da moto ao frear no sinal vermelho, inutilmente, por sua velocidade, e ser varrido por um caminhão que cruzava sua direção.
_Logo você aprenderá a não questionar, jovem anjo - diz o ser maligno se virando para a jovem alma escura que se encontrava sem palavras, e continua - viemos buscar o velho. As chances dele se esgotaram.
O choque continuava, mas o cenário novamente muda. Desta vez, o jovem anjo não se conteve e chorou ao perceber que se encontravam em um berçário. Mas dessa vez ele apenas baixou a cabeça e se preparou para a cena triste que se seguiria. Até que uma voz totalmente inesperada ecoa ao seu lado.
_ Olá, há quanto tempo não nos encontrávamos velho amigo!
A frase soou estranha, ainda mais por se dirigir à Calisto. E depois por se ver que partia de um ser luminoso, quase impossível de se encarar.
_Olá vida. Que bela coincidência de horários.
_Contido como sempre, senhor morte.
A cena estranha fez o jovem anjo entrar em parafuso. Eles pareciam velhos amigos. Um encarregado de trazer a vida, e o outro de levar a morte. E mesmo assim, conversavam como amigos de infância. Aos poucos, Cassiel começou entender. Talvez, não houvesse mais o que questionar. E ele finalmente parecia aceitar a vida que estava prestes a levar. Deixar viver, ou deixar morrer não fazia diferença à eles. A vida vinha e ia independentemente das pessoas. Boas ou ruins. Ricas ou pobres. Amigas ou não. O fato é que todos são iguais para eles… na vida.. e na morte.
_ Você entendeu agora não é - uma outra voz surge, feminina, jovem, mas aparentemente mais segura - logo, seremos nós nos ofícios mais difíceis que existem.
_ Nós? E como assim? Dar a vida me parece um tanto mais fácil do que tirar.
A jovem garota sorri e responde:
_É verdade que tirar vidas que aparentam ser sem motivos, possa ser de fato difícil. Mas você entenderá o ciclo de aprendizado logo. Diferentemente de vocês, que veem o fim das vidas dessas pessoas, nossa dificuldade é ver crianças que poderiam ascender como seres altamente brilhantes, se tornando assassinos, direto e indiretamente. Ladrões, falsos, desonestos e etc.. E também crianças que nascem pra fazer de sua morte uma lição para quem as cercam. Uma coisa que sei e posso te contar, mas não sei explicar, é que não é dada apenas uma chance. Já entregamos uma ou outra vez, vidas que já haviam sido entregues outras vezes… não sei explicar, e meu tutor apenas disse para que eu não o questionasse. E eu entendi, o que você acaba de entender. Não adiantará questioná-los, eles nos guiarão às respostas sempre, mas teremos que descobrir por nós mesmos.
_Vamos? - Disse o deslumbrante ser de claridade à jovem Extraplanar.
_Sim… Adeus, nos vemos por aí jovem morte, espero ter ajudado… e não se preocupe, não decidimos quem vive ou quem morre, apenas aceitamos as decisões de cada um pra sua própria vida. No fim, nossos instrutores nos ensinam a instruir… Adeus.
Mais aliviado, o jovem anjo escuro assistiu naquele dia os belos fenômenos de vida e morte, e não sentiu maldade de seu mestre, apenas seu jeito “contido” como o ser de vida havia dito. E apesar de sentir que conhecia e confiava naquela jovem, dentro de si, Cassiel sentia que alguma coisa não encaixava, e agora, por mais que seu ofício parecesse um pouco menos injusto, outra frase não saía de sua cabeça, e ele sussurrava para si:
_ Como assim, “nossos instrutores nos ensinam a instruir”? Nós podemos influenciar de alguma forma, no que as pessoas em vida, podem escolher?
Ele começava a encontrar sua verdadeira função.