O cardigã velho do seu brechó
Agora eu sei que meu amor é um pote de ouro. O meu amor, o que foi tratado como mais uma peça nos cabides do seu brechó.
Eu demorei pra reconhecer sua covardia disfarçada. Eu demorei pra entender, que eu não era pra fazer parte da sua vida. Eu era um experimento. A vivência radical pra contar na sua roda de amigos. Seu risco de morte que vai virar história, sua piada mais engraçada. O seu segredo obscuro.
Muita gente como eu botou fé na tua pose. No teu império. Porém se engana quem acreditar na tua coragem de enfrentar o mundo. De bater de frente com o sistema e lutar por suas causas. Se mostrar e existir. Tua verdade é mentirosa, é pose. Se ventar balança, e se chover dissolve.
Você vai viver seus amores. Quem sabe muito mais que sete, mais que oito. Se apegará em teu próprio discurso, vai se convencer sozinha, como sempre fez suas certezas. Se convencerá de inteligências desinteressantes, de manias de expressão ridículas, cabelos sebosos, e uma carreira meramente interessante - desde que tenha um dedo teu. Afinal, é pra isso que ama.
“Você não tem concerto”. Eu nunca estive pro seu conserto. Amar é pra se corrigir e não perder a paz estrela da manhã. A rua inteira não nos viu, você não quis, e eu não fui de exigir.
Eu não sou preocupada com as verdades que dirão de mim, mas me defendo das mentiras. Meu irmão me ensinou muito bem que ninguém paga minhas contas, nem muito menos vai viver a vida por mim. Você não, insiste em pincelar o seu autorretrato todos os dias, retoca o batom, ajeita a franja e mente pra si mesma.
A vaidade vai ter levar longe, você vai ter muitas histórias pra contar na sua última entrevista quando se despedir de Hollywood. Muitos homens vão te amar, e você vai os querer, mas nada será por amor, disse você mesma. Pra amar tem que ter valentia. A coragem que o amor exige é o coração mesmo que dá. E o teu é covarde.
Não pense que eu ficaria esperando o grande dia, quando os seus dias estivessem acabando, o dia em que sua coragem falasse mais alto. Nem pense que eu me manteria no meio de seus cabides, até o reluzir os teus olhos novamente - como há vinte anos atrás -, e você me vestir para o almoço com a sua avó no domingo.
Não é coragem que precisa pra estar do meu lado, é amor. Teu medo bobo não me paralisou por tanto tempo e eu segui. E foram boas as tentativas de piedade, mas eu nunca achei que devesse explicações pra suas questions.
Eu sou sua peça favorita do seu brechó, escondida pra que ninguém comprasse. A que você perdeu em seus delírios alucinantes na tentativa da perfeição, mesmo ela sendo passageira.
Com isso, fecha-se uma conta de privacidade no instagram e acaba a sua oportunidade de estudo de si mesma em outra pessoa. Se perde a necessidade do seu espaço pessoal, como mágica. Nasce um brechó, com as suas peças. Na placa, “vende-se um cardigã velho maltratado”. Na peça, um bilhete:
You know I don’t miss you james. Inez it’s my only certainty, my only hit.