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Eu procuro por meu pai na espiral de estrelas de Blue Prince
Rebekah Valentine (Kotaku), em um lindo ensaio sobre o luto sobre seu pai, e o belíssimo Blue Prince:
Quando joguei Blue Prince, não pensei nele como uma história sobre luto. Falando assim, parece estupidamente óbvio. Eu nem considerei isso até que acidentalmente o usei como uma metáfora para explicar meus sentimentos sobre a morte do meu pai ao meu terapeuta. Eu estava explicando a ela o longo processo que passei no último ano de tentar desvendar o mistério do meu pai: quem ele era, por que ele era do jeito que era e por que morreu da maneira triste e estúpida que morreu. As respostas que eu estava encontrando eram chatas, inúteis, deprimentes ou inexistentes. Eu queria que houvesse mais — eu queria que houvesse uma explicação mais profunda, uma ou duas frases organizadas com as quais eu pudesse explicar meu pai para mim mesma que envolvesse tudo em um arco e me permitisse acabar com toda essa coisa de “luto”. Não existe, e nunca existirá. É claro. Mas e se eu continuar procurando um pouco mais?
A história do meu pai não foi feliz. Eu não percebi o quão infeliz tudo era até depois de sua morte, porque ele literalmente nunca falou sobre si mesmo, sua família, sua história ou seus sentimentos. Ele perdeu seu pai por suicídio quando adolescente, suas duas irmãs muito jovens para complicações de abuso de substâncias, e teve um relacionamento profundamente desagradável com minha mãe. Ele foi bom para mim, na maior parte do tempo. Minhas memórias confusas de infância dele são, eu acho, normais, até agradáveis. Ele me levou a jogos de beisebol, inventou músicas bobas para mim, me ajudou com a lição de casa de matemática, me surpreendeu com doces. Mas algum tempo depois que eu saí de casa, ele começou a mudar.
Como Rebekah, eu percebi que Blue Prince era sobre perder muito tempo depois de insistir em “ganhar”. É um jogo sem respostas, mas não sem propósito, eu acho. É profundamente triste em algumas jogatinas, e libertador em outras. Eu acho que justamente isso o faz um registro incrível do que é o luto. Sempre inacabado, muitas vezes triste. Algumas vezes bonito, até. Dificílimo de descrever como é um labirinto que a gente nunca sai, exatamente, mas sempre percebe algo novo dentro dele. É o que fica, e em alguns momentos até que esse mistério é suficiente.
Como curar um coração partido
A newsletter Good News de Mike Monteiro é uma das melhores coisas que eu acompanho (também disponível em um feed RSS). Em cada post, Monteiro responde a uma pergunta de um leitor — e com isso, destrincha o comportamento humano.
Essa semana, a dúvida era sobre como se cura um coração partido. Com essa, Monteiro observa:
Espero que meu coração nunca pare de se partir. Porque eu estou rodeado de atos dolorosos. Eu tenho muito medo do que aconteceria se meu coração parasse de reconhecer isso. Tenho muito medo do que aconteceria se meu coração se acostumasse com o que está acontecendo.
[…] Espero que o meu coração nunca pare de se partir. Espero que ele se parta todos os dias. Espero que cada pedaço dele tenha um nome, um evento ou uma memória associada a ele. Espero me lembrar de cada um desses nomes, eventos e memõrias. Espero passar meus dias tentando remendar meu coração. Mesmo sabendo que será impossível. Mesmo sabendo que as peças nunca mais se encaixarão da mesma forma.
Esses tempo, na anãlise, eu falei algo pro meu analista que me corroía há muito tempo, mas eu não tinha o vocabulário pra dizer. Eu disse que eu não sabia o que fazer com tudo o que eu ainda sentia sobre coisas que não existiam mais. Sobre amizades que acabaram, amores passados, carinhos que não tenho mais, terrores que eu lembro. Pra que serviam essas coisas, se não pra me assombrar?
Na mesma hora, a resposta veio. Tanto do meu analista, quanto da minha própria cabeça. Elas nos assombram porque estamos vivos. É o que nos torna vivos, presentes, atentos, e abertos para sentir de novo — porque o coração vai se partir, e a gente vai procurar amor, alegria e segurança de novo, para conseguir curá-lo.
As semelhanças entre sua vida e um cachorro
I never intended to have this life, believe me— It just happened. You know how dogs turn up At a farm, and they wag but can’t explain.
It’s good if you can accept your life—you’ll notice Your face has become deranged trying to adjust To it. Your face thought your life would look
Like your bedroom mirror when you were ten. That was a clear river touched by mountain wind. Even your parents can’t believe how much you’ve changed.
Sparrows in winter, if you’ve ever held one, all feathers, Burst out of your hand with a fiery glee. You see them later in hedges. Teachers praise you,
But you can’t quite get back to the winter sparrow. Your life is a dog. He’s been hungry for miles, Doesn’t particularly like you, but gives up, and comes in.
— Richard Bly, “The Resemblance Between Your Life and a Dog” (via Laura Olin)
Em defesa dos navegadores em consoles de videogame
Por alguma razão misteriosa na forma como eu tropeço em links na internet, eu me deparei com dois links que tocam no assunto ultra-específico de navegadores em consoles de videogame.
O primeiro, é esse baita trabalho de pesquisa por Declan Chidlow em documentar a interface desses navegadores, passando por curiosidades como o CD-i e o Apple Pippin até o PlayStation 2 e o Wii — e então pros consoles mais recentes.
Web Browsers on Video Game Consoles ↦ Vale.Rocks
A comprehensive history of web browsers on video game consoles. From the CD-i to modern systems, exploring the evolution of the web on consoles in detail. Covering bespoke iterations, releases by PlanetWeb and NetFront, contemporary engines across Sega, PlayStation, Nintendo, and Xbox platforms, and other details. 11/06/26
Eu sempre gostei do fato do Wii e do 3DS terem navegadores. Eu nunca usei muito eles além da parte em que eles facilitam os hacks para homebrew de ambos os consoles. Porém, eu sempre achei curiosa a forma como a Nintendo e a desenvolvedora responsável por esses navegadores faziam um esforço em usar as capacidades específicas de hardware na navegação. No Wii, era o uso do sensor de movimentos pra controlar o ponteiro; no 3DS, o recurso de duas telas espalhava os controles pela tela de toque enquanto a de cima exibia o conteúdo da página.
Eu me deparei com o segundo link quase que por engano. Em um artigo sobre como construir sites principalmente em HTML melhorou as métricas de visitas de um site tem um link para outro artigo sobre a importância da simplicidade no desenvolvimento para a web. É nesse link que está essa pequena anedota de Terence Eden:
Há alguns anos, eu estava fazendo pesquisa de políticas públicas em um escritório de auxílio-moradia em Londres. São lugares singularmente desagradáveis. As paredes estão repletas de cartazes oferecendo serviços úteis para pessoas que fogem da violência doméstica. Os seguranças na porta demonstram uma indiferença cautelosa a quem entra. O ar é carregado de conversas tensas entre casais, abafadas pelo barulho de crianças gritando.
No meio, tem uma jovem sentada em uma cadeira de plástico rígido. Ela está cercada por sacolas contendo seus pertences. Ela não parece estar em um bom momento. Em suas mãos, ela segura um console de videogame – um PlayStation Portable. Ela o encara intensamente, bloqueando o mundo com Candy Crush.
Ou, pelo menos, era o que eu pensava.
Passando por ela, dou uma olhada em seu console e reconheço a tela em que ela está. Ela está conectada ao Wi-Fi do prédio e navegando nas páginas do GOV.UK sobre Auxílio-Moradia. Ela não está cortando frutas; está se munindo de conhecimento.
O navegador web do PSP é — para dizer o mínimo — [patético]. É lento, frequentemente fica sem memória e só consegue abrir 3 abas simultaneamente.
Mas as páginas do GOV.UK são escritas em HTML simples. Elas são projetadas para serem leves e funcionarem até em navegadores ruins. Precisam funcionar. Isso é para todos.
Desenvolvimento para a web pensando nessas situações sempre foi o que me guiou a desenvolver com HTML antes, scripts depois. Eu morei por muito tempo no interior, no meio do campo, sem acesso à infraestrutura de internet de boa qualidade. Existem limites do que essas conexões conseguem oferecer, e é o nosso trabalho como desenvolvedores esquecer que nossos MacBooks conectados à internet de alta velocidade podem fazer, e lembrar de tudo o que um Moto G de 2018 no interior de, sei lá, Minas Gerais, vai conseguir fazer também. Todo o resto de performance a gente pode usar para melhorar uma experiência. Mas ela já tem que ser boa o suficiente pro usuário com o pior hardware possível.
É um pouco do que me faz querer que o nosso gov.br fosse mais pensado para essa parte da população. A infraestrutura do gov.br é pensada para o melhor hardware possível — mas a parcela de quem vai acessar esses serviços usando o iPhone do ano é mínima.
Tudo isso pra dizer que eu lembro de ter feito um sitezinho na aula de programação no segundo ano do ensino médio e ter testado ela usando o navegador do Wii. Foi mágico usar o Wii Remote para apertar em botões que eu mesmo desenvolvi. Até hoje essas pequenas felicidades de programação me impulsionam pra seguir em frente.

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Um guia para a leitura desse futuro blog
Olá, e boas vindas ao Irrelefante, um blog de tropeços pela internet. Essa é uma definição bem ampla do que eu espero que o Irrelefante seja no futuro. Mas ele ainda não é isso. Com dedicação o suficiente, nos próximos anos eu imagino que esse blog vai estar repleto de posts sobre pequenas descobertas do dia-a-dia, observações sobre a cultura, e aventuras por cantos ultra-específicos da internet. Eu quero que o Irrelefante seja um blog para pessoas que gostam de navegar pela internet. É uma continuação, mais ampla e menos rigorosa, da forma que o meu antigo blog (o Pão com Mortadela) assumiu.
Agora, para ser específico. Com o passar do tempo você vai ver algumas sessões aparecendo na página inicial desse blog.
Impressões é como eu chamo as “resenhas”. Eu não considero crítica. Tá mais para observações sobre filmes, livros, jogos, séries e músicas que eu experimento por aí. Eu espero que elas se tornem mais comuns nos meses seguintes — meu foco é justamente escrever mais sobre o que eu tenho gostado.
Do Pão com Mortadela esse blog herda as Esquinas, que eram os posts mais bem elaborados, o encontro de ideias e temas que andam me interessando em uma conversa entre elas.
O que mais vai aparecer por aqui, provavelmente, são Achados. São tropeços em descobertas de coisas legais: um link bacana, um filme que eu não tinha encontrado antes, uma recomendação de livro que ficou esperando na minha estante (eu sou um leitor lento!).
O que você está lendo agora, é uma versão longa das Notas, que são posts mais curtos e menos “definidos”. Alguma atualização sobre o que anda acontecendo, uma impressão curta demais para se aprofundar. Geralmente, são ou posts mais pessoais do meu dia-a-dia ou posts sobre o blog em si.
E por motivos de estar meio Rory Gilmore das ideias, Listas é uma seção justamente de… listas. Pode ser ranking, pode ser só uma longa tripa de coisas sem muito critério. Se fazem sentido juntas, provavelmente vai estar numa lista, e provavelmente vai estar por aqui.
Acima de tudo, essas seções são uma tentativa de ajudar você a navegar comigo pelo inesperado. Como no Pão, eu pretendo convidar autores para postar aqui de vez em quando ou para colaborar numa lista comigo. Eu pretendo que as coisas mudem e se desdobrem, mas eu quero que essas bases se mantenham para que me ajudem tanto a dar uma forma ao blog (o que eu sinto falta no Tumblr onde minha escrita tem ficado desde o fim do Pão).
Você vai ver posts mais antigos que esse aparecendo no arquivo do blog. É uma forma de eu recuperar o que eu escrevi nos últimos meses, tentando iniciar o Irrelefante. Considere eles como rascunhos que, no fim das contas, acabaram passando na fila de edição. Eles não são muito bons, mas espero que eles tenham um gostinho do que o Irrelefante pode oferecer no futuro. Eu espero que você goste, e volte sempre que quiser.
Tenham um fim de semana aconchegante
O tempo tá bem incerto nesse fim de semana por aqui. Não tem um raio de sol no céu, e as vezes parece que vai chover. Até cai uns pingos, mas a chuva não desce de vez. Parece bem um dia de inverno, mesmo que ele não tenha chegado ainda.
Meu fim de semana passado foi muito agitado. Eu me atrapalhei com alguns conflitos no calendário e acabei combinando com vários amigos compromissos que se atropelaram. Mas deu tudo certo, todo mundo foi contemplado, mesmo que tenha sido um pouco corrido. No domingo, quando a última visita foi embora, eu simplesmente desmaiei na cama e acordei atrasado no dia seguinte.
Nesse fim de semana eu vou dar uma descansada. Vou fazer uma janta pra um amigo, mas fora isso eu evitei de marcar qualquer coisa. Minhas pernas ainda estão um pouco cansadas do tanto que eu caminhei durante a semana (foram mais de 50km!), então tá sendo um bom dia pra me perder um pouco em Hyrule (eu estou jogando _Tears of the Kingdom_ de novo) e tentar terminar Metroid Prime 4. Eu finalmente consegui configurar o HDR do Nintendo Switch 2 direito, quase um ano depois.
Espero que o fim de semana seja aconchegante como o meu. Aí vão alguns dos links que colecionei essa semana.
Wiki File Explorer: uma forma de navegar na Wikipédia como se ela fosse um diretório no seu Windows XP. Provavelmente vai ser meu link favorito do ano.
In Good Hands: um textinho breve sobre quando a gente confia em alguém pra mudar um pouco o nosso modo de ver as coisas. É tão bom quando nos cercamos de pessoas que nos deixam exatamente assim — curiosas.
How Writing Lead to Thinking (and Not the Other Way Around)][historians: eu tinha essa suspeita e esse artigo basicamente confirma que escrever ajuda a gente a pensar. Eu ando escrevendo muito pouco, e tava dando uma olhada no quanto eu escrevia (e pensava) pro Pão, e sinto falta disso. Acho que vou retomar esse tipo de blog no futuro. Pensando como.
Por hoje é isso, muito obrigado por ler.
Um obituário do metaverso
Nick Heer é um dos melhores autores que observam a tecnologia. Ele sempre tem opiniões muito bem embasadas que, mesmo quando eu não concordo completamente, me fazem ponderar e reconsiderar minhas certezas. No seu blog Pixel Envy, ele publicou recentemente o que eu acho que é o melhor obituário possível para o metaverso, e as loucuras que empresas como o Facebook, a Epic Games e Roblox fizeram (sem falar projetos como o Decentraland):
It turns out we are okay with having meetings and playing games online, but we actually like seeing live music in-person and travelling to real places. The problems each of these things may have — high costs, environmental impact, and so on — are notable and real, but are not ones with metaverse-based solutions.
The pandemic did not make the metaverse. There was sufficient interest in developing it well before then, and it is possible all of these companies would have announced all these products and services on the same timeline. But in a world without a pandemic, I cannot imagine anyone would have treated these metaverse announcements with anything like the seriousness they did. The pandemic officially ended in the U.S. just six months after the first release of ChatGPT, so it is impossible to disentangle the influence of either. But it is notable to me that the nosedive in mentions of “metaverse” on Meta’s investor calls occurred in Q3 2023 — the quarter immediately following the declared end of the pandemic.
Ele ainda termina com um toque quase esperançoso. Dá pra ver que Heer cresceu vendo a internet florescer. Esse tipo de otimismo é de quem viu protocolos e tecnologias sendo criadas na nossa frente no início da internet:
[…] Whatever that ends up being will probably be the result of people finding something useful and intriguing about doing something different. It will not be the product of big companies redirecting the money hose of platform fees onto themselves.
Recomendo muito o Pixel Envy. É uma ótima leitura toda a manhã.
Point out the good.
Topher Kearby, via swissmiss:
point out the good when you see it.
in life, in others, in yourself.
because the world needs to remember what kindness and love look like.
A música tema de Pokémon Ventos & Ondas
Achei lindo o tema de Pokémon Ventos & Ondas, que deve ser lançado em novembro do ano que vem.
Me remeteu muito ao tema de Diamond & Pearl pro Nintendo DS. Quando eu ouvi o tema pela primeira vez eu me lembro de ter ficado curioso porque a música parecia indicar bastante… mistério, de alguma forma? Ventos & Ondas é mais agitada, mas ali no finzinho parece ter uma sugestão de mistério de novo. Como fã de Diamond & Pearl, minha geração favorita, eu é que não vou reclamar.
Eu não joguei Scarlet & Violet porque tudo o que eu vi do jogo me desanimou, mas tudo que eu vejo de Vento & Ondas me anima. Acho que vai ser o primeiro jogo de Pokémon que eu vou jogar de verdade desde o Let’s Go e Legends: Arceus.
Meio absurdo (e desanimador) esse ser o único grande título pro Nintendo Switch 2 anunciado, e o console lançou já faz quase um ano.

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Shape of Dreams (ou, eu quero um filme novo do Spike Jonze)
Eu quero poucas coisas na vida. Uma das coisas que eu mais quero na vida, é um novo filme do Spike Jonze, um dos meus diretores favoritos. Ele fez obras-primas como Onde Vivem Os Monstros, talvez o melhor filme sobre o que é ser criança já feito, e Ela, seu último filme — em 2013.
Desde então, eu espero ansiosamente por um novo trabalho dele. Jonze ia dirigir uma série para a Netflix, mas pelo visto o projeto degringolou. Eu não sei porque a Apple TV ainda não ofereceu pra ele um cheque em branco — tem mais de uma série no serviço que bebe tanto da criatividade de Jonze que quase dá pra processar por cópia (Sunny, Mr. Corman).
Enquanto isso, nos resta o trabalho com publicidade dele. O mais recente é Shape of Dreams, que ele escreveu e dirigiu para a coleção de roupas que a Zendaya criou para a marca suíça On:
Como todos os trabalhos de Jonze, suas publicidades também têm essa impressão tão bonita e cada vez mais rara de serem feitas à mão. A ideia é muito simples — Zendaya “molda” as roupas das outras pessoas “puxando” e “apertando” formas ao redor delas, em um jogo de encenação e posicionamento de câmera. Das ideias de Jonze, é uma das mais simples. Mas a execução é um charme, realmente delicada e bem humorada.
É do Jonze também a insana Kenzo World:
E a minha favorita das suas publicidades recentes, a Welcome Home apresentando o primeiro HomePod da Apple. É genial tanto em ideia (uma simplicidade de dar inveja) e execução (maravilhosa, toda em efeitos práticos):
Lá vou eu rever Quero Ser John Malkovich.
Links pra essa quinta-feira, 30 de abril
Aqui vão alguns links bacanas pra explorar no feriado:
Linha do tempo da Artemis II em fotos: criada por Hank Green graças à informação pública na web. O Flickr preserva os dados EXIF das fotos que a NASA publica em suas contas por lá; e a própria NASA tem uma API pública para a posição da Orion em qualquer momento no intervalo de tempo da missão. Tirei um papel de parede daqui.
Cursor Camp: o meu tipo de MMO. Um parquinho para você dar um tempo com outros cursores ao redor do mundo. É surpreendente a quantidade de atividades bacanas que tem por lá, eu até fiz um gol numa partida de futebol e caí de um tobogã.
Quem são os amigos inesperados em sua vida?: belíssimo texto sobre uma amizade que surgiu através da rotina e do convívio com um vizinho. Muitas das minhas amizades pós-faculdade vieram assim. O poder que um “oi, bom dia” todo dia cria através do tempo é mágico.
rip.so: um “obituário para coisas da internet”. MSN, Orkut, Google Reader… todos tem um textinho que celebrou o que essas coisas trouxeram, e o que o fim delas levou da internet. GeoCities, meu tão adorado, é um deles.
Neal Wittington, em Present & Correct:
Na Alemanha, no fim de semana, vasculhando um mercado de pulgas em busca de coisas para a loja, também encontramos um livro de projetos/planos para casas modernistas. Publicado em São Paulo em 1956, abaixo digitalizamos alguns favoritos.
As ilustrações são lindas. Me lembro de encontrar algumas casas e prédios assim. Com o tempo elas foram ficando mais e mais raras. Aqui no centro de Porto Alegre ainda tem um prédio que mantém esse estilo, mas é um dos poucos que resiste à ditadura do concreto da Melnick.
Betty Blue
É a primeira vez que eu assisto a versão de cinema de Betty Blue. Eu sempre assisti a versão do diretor, e tinha um preconceito com a versão de cinema porque o que eu mais gosto nesse filme é a forma como ele espaça o tempo — parece muito que a gente acompanha Betty e Zorg nos meses (ou anos?) em que eles estão juntos. É muito emocionante, no final, quando Zorg encontra a foto que Betty tirou deles no início do filme. Sempre me pega muito.
Bem, erro meu. Eu acho que a versão original do cinema é ainda mais eficaz. Essa versão de Betty Blue ainda tem muitas esquinas pra se perder, momentos da vida a dois de Betty e Zorg que o filme passa magicamente tempo demais, sem que isso seja um problema. Eles tornam a vida do casal mais específica e mais tangível do outro lado da tela. Quase que dá pra sentir o calor do verão naquelas cabanas, e o vento frio do inverno na casa em que o relacionamento deles acaba de forma trágica.
Eu tenho a impressão que a versão do diretor tem mais dessas “etapas” do relacionamento deles, mas eu não consigo me lembrar exatamente de quais (o que eu acho que é um ponto a favor desse corte original), e se perde na repetição. A versão estendida, inclusive, parece descaracterizar mais Betty, porque tudo o que o corte adiciona é em relação a Zorg. A dinâmica entre os dois é bem melhor balanceada aqui, o que realça mais as frustrações de Betty sobre o comportamento do namorado, e também toda a força da natureza que ela têm para empurrar a vida que eles têm para outros caminhos, possivelmente melhores.
É bem mais engraçado, também. Eu lembro que o corte estendido é ainda mais triste — Zorg é mais pau no cu com mais tempo de tela —, já aqui o filme ainda é bem humorado até o último ato, em que a tragédia assola os personagens.
De resto, esse filme sempre foi muito lindo. É um filme dessas gerações perdidas que aparecem de tempos em tempos, com horizontes gigantes e vazios de esperança. A melancolia parece ecoar nesse horizonte, e quando acaba realmente parece que uma vida inteira passou voando, como a própria vida de Betty. Lindo demais.
Mapas dos relacionamentos entre pinguins em museus do Japão
Esses fluxogramas (pra mim isso é mais um mapa) dos relacionamentos dos penguins dos aquários de Quioto e de Sumida, em Tóquio tão sendo uma leitura impressionante. É tanto drama!
Via Spoon & Tamago:
Penguins are highly social species. They like being with others and, like humans, this can often lead to polyamorous and sometimes scandalous situations. Penguin drama can include serious crushes and heartbreaks but also adultery and egg-stealing. Penguins may even develop crushes on their caretakers. And these Japanese aquariums have it all charted in a flowchart that can be studied for hours.
Posso concordar. Ler esse fluxograma tirou (ou melhorou?) horas da minha quarta-feira.

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A Noiva
Achei uma bagunça, mas é um bom tipo de bagunça. Gyllenhaal já tinha mostrado, em A Filha Perdida, que ela acredita no público e não faz questão de segurar a mão dele pra acompanhar. A Noiva! segue a mesma abordagem. É um filme implacável em suas ideias. A diferença é que aqui nenhuma delas é muito bem construída. Mas eu prefiro mil vezes um filme que tem tanta coisa a dizer, e não consegue ter fôlego pra tudo, do que um filme que quer dizer só uma coisa, e mal tem vocabulário pro que acha que tem.
Minha única ressalva é que o filme quer mais ser uma releitura de Bonnie & Clyde do que de Frankenstein. Eu até entendo, mas quando a gente tem a oportunidade de trabalhar com uma obra-prima como a da Mary Shelley eu acho que eu não iria querer saber de outra coisa.
Pai Mãe Irmão Irmã
Saí da sessão já falando pro Erê que esse é o meu tipo de filme: uma tríade de pequenas histórias em que suas motivações e conclusões são tão ambíguas que elas podem não existir. Nada parece acontecer, mas Jarmusch observa tudo: os silêncios, os pequenos gestos, a forma como os personagens se movimentam pela cena. Tudo o que é dito, tudo o que não é dito e tudo o que fica pelo caminho.
Jarmusch usa muito bem a estrutura de três histórias que não se conectam, mas rimam. Essas rimas mais pontuam outros detalhes que parecem aproximar essas histórias: a distância que existe entre esses pais e filhos que parece intransponível, e um silêncio que é cômico, até ficar melancólico. E embora o filme todo seja engraçado, essa melancolia vai tomando conta dos personagens conforme as histórias progridem e a gente vê a distância entre essas pessoas, que se amam, só aumentar.
A segunda história, Mãe, é a minha favorita. Ajuda que tem três atrizes fantásticas em um jogo de comportamentos preciso. É um ótimo lembrete da força monumental da Cate Blanchett, que em uma cena de alguns segundos sozinha dentro de um banheiro transmite toda a tristeza de uma vida inteira de sua personagem para o espectador.