Era difícil calcular há quanto tempo a garota de longos cabelos vermelhos caminhava sem rumo. De fato, uma coisa era certa: sua postura, geralmente ereta pelo costume, estava claramente afetada pela falta de equilíbrio que tomava toda a extensão de seu corpo, concentrando-se de forma excêntrica nos pés calçados pelo coturno de cano baixo acompanhado por um salto de dez centímetros. Se aquele tipo de situação não fosse algo costumeiro, a queda seria certa. Mas aquilo era como uma rotina para Ellie Warrington.
Fora difícil livrar-se de Peter naquela noite. O melhor amigo insistia que Ellie não tinha a mínima condição de andar sozinha por uma cidade como Vegas, com tantas bebidas de suas marcas preferidas prontas para serem compradas pela identidade falsa da garota. Ter a companhia de alguém, entretanto, não estava em seus planos, ainda que esta pertencesse ao seu companheiro de festas. Warrington queria apenas aproveitar do seu silêncio para ouvir os sons de Vegas. Sentir aquela vibe insana que exalava da cidade das perdições.
E fora exatamente isso o que a ruiva fez. Mas não estava exatamente sozinha.
A garrafa incrivelmente gelada de Absolut 100 © era presa com propriedade pelos dedos alvos, enquanto os lábios pintados de vermelho recebiam generosas quantidades do conteúdo desta de tempos em tempos, sem pressa alguma. O gosto forte atiçava o paladar, fazendo uma perfeita parceria com a fumaça tóxica tragada nos intervalos dos goles. Vícios destrutivos mas envolventes, que absorviam-se de maneira temporária na blusa cropped com a palavra “Dope" marcada como adorno, e na calça destroyed preta. Era o paraíso.
O subúrbio de Las Vegas era extremamente interessante aos olhos carregados de rímel da garota já não tão sóbria. Ou, melhor dizendo, não tão bêbada assim. A aparência completamente fora dos padrões “decentes” da sociedade simplesmente a encantava. Era diferente de tudo o que Warrington observara na rica Wilmmend, e até mesmo das cidades vizinhas nas quais a ruiva costumava se aventurar de maneira clandestina. De qualquer forma, um sentimento bom a inundou, fazendo com que Ellie sentasse para aproveitar o momento, com as costas apoiadas numa caçamba. O beco era escuro, mas sua garrafa e seu cigarro estavam lá para lhe fazer companhia.
O fim de seu maço chegou, juntamente com uma mulher loira de olhos escuros.
Os olhos extremamente azuis da ruiva semicerraram-se com o intuito de enxergar através da falta de claridade, mas sua visão já estava comprometida. “O que você está fazendo aqui, garota?" a voz firme lhe perguntou, fazendo com que Ellie risse, tomando mais um gole de sua bebida. – Bebendo. Mas achei que isso fosse óbvio. –deu de ombros com casualidade, a sinceridade exalando de suas palavras. “Você não deveria estar em casa?" continuou, ignorando a resposta aparentemente atravessada da ruiva. Esta suspirou, sentindo-se repentinamente cabisbaixa. – Eu não tenho casa. – disse simplesmente, olhando de forma fixa para o rótulo de sua garrafa. “Oh não? Então eu conheço um lugar perfeito para você." sorriu a loira, um sorriso esperto, vivido. Ajudou a garota a se levantar, arrastando-a consigo para um lugar não muito longe dali.
O caminho fora curto, mas não muito nítido para a ruiva. Esta quis protestar em alguns momentos. Odiava que impusessem algo a ela, porém, ao notar as roupas da mulher que a acompanhava, um toque de curiosidade tomou conta de si. – Você é uma puta! – disse animada. Sempre tivera a curiosidade de conhecer alguém que exercesse aquela profissão, mas a loira limitou-se apenas a revirar os olhos, adentrando um bar suspeito, fazendo Ellie segui-la.
O local era, no mínimo, estranho. As luzes fracas iluminavam toda a sua extensão, aumentando a intensidade apenas sobre o palco no qual uma mulher negra extremamente bela dançava sensualmente fantasiada de diabo. No bar, um homem musculoso, mais ou menos na casa dos quarenta anos, servia as bebidas para outros homens com um tipo parecido, a maioria vestido de jaquetas de couro adornadas com símbolos de gangues. Ellie colocou as mãos no bolso de sua usual jaqueta, feliz por ter algo em comum com o público dali além do cheiro de tabaco. Pelo o que a garota pôde notar, era a única mulher visitante dali. As outras eram apenas empregadas do lugar. “John, eu trouxe um presentinho pra você" a loira, a qual Warrington tinha se esquecido por alguns segundos, anunciou de forma marota ao homem do bar, causando neste um sorriso travesso, juvenil, porém malicioso.
Duas mesas adiante, entretanto, olhos castanhos foram captados pelos azuis. Olhos conhecidos, assim como a cabeleira loira desgrenhada.
O súbito da sensação que o invadiu ao por os pés no assoalho desgastado o pegou tão desprevenido quanto o resquício de sorriso que se formou em seus lábios ao percorrer os olhos pelo local não visitado há mais de um ano.
A luxúria conhecida pelos turistas não era nada comparada aquele lugar abandonado pelo pudor e esquecido pelo requinto. Hellgas era terra de ninguém; sem arquétipos, estereótipos, rótulos, classe social, cor e, acima de tudo, sem regras delimitadas.
A fumaça espessa oprimia a visão de uma determinada ala do bar, de onde só se podiam distinguir, no opaco vapor, os embriagantes sorrisos sensuais e o entrelaçar de pernas. Risadas altas ecoavam estridentes, no que Chris costumava classificar como “estilo pirataria”; apostas eram travadas nada discretamente enquanto no canto oposto do estabelecimento podia-se perder nos sussurros clandestinos de contrabandeardes.
Os olhos do rapaz percorriam tudo, ao mesmo tempo em que suas mãos preparavam o cigarro que seria levado á boca em breve. O andar de cima lhe chamou a atenção, havia sido reforçado, provavelmente devido ao incontável número de acidentes provocados naquele mesmo local. Ele buscou por rostos conhecidos – um em especial – e não pôde considerar o esforço totalmente perdido, visto que conseguiu identificar, em meio à tumultuada explosão de identidades, figuras particularmente conhecidas.
No bar, servindo bebidas na copa, Chris reconheceu Molotov; quarentão observador e motoqueiro selvagem – havia sido agraciado com aquele apelido devido à função exercida, ironicamente combinada com a peculiaridade de seu temperamento. Entretanto, a veracidade das histórias contadas sobre ele jamais transparecia durante seu expediente, pelo menos não enquanto Chris esteve em sua presença. O homem limitava-se a observar e trocar palavras com quem conhecesse o suficiente, características admiradas e dotadas por Elwin, que simpatizava muito com o barman.
Subitamente, uma voz ribombou e percorreu cada centímetro do bar, soando estrondosa e imponente como de costume. Um sorriso se formou em torno do cigarro preso a boca de Chris ao reconhecer o cinquentão, nanico e gorducho, de cabelos pretos caindo desgrenhadamente até o meio das costas, cobrindo sua camiseta do Black Sabbath. Logo, todo o bar divertia-se com a delicadeza usual de suas palavras:
- Quantas vezes vou ser obrigado a repetir, seu cara de fuinha gratinada?! Já mandei passar a chave na maldita porta daquele maldito quarto, não quero ninguém trocando gentilezas no meu lençol favorito! Se eu vir mais alguém passando por aquela porta, eu mesmo cuidarei para que você e os malditos fanfarrões sejam pendurados pelas partes do lado de fora do meu bar, para servir de exemplo para qualquer um que ousar tentar me desobedecer de novo, estamos entendidos? – esbravejou o homem, gesticulando e cuspindo em direção a um jovem rapaz, conhecido de vista por Chris, que se encontrava no andar de cima e correra pálido no intuito de esvaziar o quarto.
Decidindo ir até Angel – dono de sermões lendários, brigas históricas e do estabelecimento – Chris começou a partir em direção a copa, contudo, mal completou dois passos e seu caminho foi obstruído por um belo obstáculo; a loira de olhos escuros, embriagantes e experientes, o observou de cima a baixo com as mãos nos quadris e um sorriso provocante:
– Posso ajuda-lo em alguma coisa, querido? – a pergunta aparentemente despretensiosa conseguia se tornar sensualmente insinuante quando proferida pelos lábios espessos da loira; Chris reparou neles enquanto reconhecia seu rosto mais uma vez. Tratava-se de Lacey, uma das prostitutas mais requisitadas daquela região, e amiga de longa data de Dakota.
– Não, Lacey, obrigado – respondeu Chris, ainda concentrado na figura pouco judiada pelo tempo, demorando-se em seus lábios. O rapaz retirou o cigarro da boca e soltou a fumaça de lado, os olhos ainda permaneciam fixos e semicerrados nos de Lacey, que franzia o cenho buscando reconhecer o rosto estranhamente familiar. Mas, antes que ela pudesse descobrir, com um último sorriso lateral e uma mais uma olhada discreta, Chris afastou-se em direção ao bar.
A loira permanecia com os olhos no rapaz, rastreando seus movimentos, e com um sorriso travesso virou-se de costas, rebolando até a porta e engalfinhando-se na noite. Enquanto isso, o garoto acomodava-se em um dos bancos velhos e bambos, apoiando os dois antebraços sob a copa do bar, onde podia assistir um Angel mal- humorado ralhando com um auxiliar de Molotov. Chris soltou uma breve risada, esperando o sermão acabar, e escolhendo suas próprias palavras para provocar o velho amigo:
– Finalmente você mandou fechar aquele maldito quarto e reforçar o andaime de cima, afinal, o bar tem uma reputação pela qual zelar, não é? – As palavras foram meticulosamente escolhidas pelo loiro, e ele sabia exatamente como reagiria o homem.
Assim como havia imaginado, Chris assistiu Angel paralisar e cerrar os punhos, ainda virado de costas para onde o rapaz se encontrava; seu bar poderia ser um antro mal encarado, mas somente ele, como dono, poderia tirar uma conclusão como aquela:
– Preste bem atenção no que vou te dizer, seu... – O punho já estava na altura de sua barriga rechonchuda quando Angel virou-se para o insolente, porém seus movimentos foram abruptamente frustrados pelo reconhecimento do enunciador. Os pequeninos olhos azuis do cinquentão se arregalaram enquanto ele encarava a face resignada de Chris, finalmente reconhecendo –o.
– Langdon? Langdon é você, rapaz? – perguntou o homem, comprimindo os olhos para ter certeza.
– Mais jovem e bonito. – respondeu o loiro, assentindo com um maneio de cabeça e um sorriso sucinto.
– Mas é claro que é você! – Angel bateu a mão direita espalmada no balcão, abrindo um sorriso estupefato e soltando uma gargalhada trovejante logo em seguida – Você escutou Molotov? Nosso garoto está de volta, Langdon está aqui! Um whisky duplo para o garoto!
Chris estendeu a mão para cumprimentar Angel, mas este a ignorou, fazendo um gesto brusco e encaminhando-se para uma portinhola que dava para a área externa. Enquanto o outro terminava o trajeto, Molotov desatou a andar até Chris e lhe estender a mão com um sorriso largo e sincero.
– Como vai, garoto? – Chris correspondeu o aperto de mão e retribuiu o sorriso do amigo, algo raro em seu repertório – É bom que esteja de volta. – o quarentão deu dois tapinhas leves nas costas do loiro, que por sua vez repetiu o gesto.
Mal havia terminado de responder a pergunta do barman e Chris foi repentinamente preso em um abraço – nada delicado, diga-se de passagem – sentindo tapinhas consideravelmente mais bruscos em suas costas.
– Ah, seu moleque atrevido, fale assim comigo de novo e eu farei você engolir esse cigarro pelo lado errado! – afirmou Angel, mas seu tom de voz não carregava uma só gota de ressentimento, muito menos chegava a ser ameaçador. Chris soltou uma breve risada e fez uma careta pela demonstração de afeto, com a qual ele não estava nada acostumado. – Onde é que você se meteu seu moleque? – perguntou o homem, mas não esperou por uma resposta – Se enfiou em algum bordel mal acabado e decidiu desaparecer do mapa, não é? Seu ingrato, o procuramos por toda a parte! Dakota também não da às caras por aqui há um bom tempo!
– Você sabe que não teria ido embora se tivesse escolha, Angel – assentiu Chris, com sinceridade, batendo duas vezes no ombro do velho amigo – A idade está te deixando dramático, cabeleira? Nenhum outro bordel mal acabado substituiria o meu bordel mal acabado favorito – sorriu lateralmente, percorrendo o perímetro do bar com os olhos, e Angel soube; o garoto que conhecia como Langdon, estava feliz em estar de volta. – Pois ela já deve estar pintando por ai, hoje terá duplo trabalho com as bebidas.
Depois de inúmeras perguntas – estas respondidas com meias palavras pelo rapaz– Angel levou-o para conhecer as reformas e os avanços do bar, contando divertidas e indiscretas histórias, das quais Chris ria e comentava com um humor nunca visto pelos companheiros de viagem.
– Olhe lá, é o John – apontou Angel, e Chris olhou por cima dos ombros, enquanto sorvia o conteúdo de sua garrafa de J. Wray e Nephew– JOHN! Aqui seu imprestável, venha ver quem deu as caras por aqui! – o rapaz respirou fundo antes de dar mais um interminável gole em sua bebida; se teria de rever John, precisaria de algum incentivo. O loiro nunca simpatizara com o outro, considerando-o um babaca de primeira mão.
Não tardou para que Chris conseguisse identificar a imagem do homem saindo da fumaça concentrada na ala antes descrita; John era um cafetão petulante que investia em jovens moças para aumentar os lucros, neste exato momento tinha duas delas engalfinhadas em seu pescoço. O usual sorriso pretencioso decorava o lado esquerdo de seu rosto, o direito era ocupado por uma fina e longa cicatriz feita, provavelmente, por uma navalha. Ele jamais abandonava a pose de poder, emanando uma influencia sobre a maioria das pessoas. Na opinião de Chris, a única coisa que ele era capaz de despertar era desprezo e nojo.
– Mas olha só quem temos aqui... – o homem alargou o sinistro sorriso, deixando os olhos semicerrarem-se ao encontrarem a figura de Chris – Tragam-me bebida, meus amores– disse, encostando os lábios sob o pescoço da morena á sua esquerda e dando um tapinha no quadril da loira á direita, que soltou uma risadinha e lhe retribuiu um sorriso travesso. Chris arqueou o cenho, resistindo ao impulso de revirar os olhos, e se restringiu a manear a cabeça em resposta, “John”.
– Langdon, Langdon... – O homem foi se aproximando, colocando uma das mãos sob os ombros de Chris, que fez uma careta nada discreta. – Deu uma canseira no velho Angel aqui, sumiu – semicerrou os olhos – Como é que vão você e Dakota? Ainda zerado, ou já conseguiu avançar o sinal, huh? – arqueou o cenho, arregalando os olhos de forma doentia.
Chris o fitou com puro desprezo, a mandíbula contraindo-se involuntariamente – Não tão zerado quanto sua habilidade em ser agradável, mas... – comprimiu os olhos, sorrindo cinicamente. John, por sua vez, trocou o peso de uma perna para outra, e fitou os olhos do garoto ameaçadoramente; uma tensão pairou sob o ar, tornando-o espesso ao emanar tal energia, contudo, o homem desatou a rir, batendo mais duas vezes nas costas do garoto e finalizando com uma simples afirmação duvidosa, “Ah, Langdon, sentimos sua falta”. O loiro apenas assentiu com um sorriso amarelo, tornando a voltar-se para a copa do bar e retomar a conversa com Molotov.
Passados mais dez minutos, Chris começou a ficar impaciente; Dakota já deveria estar ali há mais de uma hora. Ele esforçava-se ao máximo para prestar atenção no que dizia Angel, mas de tempos em tempos checava o celular no intuito de conseguir noticias da amiga.
“Você está atrasada, Reeves, se perdeu no caminho é?”
Mais dez minutos e nenhuma noticia de Dakota. Chris começou a remexer-se inquieto, e sua garrafa esvaziou-se mais rapidamente nos últimos instantes, assim como seu maço de cigarros. Isso era típico de Dakota, pensou Chris; mudar os planos, assim de supetão, sem preocupar-se em avisar sobre a decisão. Isso o tirava do sério de uma maneira perigosa, aproximando-o de sensações destruidoras. Estava decidido; se a loira não aparecesse em vinte minutos ele iria embora, e não a pouparia de um sermão definitivo.
O rapaz remexeu-se no banco novamente, e com as costas ainda debruçadas sob os antebraços, ele olhou por cima do ombro e pode ver a porta de entrada abrindo passagem para Lacey, a prostituta, que trazia alguém consigo para dentro do bar.
Quando uma cascata de cabelos ruivos chamou sua atenção, caindo sob a postura ereta cambaleando, quase imperceptivelmente, Chris cogitou a possibilidade de os efeitos do álcool estarem, finalmente, fazendo-se presentes. Aquela visão seria, no mínimo, impensada. Comprimindo os olhos, em busca de uma imagem mais nítida, descobriu a pupila azul de Ellie Warrington.
Houve um momento tenso entre a identificação da presença de alguém inesperado em um lugar totalmente improvável, e a percepção de que aquilo traria consequências inimagináveis.
O loiro ainda observava a entrada da garota no bar, acompanhada e guiada de uma prostituta chamada Lacey. Algo estava terminantemente errado naquela situação, e Chris simplesmente era incapaz de acreditar na sua incrível falta de sorte.
Vejamos: a única companhia esperada para a noite era a de Dakota – que aparentemente resolvera não aparecer, sem aviso prévio– e de seus antigos parceiros de festas; conhecidos nunca representam algo promissor, pelo menos não para Elwin; mesmo ouvindo inúmeras histórias, no mínimo impressionantes, sobre o peculiar gosto de Warrington para a escolha de destinos de entretenimento, Chris não julgava Hellgas apropriado para quem não estivesse devidamente preparado psicologicamente.
Aquilo não era um bom sinal, não precisava ser nenhum gênio para adivinhar. Revirando os olhos e tomando mais um longo gole de sua bebida, empenhou-se na missão de voltar á prestar atenção na apresentação da negra esplendidamente sensual que se apresentava no palco central, verificando casualmente a caixa de mensagens de seu celular. Contudo, não havia mensagem alguma, bem como não havia tranquilidade, despreocupação e muito menos desinteresse em seus olhos, que mal podiam deixar de observar a cena que se desenrolava a sua frente – diferente do que aconteceria em outras circunstancias.
Ele podia simplesmente permanecer desfrutando do bar por mais algumas horas, sem nenhum vinculo a ser travado, visto que este era seu comportamento usual. Entretanto, ele conhecia aquele lugar mais do que conhecia sua própria casa; conhecia os hábitos, os defeitos, as qualidades, e principalmente as atrocidades praticadas por cada freguês. E também conhecia Ellie Warrington. Alguma chance de aquilo tornar-se ainda pior?
“John, eu trouxe um presentinho para você” a voz emoldurada de Lacey anunciou em alto e bom som, fazendo com que o rapaz dirigisse seu olhar até John; ele sorria de uma maneira potencialmente asquerosa, analisando Ellie de todas as maneiras que seus olhos puderam encontrar. Chris associou, imediatamente, a pronunciação, a enunciadora e a circunstância, descobrindo assim a resposta verbalizada de seu último pensamento.
Levou a mão direita ao rosto, passando, respectivamente, o polegar e o indicador pelos olhos, enquanto declamava suas próprias conclusões internas.
“Eu definitivamente devo ser a célula cancerígena da humanidade”. Com mais um gole seguramente exagerado, o rapaz levantou-se e fez seus passos até Lacey, no intuito de dar fim á missão desmiolada, e quem sabe desfazer a burrada de Warrington, asseguradamente bêbada, antes que aquilo ficasse ainda pior para ele.
Da maneira mais despreocupada possível, fingindo procurar seu maço de cigarros no bolso interno da jaqueta, Chris interrompeu o caminho da prostituta, postergando, assim, o caminho de Ellie até John. Um sorriso sedutor – pelo menos a tentativa de um, já que os resquícios de ironia e sarcasmo relutavam em deixar sua expressão – crisparam-se no rosto de Chris, que colocando um cigarro na boca, observou Lacey fixamente:
“Lacey – semicerrou os olhos para a loira, apenas desviando- os quando procuraram as pupilas azuis da ruiva ás suas costas; o rapaz não sabia dizer se Ellie ainda estava sóbria o suficiente para corresponder seu sinal de alerta –continua não se lembrando de mim?”