freewillyf:
Normalmente William mais fingia do que realmente acompanhava o ritmo acelerado de um Jude que podia abordar três ou quatro assuntos de uma só vez. O mais velho facilmente conseguia monopolizar qualquer conversa, o que era muito bem-vindo para quem até pouco tempo antes não possuía o costume de jogar conversa fora, e muito menos possuía um grupo de amigos. Com a convivência gostar da companhia de Jude fora bastante fácil uma vez que, além de divertido, ele não o fazia se sentir como um maldito estranho em meio a família de sua namorada. Provavelmente eram aquelas impressões conquistadas através dos meses de convivência que o tinham impedido de se sentir completamente emputecido com os rumos da conversa. Não era uma total surpresa para si que aquela temática viesse à tona, não quando Fallon o havia alertado muito brevemente sobre a possibilidade de Jude estar ciente de parte do que havia por trás do ocorrido a Georgia, ainda que não soubesse precisar de qual maneira ele reunira as informações que possuía. Durante algumas semanas esperara que o mais velho abordasse o assunto, mas como nada ocorrera, e como havia muito acontecendo em sua vida graças a gravidez de sua namorada e sua adaptação a vivência nos Estados Unidos, William deixara aquele assunto perder-se entre seus neurônios o suficiente para que se sentisse surpreso pela abordagem feita naquele exato instante. Embora considerasse aquela como uma página virada, retornar àquele assunto continuava a ser uma maneira certeira de atingir vários de seus botões de uma só vez. Os meses que se seguiram ao ataque a Georgia foram carregados por medo e incerteza, especialmente quando estivera perto de perdê-la de forma definitiva por tantas vezes. Fora uma época de puro caos que fora agravada pela tortura que sofrera por parte de sua família paterna, e todo o desentendimento seguinte com Margaret, especialmente pela matéria no profeta que empurrara Georgia para seu limite definitivo. Quando pensava em tudo aquilo parecia que abria uma porta para uma vida diferente, para um tipo de vivência que sequer conseguia entender como havia superado. As cicatrizes que carregava pelo corpo, especialmente nas costas, eram a lembrança constante que o pior não fora obra de sua imaginação. As cicatrizes psicológicas vinham através dos pesadelos que, apesar de em menor frequência, ainda o perturbavam em algumas noites e em maioria envolviam o medo que ainda possuía de perder Georgia. Voltar a refletir sobre aquelas questões não fazia parte de seus planos para aquela tarde, especialmente quando acreditava que já possuía tensão o suficiente em mãos. Um suspiro resignado escapou ao ex-corvino que sequer havia percebido que recorrera a sua mais comum forma de contenção ao fechar as mãos em punho, apertando-as tão firmemente que as pontas das unhas chegavam a ferir a palma de suas mãos. Ainda assim, muito diferentemente do que seriam suas reações num passado recente, ele não se sentia dominado por uma raiva descomunal que o faria partir para a violência física. Fazia tempo que não tinha acessos de raiva e existia um alívio tremendo em perceber que aquele aspecto de sua natureza ao menos momentaneamente parecia sob controle. Contudo, era inegável que sentia-se irritado pela abordagem daquele assunto, o que claramente se refletia em suas feições taciturnas. William mantinha sua atenção sobre a pasta nas mãos de Jude. Embora inicialmente não houvesse em si qualquer intenção de pegá-la, ele o acabou fazendo levado pela curiosidade em saber o que o mais velho teria assinalado nos post-it. E fora apenas interessado nos post-it que o Fraser passara cada página do processo que envolvia sua namorada. Ao dar-se por satisfeito ele a colocou sobre a mesinha de centro antes de finalmente voltar a encarar Jude. Sua expressão seguia taciturna, marcada pela ruga entre suas sobrancelhas e o enrijecimento de sua mandíbula. - O mo chreach! Mallachd frangach! Bawbag! - proferiu, pelos lábios semicerrados, as ofensas em sua língua de origem. William levou uma das mãos aos cabelos, que estavam mais compridos que de costume, esfregando as pontas das unhas pelo couro cabeludo – gesto que quem o conhecia compreenderia como um claro sinal de seu descontentamento. – Aye, Wee man! Me parece que fui tolo em acreditar que meu maior problema para os próximos dias seria lidar com a possível presença de uma irmã mais velha que deve desaprovar minhas escolhas, e com uma sogra que me detesta. Eu não deveria ter subestimado o caos que acompanha o fator Jude. - resmungou, recordando-se da expressão que Fallon usava para se referir a criatura mais cara de pau entre os parentes de Georgia. William respirou fundo ao sentir que sua irritação ganhava um tanto de proporção. O que a impulsionava era a percepção de que teria que dar explicações sobre situações que de maneira particular ainda não estavam completamente superadas. Revisitá-las dava-lhe a sensação de cutucar uma ferida ainda aberta. – Hum. Em outras épocas eu o colocaria daqui pra fora, a base de soco, sem porcaria de explicação alguma. Para ser honesto, parte de mim quer muito fazer isso por você ser um filho da mãe intrusivo, mas, pelos deuses, longe de mim ser responsável indiretamente pela sua morte. - voltou a resmungar, dessa vez enquanto se levantava para abrir a gaveta do hack da sala onde sabia que havia um dos muitos blocos de papéis e canetas que Georgia costumava deixar pela casa. Ao achar o queria ele retornou ao local que anteriormente ocupava, a poltrona ao lado do sofá em que Jude seguia esparramado. – Hum, aye, Fallon o alertou a respeito da Escócia? Sobre não ir? Vou analisar a possível escala de ódio dela por você a partir dessa resposta. Considerando minhas próprias emoções no momento, considero que qualquer ódio em sua direção é bem válido, especialmente se visa levar essa marmota de chiclete no cabelo em frente. Os franceses flertam tão mal assim?! O mo chreach! - pontuou, entre os dentes, deixando ainda mais translucida a irritação que sentia, logo antes de utilizar-se da caneta para começar a esboçar um desenho da árvore genealógica amaldiçoada do qual ele e Georgia faziam parte. Paralisou-se em meio ao esboço para fitar Jude uma outra vez. Sua expressão era mais séria que de costume. – Aye, você teve sorte de ter saído da Escócia sem qualquer arranhão como recordação. É bem provável que não leve a sério, mas aquela região é perigosa, especialmente nesse momento. Há muita turbulência entre os membros restante dos clãs. Os Fraser, os Mackenzie e os Munro estão disputando território e influência. Até recentemente, antes de minha irmã assumir a liderança dos Fraser, eu sequer podia colocar os pés em meu país de origem sem correr risco. Aliás, ainda não é seguro para mim. E duvido que o seja para você, como parente de Georgia, como alguém que não tem o sangue puro, sair fazendo perguntas a respeito de um membro dos Mackenzie. Em outra época, sem exageros, poderia ser fatal. Jude, você não faz ideia do maldito vespeiro em que está querendo enfiar a mão! – como empregava uma maior seriedade em seu timbre seu sotaque tornava-se ainda mais carregado. William realmente considerava uma sorte tremenda que nada tivesse ocorrido a Jude. Questionava-se se tal sorte estava atrelada a, com base no que Malcolm o informara meses antes, desvinculação de Nicholas aos Mackenzie. Nunca fora de interesse do ex-corvino as movimentações politicas por parte dos clãs, mas a expulsão de Nicholas era algo que o deixava curioso uma vez que certamente marcava mudanças substanciais. Não enxergava nada de positivo nas possibilidade que se abriam a partir daquele fato, o que o fazia temer pela possibilidade de Georgia uma outra vez se tornar vítima de perseguição por parte da família paterna. - Enfim, como deu para notar, não gosto e nem estou a fim de tocar nesse assunto. Acredito que Fallon e Prudence compartilhem o mesmo sentimento que eu, Georgia especialmente. Sei lá o que faria no seu lugar pra sanar a curiosidade que a questão traz, mas imagino que seria mais razoável fazer perguntas aos envolvidos, mesmo para receber negativas, do que sair fuçando a vida alheia. Tu tem noção do quanto é invasivo isso aí? De qualquer forma, como diz o ditado, cada cabeça um guia. - disse, mantendo o contato visual com o mais velho, se utilizando daquela sua forma honesta e direta demais que vez ou outra irritava aos outros. William voltou a respirar fundo, concentrando-se novamente em terminar o que começará no papel. Ligar o nome de Joseph ao de Freya fazia a irritação borbulhar em si, não pela existência de Olivia, mas pelo que ambos haviam feito com Claire I. Um dos motivos pelo qual encontrava certo conforto na morte de Joseph, e, por mais que não fosse de desejar o mal aos outros, ele acreditava que o mundo seria um lugar melhor quando Freya também deixasse de existir. Ao finalizar a distribuição da parte familiar que englobava a ele e Georgia, o ex-corvino liberou um bufo de irritação. Podia estar em uma fase diferente de sua vida, não ter mais qualquer relação direta com os clãs, mas ainda resguardava uma mágoa justificada de todas as pessoas de sua dita família que tornaram sua vida um verdadeiro inferno, assim como detestava todo e qualquer Mackenzie que arruinara a vida de sua namorada. – Aye. Antes de responder qualquer coisa, preciso que concorde em não abordar sua prima com esse assunto. Tudo isso cobrou demais dela física e mentalmente e nesse momento, no final da gravidez, ela não precisa remoer o passado. Se mais para frente, depois que Claire deixar de mamar, você quiser conversar a respeito então é por sua conta e risco. Mas, conhecendo-a, posso adiantar que ela vai se sentir invadida, e vai ficar furiosa e magoada com você. Ela vai ficar puta e magoada comigo e com Fallon também, ela detesta sempre que a poupamos de alguma coisa, contudo, é o necessário para o momento. – e William sabia que Fallon só não havia dito nada a Georgia, até então, pelo receio de estressá-la de uma maneira que poderia afetar a gravidez. Naquele instante preservar a vida de Claire II e a saúde mental de Georgia eram suas prioridade. Lidariam com a fúria dela posteriormente, da maneira que pudessem. – Éist, começando pelo final, foi uma decisão de Prudence, e não de Georgia, processar Margaret. Os motivos dela para isso são mais que compreensíveis. Justos, na verdade. – deu de ombros, não desejando entrar em mais detalhes naquela questão. Embora Margaret tivesse errado, especialmente quando o que fizera fora um entre os muitos fatores que levaram Georgia a atentar contra a própria vida, ele jamais se sentiria confortável em falar mal da irmã. A relação de ambos era complexa em níveis diversos, mas William sempre a colocaria como uma de suas prioridades. – Assim como foi uma decisão de Prudence não processar o bawbag do Nicholas. – revirou os olhos exasperado ao citar o ex-sonserino. William esticou a folha de papel com o desenho da árvore genealógica Mackenzie-Fraser em direção ao mais velho. – Me sinto invasivo de te mostrar isso, especialmente porque em primeiro lugar não é a minha história para que tenha direito de conta-la, e em segundo se sua tia e sua prima quisessem abordar o assunto já o teriam feito, contudo, qualquer explicação vaga que dê vai apenas servir para atiçar sua curiosidade. Como você é um fofoqueiro que não vai parar enquanto não descobrir tudo, levar um soco, ou acabar morto, informá-lo é o que me resta. – resmungou, realmente se sentindo um filho da puta invasivo ao apontar para a parte da árvore genealógica que ligava o nome de Gaspard Mackenzie a Freya Mackenzie e a Prudence Triggs, e aos frutos dos dois relacionamentos. – Imagino que a ligação entre Gaspard, Nicholas e Georgia seja um dos motivos pelo qual Prudence optou por não processá-lo. O outro, e certamente o principal, foi não atrair mais fúria Mackenzie para Georgia. – disse, mais pausadamente, parando para observar as reações de Jude. – Nicholas é um grande imbecil, o maior que já tive o desprazer de conhecer. Ele é caótico, violento, intempestivo. Nada que possa julgar uma vez que já fui similar. – uma careta pontuou suas feições. Embora desgostasse de Nicholas era inegável as similaridades de comportamento entre ambos. – Nós sempre tivemos problemas um com o outro, por sermos os futuros líderes de clãs rivais, especialmente na época em que ele frequentou Hogwarts. Parece e é idiota, mas quando se cresce na ponta da linhagem dos clãs escoceses se aprende desde cedo que o importante é a continuidade da estrutura, ser impiedoso, não demonstrar fragilidade, e odiar o clã rival. Eu tive sorte de ter uma mãe de fora da estrutura que me protegeu da maneira que pôde até ser assassinada. – ao citar a morte da mãe William desviou o olhar para uma outra direção. Embora não tratasse mais do assunto como um tabu a lembrança sempre seria dolorosa. - Nicholas não teve essa mesma sorte. Explica, mas não justifica a maneira que normalmente ele se comporta. No entanto, durante meu último ano de escola ele me procurou disposto a uma trégua. Você faz ideia do quão bizarro foi ter um puristinha de merda como Nicholas Mackenzie pedindo ajuda a um Fraser e a uma nascida-trouxa para proteger uma Mackenzie mestiça? Foi a primeira vez que o vi se importa com alguém que não fosse ele mesmo ou Charlie Tyler. Ainda é surreal pensar nisso. De qualquer maneira, o que temíamos que ocorresse acabou acontecendo. Eu não sabia do envolvimento dele no que ocorreu a Georgia até a exposição feita por Margaret, mesmo em meio a raiva que senti, não parecia condizente. E, no fim, realmente não o era. – enquanto se pronunciava as lembranças vinham à tona em sua mente. Aqueles meses recheados de pura angustia faziam parte de um passado que ainda era muito recente. William levou as mãos ao rosto, esfregando as pontas dos dedos nos olhos cansados. – Nesse caso Nicholas não tem culpa, contudo, como o grande imbecil que é, o fato de ser colocado como suspeito deve ter fundido os últimos dois neurônios daquele sujeito que sequer precisa de incentivo para bostejar e ser destrutivo. – na última vez em que estivera na presença de Nicholas o ex-corvino também fora bastante destrutivo. Limites de civilidade foram ultrapassados e o posterior peso na consciência o acompanhara por semanas. – As verdadeiras culpadas estão em Azkaban e, embora não confie na Justiça bruxa, espero que assim se mantenham por bastante tempo. Esse é um caso encerrado, e está tudo tão bem quanto se pode estar depois de eventos traumáticos. – murmurou evitando olhar em direção a Jude, e só então se dando conta que Orion adentrara o ambiente deitando-se aos seus pés. Era sempre assim a qualquer sinal mais forte de estresse por sua parte. – Você não me pediu conselho, mas darei mesmo assim; deveria deixar essa história de lado, Jude. Escrever sobre tudo isso só vai machucar sua família. Sua prima e sua tia não merecem ser expostas e muito menos precisam atrair a fúria daquela gente para elas novamente. Por mais interessante que te pareça, a segurança delas tem que vir em primeiro lugar. Enfim, se tiver perguntas as faça enquanto estou disposto a respondê-las. – concluiu, batendo com a mão na coxa para que Orion apoiasse a cabeça na mesma, ao mesmo tempo em que jogava o corpo para trás. Revisitar todas aquelas memórias certamente traria para si uma noite de sono inquieta.
Poderia ser apenas impressão, mas Jude poderia jurar que, ao mesmo tempo que os traços de William endureciam, devido ao rumo que considerava até que súbito da conversa, suas sobrancelhas arqueavam no mesmo ritmo. Havia um pingo de surpresa da sua parte, que não se equilibrava ao ar irritado e taciturno do rapaz à sua frente. Era uma surpresa que beirava ao seu faro jornalístico, a indicação que batera em um nervo. Pelo visto, deduziu, socara todos os nervos do ex-corvino que começara uma movimentação aturdida no meio da sala. Deu-lhe um tempo resignado, pois, conforme suas pesquisas, aquele assunto não escondia as nuances indigestas. E aquela pasta que o mais novo retirara de suas mãos era uma das maiores provas que tinha. Possíveis, pois papéis e documentos não eram nada perto de relatos de vítimas. Um raciocínio que não ousaria tagarelar quando o clima dava ares de se tornar tempestuoso, mas tinha consciência de que Georgia era uma vítima de uma quase fatalidade e queria saber mais sobre. E, claro, seguia escorado na desculpa de que por anos nunca soubera da existência dela e tinha que sanar sua curiosidade. O perigo morava em uma curiosidade que era muito da expansiva. - Seja lá o que você acabou de falar, meu querido, agradeço por não ter uma varinha em mãos. Pela sua cara tosca, obviamente eu seria transformado em uma chaleira. - o humor de Jude era duvidoso até em instantes que não deveria apostar tanto em seu humor. Porém, era como ele jogava e continuava jogando para manter William na conversa. - Relax! Eu não quero embrenhar mais tensão em dias que já prometem ser tensos o suficiente. É que eu cheguei no ponto do rolê que não consigo mais me fazer de besta. Considerando que a loirinha emburrada já deixou meio claro que falar com Georgia era caso de morte e não de vida, nada como arriscar direto com o marido. - continuou ele, sem muitos intentos de amenizar o ar ainda taciturno de William. - E acho que a loirinha emburrada ia querer a honra de me matar antes de você. - Jude lançou uma piscadela marota e se fez mais à vontade no sofá. Acompanhou-o se esgueirar pelo hack e, apesar de não temer ser atacado ou coisa parecida, Jude acharia deveras divertido se o ex-corvino cumprisse a promessa de escorraçá-lo da casa dele. O que estaria no direito, não negava, mas não seria a primeira vez que aquilo aconteceria em sua carreira. - Eu não lembro muito bem se ela me falou, pois eu estava mais concentrado no exposed de Fallon Evans. - e lembrar da cena emblemática que compactuava com as notícias do Profeta Diário, que seguiam tentando adivinhar o que rolava entre ela e o tal de Nicholas Mackenzie, seguia enervante. - Na verdade, a gente sabe que os ingleses são chatos e os franceses são nojentos. Pode fazer os cálculos. - se defendeu Jude, acompanhando atentamente os movimentos do mais novo. Riu-se ao ver o desenho mais torto possível de uma árvore genealógica e se sentiu em um episódio de Game of Thrones. - Mas eu fui à Escócia apenas fazer uma análise de campo. Eu não abordei ninguém até porque eu não sabia exatamente quem procurar. A não ser o dito cujo que, pelos laudos, é um priminho distante. - um fato que poderia ser omisso do processo, mas fazia parte da investigação assinalar o grau de relação entre vítima e acusados. Definitivamente foi um choque saber que Prudence se envolvera com quem evidentemente era um bruxo. Pior ainda, purista ferrenho, o que tornava todos os aspectos daquela história uma bagunça surreal. - Quando eu mencionava clãs, era basicamente como dizer Você-Sabe-Quem e o povo caía fora. Então, como ainda pretendo viver muitos anos, eu piquei a mula. - Jude assoviou ao mesmo tempo que seu polegar fazia um indicativo de saída. Poderia parecer meio sem noção na maioria dos casos, mas, para sua própria sorte, ainda tinha parte de um cérebro que ainda era capaz de sinalizar perigo. - O que faz todo sentido agora que você me disse que está tendo treta. Foi exatamente o que ouvi dizer e fico imaginando o que esses clãs brigam tanto. Mas a coisa fica interessante ao saber que você tem uma irmã que é líder da porra toda. Você é tapetinho da mulherada, confesse! - caçoou Jude que, se tivesse chance, teria dado seu típico tapa de camarada no centro do peito de William, mas estava em uma distância considerável para realizar tal ato - que seria evidentemente clamar por sua morte. - E eu achando que você e Gigi eram meros seres banais que acreditavam que me enganavam sobre serem bruxos. - sinalizou, notando o quanto William estava realmente puto com tudo aquilo. Sendo até mais difícil compreendê-lo devido à quantidade de Rs acentuados nas suas respostas. - Tá! Eu só quero as praxes, nada demais. E, como disse à minha fonte, eu não tenho a menor intenção de tornar esse material público. Eu até o deixaria de posse da pasta, mas é claro que, se Gigi pegar isso, ela me capa. Em condições normais, você poderia me processar e eu espero que não, pois eu teria que ferrar minha fonte e eu preciso da minha fonte. - Jude não temia um processo, pois também não era desfamiliarizado naquele quesito. Com Darius como uma de suas fontes vitais, que prezava desde que iniciara sua carreira, não estava mesmo nas suas conjecturas acabar em um tribunal por mexer em um assunto que poderia manter o interesse na surdina. Calou-se, mas não se aquietou, acabando por se sentar na beira do sofá para acompanhar onde aquele desenho torto chegaria. Havia uma quantidade até que grande de pessoas e que não fazia nenhum sentido para Jude, especialmente quando o nome de Georgia surgira na sequência, o ponto que sentiu ser o mais perdido daquela escala. - Por mais que isso seja interessante, eu já disse que não abordarei Gigi. Por isso eu fui direto em você que deve saber de tudo, como bem acaba de provar. - Jude se endireitou e coçou o queixo brevemente. - E longe de mim abalar a gravidez de Gigi e sei que estou perto de perder o posto de melhor parente. - emendou, em um de seus raros momentos de seriedade e honestidade. - O que podemos constatar é que eu sabia que Prudence não era tão legal assim. - brincou Jude, mas com um Q de ironia ao ouvir dos possíveis motivos da sua tia não ter processado Nicholas. Poderia ruminar sobre aquilo, mas, finalmente, William lhe cedera a visão completa da árvore genealógica que prendeu sua atenção. - Meu querido, você quer mesmo que eu morra, né? Já repetiu isso umas duzentas vezes, eu hein. - ralhou Jude em uma falsa ofensiva. - Agora lá vai você limpar a barra do purista, respeita minha história. - ele revirou os olhos antes de recair sua atenção no nome de Gaspard. Por mais que soubesse do parentesco entre Georgia e Nicholas, não sabia do elemento comum entre ambos. Assinalou mentalmente que se tratava de um possível ponto de partida para encaixar o que achava que faltava naquela história a fim de entendê-la. - Isso realmente está Game of Thrones demais pra mim. - Jude coçou o canto da testa, pois realmente parecia que via um episódio de ficção histórica. - Sinto muito pela sua mãe, a propósito. - Jude apertou o ombro de William camaradamente em sinal de apoio moral. Continuou a ouvi-lo, sem interromper um norte que o fez enrugar a testa diante da revelação de Nicholas Mackenzie querer trégua para proteger sua prima. Automaticamente, decorou o nome de Charlie Tyler. Poderia prometer não vasculhar de frente, pois pelas costas era outra coisa. - Então quer dizer que o filho da puta não fez nada? Ah, qualé! Impossível ele não ter feito nada. De acordo com sua narrativa, o garoto tinha coragem, mas não tinha noção. Eu não caio nessa lorota. - Jude mimicou uma mão falante, exaurido demais pelo Mackenzie ser dito inocente. Poderia estar no papel e na fala do mais novo, mas não acreditava. Ainda mais quando relera milhões de vezes o processo que incluía a transcrição das falas odiosas de Nicholas que se arremataram à narrativa de William. - É, eu sei. - confirmou Jude sobre as ditas verdadeiras culpadas. - Pode se acalmar que não prestei visita, mas acho minimamente interessante a união de famílias rivais para destruir uma pessoa que, até onde eu sei, não tinha nada a ver com essa joça. A não ser, claro, a questão sanguínea que chega a ser ainda mais surreal gerar uma quase morte sendo que é tão mais fácil continuar fingindo que não existe? Eu não entendo purista, mano, e quanto mais eles se foderem pra mim melhor. Com eles não tem tratado de reparação histórica. - assegurou Jude que sequer notou que começava a ficar estressado também. Respirou fundo, apurando som de patas que revelou um Orion que se aprumou aos pés de William. Perguntou-se onde estava Kiwi. - Cara, eu disse que não escreverei sobre, ainda mais porque seria o mesmo que lançar Georgia num caos condizente ao que anda acontecendo no mundo bruxo. Ao menos, lá na sua ponta mágica que não lida muito bem com sobreviventes. Eles não querem saber de quem sobreviveu e daí temos essa coisa chamada nepotismo para fazer esquecer. - e a crítica era sobre a reunião de Potter, Weasley e afins em quase todos os cargos importantes do Ministério da Magia. Não que Jude se importasse, mas resvalava na verdade de que poderia estar em qualquer parte do mundo e a bobajada de meritocracia se manteria como moeda de troca até mesmo sobre o silêncio de quem sobreviveu. Voltou a encarar o papel e o dobrou cuidadosamente, botando-o no bolso do jeans. Tinha que continuar com suas pesquisas. O antigo e nada novo sentimento de fascínio de jornalistas querendo se queimar no fogo. - Eu não tenho nada a perguntar. - e, mesmo que tivesse, era evidente que tirara metade do espírito de William só de relar na superfície do assunto. - Você já me deu o suficiente, além de uma sequência de ameaças à minha própria vida. Acho que posso ficar suave na nave. - Jude se levantou e foi até a cozinha onde, como o folgado que era, se serviu de água e acabou levando um copo para William. - Eu poderia perguntar como você se enfiou em tudo isso, mas imagino que não seja uma história bonita. E, aliás, pode ficar despreocupado, pois eu não vou cavucar a sua história. Por anos eu fiquei sem saber da existência de Georgia e eu só quis tapar os buracos. Eu só não esperava entrar em uma história de terror. Mas, bem, algumas coisas começam a fazer sentido. Como o primeiro ano universitário de Georgia ter sido um fiasco, ela ter desistido de estudar, mudar para os EUA. Ficar o mais longe possível da coisa toda. E, bom, parece que tá dando certo. - Jude apontou para a sala na intenção de indicar a casa toda. - Também faz sentido o projeto que Edward Lupin continua desmembrando e me encaminhando brechas para publicação. O real motivo de eu ter começado a chafurdar mais a fundo, porque eu não consegui ver aquela Georgia do pergaminho com a Georgia que me ameaçou de morte por causa de um banho de ovos. - ele riu para recuperar um pouco a descontração do ambiente. - Cara, eu preciso saber de uma coisa que, depois dessa árvore genealógica, eu preciso perguntar. Você e Gigi tem correlação familiar? Estou perguntando por educação, pois seu desenho deixou muita coisa clara. - Jude tentou se poupar de rir quando os ruídos já escapavam e seus dentes ficavam extremamente expostos. - Nada contra, cada um transa com quem quiser, mas não sabia que vocês caretas eram tão ousados. - o dedo indicador de Jude ficou em riste, dançando de cima pra baixo, como se houvesse uma acusação. - Enfim. Vocês atravessaram isso para, felizmente, serem pessoas chatas e banais. O final de semana vai ser doido com um monte de gente melando os tapetes, sujando o sofá e tentando adivinhar se vai ser menina ou menino, mesmo estando evidente que é menina e se chama Claire. Meu querido, quando esse é seu pesadelo, posso dizer que alguma coisa tá dando certo. E eu espero que fique melhor, pois me alimento do quanto vocês são antiquados, sabe? É meu entretenimento pessoal.
















