Passeios ao Ministério da Magia raramente agradavam a Antonin. Ele e Alyssa levavam seus trabalhos muito a sério, e da mesma forma que ela não o visitava durante seu horário de trabalho, Antonin também não a perturbava em seu departamento. Além do mais, suas únicas visitas ao Ministério nos últimos tempos eram para fazer uma cortesia à seu melhor amigo e acompanhá-lo quando ele precisava prestar contas sobre seu caso. Mas naquela tarde em particular, Antonin havia ido pegar alguns arquivos no setor financeiro sobre o registro da empresa de sua família. Trabalho que qualquer subalterno poderia fazer, mas a primeira lição de seu avô quando Antonin assumiu seu lugar na empresa havia sido simples: mostrar serviço. Respeito era ganhado, não imposto, e Antonin precisava mostrar que era mais do que apenas um herdeiro de cabeça vazia. Depois de um certo tempo, acostumou-se a fazer certas tarefas, o que o ajudou a ganhar o respeito e lealdade dos funcionários. Agia como um líder, não um chefe, e seu avô tinha grandes perspectivas quanto a isso.
Antonin já esperava sua documentação há mais de quinze minutos, o que era um recorde para ele, já que as coisas costumavam sair bem rápido quando as pessoas reconheciam seu sobrenome. Quando o vigésimo minuto se completou, ele se levantou da cadeira e na epítome de sua educação, aproximou-se do balcão de informações para perguntar sobre o assunto. Mas, no meio do caminho, um rosto conhecido se fez presente. Mafalda Hopkirk. Antonin tinha boas lembranças da adorável Effie. Ele só não tinha certeza se ela tinha as mesmas lembranças, mas bem, isso não importava – embora despertasse nele uma certa curiosidade. Durante seu sétimo ano e o término com Alyssa, Antonin e Mafalda haviam se aproximado bastante, quase uma amizade. Ele sabia que tinha um efeito sobre ela e sabia que não era de bom tom se aproveitar disso, mas era tão divertido… Mas então, ela havia sido enxerida demais e quanto Antonin pensou que teria que dar um jeito no assunto, ela mesma deu. Criando uma realidade alternativa, ou algo abstrato demais até mesmo para Antonin entender.
– Effie – Antonin deu um de seus sorrisos de canto, aproximando-se para cumprimentar a garota. Já não a via há muito tempo, talvez mais de um ano, mas ela não estava muito diferente. Talvez mais magra, talvez mais alta – Que bom te ver, é sempre bom ver um rosto conhecido por aqui – Disse, em tom simpático – E vejo que conseguiu o que queria, está trabalhando aqui no Ministério – Por mais que ele se mantivesse afastado dos affairs de Hogwarts, era difícil não saber do desejo intrépido de Mafalda Hopkirk de se tornar uma empregada do Ministério. Os desejos de grandeza dela podiam ser bastante diferentes dos de Antonin, eram tão intensos quanto os dele, e era algo que definitivamente atraía sua atenção.
Mafalda não conseguia se lembrar do dia em que tivera qualquer outro sonho para seu futuro profissional que não fosse trabalhar no Ministério. A seriedade, as tonalidades de cinza, a maneira como todos pareciam responsáveis e capazes de cada uma de suas tarefas. Aquela era uma sensação confortante para ela. Muitas vezes acreditou em Hogwarts que era a única daquele jeito, pois a maioria de seus colegas de casa e seus melhores amigos tinham as opiniões mais diversas. Só havia uma pessoa que compartilhava do gosto por fazer as coisas tão certas como ela, e aquele era Benjy Fenwick, o bruxo era também impecável não perdoando quase nada enquanto fazia suas patrulhas. Quando o mesmo se formou, Effie assumiu seu posto, e tentou deixar Hogwarts o mais impecável possível. Agora, ela conseguia ver que não era assim um mar de rosas. Havia bastante gente desinteressada, e que nem mesmo se importava em mostrar serviço. Com o caos que o Ato havia gerado não foi surpresa nenhuma para Effie que todo seu trabalho tivesse dobrado. Não só o dela, mas quase de todos que trabalhavam no Ministério, e por ser uma estagiária isso incluía visitar outras seções. Cobrir outros funcionários, ou apenas ficar levando papeladas de um lugar ao outro o que muitas vezes poderia até ser considerável humilhante. Com tudo aquilo acontecendo, Effie não iria abrir margem para desconfiança, então para onde estivessem mandando a antiga lufana, a mesma ia com um sorriso no rosto. O trabalho no setor de finanças estava um caos, e por isso um de seus superiores mandou a garota descer para ver se conseguia ajudar. Por ajudar, Effie entendia como "arrumar toda aquela bagunça" seu chefe não queria mais reclamações, e tudo que ele pedia soava como ordens no ouvido da garota.
O choque de encontrar o rosto tão conhecidos de seus pesadelos foi tanto que a menina até deu um passo para trás apreensiva. Ela poderia estar tendo mais um sonho, mas sabia que era real. Não teria pesadelos com seu trabalho. Geralmente, por mais que fosse torturante e uma loucura aquele era seu safeplace. Tudo que havia acontecido antes poderia ser apagado. Mafalda havia prometido a si mesma deixar tudo para trás, e concentrar-se somente no presente. Ela não era aquela lufana de anos atrás, mas o modo como Antonin sorria para ela trazia uma mistura de sentimentos na Hopkirk. Suas mãos começavam a tremer um pouco, e suas pernas bambeavam. Ao mesmo tempo que sua respiração começava a ficar um pouco mais ofegante. A garota tentou fechar os olhos por poucos segundos e se imaginar o mais longe possível dali, mas ao abrir os olhos ainda estava ali. Seus olhos novamente focaram no antigo sonserino, e o modo como as memórias ficavam vívidas em sua mente provavam que Effie não havia esquecido nada. Ela acreditou no próprio conto de fada de ser salva, mas agora que ela conseguia ver a verdade era difícil não acreditar que o homem a sua frente não era um monstro. Porém, ele era de uma família influente, e eles estavam no Ministério. O bilhete de sua mãe ainda estava na sua cabeça, e a garota engoliu em seco. Não poderia demonstrar um pouco só de insegurança. Não havia espaço para erros em dias como aquele. Ainda com bastante espaço de segurança, Effie fez o possível para desviar o olhar dele.
"Bastante trabalho e dedicação te levam a qualquer lugar. Não é isso que dizem?" Sua voz saiu um pouco tremula a principio, então tentou respirar fundo novamente e se manter mais firme. "Antonin Dolohov, realmente faz muito tempo." Comentou ao tentar forjar o mais falso dos sorriso. "Há algo em que posso lhe ajudar aqui? Fui mandada, pois as coisas não pareciam estar em ordens. Sabe como é você é um cara importante não deve ficar demorando por aqui, e logo ir fazer seus afazeres." Assim que ele fosse embora ela poderia respirar novamente. Se ver o mais longe dali e chorar no banheiro. Não teria Gretel que a impedisse de virar uma garrafa inteira para apagar as memórias doentias que vinham a sua mente.