Era como um vulto na noite. As patas do imenso lobo negro mal tocavam a terra sob seus pés, as folhas secas que esvoaçavam eram o único sinal que passara por ali. Ele ainda conseguia sentir os arrepios que lhe subiram pela espinha ao ouvir os gritos de uma banshee. As paredes das masmorras ecoaram aquele som que pareceu ficar gravado em sua pele, um prelúdio macabro do que ele tanto aguardara. Estava na hora. Finalmente poderiam dar início ao Novo Começo.
Chegou ao ponto de encontro poucos minutos após ter se arriscado a checar o corpo - um dos seus. Uma pena, de fato, mas ele sabia que a oferta de se juntar pela causa certa fora oferecida aquele infeliz. A facção não seria injusta em não oferecer a salvação a alguém; sabia disso. O lobo diminuiu a velocidade, até que parou, audição, olfato e visão atentos a cada milímetro que se movesse na escuridão. Pareciam estar seguros de ouvidos alheios ali. Ficou em pé sobre as duas patas traseiras, a mutação movendo seus ossos sob a pele, dando uma aparência mais humana ao lobo. Mas não se transformou completamente - ficou estacado entre as formas de Lobo e Humano; um verdadeiro homem-lobo. Patas chocaram-se uma contra a outra como se fossem aplausos. E era.
— Um show e tanto, não acha? Nosso primeiro passo foi dado;consigo sentir o cheiro de medo deles daqui.
Ouvir o grito da banshee naquela noite havia atacado a ansiedade e a raiva de Roxanne. Sabia o que aquilo significava: Sua personalidade tomaria conta dela, e não havia nada que ela poderia fazer. Só de saber que não conseguiria domá-la deixara a vampira ainda mais raivosa e ansiosa, portanto, antes de chegar em casa e se amarrar com correntes grossas banhadas à verbena, Callíope já havia tomado conta do seu corpo.
Presenciar a transformação de Roxanne para Callíope era algo muito bizarro, estranho e confuso de se ver. Ou a vampira ficava tonta, desmaiava e em questão de minutos acordava com um sorriso maligno no rosto, ou agia feito uma louca raivosa, jogando tudo o que vinha pela frente, berrando de raiva, até que os berros se transformassem em risadas frias, com uma expressão sádica surgindo em seu rosto. Também haviam outros jeitos diferentes (porém raros) de Callíope aparecer, os quais não vale à pena comentar.
Nem tinha chegado à porta da sua casa e ela havia surgido, o sorriso diabólico sempre presente em seu rosto, característica mais comum do seu alter-ego. Soltou uma gargalhada na rua deserta. Mirou a lua no céu e exclamou: “Finalmente!” Abrindo os braços e dando alguns giros, satisfeita de receber a notícia de uma morte de um daqueles seres sujos e impuros. Finalmente um pouco de ação naquela cidade de merda.
Nem precisou ir até a cena do crime para saber de quem se tratava. Bastou chegar na zona central para que ouvisse a líder das sereias, Sirenia, informar à algumas pessoas sobre a morte de um lobisomem (inútil) por um… Rufem os tambores: Caçador! Callíope não sabia se ria ou se quebrava o pescoço do caçador que havia feito aquilo. Poderia rir pois adoraria ver os líderes numa inútil tentativa de reforçar a barreira que mantinha, até alguns meses atrás, Unnatural Falls segura. Poderia quebrar o pescoço do caçador, pois seu ato fora precoce, apesar de planejarem um ataque desses há algum tempo. Poderia ser descoberto por algum líder, ser torturado e confessar sobre a facção. E era aquilo que Callíope menos desejava.
Usou seus poderes para chegar rapidamente no local de encontro. A primeira pessoa que Callíope botou os olhos foi em Roukan, parecendo uma figura mitológica em sua forma de homem lobo. “Devo admitir: Estou ansiosa para saber o que os babacas vão usar para tentar proteger a cidade dessa vez.” Sua voz ecoou pelas árvores, andando em passos firmes e elegantes com seu salto alto. Sabia que falar alto era um descuido na maioria das situações, mas como a maioria dos seres ali tinham sentidos apurados, incluindo ela, era seguro se vangloriar naquele momento. “Mas acho que aqueles caçadores precisam de uma leve ameaça. Apesar de eu ser totalmente à favor de matanças, eu não quero que nosso grupo seja descoberto por causa daqueles idiotas.”
A maldita banshee que havia expedido tal grito, entrara, automaticamente, para a lista de criaturas que Draqir faria questão de reviver e torturar, até que o incomodo causado por seu grito, fosse revertido, milhões de vezes, contra ela, podendo assim, enviá-la para um lugar distante, onde pudesse passar o resto da eternidade agonizando, como nunca antes.
Ao mesmo tempo que o grito o tinha revoltado, o deixava feliz, ou qualquer sentimento semelhante, já que aquilo anunciava o começo do final para aqueles que ainda sonhavam em viver na paz, em uma pequena cidade, no meio do nada, caçadores iriam invadir o local, o que era bem óbvio para todos, só os mais céticos e cegos não estavam observando aquilo. A satisfação ao imaginar o problema que os tais líderes teriam que resolver, fizera o necromante abrir um sorriso largo, juntamente com uma gargalhada sádica, característica. Líderes que recebiam aquele título sem nenhuma prova sequer, muitos deles só o possuíam por pura luxúria, não tinham nada para acrescentar ou, ao menos, conseguir proteger a si mesmos, quanto mais uma raça toda.
Não se apressou muito para mover-se ao ponto de encontro estipulado, esperando que outros chegassem na sua frente, esperando fazer uma entrada triunfal, coisa que ele adorava fazer, quando possível. Quando teve certeza que não estaria só, proferiu algumas palavras em acádio, um feitiço que o fizera transportar-se,instantaneamente, para o local onde seus companheiros já estavam esperando.
Obviamente, uma taça de champagne estava disposta em sua mão, assim como uma garrafa poderia surgir, a qualquer momento, para enchê-la, novamente. — Linda sanguessuga e grande homem poodle, servidos? — ofereceu a bebida, mas, claramente, ele não tinha a intenção de ofendê-los, mas não poderia deixar a piada se perder com tanta facilidade. — A mudança se iniciou esta noite, mas não fiquem afoitos, temos muito caminho para trilhar, a partir daqui. E sim, eles precisam de algo que os impeça de chegarem perto de nós. Mas ainda assim, esses dementes descuidados nos serão muito úteis.
Quando o grito da banshee penetrou os ouvidos de Dawn, pode se ver um sorriso formando em seus lábios, ela havia conseguido. Correu com sua super velocidade até o local de onde o grito pudera ser ouvido, quando chegou no lugar, teve que desfazer seu sorriso nos lábios e agir como todos os líderes também estavam; repetindo várias vezes para os moradores que iria ficar tudo bem. A ruiva passou alguns minutos tentando acalmar os cidadãos e expelindo mentiras para eles, quando todos já estavam se retirando, Dawn disse que precisava de um tempo pra absorver a situação e deixou o grupo dos líderes para se encontrar com seu outro grupo; A facção - como assim se chamavam.
A ruiva não podia estar mais animada com o plano bem sucedido que planejaram. Dawn nunca odiou nada nesse mundo inteiro mais do que odiava os caçadores - qualquer um deles - Mas sabia que não deixaria que nada acontecesse com aqueles que se juntassem a eles, claro, se eles forem descobertos, o que no fundo Dawn sabia que iria acontecer. Chegou no lugar de encontro com seus "colegas". Vendo que Draqir se encontrava com uma taça de champagne em sua mão, usou sua velocidade do seu lado vampiresco e retirou a taça da mão do bruxo — We're so bad!!! — a ruiva gritou colocando seu sorriso na cara de novo.
O sorriso desfez-se em seus lábios quando ouviu as palavras que sairam da boca do bruxo — Do que está falando Draqir? Se eles levantarem um dedo pra mim eu mato todos eles, e esse nosso plano acaba, porque eu não vou deixar que nenhum caçador ache que tem poder sobre qualquer um de nós. Eles estão aqui pra acabar com essa cidade estúpida, não para acabar com os de minha espécie, não vou deixar que isso aconteça. — Dawn não dava a mínima para Unnatural Falls, mas no fundo sabia que ligava para algumas das pessoas que nela habitavam, talvez, ela seja sim uma líder, mas não deixaria que ninguém soubesse.