Eu nunca acreditei em histórias de amor que duram pouco. Até conhecer você. Duramos menos de cem dias. Para ser mais exata, duramos oitenta e três dias. E eu amei você, apesar de não ter dito isso olhando em seus olhos. Eu te amei quando você chegou de mansinho me sujando de sorvete. Amei quando optei pelo oxford e não pelo tênis só porque você disse que tinha gostado mais. Te amei quando pedi pro garçom trazer o cheddar separado do bacon porque você não comia bacon. Eu te amei quando você se sujou e eu te achei lindo mesmo sujo. Eu te amei quando, pela primeira vez, teu corpo fez morada no meu e eu descobri o que era a famosa sensação de se deitar com alguém que gosta. Eu te amei quando você sorria em meio ao beijo e enquanto eu queria dizer, entre cada toque, o quanto você me fazia feliz. Eu te amei quando você ficou doente e eu conversei com a sua mãe, pedindo pra ela cuidar de você. Eu te amei quando troquei todos os meus planos por uma noite de discussão só porque estar ao seu lado – mesmo que discutindo – era melhor que estar longe. Eu te amei pra caramba quando você deixou de sair com aquela garota pra poder ficar comigo – ali eu podia jurar que já éramos algo a mais, mesmo não dizendo. Eu te amei quando você fez merda e chorou com medo de me perder. Eu te amei quando fui correndo na rodoviária te fazer uma surpresa antes de você voltar pra sua cidade e você me abraçou dizendo que eu era o teu melhor presente. Eu te amei quando você disse que eu era a melhor companhia para fazer compras. Eu te amei demais quando conversamos lá naquele bar em frente ao colégio sobre privatização e que você discordou de tudo que eu disse. E eu te amei mais ainda quando, duas semanas depois, você disse que eu tinha o poder de te amadurecer e que, apesar de ainda não definidas, suas ideias já estava em metamorfose. Amei você quando ouvi que sentia orgulho da pessoa que eu era. Passei a vida inteira sendo empurrada pra baixo por todo mundo. Então você chegou, me puxou pra cima e ainda disse que sentia orgulho do ser humano maravilhoso que eu era. Não tinha como eu não te amar sendo que você me causava sorrisos e borboletas e suspiros e prazeres e saudades. Eu te amei quando você cheirou meu cabelo e disse que meu cheiro de baunilha era mais viciante que qualquer droga que você já tinha usado. E te amei quando me prometeu cuidar de você e não se afundar cada dia mais. Te amei quando me contou sobre seu pai que mora na Bahia e quando chorou feito um bebê no meu colo dizendo que sentia falta dele, mas que nunca tinha contado isso pra ninguém. Eu te amei quando, pela primeira vez juntos, fumamos em um bong e você riu de mim, dizendo que eu era a melhor pessoa pra te fazer perder a cabeça. Eu te amei quando postei, pela primeira vez na vida, uma foto ao lado de um cara. Amei você quando respondi para todas as minhas tias que, sim, eu estava namorando. Quando precisei conversar com a minha mãe e fiz a melhor propaganda de um pseudo-genro já vista. Te amei, mesmo sem te dizer isso, quando comprei pizza no lugar de batata por saber que você preferiria. Quando peguei guaraná no lugar de coca-cola por saber que você gostava muito mais. Eu te amei quando você me fez gargalhar em meio ao choro. Eu te amei quando criei uma lista com links de casas para alugar na minha cidade, só pra trazer pra pertinho de mim. Eu te amei quando criei um álbum com fotos de decorações de casa que faziam seu estilo e te mandei ansiosa. Eu te amei quando pesquisei anúncios de república sem nem você saber. Te amei quando liguei em todas elas cotando preço e vendo qual era mais perto de mim. Te amei também quando você me viu chorando por causa de um simples colar e não me achou fútil. Quando me abraçou e me disse que tentaria comprar um igualzinho de novo. Eu te amei quando você foi embora naquela quinta-feira prometendo voltar e realmente voltou. Te amei quando você me ajudou a escolher um vestido novo e quando me motivou a mudar o cabelo. Te amei quando você começou a se afastar, mas seu cheiro ainda estava em mim. Eu te amei quando você ajudou na minha festa surpresa e quando me deu de presente o meu livro preferido, só que surrado pelo seu uso. Foi o melhor presente da minha vida! Eu te amei até mesmo quando você surgiu, exatamente no dia do meu aniversário, cheio de marcas de uma noite anterior desconhecida por mim. Eu te amei mesmo você dizendo que não havíamos combinado fidelidade. Eu te amei mesmo você dizendo “você que sabe” quando cogitei em terminar. E eu te amei quando me ajudou a esquecer tudo isso e seguir de forma séria contigo. Eu te amei mesmo quando você tentou me proibir de sair com os meus amigos. Te amei até quando você deu a entender que não confiava em mim. Te amei mesmo quando decidi dar o basta. Enquanto eu te pedia um tempo para respirar e perdoar as suas grosserias e seu ciúme infantil, eu continuei te amando. Eu te amei quando você me abraçou naquela praça de alimentação perguntando se eu tinha certeza disso, porque você jurava mudança. Jurava mudança pela oitava vez em menos de três meses, porra! Eu não aguentei e eu me desfiz. Eu me desfiz da gente e me desfiz de mim que me vi perdida sem você. Tudo isso em apenas oitenta e três dias. Parece que duramos anos, parece que ainda estamos durando. Parece que sempre duraremos. E eu te amei enquanto via nossas fotos no porta retrato que me deu, enquanto pensava em tudo que perdi ao te perder. Te amei enquanto eu, verdadeiramente, assumia o quanto minha vida era boa ao teu lado. Eu te amei muito enquanto eu chorava dentro da linha verde daquele metrô quase vazio. Eu te amei quando precisei te ligar e gritar que te amava pela primeira vez. Quando finalmente vi o que eu havia perdido e, puta que pariu, eu não queria ter perdido. Mas em menos de setenta e duas horas de término, você já estava com outra. Eu te amei mesmo enquanto você jogava toda a culpa em mim. Quando ria perguntando se era falta do sexo que eu sentia ou se era só carência. Eu te amei mesmo quando você disse que tudo foi um erro. Tudo. Tudo desde que começamos foi um erro. Te amei mesmo quando você me disse que ainda amava a sua ex-namorada e que sempre iria amá-la, acrescentando que começar comigo para esquecê-la foi o pior erro da sua vida. E, meu deus do céu, você não é capaz de imaginar o quanto eu te amei quando te mandei, do fundo do meu coração, ir atrás dela e buscar tua felicidade. Foi o amor mais altruísta que já senti na vida. Eu te amei tanto, tanto, tanto que não esperava retorno, eu só queria que você fosse feliz. Então eu mandei você ir ser feliz com ela porque eu seria feliz por vocês. E você foi. Já faz trinta e um dias que você foi e eu ainda amo você. - Marcela Jacob