the memories i run from. (( &&. hendrikara ))
‘’Eu não tinha motivos pra ser chato.’’, o homem ligou os pontos. Eles estavam ali e queriam falar com ele, queriam se despedir. A angústia crescia no peito do holandês, como se ele estivesse prestes a colapsar em lágrimas. E, sim, ele estava. Nos últimos meses, chorar era o que o ex-militar mais fazia, se acordava no meio da noite sentindo um pânico fora do comum. Os deuses sabem o quão ele vem sofrendo: os remédios, a insônia, a dor da culpa, todos esses provam isso. Quando os dois se materializaram no outro lado, Hendrik simplesmente desistiu de segurar as lágrimas. Não se sabe como o homem tomou força para se dirigir aos fantasmas, ‘’Me desculpem, isso é culpa minha. Eu fui um idiota.’’, disse, enquanto as lágrimas desciam pelo seu rosto. ‘’Papai, não precisa se desculpar. Os meus amigos nos Elísios vão amar saber que o meu pai é o homem mais corajoso do mundo.’’, o pequeno falou, animado. Lembrava demasiadamente Johan, sendo que mais novo. ‘’Não chore, querido, a culpa não é sua.’’, Amanda disse, sorrindo para o viúvo. ‘’Vocês não mereciam isso.’’, não podia deixar que a angústia o consumisse tanto que ele não conseguisse mais falar. Tinha de ser forte, era a última chance de se despedir daqueles que amava. ‘’Levanta e anda, Hendo. Você tem que seguir em frente, não pode deixar que o Rei complete seu objetivo. No meio do caos, ainda há oportunidade.’’, a fantasma consolou. Hendrik simplesmente não conseguia parar de chorar, talvez fosse aquilo que ele necessitasse para se levantar das cinzas como uma fênix, ressurgir. ‘’Hendrik, você tem que nos deixar ir.’’, ela completou. Era necessário deixar-los descansar nos Campos Elísios, não deixá-los vagando pelo Plano Físico, observando o parente que sobreviveu. ‘’Robin, se comporte.’’, disse, esboçando um sorriso para o mais novo. ‘’Eu amo vocês. Demais. Podem ir descansar junto aos heróis. Adeus.’’, um portal se abriu logo atrás dos dois, era a hora do adeus. ‘’Isso não é um adeus, mas um até logo. Vamos estar lhe esperando do outro lado. Eu te amo também, Hendrik.’’, a fantasma pegou na mão do filho, para que, juntos eles pudessem marchar para o Submundo de Hades. ‘’Papai, até logo. Diga ao Johan e aos gêmeos que vamos estar esperando eles também. Eu te amo.’’, o pequeno completou. Eles dois se dirigiram para o portal, entrando no mesmo, que se fechou. Hendrik desabou em lágrimas, sem nem se importar com o fato de que estava no meio do expediente e que, provavelmente, algum de seus subordinados assistia à cena.
Meio longe de toda a cena, Kara se sentia uma intrusa. Não sabia até mesmo agora o que efetivamente aconteceu com a família de Hendrik, tampouco desejava se meter mais do que o usual. Normalmente, ela adoraria se esgueirar e escutar cada uma das palavras, mas o cansaço parecia tê-la vencido a medida em que ela tornou os fantasmas mais materiais para que o de Vrij pudesse se despedir ------ de que adiantavam os seus poderes se ela não podia fazer algo como aquilo? Respirava com alguma dificuldade, e tinha certeza de que não era apenas o frio que trazia aquele desconforto. Abusara dos poderes durante aqueles poucos minutos, e o sorriso no rosto não era de deboche, mas de cansaço. O portal se fechou tão logo a loira fechou os olhos por alguns segundos, e, então, apenas Hendrik e ela figuravam na sacada. Demorou alguns segundos para recuperar o fôlego, ajeitando-se de forma a ficar com uma perna em cada lado do parapeito, recostada na pilastra central. Encarando o general de soslaio, Kara permitiu-se respirar fundo uma última vez antes de começar. “Sabe, eu realmente adoraria um suco de abacaxi agora.” Arregalou os olhos, encarando o parapeito, certa de que seu fôlego logo voltaria, de que o cansaço cessaria assim que voltasse para a pista de dança. Difícil, contudo, era reunir a coragem para se mexer ------ sentia todos os seus ossos doerem, assim como um tipo de lâmina cortando seu antebraço. Berrou de dor imediatamente, sentindo a carne ser aberta e cicatrizada no mesmo instante, deixando a marca de Loki mais próxima do que antes. Sua esfera era a sua maldição, e ela agora sabia que Hela não se gostou do que havia feito. Respirando pesadamente, a loira ignorou as lágrimas que caíam de seus olhos, a dor tão perto de deixá-la em estado de choque. “Me perdoe, Hela.” A voz em sua cabeça foi categórica: “Desobedeça-me mais alguma vez, princesa, e será a última. Atenha-se aos seus limites.”













