"Fecha essa mala aĂ logo, Clarisse. Sabe que vai largar metade das roupas no meio do caminho." escutei o grito risonho da Joana, logo apĂłs o som dos passos dela perambulando pelo apartamento. Ela estava visivelmente agoniada e ansiosa (assim como eu, admito), afinal, o dia que planejĂĄvamos desde o primeiro colegial havia chegado. EstĂĄvamos pondo os quadros de suas pinturas em ordem e organizando a tamanha pilha de folhas que faziam parte das minhas escrituras, simultaneamente dando adeus Ă quele espaço que nos serviu como esconderijo para planejamento dos nossos maiores futuros crimes. As folhas das ĂĄrvores caĂam e se esgotavam assim como o espaço na mala do nosso carro, por mais que estivĂ©ssemos levando muito pouco do que costumĂĄvamos ter, o tempo de espera fez com que nossa criatividade se elevasse para que pudĂ©ssemos extravasar no tipo de arte que praticĂĄvamos, em particular. A vontade que tĂnhamos de escapar do que nos obrigavam a fazer era sagaz, a censura que nos colocavam sobre o que gostĂĄvamos de fazer e nossa forma de pensar sĂł nos engrandecia de desejo pra conhecer o que desconhecido e ver o inimaginĂĄvel na nossa viagem com tempo indeterminado, sem prĂ©via de volta. Tudo o que querĂamos era juntar mais uns amigos e cair estrada a fora, experimentar todas as coisas novas, conhecer histĂłrias nunca contadas. Desatar mĂŁos atadas, respirar todos os ares, ver o calor fazer a floresta incendiar em chamas e o frio colorir a paisagem em vĂĄrios tons de branco. NĂłs querĂamos colecionar histĂłrias para os meus livros e rostos para as pinturas, querĂamos mostrar a todos que o mundo Ă© muito mais que uma premiação em algum canal pago da TV. EstĂĄvamos na estrada e mal podĂamos esperar, e nem sabĂamos pelo quĂȘ. Fugimos do alarme para o canto do galo, do GPS para bĂșssola, do status para nosso estado interior. E nĂŁo havia nada melhor. Escrevemos nossa prĂłpria histĂłria e sabĂamos que quando nĂŁo houvessem mais batimentos cardĂacos restantes em nenhum de nĂłs, ainda haveria um pouco de nĂłs nas estradas que berramos, nas cidades que pisamos, e no olhar de quem conversamos. Haveria um pouco de nĂłs por todas as partes.
Camylle Caldas (via biografiaemremen0r)















