Assim que o outro finalmente despertou (para a alegria de Rita que não gostava nem um pouco da ideia de colocar a boca nos lábios de um homem morto), ele não tardou em ser tão grosseiro quanto a Malone já poderia ter esperado de qualquer homem em alto mar. Tinha crescido em meio a eles, mesmo — e mais, tinha fingido ser um deles por muito tempo. Àquele ponto, era só um comportamento normal, que ela mesmo espelhava diversas vezes. “Ah, sim, belas palavras de agradecimento” Disse em um resmungo, como quem reclamava; a maldita chuva não estava bem disposta a lhes dar uma trégua, os músculos do corpo pareciam pegar fogo pelos esforços exagerados e teria de rezar para que aquela tempestade tivesse poupado a estrutura do navio. Por isso, suficiente dizer que Rita não estava muito com humor para lidar com o mal agradecimento alheio. Ao menos aquilo apenas durou alguns instantes, já que tão logo o desconhecido pareceu enfim compreender o que havia se passado. Malone assentiu, então, percebendo que era mais esquisito ouvir a gentileza na voz alheia que a grosseria. “Disponha. Só não vamos mais repetir essa dinâmica, beleza?” Foi só depois de constatar que o homem estava, de fato, vivo e bem, que finalmente a exaustão pareceu se apossar do corpo agora relaxado. Céus, ela poderia dormir ali mesmo, no chão molhado e no clima frio. “Cara, você pesa o que, cem quilos?” Parecia que tinha levantado duzentos em toda aquela caminhada, e só reparou ao tentar se levantar que seus braços estavam completamente sem força. Depois de desistir de usá-los para impulsionar-se para cima pois os membros tremiam demais, a pirata fez algum esforço para se colocar de pé e se equilibrar no barco. “Olha, eu adoraria ficar aqui fora e aproveitar esse clima incrível de verão, dançando na chuva e tal, mas eu acho que já deu a minha cota de ficar encharcada por hoje.” Avisou, fazendo menção de sair do cais e descer as escadas para dentro do navio, onde poderia se secar e esquentar o corpo que, tal qual seus braços, tremia tanto pelo frio quanto pelo cansaço. Ela sabia muito bem que não deveria dar sorte ao azar e se expor a situações perigosas, especialmente com homens maiores e mais fortes que ela e que poderiam, se quisessem, representar grandes problemas. Mas Rita Malone era uma pirata, fora criada para saber lidar com os mais diversos tipos de situação. Ela poderia ser perigosa se quisesse. E, além disso, simplesmente parecia errado deixar na chuva o homem que havia acabado de ver a morte tão de perto. Depois que descansasse, ela poderia seguir sua rota e deixá-lo no primeiro local com terra firme. Mas por hora… “Sinta-se a vontade para ficar por aqui. Mas se em algum momento cansar de nadar nessa chuva desgraçada, é só descer. Você parece por fora como eu me sinto por dentro.” O que definitivamente não era um elogio, já que a garota sentia como se ela mesma tivesse à beira do fim de sua vida. Não se lembrava de já ter se sentido tão cansada. “Estarei lá embaixo.” Ela avisou, sem realmente esperar pela decisão dele antes de finalmente seguir na direção do lado de dentro da estrutura.
✧ ˚ · . Ainda estava um pouco tonto de todo o acontecimento, e por um segundo se perguntara o que havia acontecido, lembrando-se então que mais uma vez sua luta contra Gancho havia sido perdida, e ele havia sido obrigar a andar na prancha. Das outras vezes que bem sobrevivera, o mar estava calmo e ele era um exímio nadador. Naquela vez, no entanto, a tempestade o pegara de surpresa, e agora, a contragosto, teria de ser eternamente grato à pirata mulher que aparecera como um anjo em sua vida, salvando-a. Tentando ajeitar-se para se sentar e melhor encará-la, não conseguiu conter o riso, junto do assentir com a cabeça. “Não está nos meus planos, não tenho sete vidas como os gatos, então não pretendo ficar brincando com ela.”, não que isso significasse que iria parar de enfrentar Gancho, isso nunca. Ele só precisava melhorar um pouco suas habilidades para a próxima vez. Somente quando ela se levantou que Hosmunt conseguiu perceber bem onde estavam. Era um barco de tamanho aceitável, ainda mais se ela navegasse sozinha. Se perguntava onde havia conseguido arranjar um daqueles, a que tripulação uma vez pertencera --- certamente alguma diferente da de Gancho, do contrário, a conheceria, mas o rosto delicado, apesar de molhado e também sujo com manchas insistentes de pólvora que não abandonavam os rostos piratas de forma alguma. Pensou em retrucar de alguma forma a vontade dela de se retirar, como se fosse de propósito a intenção de deixá-lo ali, recém-renascido, sozinho na chuva. Porém, não encontrava-se com um humor o suficiente para tal piada; muito pelo contrário, sentia-se grato e aquilo desbloqueava um lado mais sensível do pirata, quase não conhecido por ninguém. Não que ele odiasse se portar daquela forma, tinha medo, na verdade, de que fossem ver aquilo como fraqueza. Assistiu o semblante feminino desaparecer do campo de visão e voltou a deitar-se, as gotas geladas da chuva pingando em seu rosto fazendo com que tirasse um tempo para pensar. Pensar no quanto precisava ser melhor que aquilo. Hosmunt, a mulher salvou sua vida! Brigava com a própria mente. Com um suspiro, e logo em seguida um grunhido, juntou a força que tinha para se por de pé, em seguida descendo até a parte interna do navio, esperando encontrá-la. “Senhorita.”, chamou sua atenção, percebendo que nem mesmo havia perguntado seu nome, até estranhando a tal educação. “Está com fome? Posso preparar o almoço, como agradecimento.”, ofereceu-se; modéstia a parte, era um ótimo cozinheiro e talvez aquilo fosse um começo bom para os dois. Não que tivesse a intenção de ficar ao lado dela por muito tempo, mais ainda assim, queria se fazer prestativo.