Han Tae-hyun nasceu humano em um mundo que já estava em guerras e se tornou vampiro em meio a elas. A juventude foi moldada pela ocupação e pela guerra, e a imortalidade apenas prolongou o conflito. Transformado sem escolha, ele aprendeu a existir como se ainda fosse um soldado: metódico, contido, inabalável. Em círculos antigos, ainda sussurram seu nome de guerra — Cheolsan, a Montanha de Ferro — um título que ele carrega como quem carrega ferrugem nos ossos. Han odeia a própria origem com uma lucidez fria. Para ele, vampiros não são bênção, mas uma maldição romantizada pela tola humanidade. Hoje, aos 150 anos — embora aparente 34 — ele é dono do teatro da cidade, um espaço que funciona tanto como refúgio quanto como palco para o controle que prefere exercer. Mantém trejeitos de outra época na fala e na postura: cortesia antiga, gestos calculados, uma formalidade que nunca abandona completamente o corpo. Casado com Anivia por amor e por promessa, vive adiando a transformação que jurou lhe conceder. Não por crueldade deliberada, mas por medo — medo de condená-la à mesma existência que despreza em si. Enquanto ele hesita, ela vive como quer, e Han observa com a paciência. Sob a superfície disciplinada, ele continua sendo um homem em guerra consigo mesmo. Ressente autoridades que se proclamam superiores, desconfia de supremacias. Han existe entre o que foi forçado a se tornar e o que ainda tenta preservar — uma montanha de ferro que, apesar de tudo, ainda lembra como era ser humano.
❛ ₍ ✞ ₎ … ᴅᴀᴍᴀɢɪɴɢ ❜
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Han Tae-hyun nasceu em um mundo que já queimava. Não em chamas literais — embora elas viessem depois —, mas em um tempo em que o ar era pesado de ocupação, de silêncio e de nomes que eram apagados. Ele nasceu humano, e isso é importante, porque há uma diferença cruel entre nascer monstro e tornar-se um. Cresceu ouvindo sussurros em vez de histórias. Aprendeu cedo que sobreviver exigia discrição, que a língua podia ser uma arma e que a esperança, quando mal colocada, era uma sentença. A invasão japonesa não foi um evento distante para ele; foi a moldura de sua juventude. Ele a viveu nos becos estreitos, nos olhares desconfiados, no sangue que nunca secava completamente das ruas. A guerra o moldou antes mesmo que a imortalidade tivesse a chance de fazê-lo.
A transformação veio como todas as tragédias verdadeiras: sem aviso e sem misericórdia. Tae-hyun não se lembra do exato momento em que seu coração parou. Lembra apenas da fome. Da sede e da ardência que nunca abandona sua garganta. Do primeiro suspiro como vampiro queimando em seus pulmões como se o mundo tivesse se tornado pequeno demais para contê-lo. Foi em meio ao caos da ocupação que ele morreu — e foi também ali que renasceu como algo que jamais pediu para ser. Os vampiros que o criaram não o salvaram. Eles o recrutaram.
E Hyun aprendeu a matar com a mesma rapidez com que havia aprendido a sobreviver quando humano. A guerra humana tornou-se guerra sobrenatural, e ele marchou entre ambas como se não houvesse diferença. Seu nome de guerra, Cheolsan — a Montanha de Ferro, não surgiu por poesia, mas por constatação. Ele era inamovível. Frio. Metódico. Um soldado perfeito para um conflito que não prometia glória, apenas continuidade.
Há quem diga — em círculos que preferem a lenda à verdade — que a libertação da Coreia carregou marcas invisíveis de presas e sombras. Que vampiros lutaram onde humanos não podiam, que monstros enfrentaram monstros para que um país respirasse novamente. Se isso é mito ou memória distorcida, pouco importa. Tae-hyun esteve lá. E o peso do que fez durante esses anos se aninhou em seus ossos como ferrugem. Ele matou pessoas que mereciam. E matou outras que não.
A imortalidade não o tornou sábio; tornou-o acumulativo. Cada século acrescentou camadas de silêncio, cada batalha deixou resíduos que ele nunca aprendeu a limpar. Ele odeia o que é. Não a força. Não a velocidade. Não a eternidade. Mas a origem. A ideia de que sua existência seja fruto de um erro divino o corrói com uma amargura que ele raramente verbaliza. Tae-hyun não tem fé nos anjos. Para ele, são arquitetos descuidados de um mundo quebrado — e os vampiros, a prova viva de sua falha. Se existe redenção, ele não acredita que venha do céu. Se existe absolvição, ela terá de ser conquistada com sangue ou não existirá.
Tradicional em gestos e palavras, ele se move como alguém que nunca deixou completamente o passado. Há uma rigidez em sua postura, uma cortesia antiga que contrasta com a violência que ele é capaz de exercer sem hesitação. Tae-hyun é cruel quando decide ser. Caótico quando provocado. E profundamente desconfortável com qualquer forma de autoridade que se proclame superior — especialmente a das bruxas. A supremacia delas lhe parece apenas outra ocupação. Outro império convencido de sua própria legitimidade. E talvez seja por isso que a ideia de redenção o persegue como uma sombra. Mas, em algum lugar sob as camadas de ferro que construiu ao redor de si, existe um homem que ainda se lembra de como era desejar liberdade. E esse homem, embora enterrado sob décadas de sangue e guerra, ainda respira.
Manipulação emocional — Han Tae-hyun possui a capacidade sobrenatural de perceber, manipular e amplificar emoções como se fossem correntes tangíveis no ambiente. Para ele, sentimentos não são abstratos — são fluxos energéticos vivos, quase atmosféricos, que vibram ao redor de cada ser consciente. Sua percepção emocional é constante e involuntária. Ele sente a presença de emoções como um humano sentiria mudanças de temperatura ou pressão no ar. Raiva pulsa como calor. Medo tem peso. Alegria é leve. Desespero é denso e sufocante. Em ambientes lotados, essa habilidade pode se tornar um ruído ensurdecedor de sentimentos sobrepostos. Ao manipular essas correntes, Tae-hyun pode induzir estados emocionais específicos em indivíduos, mas nunca em multidões de uma só vez. Ele não cria emoções do nada; ele puxa, intensifica ou suprime o que já existe. Um sussurro de medo pode se tornar pânico. Uma irritação passageira pode virar fúria cega. Uma sala hostil pode ser acalmada até a apatia. Essa manipulação não se limita a emoções simples. Com foco suficiente, ele pode induzir estados complexos: confiança, devoção, paranoia, culpa ou euforia. No entanto, essa capacidade tem limitações intrínsecas. Emoções profundamente enraizadas — traumas antigos, convicções ideológicas fortes ou vínculos sobrenaturais — resistem à manipulação direta. Além disso, a exposição contínua a emoções intensas cobra um preço. Ambientes saturados de dor, ódio ou terror podem afetá-lo psicologicamente, infiltrando-se em sua própria psique. Quanto mais ele usa seu poder de forma agressiva, mais tênue se torna a linha entre emoções alheias e as dele.
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o corredor da prefeitura cheirava a papel antigo, tinta seca e humanos preguiçosos. han caminhou por ele como se atravessasse um mausoléu erguido para humanos que ainda acreditavam controlar algo. ele não havia dormido. não que precisasse — mas há noites em que a mente também se recusava a repousar. e a última havia sido consumida por símbolos riscados em folhas espalhadas sobre madeira escura, por teorias descartadas com desprezo, por lembranças de séculos em que sinais semelhantes antecederam ruínas. a pasta estava pressionada contra o peito com firmeza. ele parou diante da porta do gabinete de elias por um segundo a mais do que o necessário. o olhar deslizou pela bandeira da cidade hasteada no corredor — e suspirou com ironia. impérios já caíram por menos do que aquilo que viram no baile. ele entrou sem hesitação. e sem ser devidamente anunciado. bem, consequências de pertencer ao mesmo clã do prefeito. fechou a porta com cuidado, o som do clique ecoando discreto demais para ouvidos humanos — mas não para eles. han se aproximou da mesa sem se sentar. postura ereta, mãos ainda segurando a pasta como se o couro pudesse ancorá-lo no presente. os olhos encontram elias. ❛ se fosse apenas histeria coletiva. ❜ a voz saía baixa, controlada, mas carregada de algo que não era exatamente cansaço ❛ eu teria apreciado a ironia e deixado que resolvessem sozinhos. ❜ ele deposita a pasta sobre a mesa, e a abre. os documentos deslizam para fora. relatórios internos, um dossiê completo montado por ele próprio. reclamações e atividades peculiares, catalogadas, desde o desaparecimento do cálice. falhas elétricas concentradas, animais inquietos, humanos desaparecidos. qualquer coisa suspeita que pudesse vir a ser um padrão. ❛ acha que são as bruxas, ou algo maior? feéricos, talvez? já vi o poder deles, e aquilo seria fácil. ❜ os olhos escuros não vacilam. era cético demais para acreditar em anjos.
a madrugada nunca o alcançava. han permaneceu sentado à beira da cama por longos minutos, imóvel como uma estátua antiga. os olhos fixos nela, enquanto anivia dormia. o peito subia e descia em ritmo humano, frágil. tão absurdamente frágil. ele conseguia ouvir cada batimento — a cadência quente, viva, insistente. o som que o condenava e o salvava ao mesmo tempo. yeobo. o pensamento atravessou-lhe silencioso. ele estendeu a mão, mas não tocou. nunca tocava enquanto ela dormia. havia algo quase sagrado na inconsciência humana — a vulnerabilidade absoluta que ele, como criatura, não merecia profanar. ainda que ela não fosse totalmente humana. mas, ao menos, estava viva. a respiração dela mudou primeiro. um leve descompasso. os batimentos aceleraram um milésimo. ela estava despertando. han se ergueu antes mesmo que os cílios dela tremessem. os passos não produziram ruído algum enquanto deixava o quarto. não queria que ela o visse ali — parado, assistindo ela dormir.
na cozinha, a luz ainda era pálida. ele não havia trocado de roupa desde a noite anteior. a camisa escura permanecia levemente amarrotada, as mangas dobradas com descuido incomum. a noite fora longa. livros abertos sobre a mesa do escritório. anotações. símbolos rabiscados. comparações históricas. nada conclusivo. falácias. superstição humana. fóruns conspiratórios. ele acendeu o fogão com calma, e então colocou os ovos, a manteiga. depois disso dourou o pão artesanal. o café já estava terminando de passar. movimentos elegantes, exatos, como se cozinhar fosse um ritual aprendido há séculos. ele não precisava comer — mas preparou dois pratos. sempre dois. sentou-se à mesa e cortou uma fatia de pão para si, gesto quase teatral de normalidade. até que os passos dela ecoaram no corredor.
han ouviu antes mesmo que se aproximasse. o arrastar suave, o leve bocejo contido na respiração. ele não ergueu a cabeça de imediato. um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios — discreto, controlado. ❛ bom dia. ❜ a voz saiu grave, serena, e só então ele levantou o olhar. os olhos dele suavizaram ao encontrá-la. não completamente. han jamais se permitia suavizar por inteiro. mas havia algo ali que só existia quando era ela. ele se levantou, aproximou-se sem pressa, como quem tem todo o tempo do mundo — porque tinha. a mão fria repousou no topo da cabeça dela, e ele inclinou-se para depositar um beijo ali. ❛ dormiu bem? ❜ afastou-se apenas o suficiente para alcançar a pequena caixa sobre o balcão. preta e discreta. por um segundo, o olhar dele hesitou. ❛ isto… estava destinado ao dia de são valentin. ❜ uma pausa curta. ❛ falhei em entregar na data correta. ❜ ele abriu a caixa. um colar delicado repousava ali, a corrente fina sustentando um pingente em formato de onda — discreto, mas com dois pequenos pingentes de rubi que o representavam. ❛ se me permitir… ❜ a voz dele ficou ainda mais baixa ao propor. mas antes que ela pudesse o responder, ele se permitiu perguntar: ❛ seu coven sabe algo sobre os símbolos que vimos ontem? ❜ voltou para a mesa, retomando o lugar como se a pergunta fosse apenas parte casual da manhã. ❛ nunca os havia encontrado antes. ❜ os dedos giraram lentamente a xícara que ele não precisava. ❛ tentei pesquisar. ❜ um sopro quase irônico atravessou o tom. ❛ a internet está saturada de mentiras sobre nós. teorias fantasiosas, romantizações tolas… pouca coisa útil. ❜ os olhos voltaram a ela, um suspiro tedioso tendo lhe escapado pouco antes. depois daquela besteira de crepúsculo, havia ficado quase mais fácil encontrar comida, já que adolescentes se ofereciam igual idiotas.
Quando escutara como havia sido nomeado o banquete do evento, imaginara que seria muito mais fácil conseguir o que desejava do que na prática. Não estava particularmente com fome, porém poucas atrações atraíam sua atenção por mais do que contidos minutos — a campeã fora o cassino, muito embora tivesse perdido a graça com o passar do tempo. De certo modo, talvez o problema não fosse o evento, mas a realidade de que não encontraria ali o que procurava, pensamento que torcia seu nariz em uma careta inconsciente. "Se pretende roubar meu prato, eu reconsideraria." Delongou-se em erguer o olhar na direção do vampiro, optando por limpar o canto dos lábios com um guardanapo branco antes de encontrar seu destinatário com o olhar. Sempre que possível, evitava interagir ao máximo com a raça. Sentia-se extremamente exposta por saber das limitações de suas habilidades. Entretanto, odiava ainda mais ser observada, sendo esse o estopim para se pronunciar. Depositou a louça fina sobre a mesa, onde havia um bife totalmente não passado, algo que tivera de se empenhar para conseguir. "Não acho que esse sangue seja saboroso."
han já a observava antes mesmo que ela se pronunciasse. não por interesse, mas de certa for para a repreender. o prato destoava. não pelo corte da carne — mas pela crueza descuidada que, sob ótica humana, poderia provocar olhares indesejados. ele notou o modo como ela limpava o canto dos lábios antes de encará-lo. instinto de criatura tentando parecer civilizada, ele diria. quando ela sugeriu que ele roubasse o prato, o olhar dele desceu lentamente até o bife exposto sobre a porcelana fina. e ele enrugou o nariz. primeiro porque não precisava de alimentos, como aqueles corpos ainda vivos, e segundo porque se precisasse, não é aquilo que buscaria. ❛ tranquilize-se. ❜ a voz saiu baixa, polida, quase entediada. ❛ não tenho o hábito de disputar alimento que não me pertence. ❜ os olhos escuros subiram para ela com frieza medida. ❛ tampouco o desejo de fazê-lo. ❜ ele apoiou a ponta dos dedos na mesa, postura ereta, impecável. havia algo quase clínico na forma como avaliava a cena — não a fome dela, mas o ambiente ao redor. ❛ um bife assim… chama atenção. ❜ comentou, levemente inclinando a cabeça para o prato. o tom não era conselho gentil. era de advertência. ❛ se pretende manter a discrição — e imagino que pretenda — um tartar seria mais… socialmente aceitável. ❜ os dedos deslizaram pelo encosto da cadeira ao lado, gesto quase distraído. ❛ ou peixe cru. humanos pagam caro para fingir sofisticação diante de algo que não compreenderiam há dois séculos. ❜ os olhos dele voltaram ao rosto dela, avaliando a reação. ❛ desconheço a extensão exata de sua dieta, mas presumo que não deseje ser o centro de uma curiosidade inconveniente. ❜ o silêncio que se instalou foi deliberado. então, levemente: ❛ ou deseja? ❜
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Quando soube da existência de um terraço, Abigail implorou para que fosse levada até lá. Não sabia se o local tinha acesso restrito então insistiu para que alguém mais influente como Taehyun a acompanhasse. Era quase irônico pensar que tinha precisado morrer para começar a ter uma vida digna. Antes condenada a apartamentos gelados no inverno e refeições pouco nutritivas, a loira estava escalando para o topo de um arranha-céu com o que deveria ser a melhor vista da cidade. — Eu sei que parece besteira, mas eu nunca vi algo assim. — Falou com certa ingenuidade. Tinha aprendido que nunca era bom parecer boba demais na frente daquelas criaturas, mas se permitiu apenas por alguns minutos voltar a sua infância não tão distante para observar as estrelas acima da sua cabeça. — Parece tão perto que dá vontade de tocar. — Deu uma risadinha aguda, provável resultado da quantidade de drinks que já tinha tomado. — Acha que gente como a gente também vira poeira cósmica quando morre? — Não queria soar reflexiva. Na verdade esperava que alguém mais experiente como o vampiro pudesse ensinar a ela uma coisa ou outra sobre aquele novo jeito de viver.
han não negou quando ela pediu o terraço. na verdade, a insistência dela o atingiu de maneira estranhamente familiar. havia algo na forma como abigail olhava para cima — como se ainda estivesse aprendendo o peso do próprio corpo — que o levou décadas atrás, para outros jovens recém-transformados, outros olhares assustados tentando fingir coragem. ele subiu ao lado dela em silêncio não por desinteresse, mas porque entendia que certos momentos precisavam de espaço. quando alcançaram o topo, ele não foi direto até a vista. deixou que ela fosse primeiro. o vento movia os fios claros do cabelo dela com descuido, mas não havia frio ali para incomodá-la. não mais. ainda assim, han retirou o sobretudo e o pousou sobre os ombros dela com um gesto automático demais para ser pensado. ❛ não é besteira. ❜ respondeu, a voz baixa, quase absorvida pela altura. os olhos dele percorreram a cidade antes de subir para o céu. estrelas distantes e indiferentes. ❛ eu também já olhei assim. ❜ acrescentou, depois de um segundo. não era uma confissão que ele oferecia com frequência. a risadinha dela — leve, ligeiramente embriagada — fez com que ele a observasse de perfil. havia humanidade demais ali ainda. entusiasmo demais. algo que o tempo arrancaria se ela não aprendesse a proteger. quando a pergunta veio — poeira cósmica — o silêncio que se seguiu não foi imediato. foi pesado. han permaneceu alguns segundos olhando o céu antes de responder. ❛ eles acreditam nisso para tornar o fim menos assustador. ❜ disse, por fim. a voz não era dura. apenas honesta. ❛ nós… já atravessamos o que deveria ser o fim. ❜ os olhos escuros desceram até ela. havia algo ali que ele reconhecia demais — a necessidade de saber se ainda pertenciam a alguma coisa maior. se ainda eram parte do ciclo. ❛ eu não acredito que nos tornemos poeira. ❜ continuou, mais baixo. ❛ acredito que não há mais nenhum tipo de depois para nós. ❜ uma pausa. ❛ e essa é a parte mais difícil, se não aprender a lidar. ❜ ele se aproximou um passo, não invasivo. apenas próximo o suficiente para que pudesse sussurrar tão baixo, que sequer outros vampiros ouviriam. ❛ a eternidade não é uma punição automática, lady abigail. ❜ os olhos dele sustentaram os dela por um segundo a mais. ❛ mas torna-se uma… dependendo de como decide atravessá-la. ❜ ele já havia sido incumbido de destruir muitos semelhantes que surtaram com a ideia de jamais morrer, gerando caos para a sociedade e chamando atenção indesejada.
Era comum adaptar-se às pessoas, mas no caso de seu marido já estava tão habituada ao seu ritmo que chegava a ser até revigorante e reconfortante. Óbvio que não saiu de imediato do carro quando ele descansou, apenas aguardou para que o mesmo abrisse a porta dela e a tomasse pelas mãos, que foi exatamente o que aconteceu. Anivia tinha paciência com ele, ou pelo menos aprendeu a ter, seja por desgosto ou por sobrevivência, e quando impulsionou o corpo para levantar-se, soube que teria a firmeza dele para se manter de pé. "E eu até me deixaria ter pressa se significasse que você iria me segurar para impedir a queda." Deu uma risada muito gentil, imaginando a situação e até mesmo cogitando, por humor. Ela, então, equilibrou-se colocando a mão no ombro dele para que ajeitasse o salto e puxasse sutilmente o vestido um pouco mais para baixo, para ficar mais adepto ao caimento de seu corpo. Quando já estava tranquila, permitiu-se colar no corpo dele tão calmamente e de forma tão ensaiada que custava crer que viviam sempre em harmonia, como se não existisse um elefante gigante no meio da sala. Eventos assim pareciam aproximá-los mais, o que, decerto, era bom na concepção dela. "Sim, aşkım, até porque eu estou morrendo de sede, imagina você." Não chegou a ver se ele havia suprido a própria necessidade antes de sair, mas sabia que teria de fazer em algum momento dentro da festa. Ela certificaria disso pelo bem dele, é claro. "E depois quero ver essa sala dos espelhos. Será que você consegue enxergar qualquer coisa de lá? Pelo que vi causa coisas inoportunas nas pessoas. Ou era o que o convite dizia... Agora estou curiosa."
han escutou a risada dela com atenção, como se o som tocasse algo que ele mantinha deliberadamente imóvel por dentro. os dedos ainda envolviam os dela quando ela insinuou a queda — e o segurá-la. o olhar desceu brevemente para o salto que ela ajustava, depois subiu para o rosto dela com uma calma estudada. ❛ eu a seguraria antes mesmo que pensasse em cair. ❜ respondeu, baixo, sem humor explícito — mas com verdade. ❛ não precisaria de pretexto. ❜ a mão dela no ombro dele, o ajuste sutil do vestido, o modo como se colou ao corpo dele com naturalidade ensaiada — han percebeu cada detalhe. não havia rigidez em seu gesto quando a mão permaneceu na cintura dela. apenas firmeza. posse silenciosa. ele percebeu o modo como ela se encaixava ao corpo dele. ensaiado demais para ser espontâneo mas confortável demais para ser mentira. sabia do elefante na sala, sabia das ausências, sabia dos olhares que ela não escondia tanto quanto acreditava. e ainda assim, a mão permaneceu firme na cintura dela. quando ela sugeriu que ele estivesse com sede, o maxilar dele se tensionou num reflexo mínimo — quase imperceptível. era como se não soubesse que estava, até ela mencionar, e ele sentiu a garganta queimar. ❛ eu jamais permitiria que algo lhe faltasse, yeobo. ❜ murmurou, conduzindo-a pelo primeiro lance de escadas com passo medido. ❛ quanto a mim… sei administrar minhas necessidades. ❜ era verdade e omissão na mesma medida. não queria que ela se preocupasse, por isso dera um pequeno sorriso. a verdade, porém, é que não gostava de falar daquele seu aspecto com ela, daquilo que o fazia sentir-se um monstro, e especialmente, daquilo que ela teria de passar se quando fosse transformada. o polegar dele pressionou levemente a lateral da cintura dela — um gesto pequeno, mas consciente — antes de relaxar. ❛ receio que possam mostrar a você aquilo que ainda insiste em desejar. ❜ transformação, eternidade, ou liberdade. a fala era levemente acusatória, sugerindo que ela tornar-se vampira era sim inoportuno. ele inclinou o rosto discretamente para ela, como se ajustasse a distância — mas era apenas para que a próxima frase não se perdesse. ❛ mas eu a acompanho onde desejares. ❜ não era recusa, mas era adiamento — como sempre. a mão dele escorregou da cintura dela para oferecer o braço formalmente. já no bar, ele soltou-a apenas para que se aproximasse do barman, passando a senha apra pedir-lhe uma taça de sangue e... ❛ o que deseja beber, yeobo? ❜ perguntou, mesmo sabendo que ela insistia em beber o mesmo drink em todas as festas.
❝Algo que valorizo em sua companhia é certamente sua sabedoria, lorde Han.❞ Retribuiu fazendo uma mesura exagerada por diversão própria, era consideravelmente mais jovem que boa parte dos outros seres sobrenaturais, mas era certo que se divertia com a ideia dos velhos costumes e formas de tratamento. Ou talvez, fosse mero reflexoo de sua convivência maior com os vampiros, fosse por opção dela ou não. ❝Falando dessa forma faz até parecer que não vai estragar minha diversão no momento que julgar imprópria demais.❞ Provocou com um sorriso no rosto, logo mais bebendo mais um gole da própria taça. ❝Mas aprecio a companhia daqueles que não me desprezam e podem manter estes a distância. ❞ Deu de ombros e os olhos azuis pousaram sob o sangue que ele bebia e então retornaram ao rosto mascarado. ❝Que tal buscarmos por algo mais fresco? Posso não ser a anfitriã da noite, mas detesto ver quem me acompanha com sede.❞
han acompanhou a mesura exagerada com um leve inclinar de cabeça, educado na mesma medida — mas sem a teatralidade dela. havia algo quase antigo demais na forma como ele aceitava a provocação. ❛ sabedoria costuma ser apenas o nome elegante que damos ao medo de repetir erros. ❜ devolveu, calmo, observando-a erguer-se da reverência improvisada. os olhos demoraram um segundo a mais no sorriso dela — sempre luminoso demais para ser inocente. quando carmilla insinuou que ele estragaria sua diversão, o canto da boca dele se moveu num quase-sorriso contido. ❛ eu jamais ousaria. ❜ a voz desceu meio tom. ❛ apenas interviria… se a diversão ameaçasse tornar-se inconveniente. ❜ não era ameaça, era uma constatação. ele deveria preservar a imagem de carmilla, pelo clã. ele viu o gole seguinte que ela tomou. viu o modo como o líquido tocava os lábios dela. viu o brilho satisfeito no olhar. han não desviou — mas também não seguiu além do que considerava apropriado. ❛ não a desprezo. ❜ disse então, simples, direto. os dedos giraram o copo entre eles, sangue pesado demais, frio. quando o convite veio — algo mais fresco — o maxilar dele tensionou quase imperceptivelmente. os dedos pararam de girar o copo. ele apreciava a preocupação da outra para consigo mesmo. o que carmilla oferecia não era apenas algo “melhor”, mas era também direto da fonte. e ele odiava o fato de o próprio corpo reconhecer isso como bom, antes da mente julgar como errado. ❛ não acho que seja o local mais apropriado para isso, lady carmilla. há muitos olhos por aqui. e não duvido que os faes adorariam tirar o glamour para que uma nova caça aos vampiros se inicie. ❜ não era raro que viajasse por milhas e milhas para que caçasse. e evitava ficar tempo demais com sede, para que fosse capaz de se controlar. odiaria voltar a ser o vampiro que deixava um rastro de corpos para trás. ❛ mas agradeço imensamente a atenção. ❜ reconhecia os talentos da demônio, e enxergava o motivo de eliazar ter casado-se com ela. era sagaz, entre outros atributos. ❛ gostaria de dançar? ❜ propôs, já tendo deixado o copo de lado.
os gritos de animação reclamam a atenção dos olhos verdes de karahan e diante a cena do mascarado vitorioso recebendo um mísero biscoito da sorte como grande prêmio, e o retorcer de seu nariz é visceral demais para conter. é claro que entende que, naquele mundo principalmente, nem tudo é o que parece ser… mas, em se tratando de quem é o dono da festa, uma lobotomia ainda seria mais aceitável do que qualquer coisa entregue ali. ambos os fatos manteriam qualquer pessoa normal longe do cassino, contudo, shiv sempre se considerou extraordinária. e, bem, com um fraco enorme por um joguinho… ❛ uma produção inteira nessa festa, pra darem biscoitinho. aff. bem se vê que é coisa de velho mesmo.. ❜ o pensamento escapa alto, sem destinatário específico, para todos e para ninguém, conforme se ajeita na própria cadeira. o curvar de seus lábios é afiado por trás da taça, mas tão logo que o olhar cai no caça níquel ao lado, se expande sem pudor num riso sonoro. ❛ tsc. e eu achei que eu era ruim nisso. ❜ ela comenta, a verdade enlaçada naquele timbre baixo que emprega a tudo. sua cabeça tomba ao lado, mais perto do que deveria de um da espécie, contudo, é uma liberdade que se permite com taehyun. ❛ noite ruim, dentinho? ❜
ele girou uma ficha entre os dedos, o metal tilintando suavemente antes de pousá-la sobre a máquina ao lado, mas não a soltou. apenas a manteve ali, suspensa pelo indicador. já havia presenciado homens se destruírem pelo vício no jogo, e não compreendia a sensação. mas depois de um nômade com quem cruzou o caminho, comparar o vício humano com a sensação que vampiros sentiam ao caçar, ele passou a enxergar de outra forma. julgar menos, por assim dizer, ainda que não enxergasse o prazer na ação. indivíduos que se viciavam e perdiam grandes quantias, inclusive, incapazes de suportar a própria tragédia, já haviam buscado monstros como ele para pôr fim no sofrimento causado por eles próprios. hipócritas, tsc. ❛ só estou passando tempo enquanto a anivia não quer ir embora. ❜ dera de ombros, entregando a resposta simples sem cerimônias. dali, era capaz de ouvir a risada dela, e se fosse mais dois metros para a esquerda, poderia enxergá-la. podiam não estar em bons termos no casamento, mas não era indiferente a presença da esposa. e nem media palavras quando falava sobre o casamento. o apelido arrancou dele um olhar de lado, afiado o bastante para ser quase um sorriso. ❛ minha noite só se torna ruim quando começo a concordar com você, senhorita karahan. ❜ ele soltou a ficha, e ela finalmente caiu na máquina com um clique seco. han não olhou para o resultado, já que seu interesse permanecia na bruxa. ❛ você veio aqui apenas para insultar a estética do anfitrião… ? ❜
Adorava festas e isso sempre transpareceu na persona alegre e sorridente que demonstrava aos outros, claro, tinha de se conter muito mais após se casar com Elias, mas era um trunfo bom demais para se ter para que ela se lamuriasse muito. Gostava do estilo do vestido que usava, mas sentia falta de suas roupas costumeiramente vermelhas, certamente... Mas 'esteja decente' ele disse, bem, ela tentava a medida do possível. Contudo, chegava uma hora que o sorriso ensaiado e boas maneiras começavam a lhe entediar e o champanhe se tornava amargo demais para o paladar da loira. Não foi difícil para que descobrisse a senha do bar, costumava conseguir tudo que queria de um jeito ou de outro, agora a Sterling saboreava o liquido carmim em sua taça com um sorriso no rosto. Quando os olhos azuis por detrás da máscara se viraram para muse, ela sorriu com genuina empolgação. ❝Como eu consegui a senha? Oras, isso não é o tipo de coisa que se pergunta a uma dama.❞ Brincou em tom divertido, girando a taça por entre os dedos a medida que bebiricava o líquido mais uma vez. ❝A pergunta certa seria 'qual?' e não 'como?', uma pena que tenha desperdiçado sua pergunta, sweetheart.❞
han apoiou o antebraço no balcão com calma, se apossando do lugar ao lado dela. o olhar deslizou para a taça carmim nas mãos da demônia antes de subir para o sorriso que conhecia bem demais — aquele que prometia diversão e, quase sempre, algum grau de desastre. um sopro de riso escapou por seu nariz, discreto. ❛ eu jamais cometeria a indelicadeza de interrogar uma dama sobre seus métodos. especialmente quando suspeito que não sobreviveria à resposta, lady carmilla. ❜ seus dedos envolveram o próprio copo, girando o líquido rubro com atenção distraída. havia afeto na forma como a observava; uma familiaridade construída em anos de convivência ao redor de elias. ❛ devo presumir que a primeira-dama de ninivae está deliberadamente à procura de problemas? porque, se for o caso, sinto-me moralmente inclinado a acompanhá-la. alguém precisa garantir que não seja incomodada.. ❜ han aproximou um pouco mais o copo dos lábios, dando um breve gole no sangue. ainda que não fosse um entusiasta da raça vampírica, mesmo sendo um deles, odiava o sabor de sangue velho. gostava de sangue fresco, direto da fonte, mesmo quando vinha acompanhado de um pouco de culpa. era instinto, ele se confortava em dizer. ❛ o que me diz? ❜
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o motor cessou o ronco com suavidade, e tae-hyun permaneceu alguns segundos com as mãos apoiadas no volante, como se estivesse concedendo ao mundo o tempo necessário para se ajustar à presença deles. havia nele uma paciência antiga — não a paciência de quem espera, mas a de quem comanda o ritmo das coisas. quando desligou o carro, foi o primeiro a sair. anivia estava acostumada com aquilo, e particularmente suscetível a aguardar naquela noite. o ar frio da noite não o tocava como tocaria um homem comum, mas ele ainda assim fechou o sobretudo com um gesto meticuloso antes de contornar o veículo. abriu a porta para a esposa com a solenidade. a mão estendida não era apenas convite, mas uma promessa silenciosa de amparo. ❛ com cuidado. o chão aqui não merece a pressa de seus passos. ❜ murmurou, a voz baixa e polida, carregando um sotaque que o tempo jamais conseguiu apagar. seus dedos envolveram os dela apenas o suficiente para guiá-la para fora. não havia, porém, pressa em soltá-la. entregou a chave ao manobrista com um aceno breve, quase aristocrático, como se estivesse habituado a ser servido sem jamais precisar exigir. toda a sua atenção, no entanto, retornava invariavelmente para a esposa. a mão de han pousou na base da cintura da sereia com naturalidade possessiva — não para contê-la, mas para conduzi-la pelas escadas até a entrada. o gesto era íntimo, protetor, aprendido em um século que acreditava que o mundo deveria abrir caminho para a mulher que caminhava ao seu lado. ❛ deseja começar pelo bar? ❜ o canto de sua boca se curvou num sorriso discreto, daqueles que prometem cumplicidade, enquanto oferecia o braço com uma elegância que beirava o anacrônico.