Arrancaram minha infância como quem puxa uma raiz ainda viva do chão: com pressa, com brutalidade, sem perguntar se doía. E doeu, doeu tanto que até hoje lateja como uma ferida que nunca cicatriza, sempre abrindo de novo quando lembro do que eu não pude ser. Cresci antes da hora, com os joelhos ainda sujos de chão e o coração já pesado como gente grande; não tive escolha, me empurraram para dentro de um mundo que eu não entendia, um mundo que não tinha espaço para sonhos tortos nem para perguntas de criança. Fui obrigado a ser forte quando tudo o que eu queria era continuar pequeno, tive que segurar o peso dos dias com mãos que ainda tremiam e aprender a calar lágrimas porque ninguém tinha tempo para elas.
A dor daquela perda não fez barulho; ela se instalou devagar, por dentro, como se abrisse um corte invisível no peito e deixasse escorrer tudo que era leve, tudo que era meu. Às vezes sinto como se carregasse um corpo dentro de mim: o corpo da criança que eu fui, frágil, de olhinhos cansados, pedindo o que ninguém ouviu. E eu carrego. Carrego porque não posso enterrá-la, ela ainda pulsa, ainda chora, ainda me olha em silêncio, ainda me pergunta por que tiraram dela o direito de ser pequena, de existir no próprio tempo, de viver sem medo.
E a verdade é que não sei responder. Só sei que a infância foi roubada, e no lugar deixaram um vazio — um vazio que sangra devagar todos os dias, lembrando que há feridas que o tempo não conserta porque nunca deveriam ter sido feitas. E assim eu sigo, tentando respirar por mim e pela criança que deixaram para trás, tentando costurar um passado que não me pertence mais, tentando sobreviver à ausência daquilo que eu nunca tive a chance de guardar.
Ser forte nunca foi escolha — foi sobrevivência.













