Carrego cicatrizes que ninguém vê, mas que ainda vivem em mim com força própria. Elas não sangram, não ardem, mas atravessam meu peito quando tudo parece pesar demais, lembrando que houve um tempo em que a vida me despedaçou inteira, deixando pedaços espalhados em lugares que ninguém jamais alcançaria. Cada marca é memória viva, sussurro de noites em que respirar era um esforço, de dias em que existir parecia um fardo impossível.
Quando penso nelas, sinto a dor se espalhar silenciosa, não na pele, mas nos ossos, na mente, na alma. É um peso que não se mede, que não se entende, que aperta o coração com a precisão de quem sabe exatamente onde machucar. As cicatrizes são testemunhas silenciosas de tudo que me atravessou, lembrando que a dor já esteve ali, profunda, cruel, inevitável, e que deixou em mim rastros que nem o tempo conseguiu apagar.
Há dias em que elas reaparecem com intensidade, arrancando de mim suspiros que não vêm, lembrando do que me quebrou, do que me consumiu, do que me dilacerou. É um grito sem som, um lamento interno que corre como um rio de memórias, batendo contra cada lembrança, contra cada pedaço de mim que sobreviveu, mas que ainda sente a cicatriz como se fosse carne aberta.
E mesmo assim, sigo. Ainda sinto o peso, ainda sinto a dor, ainda sinto a memória pulsando em mim. Mas há estranha beleza nisso: minhas cicatrizes lembram que sobrevivi, lembram que mesmo atravessado por tudo, mesmo dilacerada, eu continuei. Elas são provas silenciosas de resistência, lembranças que doem, que carregam peso, que lembram que a dor esteve ali — mas que não me destruiu.
E mesmo quando tudo parece demais, quando a memória aperta e a saudade daquilo que se foi corta mais fundo que qualquer lâmina, ainda existo. Ainda respiro. Ainda carrego. Ainda sou.
Elas lembram que sobrevivi, mas não sem dor