Malditos jogos
CERTA FEITA, num trabalho mal remunerado e desinteressante, um sábio colega passou cerca de duas horas jogando Campo Minado. Aquele mesmo que vem (ainda vem?) com o Windows desde que o mundo é mundo. Eram os anos 1990, praticamente não havia internet e, naquele período da semana, tínhamos mesmo muito pouco trabalho. O fato é que eu não conseguia entender o fascínio daquele jogo. O citado colega não era um desses caras que joga por passatempo, que se vicia em qualquer jogo. Pra se ter uma ideia, foi o cara que me apresentou Duke Nuken 3D e seu incrível método de instalação com trinta e poucos disquetes.
Voltando ao Campo Minado, eu já conhecia as regras e, bem, basicamente, quando o vivente clica num quadradinho e aparece, por exemplo, o número UM, quer dizer que há UMA bomba ao redor do quadradinho, assim o número dois significa duas bombas e assim por diante. Diante dessa lógica absurdamente simples, perguntei pro meu colega qual era o motivo desse jogo ser tão interessante pra fazer um jogador do naipe dele se entreter por tanto tempo.
A resposta, mesmo que tenha me deixado frustrado, por algum motivo ficou martelando e acabou me convencendo a ponto de nunca mais ser esquecida: “é um jogo, cara”. É isso. Campo Minado é um jogo, e todo jogo que se preze tem o fator imprevisibilidade. As peças são distribuídas de forma a não poderem ser descobertas em determinadas situações, e normalmente é nas situações-chave do jogo em que se tem que arriscar, ser menos lógico e mais impulsivo e aí, normalmente, é que tudo vai pelos ares.
Mesmo correndo o risco de ser acusado de usar a fórmula David Coimbra (começar falando de uma bosta qualquer pra finalmente chegar no futebol), a verdade é que vou usar a fórmula David Coimbra: o que o campo minado tem em comum com o futebol é exatamente o fator imprevisibilidade. O futebol profissional hoje é um esporte de alto rendimento, com importantes questões técnicas, táticas, motivacionais, psicológicas, científicas e o escambau. O mais interessante é que não deixa de ser um jogo, ou seja, apesar de tudo, segue sendo um troço com grandes doses de aleatoriedade, onde às vezes se arrisca tudo e pode-se, assim, perder tudo.
O Grenal, em específico, é aquele jogo que ninguém quer jogar, um duelo de vida ou morte: ninguém admite, mas ambos dariam tudo pra não ter que duelar. Uma goleada contra é a certeza de semanas, de meses, talvez de anos de encheção de saco. Uma goleada a favor é a maior das emoções (talvez o dia 09/08/2015 tenha sido um dos três mais felizes da minha vida). Hoje de tarde teremos duas equipes completamente antagônicas em campo. Uma delas é a nossa, o velho Grêmio de tantas guerras, cujo treinador vem sendo reverenciado como o novo tipo de técnico ideal, a reposta aos pedidos de esperança, a renovação que o cenário futebolístico brasileiro precisa depois dos 7 x 1. A outra é o Internacional, cujo treinador é um tosco tabacudo que, apesar de jovem, parece ter saído direto dos anos 1990, um simplório que não entende nada de língua portuguesa, nem de entrevista e, pior pra eles: nem de futebol.
O problema é que o perigo mora exatamente aí: “o futebol é um jogo, cara”. Como o campo minado. Podemos fazer tudo certo, mas chega um momento em que não se tem ideia do que vai acontecer, e uma bomba (mesmo que uma bomba tosca, tabacuda e simplória vinda direto dos anos 1990) pode explodir tudo. Esperemos que não: esperemos que a imprevisibilidade venha, como da última vez, do mais azul dos lados, trazendo a melhor das surpresas. Quem sabe rola outra sova de pau nos vermelhos?













