Os membros do Santo Ofício e os eclesiásticos que não acreditavam na santidade do Padre Pio nunca deixaram de exprimir as suas opiniões negativas e de fazer sentir a sua hostilidade, nem sequer quando o Padre era abertamente protegido pelo Papa Pacelli.
A estima que o Papa demonstrava, respondiam levantando questões disciplinares e pondo em destaque comportamentos anômalos. Não conseguiam infligir «condenações públicas», como tinha acontecido nos anos Vinte, no tempo de Pio XI, mas exprimiam de igual modo o seu pensamento e as suas opiniões que, sendo altamente autorizadas, tinham sempre o seu peso.
Por isso o Padre Pio, durante os anos em que era protegido pelo Papa Pacelli, embora pudesse agir com uma certa liberdade, também teve de suportar muitas ofensas injustas.
De vez em quando, chegavam a San Giovanni Rotondo inspetores eclesiásticos, que queriam saber, interrogavam e apresentavam queixas. Chegavam cartas, enviadas pelo Geral e pelo Provincial, contendo intimações e queixas, que recordavam ao Padre Pio como ele continuava a ser considerado, pelos seus superiores, um indivíduo suspeito, incômodo, que só sabia arranjar problemas e aborrecimentos. O Padre suportava tudo, mas sofria... e muito.
A 11 de Março de 1952, o Santo Ofício apresentou ao Geral dos Capuchinhos uma série de inconvenientes detectados em San Giovanni Rotondo. Como é natural, o Geral lançou a sua própria amargura sobre o Provincial, este sobre o Guardião de San Giovanni Rotondo, e o Guardião sobre o Padre Pio.
Era a cadeia inexorável de acusações, que se sucedia a um ritmo quase regular, a juntar às preocupações do Padre, já cheio de problemas relativos à construção da Casa Alívio do Sofrimento. Preocupações muito amargas, porque as críticas provinham de Roma, do Santo Ofício, ou seja, da Igreja, e passavam pelo seu Superior Geral. Do ponto de vista psicológico, o Padre sentia-se «rejeitado», ou, pelo menos, «bastante criticado», pelas duas entidades às quais consagrara a própria existência: a Igreja e a Ordem dos Frades Capuchinhos.
A 8 de Abril, do mesmo ano de 1952, o Santo Ofício voltou a contactar o Geral, ainda por causa dos problemas de San Giovanni Rotondo, reforçando a afirmação de que a situação estava muito mal e incomodava o poderoso dicastério eclesiástico. Mais uma vez, todos os maus humores recaíram sobre a cabeça do pobre Padre Pio, passando primeiro pelos vários superiores, e semeando o descontentamento um pouco por toda a parte.
A 3 de Maio de 1952, o Padre Geral, provavelmente para calar as queixas do Santo Ofício, interveio pessoalmente com uma carta dirigida aos religiosos de San Giovanni Rotondo e da província de Foggia, recomendando-lhes que não favorecessem as peregrinações de pessoas a San Giovanni, nem difundissem escritos e imagens do Padre Pio.
Dois meses mais tarde, a 8 de Julho, pressionado pelo Santo Ofício, o Geral fez uma viagem inesperada a San Giovanni Rotondo, a fim de insistir pessoalmente sobre aquelas questões. É evidente que o Padre Pio se sentiu tremendamente humilhado. Se o Padre Geral, responsável por todos os problemas da Ordem dos Capuchinhos e, portanto, muitas vezes em viagem pelo mundo, atinha deixado Roma para se dirigir pessoalmente a San Giovanni Rotondo, a fim de o censurar precisamente a ele, dizendo-lhe que o Santo Ofício, ou seja, o Tribunal eclesiástico máximo, tinha contestado certos factos, isso queria dizer que aquele superior não estava contente consigo, o que tornava a situação bastante grave.
Mais tarde, a 30 de Julho, o Santo Ofício aproveitou para fazer ouvir diretamente a própria voz. Como tinham saído livros sobre o Padre Pio que não tinham o imprimátur (aprovação eclesiástica, como então era exigido pelo Direito Canônico), emitiu um decreto que proibia tais publicações.
Como vemos, era um massacrar contínuo, fazendo sentir a própria desaprovação. Para o Padre Pio, tão sensível e desejoso de servir a causa de Deus, tais intervenções constituíam verdadeiras aguilhoadas no coração.
Aguilhoadas que nunca mais pararam, que, pelo contrário, aumentavam, com a continuação. Podemos dizer que eram fruto de uma fria intransigência burocrática. Na realidade, para quem quiser olhar mais a fundo, eram sinal daquela luta misteriosa que não provinha tanto dos homens, de eclesiásticos perplexos, mas do «inimigo número um», de Satanás. Compreendera-o bem o Padre Agostino de San Marco in Lamis, confessor do Padre Pio, tendo-o anotado no seu Diário. Com efeito, escreveu ele com data de 3 de Setembro de 1952: «A guerra exterior de pessoas associadas a Satanás prossegue, mas o Padre segue em frente apoiado no nome de Deus, como se nada lhe dissesse respeito, embora a sua alma esteja amargurada.» Voltou a repeti-lo alguns anos mais tarde, escrevendo, a 28 de Novembro de 1956: «A luta satânica contra a grande obra da clínica continua, enquanto o Padre sofre e reza.»
Nos anos de 1955-1958, com o agravamento da situação, deu-se o famoso «caso Giuffrè», que se abateu sobre a Ordem dos Capuchinhos como um terramoto, atingindo o próprio Padre Pio, embora este nada tivesse a ver com ele.
É uma história horrível, já antiga e distante, acerca do qual se levantou muita polêmica. E desagradável folhear de novo páginas dolorosas. No entanto, estas não podem ser completamente ignoradas porque, naquela época, para atenuar as responsabilidades de muitos eclesiásticos caídos em tal desastre, tentou-se envolver também o Padre Pio, que era totalmente alheio à situação.
A Segunda Guerra Mundial semeara a destruição em toda a Itália. Os bombardeamentos tinham derrubado casas, igrejas e também muitos conventos.
Terminado o conflito, a Itália fora tomada pelo frenesim da reconstrução. Surgiam por toda a parte estaleiros destinados à reedificação dos edifícios devastados e à construção de outros novos. Também os Frades Capuchinhos se esforçavam muito para restaurar os seus conventos. O fervor levou-os a implementar grandes iniciativas. Contudo, para realizá-las, eram necessárias somas muito avultadas. A necessidade convenceu muitos deles a dar crédito a uma armadilha financeira que, nos anos cinquenta, deu muito que falar em Itália.
Um certo Giambattista Giuffrè, ex-funcionário do Credito Romagnolo de Imola, dava juros antecipados, que podiam ir de trinta a cem por cento, a quem lhe emprestasse dinheiro.
Era um homem estimado, que se dizia católico fervoroso. Por isso, tanto bispos como párocos e superiores de conventos confiaram nele. Ainda mais, entusiasmados com as aparentes vantagens econômicas que dele recebiam, chamavam-lhe «O homem da Providência» e «O banqueiro de Deus». A dado momento, porém, o jogo de Giuftrè foi pelos ares. Em 1958, «O banqueiro de Deus» declarou falência, e todos aqueles que lhe tinham emprestado dinheiro ficaram de mãos vazias, ou antes, viram-se envolvidos num turbilhão de dívidas.
A Santa Sé interveio, impondo aos bispos, párocos, ordens religiosas e congregações que restituíssem todo o dinheiro proveniente da burla. O Papa criou uma comissão cardinalícia para se ocupar da situação, a de tentar mitigar o escândalo.
Os Frades Capuchinhos foram dos mais atingidos. Perderam um verdadeiro patrimônio. O Geral da Ordem, em relatório reservadíssimo, escreveu o seguinte: «Fomos obrigados a pagar uma soma enorme, ficando reduzidos quase à ruína, à beira do desastre econômico.»
Para pagar as suas dívidas, os Capuchinhos pensaram em recorrer ao dinheiro enviado de todo o mundo para San Giovanni Rotondo, ao cuidado do Padre Pio. Pediram para ser ajudados, mas o Padre respondeu: «Esse Unheiro não é meu. Foi-me entregue com um objectivo preciso, para que eu faça obras destinadas aos pobres e doentes, e não para pagar as dívidas dos frades. Eu seria um mau administrador, se o utilizasse sem respeitar a vontade explícita dos benfeitores.»
O Padre tinha toda a razão, do ponto de vista da honestidade, mas os seus confrades, exasperados pela situação desastrosa em que se encontravam, não conseguiam entender a sua atitude. Alguns ficaram ofendidos, e uniram-se àqueles que sempre tinham sido inimigos do Padre Pio, dando o seu triste contributo para os sofrimentos do confrade.
Entretanto, em Outubro de 1958, morre Pio XII. Em seu lugar, é eleito Angelo Roncalli, com o nome de João XXIII.
Roncalli provinha de Veneza, onde era Patriarca desde 1953. Tinha começado a ouvir falar do Padre Pio imediatamente após a guerra, quando era Núncio Apostólico em Paris. Tendo de tratar de um assunto também relacionado com o Padre Pio, pedira informações ao arcebispo da Manfredónia e recebera, como resposta, uma longa carta transbordante de estima e de admiração. Como Patriarca de Veneza, ao receber um filho espiritual do Padre Pio, tinha-lhe dito: «Se escrever ao Padre, diga-lhe que o abençoo e que me recomendo às suas orações.»
Mal foi eleito Papa, João XXIII enviou uma bênção especial ao Padre Pio, através do arcebispo da Manfredónia, monsenhor Cesarano. Em Janeiro de 1959, o secretário de Estado, monsenhor Domenico Tardini, enviou ao Padre Pio, em nome do Papa, naturalmente, uma carta de louvor pela Casa Alívio do Sofrimento. Em Julho, do mesmo ano de 1959, o Papa mandou uma bênção pessoal ao Padre Pio, através do cardeal Federico Tedeschini, que ia a San Giovanni Rotondo para a inauguração da nova igreja de Santa Maria das Graças.
Até àquela data, portanto, o Papa João demonstrava partilhar plenamente a estima que Pio XII nutrira pelo Padre Pio. Depois a situação mudou de repente, e de forma drástica. Vários conselheiros do Papa tinham-se esforçado por insinuar nele dúvidas e suspeitas. Como se tratava de pessoas que o
Santo Padre conhecia e estimava muito, não podia ignorar o que diziam. Foi assim que se começou a formar a nova tempestade.
Corno noutras ocasiões, o Padre Pio, com a sua misteriosa sensibilidade, estava em condições de «prever» os acontecimentos que lhe diziam respeito e que ainda estavam para acontecer. Quando estes eram duros, sofria antecipadamente com o que estava para vir. Na realidade, ele sabia que essas experiências dolorosas eram provocadas pelo seu inimigo de sempre, Satanás, e sofri-as na carne, enquanto o Espírito do Mal as ia preparando. Tratava-se quase de urna luta «particular», entre ele e o mal, que se desenvolvia em «antestreia», isto é, quando os acontecimentos destinados a destruir a sua pessoa e a sua obra ainda não tinham começado.
Isso já atinha ocorrido, corno referimos no capítulo 14, antes da primeira condenação do Santo Ofício, em 1923. Enquanto em Roma os juízes do Santo Ofício discutiam o «caso», o Padre Pio, em San Giovanni Rotondo, agonizava por entre dores de todo o tipo. O mesmo aconteceu em 1959. Em Roma, conselheiros malévolos esforçavam-se por convencer o Papa João XXIII de que o Padre Pio era um religioso indigno, e propunham soluções drásticas para «redimensionar» a autonomia conferida por Pio XII; entretanto, o Padre Pio, em San Giovanni Rotondo, «somatizava» as consequências de tais intervenções, ainda antes de entrarem em vigor.
Com efeito, a 25 de Abril desse ano, caiu de carna. Acorreram os médicos, que ficaram perplexos e assustados, frente ao seu estado de saúde. Foram consultados três especialistas muito célebres, os professores Valdoni, Mazzoni e Gasbarrini, que diagnosticaram um tumor maligno no pulmão. O Padre tinha poucos meses de vida. O seu estado agravou-se. O Padre não podia levantar-se da carna, nem sequer para celebrar Missa. Ficou quatro meses naquela situação.
Mais tarde, em Agosto, deu-se algo extraordinário. Chegou a San Giovanni Rotondo a imagem de Nossa Senhora de Fátima, que nessa altura percorria a Itália, fazendo escala nas várias cidades. Chegou a San Giovanni na noite de 5 de Agosto. Durante toda a noite, as pessoas acorreram, em grande número, para rezar pela cura do Padre Pio. Por volta do meio- -dia, quando na igreja havia pouca gente, o Padre foi levado numa padiola até à presença da imagem. Aí permaneceu, em oração, e depois foi levado de volta para a sua cela. As duas da tarde, a imagem partiu, de helicóptero. Da sua cama, o Padre Pio rezava: «Minha Santa Mãe, quando chegaste à Itália, fizeste-me cair de cama, com esta doença; agora, que te vais embora, ainda me deixas assim?»
Mai tinha acabado de pronunciar estas palavras, todo o seu corpo foi sacudido por um tremor. Os religiosos que lhe faziam companhia assustaram-se e temeram que estivesse prestes a morrer. Mas aquele estranho fenômeno durou poucos segundos, e depois o Padre Pio sentiu-se inesperadamente bem. O seu rosto, antes muito pálido, tinha agora um tom róseo, e a respiração estava regular. Disse que já não sentia dores, que tinha recuperado as forças e que queria levantar-se da cama. Foram convocados os médicos, que examinaram o Padre Pio. Do seu mal já não restavam vestígios. Dois dias mais tarde recomeçou a celebrar Missa, a confessar e a receber os fiéis.
Aquele sofrimento teria servido, provavelmente, para o ajudar a superar, incólume, o Calvário que o esperava.
Depois da morte de Pio XII, as cartas anônimas, que continham calúnias contra o Padre, tornaram-se mais numerosas. Sobre a secretária do Papa João, o «dossier Padre Pio» ia-se tornando cada vez mais volumoso, reunindo acusações gravíssimas. Entre outras coisas, nele estava escrito que o Padre tinha relações sexuais com mulheres duas vezes por semana. As acusações também eram acompanhadas por documentos fotográficos, que mais tarde se descobriu serem fruto de uma vil e grosseira montagem. Havia ainda fitas magnéticas, com conversas furtivas e indecifráveis, também essas falseadas, mas divulgadas como «provas» de culpa. Os microfones para apanhar o Padre em flagrante até no confessionário tinham sido instalados.
O Papa João estava preocupado. Convocou Monsenhor Cesarano, arcebispo da Manfredónia. Mostrou-lhe o «dossier». Cesarano, com lágrimas nos olhos, garantiu que se tratava apenas de calúnias.
Por essa altura, o cardeal Siri também tomou a defesa do Padre Pio. Contou-me ele, passados vários anos: «Durante meses defendi o Padre Pio junto do Papa João. Falávamos dele em todos os nossos encontros. Nessa época, eu ocupava muitos cargos, sendo por isso recebido com frequência pelo Pontífice. A conversa acabava sempre no Padre Pio. O Papa, homem muito bondoso, um verdadeiro santo, estava preocupado por tudo o que lhe tinham contado.»
João XXII entregou o «dossier» ao Santo Ofício. Os membros deste dicastério reuniram-se para discutir o caso e, na reunião de 15 de Junho de 1960, decidiram anunciar uma visita apostólica a San Giovanni Rotondo.
Monsenhor Cario Maccari, secretário do Vicariato de Roma, foi incumbido da mesma. Chegou a San Giovanni a 29 de Julho. Mostrou imediatamente ter preconceitos contra o Padre.
Já estavam em curso os preparativos para a festa dos cinquenta anos de sacerdócio que o Padre celebraria a 10 de Agosto, e Monsenhor Maccari, como primeira disposição, ordenou o cancelamento de todos os festejos. Não se devia fazer nada, como se o Padre Pio fosse um sacerdote indigno, que, em vez de servir a Igreja, estivesse manchado com culpas horríveis.
Contudo, a máquina organizativa já começara a funcionar há algum tempo. Por esses dias, chegaram a San Giovanni milhares de pessoas, e o Padre viu-se obrigado a celebrar Missa para elas. Assim, acabou por haver festa, mas sem qualquer participação por parte das autoridades eclesiásticas, e o próprio «visitante», para não assistir à festa, partiu para Roma.
Regressou no dia seguinte, 11 de Agosto, e passou dois meses seguidos a interrogar religiosos e leigos. Interrogou também o Padre Pio por várias vezes. De um relatório que Maccari fez, em 1990, ao cardeal Ratzinger, secretário do Santo Ofício, veio-se a saber que um dos assuntos sobre os quais Maccari «apertou» o Padre Pio, foram as «piedosas mulheres», aquelas filhas espirituais que, desde finais dos anos vinte, vivi^ em San Giovanni Rotondo. Eram pessoas dignas de muita estima, que se dedicavam à vida de perfeição, mas que os inimigos do Padre apontavam como harpias corruptas e fino- rais. Como é evidente, o «visitante» atinha abraçado aquela tese.
A visita apostólica terminou em desfavor do Padre. Monsenhor Maccari ficou convencido que, em San Giovanni Rotondo, se cometiam muitas infracções graves contra a Regra franciscana e contra as disposições do Direito Canónico. Propôs uma série de intervenções, todas elas bem aceites pelo Santo Ofício e comunicadas ao Padre Pio, e aos seus superiores, através de dois documentos severos: uma carta do cardeal Ottaviani, secretário do Santo Ofício, com data de 31 de Janeiro de 1961, e uma carta de monsenhor Parente, então adjunto de Ottaviani, com data de 24 de Abril de 1961.
Nestes documentos, foi estabelecida a necessidade de:
- Reconduzir o Padre Pio à regular observância conventual.
- Proibir sacerdotes e bispos de ajudarem o Padre à Missa.
- Variar diariamente o horário da Missa do Padre.
- Respeitar a distância entre o confessionário do padre e os fiéis.
- Evitar a afluência excessiva de devotos do lugar, sobretudo de devotas, ao confessionário do Padre.
- Proibir o Padre de receber mulheres sozinho no parla- tório do convento, ou em qualquer outro lugar.
- Convidar o Padre a celebrar a Missa dentro dos limites normais de tempo, ou seja, em trinta ou quarenta minutos, no máximo.
- Impedir atos que assumam as características de culto directo à pessoa do Padre.
Além disso, o Padre Pio foi proibido de celebrar casamentos e baptizados, de contactar livremente com os fiéis e de confessar certas pessoas.
Não podia gastar mais de meia hora a celebrar Missa, nem podia reter os penitentes no confessionário durante mais de três minutos.
O Convento de San Giovanni Rotondo, onde o Padre Pio residia, passou para a dependência direta do Santo Ofício, e alguns religiosos, amigos do Padre, foram afastados.
Ao Padre Pio foi retirada a gestão da Casa Alívio do Sofrimento, sendo aquele obrigado a passar em branco as ações da Casa, que foram depositadas no banco vaticano do IOR.
O documento do Santo Ofício, que continha as novas restrições, terminava com um tom duro e ameaçador, como habitualmente se utiliza com pessoas réprobas e rebeldes: «Que o Padre Pio seja convidado a respeitar estas regras, em virtude da obediência religiosa e, no caso de uma condenável inobservância, não se exclua o recurso às penas canônicas.»
À luz daquilo que hoje sabemos, ou seja, que o Padre Pio era um santo, absolutamente inocente, torna-se inútil qualquer comentário àquelas enésimas disposições disciplinares contra ele.
Como sempre, o Padre aceitou a nova prova com espírito de obediência, oferecendo os seus sofrimentos a Deus. Tratava-se, porém, de sofrimentos terríveis. Com efeito, ele disse ao seu Guardião: «Que posso fazer? Peço a Deus que me chame depressa e me liberte destas aflições.» O indomável guerreiro, que tinha lutado durante toda a vida, sentia-se amargurado a ponto de invocar a morte.
Pesava-lhe, sobretudo, o facto de ter de dizer Missa a olhar para o relógio. A Missa era o seu «encontro» com Deus, um encontro em que ele acreditava com todo o seu ser e que «vivia» todas as manhãs como se fosse único, o primeiro e o último da sua vida. Aquela sua Missa «sem tempo» tinha encantado milhões de pessoas, tinha convertido milhares de ateus, tinha transformado inúmeras almas, despertando nelas o significado de um mistério indizível. E a Igreja, a sua Mãe Igreja, pedia-lhe que a apressasse, que a reduzisse a uma prática rotineira, controlando os tempos da sua devoção, do seu encontro com Deus. «Bem sabe o Senhor como eu gostaria de fazer como todos os outros», disse ele ao seu Padre Superior. «Mas não consigo. Em certos momentos, não sou capaz de avançar um passo. Sinto-me cair e tenho de parar.» Ao fim de mais de cinquenta anos de sacerdócio, ainda não se tinha «habituado» a celebrar sem lágrimas o mistério de um Deus que morre por amor dos homens.
Em 1960, o Padre Pio tinha setenta e três anos. Estava velho. A sua saúde, enferma desde o tempo em que ingressara no convento, tornava ainda mais evidente e duro o peso dos anos.
Um velho, ainda por cima doente, deveria precisar de atenções e afeto. O Padre Pio, pelo contrário, era cumulado de dúvidas, suspeitas e frieza, e das acusações mais infamantes.
Começava para o «frade estigmatizado» o último suplício angustiante: a agonia no horto das oliveiras, e a viagem até ao Calvário.
Depois de o Santo Ofício ter emitido as novas disposições, foi enviado para San Giovanni Rotondo um novo Guardião, incumbido de manter «a mais rigorosa disciplina».
Este mandou afixar na igreja e no claustro do convento cartazes em que se proibia as pessoas de se aproximarem do Padre Pio, à sua passagem. Retirou também, ao velho frade, o acompanhante que o assistia há vários anos. Proibiu todos os religiosos de qualquer manifestação de reverência frente ao Padre, proibiu que lhe beijassem a mão estigmatizada, como sempre tinham feito, ou que o ajudassem a subir as escadas. Proibiu o Padre de chorar durante a celebração da Missa e de ir visitar os doentes na Casa Alívio do Sofrimento.
As cerimônias religiosas do Natal e da Páscoa tinham sido sempre celebradas pelo Padre Pio na igreja de San Giovanni Rotondo onde, nessas ocasiões, acorria uma grande multidão de fiéis, alguns até vindos do estrangeiro. Contudo, o novo superior quebrou esta tradição, impedindo o Padre de celebrar a Missa solene nesses dias.
A 5 de Maio de 1963, dia do onomástico do Padre Pio, afluiu, como sempre, a San Giovanni Rotondo, uma multidão de amigos do Padre, chefiada pelo Presidente da Câmara, e pelos conselheiros municipais da vila, para lhe dar os parabéns.
O Padre Pio encontrava-se ao fundo do corredor do convento, e as pessoas avançaram na sua direção. Interveio, porém, o Padre Superior, aos gritos, dizendo que não gostava daquela confusão, e tentando expulsar toda a gente dali. Contudo, como as pessoas continuavam a avançar para o Padre Pio, o superior empurrou bruscamente o velho frade para dentro do convento, e fechou-o à chave numa cela.
Os habitantes de San Giovanni, que tinham assistido àquela cena vergonhosa, ferviam de indignação. A tarde desceram à praça com cartazes e dísticos, para protestar contra os religiosos que assim tratavam o Padre Pio. A manifestação chamou a atenção da imprensa, e os jornais de todo o mundo começaram a falar daquela nova onda de perseguições contra o frade estigmatizado.
Como sempre, os acessos de ira nunca são benéficos, e o Padre Pio acabaria também por ser inculpado das reações populares.
Os amigos leigos do Padre reuniram-se e decidiram empreender uma ação de defesa até ao ^n. Foi chamado a Itália Emanuelle Brunatto, aquele que já tinha conseguido vergar os inimigos do Padre em 1933, há trinta anos atrás.
Este fundou a AID, Associação Internacional para defesa do Padre Pio, com sede em Genebra.
Deitou mãos ao trabalho e, em pouco tempo, recompilou um «dossier» em que denunciava cruamente as manobras, mesmo ilícitas, dos inimigos do Padre Pio, destinadas a desacreditá-lo.
O livro devia ser apresentado à imprensa internacional a 25 de Março de 1964.
Tinham sido enviados quinhentos convites aos representantes das Nações Unidas e da imprensa, e às autoridades eclesiásticas.
A conferência seria realizada no Salão Grande do Hotel Richemond, em Genebra. Fora enviada uma cópia do livro a todos os bispos e cardeais que participavam, em Roma, no Concílio Vaticano II.
Como já acontecera nos anos trinta, o livro era destrutivo. Seria capaz de provocar um escândalo, e nada mais. Tinha por objectivo a chantagem, completamente alheia ao espírito do Padre Pio. Disso se aperceberam os próprios promotores da iniciativa e, no fim, não o puseram em circulação.
Entretanto, a 21 de Junho de 1963, o cardeal Giovanni Battista Montini, arcebispo de Milão, fora feito Papa.
Era amigo do Padre Pio. Montini fora Secretário de Estado do Papa Pacelli e, com Pio XII, aprendera a estimar o «frade com estigmas». Tinha sempre manifestado a sua própria devoção, até mesmo com cartas autografadas, nos momentos difíceis da vida do religioso.
Em 1959, o Padre Pio, saudando o comendador Alberto Galletti, de Milão, diocese dirigida por Montini, tinha-lhe dito: «Mando, não uma, mas uma grande quantidade de bênçãos para o cardeal Montini. Acrescento ainda a minha indigna oração. Diz ainda ao arcebispo que, depois deste, será ele o Papa. Que se prepare. Percebeste o que deves dizer-lhe?» Montini, quando recebeu, através do comendador Galletti, a mensagem que o Padre Pio lhe enviara, comentou: «Oh, que ideias tão estranhas têm os santos!»
Em Janeiro de 1964, Paulo VI ordenou ao cardeal Alfredo Ottaviani, secretário do Santo Ofício: «0 Padre Pio deve exercer o seu ministério em plena liberdade.» Um ano mais tarde, ordenou de novo ao cardeal Ottaviani que se «comportasse com o Padre Pio como se ele não estivesse obrigado ao voto de obediência».
Assim punha termo, com autoridade, a todas as restrições, coações e limitações, dando a entender que queria proteger o Padre.