CARTA, QUE NÃO É UMA CARTA
eu percebi que nunca mais toquei no seu nome
Pra uma pessoa que achou que nunca mais amaria ninguém depois de você, eu até que amei bastante
Nenhum ficou, claro
Mas eu percebi que lutei uma batalha sozinha contra todas as suas lembranças e no final eu acho que nem precisaria de esforço
Percebi que o tempo realmente se encarregou de muita coisa.
Não lembro mais o som da sua voz, percebi esses dias
Não lembro mais o cheiro do seu perfume, nem sei mais as músicas que você canta, a casa onde você mora, se casou novamente, se os seus filhos ainda são parecidos com você....
Não sei de muita coisa
E nunca mais escrevi sobre você
Todos os meus versos de amor, todos os meus versos de desilusão, todos os meus versos implorando por Deus, pela misericórdia de esquecer e ressignificar um coração, já não eram mais em seu nome
Todas as lágrimas, todos os sorrisos que me restaram, todas as maçanetas, todas as portas, casas que entrei, todas as compras que fiz, nada disso mais tinha a pergunta de suas preferências
Pra ser bem sincera você me escapa as vezes, esses dias lembrei o seu nome vendo textos antigos. Lembrei que nunca fiz uma carta número 1, não oficialmente já que esse posto era seu e eu me recusava a te dar uma lápide fincava na minha história.
Quem será que você é hoje?
Será que descobriu o amor e se deitou nos braços da incompreensão de amar ?
Ou continua buscando por resposta que não se tem ?
Ou se continua a procura de um ser inferior a mim já que, pra você, eu era boa demais.
E você não merecia o muito que eu te oferecia.
Então hoje, eu me vejo oferecendo pouco pra todos os amores que passam por mim. Com medo de ser muito, podendo ser muito...
Muitos amores me encontraram e eu mergulhei num rio dele, vendo que sou correnteza, sou maré, sou tromba dagua, sou tempestades e dias ensolarados de verão.
Sou o ouro que tolo não vê.
Mas isso não é sobre mim.
É sobre a sua história que não me lembro mais e o pouco que restou, ficou meio jogada na última gaveta da cômoda.
Como um rascunho bobo de uma história de primeiro amor, que eu dizia ser amor verdadeiro.
E, agora, lembrando de tudo mas ainda não ouvindo o som da sua voz, eu consigo ver o sentimento que me assombrou por dois anos.
E depois espreitou atrás da porta por 6 anos. Continua lá.
Foi uma história de amor que nunca foi apagada, foi esquecida. Empoeirada e desleixada, manchada como se uma enchente tivesse inundado todas as gavetas.
Falar de você sempre foi lindo.
Me rendia belos textos e nunca tive coragem de mostrar pra ninguém esse você por escrito. Hoje com coragem eu não vejo necessidade disso.
Até hoje.
Quando lembrei da exata sensação dos meus dedos escrevendo sobre o sentimento mais profundo que me inundou em todos os anos dessa vida.
Tenho 27 anos agora, quando te encontrei ainda era uma menina.
Passei anos amando você aos berros internamente. Sentindo o queimar da paixão em sua forma mais latente e vívida.
Como se tudo fosse vermelho como meus cabelos atualmente.
Eu lembro de tudo no fim das contas, mas esqueço que lembro.
Eu lembro do som da sua voz dizendo que era sua vez de fazer o almoço e sua cara de decepção por não ter acertado.
Lembro das vezes que me puxou pela cintura, lembro da posição que dormíamos na cama e da pequena fresta de luz que deixava no quarto não o suficiente pra te atrapalhar mas boa o bastante pra não me deixar na escuridão.
Lembro dos seus sussuros dizendo que me amava no ápice, da sua voz ofegante.
Lembro da sua expressão quando me olhou nos olhos e envolto em amargura, se deu conta de que me perdeu. Que todo aquele amor que você sussurrava e eu gritava, não foi o suficiente.
Eu era muito pro pouco que você queria que eu fosse.
Até que se deu conta que o pouco que eu precisava não era você.
Nem a sua história.
Que é pesada mas era a sua história que nunca abriu espaço pra escrever a nossa.
Talvez seja por isso que você não tem direito a uma carta.
E hoje eu escrevo lembrando de tudo. Da ardência, da dor, da solidão, dos abraços pela madrugada, dos empurrões, do abraço e do gosto da manipulação.
De olhar no espelho e, como uma vampira, não ver reflexo algum.
Não tenho maneiras poéticas ou humanas ou sobrenaturais pra explicar tudo, toda a nossa história - que não existe.
Eu me perdi, no meio de tanta coisa, que depois virou nada e depois tudo novamente e depois nada de novo. Até se tornar um tufo de poeira atrás da porta.
Um canto, que sempre esquecemos de varrer nos dias de faxina.
Lembro do gosto das lágrimas salgada, de olhar pra trás e sentir o terror latente entre o medo de ser perseguida e o pavor de ser abandonada.
Como um passarinho que caiu do ninho sem saber a que espécie pertencia.
Um ninho de tudo.
Você me proporcionava tudo. Fantasias, amor, aventura e decepções.
A sensação de te amar grandiosamente enquanto o sol ardia na praia com a brisa de sal e depois me sentir insuficiente assim que a lua atinge seu ápice, pra todos os seus problemas que eu fiz serem meus.
Na verdade, eu lembro sim do meu reflexo do espelho.
De olhar e ver que eu não consegui salvar a quem eu amava. Como se fosse a minha obrigação.
E no final era só mais uma Casa de Horror com mil espelhos refletindo imagens retorcidas de tudo o que você me fez acreditar que era meu.
Enquanto eu chorava, ardia de raiva e medo ao mesmo tempo você se deleitava com o seu precioso tempo tentando salvar a si mesmo da ilusão de mundo que você criou. Usando tudo como desculpa de sua salvação.
Saudade como desculpa pra traição.
Traição ao mais sincero e puro sentimento de amor que dois anos após isso, me perguntei se seria capaz de amar novamente daquela maneira.
Tentando responder perguntas que originaram uma sequência de cartas e nomes que, hoje, se misturam todos aqui pra engrandecer o grandioso nascimento de uma paixão que jamais foi sentida, jamais foi vivida e jamais passou. Até porque pra passar precisa ser lembrada.
E eu esqueci de você.
Depois de 3 anos eu já não fumava mais pra lembrar de todos os cigarros que roubou do meu maço.
De todas as horas que perdi te tragando pra dentro de mim. Já não existia mais manchas nos meus órgãos e quartos estavam vazios.
Dei um banquete pra uma multidão faminta.
Venci a guerra sem levantar uma espada.
Mergulhei de encontro ao mar para desaguar em águas doces 5 anos depois de mergulhar no inferno. Naquela mesma data em novembro.
Ah e eu amei, amei o sol do verão, amei noites brancas de Dostoiévski, o fogo de Xangô, o preto e branco do bairro de Botafogo e do Flamengo.
Amei tudo o que podia, na intensidade que podia. Oferecendo tudo o que eu não merecia.
E ainda sim, tentando responder o que é o amor.
Eu não sei se essa é sua carta. Te neguei a existência e não sei se é justo. Tudo começou com você e nunca te permiti um término a altura de tudo o que senti por você.
Não por você não merecer mas por achar minha poesia boa o bastante pra alguém como você.
Um canto esquecido na casa.
- bia














