A última carta de amor: 3ª e última música.
Enquanto tocava "Água e Sal" no fone e eu voltava pra casa em algum dia de fevereiro, por volta das 18 da noite, o dia ainda estava claro e olhei pela janela e pensei: "Por que não terminar esse texto da mesma maneira que ele começou? Com a janela de um ônibus."
Bom, antes de vir aqui, eu comecei três dias depois de terminar a 2ª parte e disse que falaria de números e blá blá blá.
Não deu certo.
Tal qual a gente.
Mas, não ironicamente, essa é a terceira tentativa de finalizar isso aqui e, porra, Delacruz… mais uma vez é o fim. Dessa vez, a culpa pelo término é minha.
Foi minha decisão.
Sem insinuar quem é o problema, até porque são vários, e no final dessa história não é sobre isso que quero falar.
Durante a construção dessa despedida, eu me embaralhei um pouco nas pessoas que estão te narrando esse texto, que era a ideia inicial. Mas, pra fazer isso ficar mais sobre você e as suas decisões, preferi não dizer qual nome pertence a cada parte. Você escolhe as vozes que falam com você. E assim você nunca vai saber quem realmente falou o quê.
Visto que essa é a última carta. A sua última carta.
Enfim, cada uma delas tem sua particularidade e, do mesmo modo, você também tem as suas e as suas fixações.
Hoje eu senti sua falta. Na verdade, venho sentindo desde o dia que prometeu voltar e não voltou. Já não sei mais como vou te entregar essa história que, obviamente, estou falhando em contar.
Perdoa a minha ansiedade. Igual a estas páginas que você lê: vamos por partes.
Esse foi o tempo que passei de uma janela pra outra e, enquanto atravessava Madureira, me caíram duas lágrimas de choro por ter percebido que nunca mais olhei o céu igual olhei hoje.
Depois começou a tocar Sunshine no fone, como se a vida respeitasse o enredo dessa história que é contada igual uma escola de samba na avenida.
E o nosso cortejo começa com nós dois rodando e apresentando a bandeira.
Mas
"Calma aí, que história é essa?", você me pergunta.
E eu ando dando voltas e voltas pra contar, porque significa que, se eu começar, vou ter que terminar.
E já são longos dias e a viagem é curta.
Começamos em algum dia do inverno, desenrolando pela primavera e, apesar de parecer que não, nossa história terminou assim que chegou o verão.
3 meses.
Por 3 meses conhecemos as mais infinitas coisas, vimos várias colmeias de estrela e, até hoje, tem emoldurada na parede uma lista com todas as nossas lições que, como alunos exemplares, lemos todos os dias para aprendermos a ser pessoas melhores.
Irônico eu ter aparecido na sua vida pra te ensinar o que é um relacionamento correto, sendo que eu nunca vivi isso.
Mas não é sobre isso… também seria injusto agora.
Bom, fim de verão, certo?
E assim, sem muita turbulência, acabou nosso romance primaveril.
Eu saio dessa história com metade do meu coração e você sai com dois pela metade. Além de já ter o seu…
E dessa vela meio acesa, desse texto mal acabado, dessa ilha mal descoberta, desse chinelo meio arrebentado… nasceu a nossa história.
Talvez fruto da minha imaginação, já que, depois de tanto tempo, eu já não sei quais partes são reais e quais eu criei com o pensamento de que "quando ele voltar vamos fazer isso".
Mas você não voltou, nós não fizemos, e eu me pergunto se a foto em frente ao espelho tem algum som ou algum cheiro. Já que tudo que me vem à memória é duvidoso.
Não lembro do seu toque, não lembro da sua língua explorando labirintos, não lembro do gosto do meu cigarro sumindo no meio do seu beijo.
Mas ao mesmo tempo que não lembro, sinto o calor pela minha espinha lembrando da textura da sua pele, das suas mãos afundando pelo meu corpo e da sua respiração ofegante.
Já não sei mais qual parte comecei a fantasiar e qual é real.
E, tal qual em Clube da Luta, já não sei mais até que ponto fomos nós dois e até que ponto eu criei nós dois. Só sei que, como num lapso, como quem dá um suspiro, você já não estava mais lá.
Vivemos pouco, mas imaginei muito.
A foto que eu criei com nossas caras de adolescentes apaixonados não reconheceria uma selfie nossa com as expressões da vida adulta.
E você se lamenta.
E eu me lamento.
Pelo meio. Nem é pelo fim.
Na verdade, nós lamentamos. Porque esse, agora, é o fim.
O fim das memórias que são reais, mas não são.
O fim da sensação dos nossos corpos juntos, mas ao mesmo tempo distantes.
O fim do cheiro do meu perfume no seu nariz, já que eu já não uso mais ele em sua memória.
Agora abro caminhos com portas fechadas.
Caminhos para a sua vida seguir sem precisar me vigiar pelos cantos.
O fim da minha procura por um rastro de esperança.
Eu não acenderei mais velas pedindo por você, não vou mais falar que um dia te amei.
Não vou mais proclamar o amargor da nossa história que termina tão… jogada ao ar.
Mesmo se fantasiarmos uma doçura que nunca existiu,
Não existe amor na distância que se questiona.
E se não fosse o nosso passado, nosso presente não existiria, já que nunca fomos futuro.
Terminaremos igual Los Hermanos pós-Carnaval.
Todo Carnaval tem o seu fim.
Não existe mais Rihanna, Delacruz, Maria Gadú ou qualquer outra canção que já cantei e lembrei do seu nome.
Não vou apagar seu nome da minha história, muito pelo contrário. Vou te dar um final digno de quem merece.
Por respeito à nossa história.
Por respeito à nossa vida juntos, que não tivemos.
E eu, sinceramente, não sei dar um fim a essa carta.
Desculpa, Baco.
Eu não sei partir.
Mas, se partirmos da história que eu imagino, vou descer do carro depois de um longo abraço e esperar você virar a esquina e te dar um último tchau.
E essa vai ser a sua última memória de mim, pelo retrovisor do seu carro.
Não espero que você me faça perguntas. Não sei se você vai querer fazer elas.
Mas essa imagem vai ser equivalente à foto no espelho redondo.
A lembrança de algo que nunca tivemos.
Na verdade, eu te dei um fim.
Enquanto isso, eu fico aqui com o martírio do ponto final que coloquei.
E vou te deixar ir com vários pensamentos meus até ter, finalmente, a coragem para lhe entregar o fim.
E esse vai ser meu castigo: andar com o fim da nossa história no meu bolso e minhas últimas palavras escritas numa letra que não sei se você vai entender.
Caso meus planos deem certo…
E essa foi a última vez que você me ouviu dizer que…