ele nΓ£o Γ© o oposto do som... Γ© o que sobra quando o som vai embora, como a poeira depois da mudanΓ§a.
chegou num domingo, porque mudanΓ§as grandes sempre chegam aos domingos... quando ninguΓ©m estΓ‘ preparado, quando o mundo estΓ‘ de pijama e o cafΓ© estΓ‘ fraco...
primeiro foi o despertador: ele vibrou, vibrou, vibrou... mas nΓ£o cantou. eu olhei para ele, confuso, como se ele tivesse traΓdo nossa amizade de trinta anos. aΓ eu bati na mesa... nada. bati de novo... o som que eu esperava nΓ£o veio, mas eu senti o choque nos ossos... como se o barulho tivesse virado cΓ³lica.
e o dia foi se desmontando... o chiado da chaleira virou uma danΓ§a de vapor mudo, a torradeira estalou sem graΓ§a, sem aquele clique metΓ‘lico que anuncia o pΓ£o pronto... eu mastigava e, de certa forma, sentia meus dentes, como quem sente o prΓ³prio esqueleto trabalhar.
na rua o mundo virou um filme antigo passado no mudo: os carros deslizavam como brinquedos de vento, as pessoas abriam a boca e eu via lΓnguas e dentes e expressΓ΅es que eu nΓ£o sabia decifrar mais... uma senhora riu de algo perto de mim, e eu sΓ³ vi a garganta tremer. o riso era um terremoto invisΓvel.
eu tentei cantar para testar... minha voz saiu, mas ela nΓ£o voltou... ela se perdeu no ar como um pΓ‘ssaro que esquece o caminho de casa, e eu fiquei ali, com a boca aberta, parecendo um peixe empoeirado.
as primeiras horas foram de pΓ’nico. mas o pΓ’nico tambΓ©m Γ© silencioso quando nΓ£o tem eco, entΓ£o ele virou uma coisa densa, pesada, como um cobertor molhado em cima do peito...
e aΓ no meio da tarde eu sentei no chΓ£o da sala e percebi que o ventilador fazia uma coisa que eu nunca tinha notado... ele balanΓ§ava a planta, e a planta balanΓ§ava a sombra, e a sombra danΓ§ava no chΓ£o. eu ouvi aquela danΓ§a... com os olhos.
o silΓͺncio ensina a ouvir com a pele, com os pelos do braΓ§o, com a sola do pΓ© descalΓ§o no azulejo.
aprendi que a chuva nΓ£o canta, mas desenha riscos no vidro que parecem mΓΊsica escrita Γ mΓ£o...
coloquei a mΓ£o na geladeira, senti o motor ronronar como um gato surdo... apoiei a testa na parede e senti o prΓ©dio respirar: todos os canos, todos os fios, todas as vidas vizinhas vibrando como cordas de um violino que ninguΓ©m toca...
Γ noite, a televisΓ£o ligada mostrou um homem gritando... li nos lΓ‘bios dele: "vocΓͺ vai superar". sΓ³ nΓ£o sabia que superar nΓ£o Γ© vencer... Γ© aprender a conviver com o vazio Γ© transformΓ‘-lo paisagem.
e entΓ£o veio o sono... o sono mais profundo da vida dele... porque o silΓͺncio Γ© o colchΓ£o mais macio que existe, sem despertador, sem vizinho, sem cachorro, sem buzina, sΓ³ o coraΓ§Γ£o... que ele sentiu bater como um tambor distante... e pela primeira vez, ouviu o prΓ³prio sangue... como quem ouve o mar dentro de uma concha gigante.
no meio da madrugada, acordou com um barulho... mas nΓ£o era barulho, era a falta dele... era o vΓ‘cuo assobiando. sorriu, porque o silΓͺncio tambΓ©m tem dentes, e ele morde, mas com o carinho de quem lembra de um ente querido...
e assim a vida seguiu... aprendeu a ler os olhos das pessoas, aprendeu que o choro tem gosto, nΓ£o som... que o amor Γ© uma pressΓ£o no ombro, que a mΓΊsica nΓ£o morre, ela vira formigamento nos dedos...
e quando alguΓ©m perguntava "como vocΓͺ estΓ‘?" ele respondia com os olhos, que diziam: "estou aprendendo a escutar o que nunca fez barulho".
o silΓͺncio deixou de ser ausΓͺncia, passou a ser presenΓ§a. uma presenΓ§a azulada, como o cΓ©u antes do sol...
certo dia, sentado na varanda, viu um beija-flor pairar no ar e sentiu o bater das asas como um coraΓ§Γ£o minΓΊsculo... e soube, entΓ£o, que o mundo nunca esteve tΓ£o cheio... nΓ£o ouviu o beija-flor ir embora, mas sentiu o ar se fechar atrΓ‘s dele, como quem sente uma porta se fechar sem barulho, mas com a certeza de que algo passou...
levantou-se da varanda e entrou na sala escura, onde sua mulher dormia no sofΓ‘ com a televisΓ£o ligada em mudo, as imagens danΓ§avam na cara dela como sombras de Γ‘gua...
sentou-se no chΓ£o e ali, com a cabeΓ§a no colo da mulher que amava, ele entendeu que a surdez nΓ£o era uma perda, era uma troca... ele tinha dado o som para ganhar o peso das coisas: do joelho, do silΓͺncio, de um amor que nΓ£o precisa de mΓΊsica pra ser danΓ§a...
como consequΓͺncia de sua certa inquietude, a mulher acorda e de imediato faz carinho em seu cabelo... sentindo o toque como uma palavra dita, respondeu com um sorriso... e isso, naquele instante, foi o barulho mais bonito que o silΓͺncio jΓ‘ tinha guardado...