tw: violence, tw: blood, tw: serious injury, tw: gore.
sentia o joelho de um dos capangas de woojin no meio das costas, mãos presas de forma excruciante, quase lesionando o osso, os braços restringidos atrás de si também, seus próprios joelhos no chão sujo com uma mistura de seu sangue e do nojento líquido podre que os outros haviam derramado. a dor combinada com as correntes que lhe agarravam o pescoço e limitavam sua respiração o impediam de focar o suficiente para usar o poder e livrar-se das restrições. tinha abatido uma boa parte deles, mas devia saber melhor do que ir sozinho - era uma armadilha, claro. porém, no momento que se pensou necessário novamente jogou o melhor julgamento pela janela. “kim wooyoung. student kim wooyoung.” a voz masculina era apenas uma febre, longe de si, ainda sim, viscosa e indesejada. “you got away with everything, didn’t you, you little fucker?” a face desconfigurada colocou-se frente a sua, segurando nos fios de cabelo agora já pegajosos, fazendo as cordas de aço saírem de perto do pescoço tempo suficiente para que pudesse buscar o ar, ofegante e desesperado. “they threw us away, but you got everything.” ressentimento era evidente na voz do gangster ou seja lá o que ele tivesse se transformado, alguém certamente amargurado, era tudo que podia ter certeza. “what about that fucking bitch?” jisoo. sim, eles não estavam atrás apenas de si, contavam que a menina viria procurá-lo. podia entender as câmeras na fábrica abandonada agora. “hand over that cunt and we’ll let you go, pretty thing.” segurou o reflexo de vomitar quando a voz agressiva tomou um tom baixo, dois dedos acariciando o queixo do garoto.
sentiu as entranhas pegarem fogo, um tipo novo de repulsão que mal conseguia conter dentro de si - sabia que se não reagisse agora, não sairia dali com vida para avisar a parceira sobre o reino de drogas da antiga cobaia. o primeiro curso de ação foi extremo ; quebrar o próprio ombro, puxando -se livre da contenção apertada dos outros sob comando de woojin, assustando-os o suficiente para que afrouxassem por um instante suas mãos e braços, assim como a corrente - embora o grito ecoasse no espaço quase vazio, conseguiu se teletransportar para logo atrás de seu atormentador destilando um empurrão com a bota militar pesada que levou o outro ao chão, apenas conseguindo aumentar sua raiva, mas lhe dando um segundo para pensar ; usou de novo o poder para cair sob a ponte do andar debaixo, a dor no osso deslocado queimando, mas não era nada com que ele não tivesse acostumado. ajoelhou-se novamente, dessa vez colocando no lugar o membro, mordendo o próprio lábio até sentir o gosto metálico do sangue & ainda sim podia ouvir os bandidos vindo em sua direção, logo desceriam as escadas.
‘eu vou matá-los.’ , era assim que deveria pensar em qualquer combate ou não poderia vencer. 'não pense em mais nada,’ dizia capitã yoojin. 'apenas em acabar com eles.’ conforme cada um vinha, ele erguia-se do chão, roubando uma das machetes usadas por aqueles já caídos, e atacava com ainda mais vingança. um deles teve o joelho quebrado com um golpe de teleporte, e depois caiu para fora da ponte, o grito cessando no chão onde o crânio se fraturou. outro foi mais simples, apenas deferiu um golpe da arma afiada no pescoço e ele caiu silencioso. mais um com os golpes teletransportados, um soco na boca com o calcanhar e fez com que caísse no chão, esperando a lâmina que veio na nuca, várias vezes, assim que se aproximou. um por um, de forma cada vez mais brutais foram caindo todos, até que finalmente chegou a choi woojin, acoado num canto. a fúria nos olhos dos dois era incomparável, mas wooyoung estava cego, nada importava além dos comandos instilados em si - 'mate-o, mete-o, mate-o’, a voz serpenteava no seu subconsciente e por um momento, quando passou o facão no pescoço do rapaz que uma vez conheceu, seu sangue lhe manchando o rosto ainda mais, e finalmente encontrando sua demissa numa poça de sangue em um lugar remoto onde jamais o achariam, achou que estava certo.
as roupas estavam completamente manchadas, o ombro ainda latejava mas era a cabeça - sua consciência - que mais incomodava. eram as mãos completamente encharcadas de sangue como o seu : usado , obediente, cansado. “porque você não me deixou em paz ?” sussurrou sobre o corpo do antigo companheiro. “porque não podia ter deixado a gente em paz !” desta vez, um grito, limpando os pulmões da raiva que sentia - foi forçado aquilo. não entendia o quanto woojin tinha mudado e não poderia permiti-lo perto de jisoo mesmo que estivesse disposto a morrer para proteger sua localização. sim, ele tinha razão. sim, ele tinha motivo. sim, ele não era um assassino. não era um assassino comum.
com pernas bambas, tropeçou pra fora da fábrica, se apoiando nos corrimões das escadas com força para não cair, especialmente pois a visão estava embaçada pelas próprias lágrimas. uma carnificina, era a verdade sobre o que tinha ocorrido ali. tudo com suas digitais e seu sangue. teria que ligar para um dos antigos contatos para limparem a bagunça - incrível o que dinheiro podia fazer - , números que ele nunca pensou que viria a precisar, ofertados pela antiga capitã. tudo tinha sua mão. contudo, naquele momento só o que podia pensar era em ir para algum lugar seguro, onde o sangue pudesse ser lavado da pele e dos cabelos, onde aquele nó na garganta não fosse sufocá-lo como fizeram a pouco.
entrou no carro, as mãos ainda tremulas, o sentimento da machete entre os dedos fresco na mente - nem sequer lembrava em que momento tinha deixado ir da arma. tentou dar partida várias vezes sem sucesso, socando o volante com o braço machucado, o que fez um grunhido lhe escapar os lábios. no fundo, sabia que não ia conseguir dirigir até em casa naquele estado, e foi quando se forçou a respirar mesmo que as costelas chamejassem em dor pelos vários golpes que havia levado. começou a usar o poder aos poucos, sentindo o surgir de energia lhe passar pela ponta dos dedos não entorpecidos pelos machucados. precisava localizar alguém, e tinha apenas uma pessoa em mente, por qualquer razão que fosse. por uma razão que não entendia.
não eram especialmente próximos, apenas treinavam juntos - era verdade, sentia uma atração pelo outro. algo leve que não requeria que pensasse muito sobre. não era um bom lutador e lhe fazia rir quando caia. no entanto, quando as mãos demoravam-se nas deles, e os olhares se cruzavam antes de jogá-lo pro tatame, era como ser puxado para um novo mundo. intenso e cheio de possibilidades. algo que tinha perdido de vista a algum tempo, graças a certo alguém. quando se deu conta já tinha se teletransportado para o mesmo local que yunseong.
tw: menção a ferimentos e sangue.
beirando o milésimo cubo rabiscado no caderno de composição genérico do instituto, yunseong perde a conta de novo e pragueja com uma fúria sonolenta. confiscaram seu celular (não pela primeira vez, mas pelo período mais longo até agora) sob o pretexto de forçá-lo a aguçar a memória. é para ser parte do treinamento, use o caderno para documentar seus sonhos, mas yunseong sabe que um dos instrutores tira uma satisfação macabra de fazê-lo sofrer. por que não um daqueles tablets que eles distribuem nas sessões, ao menos? identifique os sonhos pelo dia da semana, use o maior nível de detalhe possível, e devolva no final de cada mês. não entende a utilidade de fazer esforço para lembrar mais do que aquilo que fica tatuado no interior das pálpebras por dias, do que é forçado a recontar nas sessões. uma parte sua conserva a esperança infantil de que talvez, se deixar claro o bastante que não dá a mínima para desenvolver sua habilidade, alguém vai perceber que ele não tem utilidade e deixá-lo ir. não soa provável.
há o som esporádico de meias arrastadas pelo assoalho do corredor e um cheiro incômodo de café no ar, cortesia da atração incontrolável entre a máquina nova instalada na sala comunal do primeiro andar e os residentes cansados do nono. no geral, é quieto — suficiente para alimentar a ilusão de privacidade, considerando que as camas restantes do quarto ainda estão vazias, mas movimentado o bastante para não ser solitário. algo está passando na tv anciã no chão, mas sua atenção se dispersou há bastante tempo.
em um segundo está sozinho, e no próximo algo se materializa no carpete, lançando sombras nas paredes. alguém, sujo com tanto sangue que não escapa sequer à semiconsciência de yunseong. reflexo o faz recolher os pés, e por alguns instantes apenas encara, technicolor brilhante encharcando o vermelho nas roupas do intruso. “o que—” no fim não termina a pergunta, porque aquele rosto não pertence a um estranho. pensa em cruzar a distância até a porta e girar a chave, por precaução, porque duvida que o garoto queira arriscar uma punição naquele estado, mas não o faz. inutilmente, o cérebro oferece um zilhão de cenários similares de sonhos recentes, porque é impossível armazenar as imagens fora de alcance. desliza para fora da cama, joelhos pousando no carpete sem fazer som. é uma expressão diferente da que está acostumado a ver no rosto alheio (concentração, na maior parte do treino, diversão mal contida quando yunseong inevitavelmente faz alguma besteira, como errar a ordem dos movimentos ou cair). costuma ser ele olhando do chão, e wooyoung, habilidoso e composto, oferecendo a mão para que possa levantar. merda, yunseong odeia sangue, e é tudo o que consegue ver. “o sangue é seu?” o tremor que inicia nas mãos trai o tom de voz clínico.