se pedissem descrever, sol diria “barulhento e complicado”,um resumo de uma semana que deveria ser anulada, daquelas onde eram obrigados ainteragir com desconhecidos e o pior detudo: usar seus poderes. lutarcom a ausência deles era uma alternativa, mas nunca o aceitável paraaqueles que comandavam o local,tratando-se de exibições era quase um crime usar de habilidades medíocres.
como uma forma de apoio àqueles que tinham de se submeter asmesmas coisas, sol presenciou várias lutas quietas da platéia. entretanto, a denuri fora particularmente preocupante para si. existia o ímpeto imediato deperguntar para quaisquer que fossem as pessoas se estavam bem, se precisavam dealguma coisa e assim por diante, mas a consciência que traria desconforto àessas pessoas a impedia de se aproximar. continuar sendo distante e dar umapoio silencioso era o que fazia. ainda assim, após a luta do amigo, esfregavaos dedos compulsivamente contra as mãos enquanto o lábio eram presos comumentepelos dentes em uma tentativa falha de se conter.
com uma distância significativa,ela caminhou por todos os lugares que ele passava. observava os lados, outraspessoas que transitavam entre campo de luta e enfermaria, alguns contentes, outrosirritados. nuri parecia um deles; machucado.
ciente que nuri estava fisicamente bem e em seus aposentos,sol poderia se aquietar e ir igualmente descansar. fazer algo que envolvesse ficarlendo livros ou ouvindo música, uma vez que o evento proporcionava uma atençãodesagradável e toda hora alguém aparecia para apontar o dedo e querer algumtipo de “manifestação mutante”.
parou próximo ao quarto dele, encostando na parede depoisque ele entrou. com o celular na mão digitava mensagens para nuri, esperavamostrasse estar ali, talvez fosse o suficiente. bom, se os tivessem mandados invés de apagar. não sabia o que dizer. nada parecia muito bom e, no final dascontas, concluiu que se fosse consigo preferia somente o silêncio, umacompanhia boa e nenhum julgamento. por conhecê-lo sabia que eram diferentes e,por esse motivo, só conseguia imergir em pensamentos que solucionavam aquestão. depois de quase uma hora haviam se passado, sentar-se no corredor nãoparecia má ideia, então mandou as seguintes mensagens de textos:
“se precisar, eu to aqui”
“só é literal se vocêquiser, se não quiser finge que não é”
“pode ignorar não vai sermal educado, prometo! você pode estar dormindo, né…”
até quem não a conhecia podia sentir o tom de seu desesperoapós a segunda e estranha mensagem enviada, o que só piorou com as próximas. estava enviado. pelo havia conseguidofazer uma coisa aquele dia, só não podia dizer se era uma coisa boa.
não era imediato, mas você não perceberia se alguém estivesse te seguindo? ainda que não soubesse quem, nuri tinha a sensação constante de que alguém estava o perseguindo. podia jurar que era algum humano idiota esperando por mais um pouquinho de migalhas, de conhecimento sobre a arte de manipular a areia. apenas o pensamento o fazia rir dolorido, talvez raivoso, quase como se fosse o suficiente para se sentir especial, embora soubesse que estava mais para uma atração de circo. ignorar era mais saudável e consequentemente mais fácil, então apressar o passo não foi realmente um ato impensado.
o braço pulsava ao redor do corte recém costurado, a tentação de conhecer alguém que tivesse algum tipo de poder de cura lhe parecendo bastante viável agora. ainda que no conforto de sua cama, sentado e encarando o chão, havia um sussurro que o implorava para espalhar as emoções e liberar as lágrimas frustradas, os pensamentos intrusivos que por consequência o obrigariam a tomar um calmante e capotar pelas próximas dezoito horas. parecia uma boa ideia considerando que viver mais um minutinho daquela sensação sufocante lhe parecia impossível.
deitou antes de ingerir as pílulas, de qualquer forma. sabia que no estado em que estava e na solidão que sua cabeça insistia que ele vivia, bastaria um fechar de olhos para entrar no mundo dos sonhos por tempo indeterminado. era desconfortável ficar com o tapa olho, o braço enfaixado não o permitia ficar de lado; parecia mais estar em um caixão, com as mãos entrelaçadas sobre a barriga e o corpo virado para o teto. antes que pudesse relaxar, o celular apitou; uma, duas, três, quatro vezes. a curiosidade não o permitiu ignorar, tão logo já estava com o smartphone em mãos, descendo pelo chat de sol. o sorriso que surgiu foi tão natural quanto era tê-la em sua vida, mas a desconfiança era uma velha amiga de nuri.
( nuri → solzita. ) literalmente?
( nuri → solzita. ) agora cê entra em pânico até por mensagem, mds...
enquanto ria sozinho, uma luz se acendeu em sua mente; como nos desenhos animados, havia uma lâmpada brilhante bem ali. literalmente significava que? levantou da cama tão rápido e suspeito que precisou parar um segundo para se recuperar. ‘ei, ow, ‘cê tá debilitado, cara...’ pensou para si mesmo. se ela não estivesse ali, ao menos podia passar a vergonha sozinho e fingir que nada aconteceu, mas caso estivesse, ao menos não a teria ignorado — tampouco seus sinais.
estava certo no fim. quando abriu a porta e a encontrou encolhida no chão do corredor, revirou os olhos antes de abrir o mais brilhante dos sorrisos para ela. e de certeza só ela tinha a capacidade de consegui-lo naquele dia. “por acaso, só ‘pra eu saber... ‘cê tava me seguindo mais cedo?” a encarou com um olho só, mas isso não o impediu de cerrá-lo, ainda que solitário. “não precisava de nada, mas agora eu quero companhia. quer entrar?” tombou a cabeça para o lado em expectativa, a estendendo a mão para que levantasse do piso gelado. era legal ter alguém que se importava de verdade, só para variar. mesmo que essa pessoa em questão fosse peculiarmente ‘panicada’.