Nunca morei perto do mar. Quando eu era menor, entretanto, costumava ouvi-lo através de uma conchinha que ganhei da minha mãe que, diferente de mim, sempre morou no litoral. Eu lembro que costumava contar a novidade a todos que chegavam em casa, levava a concha a seus ouvidos e perguntava se eles também podiam ouvir o barulho das ondas, sentir o frescor da praia, imaginar a areia nos pés. Compartilhava a sensação audaciosa de teletransportar-me através de um objeto tão simples. Com o tempo, acabei descobrindo que o barulho ouvido dentro da concha não era do mar, era apenas eco, uma reprodução amplificada do ambiente ao redor. Crescer tem dessas coisas: faz nossa imaginação ficar sujeita a uma realidade imprevista, quase desnecessária. Hoje, quando acordei, meu primo de 4 anos estava na sala com a mesma conchinha colada na orelha. Assim que saí do quarto, ele correu até a mim. Entusiasmado, perguntou se eu conseguia ouvir o mar, assim como ele. Outra vez, teletransportei-me. Dessa vez, para o passado. Sensação esquisita, tristeza imprecisa, saudade importuna. Levei a concha aos ouvidos, mas foi decepcionante. Agora eu só ouvia o eco, a tal da reverberação, nada de ondas. No entanto, fingi o contrário. Dei um sorriso, afirmei que sim com a cabeça e saí. Tentar explicá-lo seria cortar a sensação que me aproximou, durante toda a minha infância, do mar — metáfora que escolhi para ludibriar aquela criança que, na verdade, sentia falta da mãe. Bastava encostar no ouvido e senti-lo (senti-la). Se aquela criança se perdeu no adulto que me tornei, esse adulto faz questão de conservar a tradição, o patrimônio material que resta. Afinal, é uma herança de família: não a concha, o mar que existe dentro dela.