Os primeiros dias na universidade foram um tanto mais complicados do que Jake imaginou. Mesmo que as aulas apresentadas até então se mostrassem complexas, Jake que sempre se acomodava ao fundo da sala, não lhe causaram incômodo. A questão é que o rapaz havia realmente adquirido problemas para se enturmar com os demais alunos que compartilhava as aulas.
O curso que escolhera ingressar era um tanto quanto elitista. Não era correto dizer que todos os alunos ali eram ricos, mas poderia afirmar com tranquilidade que noventa e cinco por cento eram. Sentia olhares maldosos para si durante as aulas, acompanhados de certos cochichos, provavelmente devido suas roupas serem sempre simples e seus livros surrados. Jamais se sentiria envergonhado de sua situação financeira ou da forma que entrou na universidade, porém não deixava de se sentir incomodado, afinal, que diferença faria para os demais?
Quando o sinal soou pela sala, Jake rapidamente guardou seus materiais e saiu campus adentro, precisava relaxar por alguns momentos, tudo ali era tensão demais. Através de panfletos durante a semana, tomou conhecimento de que seria realizado a exibição de um de seus filmes favoritos, Clube da Luta, naquela mesma tarde. Logo, não tardou de apressar seus passos para o local cheio de pufes. Mais uma vez escolheu sentar-se ao fundo, até porque devido sua estatura, não seria uma opção educada sentar-se no pufes localizados mais a frente.
Os sentimentos que surgiam no rapaz ao assistir o filme pareciam exatamente os mesmos na primeira vez que o assistiu. Tudo ainda lhe parecia tão genial e de certa forma, atual. Enquanto os créditos subiam pela tela ao final do filme, uma professora de psicologia debatia com os demais alunos questões sobre a obra, prendendo a atenção de Jake. Por mais que seu curso fosse de uma área totalmente diferente, psicologia sempre foi um assunto interessante para o rapaz, que entendia a importância daquele estudo, mais do que ninguém.
Estava quase se levantando quando se espantou com uma vou amigável em sua direção. Aquilo era realmente uma grande novidade em dias. — Você está falando comigo? — Questionou, virando o pescoço para trás, a fim de verificar se a ruiva a sua frente não estava direcionando a palavra para outra pessoa, mas o que tudo indicava, é que era realmente para ele que os olhos claros estavam direcionados. — Jake. Jake Atwood. — Respondeu meio envergonhado, estendendo a mão para a menina. — Eu já havia assistido o filme antes, então não foi exatamente uma surpresa. Mas confesso que os comentários da professora no final do filme o fez parecer mais interessante ainda. — Disse rapidamente. — Você já havia assistido também?
Assim que o rapaz perguntou se ela estava falando com ele, assentiu com a cabeça. Ele tinha um rosto um tanto quanto familiar, talvez ela já o vira antes pelo campus, mas não familiar a ponto de ela reconhecer seu nome. Ficou imaginando o que o levara àquela sessão do Cinepsicologia, mas quando ele comentou que assistira àquele filme pela segunda vez, já conseguiu montar uma motivação em sua cabeça. — Foi a terceira vez que assisti, para falar a verdade. — Respondeu, lembrando-se das outras vezes que assistira ao filme. — Tive impressões tão diferentes cada vez que eu assisti, é um filme cheio de camadas. — Constatou. — Assim que montei o Cinepsicologia eu sabia que esse filme deveria ser trazido. — Falou, lembrando-se de quando esse projeto estava apenas no papel. Demorara um pouco para conseguir as autorizações e verba necessárias para a realização desse tipo de evento, porém a lista com os filmes que queria exibir sempre existiram.
Jessica sempre fora uma grande fĂŁ de filmes, seu pai tinha o hábito de levá-la muito ao cinema e alugar filmes cults para que eles assistissem juntos. É claro que ela nĂŁo era uma grande entendedora dos termos tĂ©cnicos cinematográficos, porĂ©m a psicologia dos personagens era algo que lhe interessava muitĂssimo. Ela adorava entender por que as pessoas faziam o que faziam e como pensavam, alĂ©m de perceber os padrões de comportamento, e achava que os filmes traziam casos de estudo excelentes para isso, quando bem escritos. O primeiro filme que Jess se lembra de intrigar-se com a psicologia dos personagens foi Persona, do diretor sueco Ingmar Bergman, um dos filmes estrangeiros em preto e branco que ela assistira com Jeremy quando tinha cerca de 17 anos.Â
— Sabe que da primeira vez que assisti a esse filme eu achei que era sĂł uma desculpa para mostrar mais masculinidade tĂłxica em uma tela de cinema. — Começou seu raciocĂnio. — Mas depois eu entendi que Ă© justamente uma crĂtica a isso. E que crĂtica bem feita! — Completou.