O breve sorriso que moldara os lábios de William ao ouvir de Georgia que ganharia uma estrela por terminar sua lista de compras com tempo de sobra sumira conforme se dava conta de que as chances de ter confundido os tipos de esponja eram mesmo reais. – Ahem? – resmungou o ex-corvino enquanto direcionava o olhar uma outra vez em direção ao carrinho que deixara a pouca distância de onde os dois se encontravam. – Wee man! É bem possível que você esteja certa e que tenha confundido as malditas esponjas. Por que diabos os trouxas precisam de tanta variedade de uns troços que possuem quase o mesmo uso? Agora perderei minha estrela na testa e serei obrigado a passar o resto da noite amuado. – disse, e embora o tom bem humorado estivesse presente em seu timbre, como ex-corvino, era-lhe realmente um tanto ultrajante que àquela altura do campeonato ainda fizesse algumas confusões no estilo de vida dos trouxas. Embora sua mãe fosse uma nascida-trouxa, William crescera em um ambiente totalmente bruxo. Era acostumado a usar a bendita varinha para tudo, e ainda o fazia quando não estavam cercados pelos seus e pelos parentes trouxas de Georgia. Manter aquela espécie de vida dupla ainda era-lhe bastante estranho, e era comum que cometesse alguns deslizes, especialmente com Jude que era um dos poucos indivíduos com quem ainda abria a boca para conversar. Norte de pensamento do qual distanciou-se ao notar o tom confuso de Georgia a pergunta que fizera a ela anteriormente. William pendeu a cabeça para o lado direito, em uma tentativa de enxergar, ao menos parcialmente, a expressão que marcava o rosto da mais nova. Embora sentisse o impacto daquela gravidez não planejada, que também não buscara evitar o quanto podia, sabia que para Georgia tudo ganhava uma intensidade maior. O combo de depressão e ansiedade certamente a esmagavam por dentro, e não havia muito o que pudesse fazer por ela. Algo que claramente o chateava. Enquanto a ouvia, podia perceber a insegurança que a norteava. – Para quando está marcada a próxima visita ao médico trouxa? Aye. Gostaria de ir junto dessa vez. – disse, de maneira calma e segura, enquanto seguia acariciando a barriga da mais nova. Desde que começara a desconfiar de uma possível gravidez, William tratara de se informar um pouco mais sobre o assunto, principalmente porque possuía em mente que gostaria de ser presente em todas as etapas. Se esforçar para ser o melhor possível, dentro de uma expectativa baixa diante de quais eram suas referências, era o mínimo que podia fazer por sua namorada, por aquela criança, e por si mesmo. – Aye. Eu não me importo de arcar com as despesas sozinho, mas não vou desestimulá-la a procurar um emprego se você deseja um. – e se a conhecia bem, levando em conta o quanto os distúrbios a estimulavam a confiar pouco no próprio potencial, aquelas reticências envolviam o fato de que acreditava que não era capaz de conseguir um emprego. O que conseguia compreender uma vez que também não possuía a mais positiva entre as mentes, porém, era mais fácil aceitar a própria inaptidão do que ver alguém como Georgia, com múltiplos talentos, duvidar tanto de si mesma. – Uill, não sei se você viu, mas lá em Ilvermorny tem um mural com ofertas de estágio, se estiver a fim de algo na sua área talvez encontre por lá. – e ele mesmo havia checado esse dito mural alguns dias antes em busca de algo que pudesse lhe parecer interessante. Encontrara uma espécie de seletivo para estudantes de Astronomia que vinha ponderando se deveria tentar. O salário condizia com a vaga e, fazendo a conversão, equivalia ao que ganhava na livraria dos Lupin, o problema era a inconstância nos horários. O ex-corvino possuía em mente a ideia de acumular os dois empregos e tentar concilia-los com a faculdade. Por mais que possuísse uma quantia significativa no banco, estava consciente de que criar uma criança seria dispendioso. Por isso vinha até mesmo considerando voltar a oferecer aulas de reforço em Astronomia. Função que exercera por um breve período assim que fora expulso de casa por Joseph. – Esse papo me faz lembrar que esqueci de comentar que o Senhor Lupin, no caso, Keegan, me deu um aumento de salário, percebi quando fui receber hoje. Porém, não acho difícil que ele tenha se confundido nos valores. O questionarei amanhã. – deu de ombros, fazendo pouco caso do que dizia. Seu não-tão-mais-novo chefe era uma criatura um tanto esquisita. Excêntrico, para dizer o mínimo. E era interessante o quanto ele destoava do filho, Patrick. – Ahem, agora, voltando a você, se não quiser nada com o jornalismo por enquanto, pode usar de seu talento para fotos, doces e custo… aquele troço que você faz com roupas. Muitas opções, naoidhean. – completou, plantando um beijo suave no topo da cabeça da mais nova. – Quanto ao fato de que precisamos nos organizar, bem, concordo, embora organização nunca tenha sido uma qualidade minha. Mas, estive, ahn, ponderando sobre algumas coisas, e meio que estava esperando o momento certo de tocar no assunto. Imagino que não seja o tipo de conversa para um corredor de supermercado, mas aproveitarei minha chance. – meneou a cabeça brevemente para corroborar o que dizia, mas logo se deu conta de que a mais nova não o via. – Quero ver seu rosto. – murmurou, enquanto delicadamente se desprendia dela para se posicionar de frente para ela. Como existia em si uma necessidade de tocá-la, logo tratou de cobrir as mãos dela com as suas. – Sei que você tem me dado espaço para refletir sobre as mudanças que a gravidez vai impor nas nossas vidas. Agradeço, mas não é necessário. Não sei se você precisa ouvir isso, mas preciso dizer para que não reste dúvidas; eu não vou a lugar nenhum. Nós lidaremos com isso juntos. Estou ciente de que não vai ser fácil, simples, e muito menos cômodo, Georgia. Mas nada na minha vida tem correspondido a essas três categorias desde os meus 12 anos, e sei que na sua também não. Sei que a situação é ainda mais complexa por causa das particularidades dos nossos distúrbios. Nós podemos não estar prontos para o que implica a paternidade e a maternidade, mas faremos isso juntos. – o sotaque escocês de William parecia se acentuar diante da seriedade das palavras que dizia. Seriedade que se dava porque queria realmente ser ouvido e compreendido por ela, queria sanar qualquer dúvida que existisse na mente de Triggs. O ex-corvino a encarava de uma maneira firme, e a firmeza também encontrava-se presente na maneira que segurava as mãos da mais nova entre as suas. - Não negarei que tenho meus receios, principalmente por não ter uma referência que preste, e é por isso que tudo que posso prometer, é que tentarei o meu melhor. – completou, com aquela mesma seriedade, que era corroborada pela expressão que marcava seu rosto. – Wee man! Talvez seja precipitado, muita gente vai pensar assim… – embora não estivesse se referindo a uma pessoa em específico, fora impossível não pensar na mãe de Georgia. Sua relação com Prudence não era das melhores, conviviam no que podia se enxergar como um distanciamento educado, mas tinha em mente que a revelação da gravidez faria com que a mais velha o odiasse por completo. Pensamento que o fez engolir em seco. - … mas, nós estamos formando uma família. Eu, você, o bebê, e os cachorros. Penso que uma família precisa de seu próprio espaço, e por mais que tenha certeza que Fallon não nos colocara para fora, acredito que precisamos arranjar um lugar nosso. Não sei se você vai querer voltar para o Reino Unido, ou se vai querer continuar aqui, particularmente, minhas noites de sono são menos perturbadas desse lado do mundo. Além disso, tirando as minhas irmãs, e ainda é estranho pensar que tenho mais de uma, e a cabana, eu não tenho mais nada que me ligue ao Reino Unido, especialmente a Escócia. No entanto, entendo que pra você possa vir a ser diferente. – porém, manter-se geograficamente distante de Fraser e Mackenzie lhe parecia essencial. Por mais que ele e Georgia fossem renegados por ambas as famílias, um herdeiro de ambos certamente causaria algum tipo de interesse que, definitivamente, o ex-corvino não desejava. – Aye. Então, o que quero dizer é que em nossa lista de organização em primeiro lugar tem que estar uma casa. Ou apartamento. Não sei. – encolheu os ombros, como quem se desculpava. Se fossem realmente se manter nos Estados Unidos o ex-corvino aproveitaria uma das visitas de Fallon para partir para o Reino Unido para colocar em prática o plano de vender a cabana, com o dinheiro dela poderiam comprar um lugar novo. – Depois móveis, para nós, para o bebê. Então, fraldas, roupas, e todas as outras coisas que crianças precisam. Não sei se você recorda, mas tive meu momento de babá do mirim Owen. Ao menos posso garantir certa eficiência em troca de fraldas, dar comida, e colocar para dormir. – disse, uma outra vez implicando em seu timbre certo humor. Humor que era comum ao ex-corvino para esconder os seus receios. E seu receio principal naquele momento era o de ser completamente falho. Falhar com Georgia, com a criança, e consigo mesmo ao repetir um padrão errático que era-lhe familiar. William soltou as mãos de Georgia, com gentileza, e voltou a colocar-se atrás dela. Envolvê-la entre seus braços uma outra vez dava-lhe a sensação de acolhimento que subitamente precisava sentir. Voltou a colocar as duas mãos sobre a barriga de Triggs, acariciando com gentileza. – Preciso ir atrás desse troço de mirtilo agora ou a senhorita aguenta até irmos para casa? – questionou, partindo para um outro tópico como uma maneira de silenciar seus receios. Logo se viu tentando recordar se havia alguma bendita padaria que não cobrasse os dois olhos da cara no caminho entre o supermercado e o apartamento dos Evans. – Aye. Você pode ter o melhor dos dois mundo me desejando com mirtilo. Seria vantagem para nós dois. – riu-se, um tanto contido, àquela sugestão. – Estou com fome, como de costume, tirando isso está tudo bem. – murmurou, distraído, porque sua atenção fora capturada pela chupeta que Georgia colocava um pouco abaixo da altura de seu rosto. Uma coisinha pequena e estranha que muito em breve seria comum a sua rotina. – Tenho desejos que envolvem a palavra da qual chupeta deriva e que nada tem a ver com bebês. – era notável em seu timbre que embora estivesse brincando, também flertava com a mais nova. - Mas, para o momento, me parece uma boa ideia levar o primeiro item dessa seção. Escolheremos uma de cor neutra por não sabermos o gênero da criança ou serve qualquer uma? Não tem troço de adequação para recém-nascidos? Acho que li em algum lugar a respeito. – disse, novamente distraído pelas opções. – Por mim podemos levar a chupeta. E se você já terminou sua parte da lista podemos ir atrás desse tal muffin de mirtilo. Definitivamente não queremos um bebê de face lilás. – William voltou a curvar-se para depositar um beijo suave na curva do pescoço de Triggs e em seguida voltou ao campo de visão dela. Com gentileza o ex-corvino emoldurou o rosto da mais nova entre suas mãos, usando-se dos polegares para acariciar as bochechas dela. - Tha gaol agam ort, naoidhean. – declarou, por acreditar que precisava relembrá-la de como se sentia em relação a ela. Um breve sorriso moldou os lábios do ex-corvino antes de curvar-se para depositar um beijo rápido e suave nos lábios da mais nova.
Georgia se esforçou para se lembrar de quando seria sua próxima consulta e, óbvio, falhara. Os efeitos do ataque que sofrera anos atrás ainda afetavam demais sua habilidade de concentração ou de reter alguma informação por mais tempo. Às vezes, achava que tinha piorado aquilo ao decidir apagar parte da sua memória, o que a obrigava a se esforçar um tanto mais para não tornar tudo um completo pesadelo. Como sua nova experiência acadêmica. Por não ter encontrado uma forma melhor de se organizar naquele quesito, ela se via sempre na correria para cumprir as tarefas, entregar os trabalhos, lembrar que tinha reunião do grupo que pertencia na classe... Também conseguia se esquecer de coisas simples e, de maneira geral, as lembranças vinham em rompantes que a faziam se estabanar para dar conta. Já tentara usar agenda ou aderir algum método indicado por Fallon, mas sua bagunça era tão sua, tão quanto sua familiar desconcentração, que parecia ter sido feita para lidar com tudo em cima da hora. O que era um saco, ainda mais por ser uma pessoa ansiosa, o que lhe dava a dita certeza de que não daria conta de nada. Sempre esbaforida. Sempre se perdendo. Suspirou, querendo acreditar que a consulta estivesse ao menos marcada na agenda do celular e, felizmente, a encontrou. Sem dúvidas, tinha sido obra da sua melhor amiga, porque também não era adepta aquele modo de anotação de datas e afins. Ultimamente, vinha tentando post-it na geladeira, que formava seu próprio calendário, e vinha se interessando por um estilo de bullet journal que se usava de muita cor, desenhos e adesivos - e que a deixara animada porque o esquema de coloração servia para contribuir na fixação do conteúdo. De todo modo, Triggs sempre achava que falhava, mesmo quando tudo evidentemente seguia seu curso normal. Um fardo a mais para quem não precisava de mais coisa para ficar se cobrando. Ou se sabotando. Tinha que mudar aquilo ou ela mesma seria responsável em afogar uma criança em suas tontices. - Dia 20 de abril. Alguns dias depois de eu completar dois meses. - respondeu, com um singelo desânimo por ter se esquecido da data em questão, e voltou a guardar o aparelho. - Será de manhã. Não sei se fica ruim para você, mas, todo caso, será ótimo ter sua companhia. Inclusive, vai ser mais que demais ver sua cara diante de tanta aparelhagem que não precisa de uso de varinha para funcionar. - emendou, acenando a cabeça positivamente para corroborar seu ponto. Óbvio que não negava que seria ótimo também ter Fallon como companhia, mas não queria sufocar a ex-corvina com seus novos dilemas. Ela já tinha os dela, que tentava inutilmente tirá-la antes que aquele maldito cenário do mundo bruxo britânico piorasse. E tal pensamento lhe rendeu um calafrio. Aprendera a detestar aquele lugar. Tudo que ele representava. Se fosse da sua alçada, honestamente explodiria tudo para alguém sensato refazê-lo com mais consciência. Um pensamento amargo, sabia, mas difícil de não ruminar com negatividade quando parara de pertencer aquele universo que definitivamente a matara. - Hum... Sobre o mural, eu vi, mas não cheguei a parar pra ler alguma coisa. Não sei, eu ainda não completei o primeiro semestre, então, não acho que eu vá conseguir um estágio agora. Estou me vetando de novas ilusões, mas... Quem sabe, né? Ao menos um pequeno portfólio eu tenho. - Georgia não queria quebrar a cara mesmo consciente de que não arrancava pedaço mandar um currículo. Mas não tinha como não se sentir bastante inferior ou audaciosa demais em tentar algo para si depois de ter praticamente perdido tudo. Por mais que conseguisse se virar, aquele sentimento de inferioridade a acompanhava como uma sombra, como em sala de aula. Mesmo que fosse o primeiro semestre, tingido de baixas expectativas e cobranças, todo mundo ao seu redor parecia mais preparado. Mais antenado e ela tivera que correr ao menos para saber como funcionava a mídia bruxa nos Estados Unidos - detalhe que nem sequer passara pela sua mente antes de aceitar aquela ideia de voltar a estudar. Ainda passava por muita adaptação que nada mais era um choque de cultura entre as comunidades mágicas, e já tinha que aguentar piadinha com seu sotaque e, claro, com seu tamanho. Piorando a sensação de que era menor que todo mundo e, aparentemente, a mais burra de todas. - Tem o jornal da universidade para ao menos me ajudar nessa questão de atualização, mas me parece uma grande panela. E todo mundo me parece antipático. Enfim, como disse, darei meu jeito. A ideia é você não arcar com tudo, então, eu tenho que me apressar. - e não era uma boa coisa a se dizer porque logo tal fato se tornaria mais um item na lista de cobrança de Georgia. - Wait, what? - ela se virou um pouco para enxergar as feições do seu namorado. - Seu chefe é mão aberta assim? Caramba, peça um aumento na próxima semana. - riu fracamente do seu próprio comentário. - E é customização, William. - completou a palavra perdida no meio, seu riso se transformando em um raro sorriso confortável. Tocou o rosto dele brevemente a fim de expressar de que gostava da forma como ele tentava sempre apoiá-la e fazê-la enxergar o que ultimamente não via em si mesma. Ainda havia uma cratera entre sua vida passada e a que tentava criar no presente. Todos os dias, tentava tapar aquele buraco a fim de se tornar uma só e mais de si mesma, mas o distanciamento parecia cada vez maior. Não queria que fosse assim, mas não sabia como saltar a cratera e enterrar ao menos o que não lhe pertencia mais. - Obrigada! - liberou uma respiração profunda assim que sentiu o beijo do ex-corvino no topo da sua cabeça. Um gesto reconfortante, como as palavras dele sobre que caminho poderia seguir, aplacando um tanto mais aquela constante rigidez que não aguentava mais. Mas, logo, a rigidez retornou tão quanto uma súbita preocupação seguida de uma onda de ansiedade ao ouvir seu namorado dar a entender que rebateria seu argumento sobre a necessidade de organização em reflexo da criança que estava a caminho. Era impossível relaxar diante daquele assunto, que vinha ocupando seus pensamentos a cada segundo que passava. Por mais que tivesse consciência da organização, a ex-sonserina não sabia por onde começar e isso não deixava de incitar um desespero interior. Que poderia crescer se não se movesse - conflitando com o desejo de permanecer imóvel até ter certeza de que seu corpo não a sabotaria pela milésima vez em sua existência. Assim que William se colocou diante de si, tudo que ele podia ver era seu cenho enrugado e um ar de intriga de quem claramente queria saber, ou não, ao que se referia as coisas que o mais velho vinha ponderando desde que lhe cedera um espaço para digerir o fato de que estava grávida. Permitiu que o ex-corvino segurasse suas mãos e, inconscientemente, entrelaçou seus dedos aos dele, respirando fundo novamente, tentando se preparar para o que estava prestes a vir na sua direção. Sentiu seus batimentos cardíacos subirem conforme as palavras dele ricocheteavam em sua direção, assertivas e bem conduzidas, como se ele tivesse ensaiado. O que não era verdade, pois uma das qualidades do seu namorado era ser direto. Demais, o que normalmente a desmontava. Como ele começava a fazer, com seriedade ao dizer como se sentia e o que via para um aparente futuro em que teriam uma criança para tomar conta. O sotaque sempre se acentuava quando existia nem que fosse uma gota de nervosismo da parte dele e foi capaz de sentir suas palmas suarem em resposta, não de nervosismo, mas porque sentia algo dentro de si desmoronar. Quem sabe, eram suas defensivas visto que sua visão de gravidez ainda estava nublada e deturpada. Incompreensível porque uma hora refutava e na outra parecia ser possível ser mãe. Não vinha sabendo como agir e poderia considerar esse o principal ponto de distanciamento de William - justamente por ter medo de dizer alguma nova besteira que o magoasse. Ele, a pessoa que não deveria dizer mais metade daquelas coisas. Não porque não queria ouvi-las, mas porque era um reflexo de que ela se tornara tão oscilante, nada confiável, ao ponto de tornar as pessoas ao seu redor um tanto quanto repetitivas. Por mais que refutasse, era bom saber que ainda era querida de alguma maneira. Que as pessoas ainda a queriam por perto e que não arredariam o pé da sua companhia. Sua ansiedade pedia isso tão quanto seu estado deprimido. Algo que poderia ser confundido com extrema carência - e, por vezes, poderia ser de tanto tempo que ficava na sua mente fazendo pouco de si mesma. Em contrapartida, Triggs adoraria dispensar algumas coisas por saber que recaíam em si a responsabilidade de torná-las reais. Como ele se autoafirmar quando era papel dela simplesmente confiar nele. Viveram tantas coisas, especialmente ruins, que ouvi-lo repetir o papo de que não iria a canto algum a fizera retornar para a última discussão que tiveram. Uma discussão que estava mais consciente em comparação as outras em que ou estava entorpecida ou alcoolizada ou desesperada. Aquilo não lhe soava mais certo, mas também tinha medo de bater em tal ponto e soar como se o dispensasse. Não era sua intenção até porque a revelação de que seriam pais não a estressou como o costumeiro. Por isso, não o interpelou, deixando-o seguir dizendo tantas outras coisas reconfortantes, que desatavam alguns nós mentais, e tinha certeza que esmagava as mãos dele, porque tinha que esvair a tensão que sentia em algum ponto. - William, eu te dei espaço porque eu sabia que você precisaria do seu tempo para pensar sobre o que eu te contei. Sem minha influência, por assim dizer. Afinal, eu não te informei que teríamos que comer bolo o ano inteiro, sem culpa, mas sim que... Bem... Uma criança vem aí! Eu roubei um tempo para ter coragem em te contar, o que justifica todo meu distanciamento que precedeu a minha grande revelação. Então, eu achei que seria justo você ter o mesmo espaço. - começou a dizer assim que encontrou um instante adequado. - Dessa vez, eu não o afastei por achar que você faria menos de mim. Ou que finalmente me abandonaria. Tudo bem que meu olhar atravessado no dia seguinte disse isso e também pensei que você me abandonaria. É impossível eu não pensar assim mesmo que não diga. Isso vem das minhas inseguranças e não posso mais ficar acusando você por ficar quando o que quero mesmo é que fique. Como você está cansado de saber, eu sou um poço sem fundo de medos e tenho tentado aderir o movimento de não colocar mais palavras na boca de ninguém. Como fiz com você, várias vezes. - e existia muita culpa dentro de Georgia sobre aquele quesito e vinha tentando retificar cada camada daquilo. - Se você me deixasse, bem, eu teria que lidar. Sem contar que não seria um evento inédito na minha vida, por assim dizer. Quem sabe, eu já estava conformada caso seu posicionamento fosse esse, porque eu tive que aprender desde cedo o que significa esse tipo de abandono. Mesmo que indiretamente. Ao menos nesse quesito, eu tenho referência, mas não significa que doeria menos. É horrível viver com medo o tempo todo, ou achar que todo mundo está com raiva de você, ou que não gosta mais de você. E me distanciar é o melhor que posso fazer para não cair na porrada com ninguém. Mas, como disse, talvez eu já estivesse conformada, porque não seria algo realmente novo para mim. Mas... Você resolveu ficar. De novo. - revirou os olhos teatralizando como se aquilo fosse a pior coisa do mundo sendo que não era. - Eu sinto muito que tenha que repetir isso cinquenta vezes. De verdade. Eu espero que daqui para frente isso mude e que você não precise repetir isso por saber que eu confio em você. E eu confio em você mesmo que, às vezes, não pareça. - fitou-o sem pestanejar, realmente lamentando que ele tivesse que se assegurar sendo que ela tinha bagagem o suficiente para saber que aquele tipo de dúvida não condizia com basicamente nada do que William lhe entregara durante três anos de relacionamento. Mas suas inseguranças e medos venciam, e não queria que inseguranças e medos tomassem conta daquela conversa que ele claramente se empenhou para ter - o que seria um teste tremendo quando podia se sentir tremer. - Fico contente que você queira ficar mesmo sem saber como fazer isso. Ao menos nesse quesito, estamos no mesmo barco. - e era o menor dos receios que Georgia tinha desde que descobrira que estava grávida e ela se deu conta disso naquele instante. - Você sempre dá o seu melhor mesmo que não se dê crédito a isso, William. Eu tenho que ficar colando estrela no seu caderno o tempo inteiro para que não pense menos de si. - fitou por um momento as mãos deles juntas. Sentia-se nervosa. Suava por todos os poros. A ansiedade circulava e criar suas próprias pausas antes de falar era um meio de se fazer condizente e não se atropelar. - Eu tenho meus receios também e o maior deles meio que ofuscou todas as suas chances de fazer as malas e vazar. Eu nunca pensei em maternidade na vida. Nunca foi minha meta, acho. E, quanto mais leio, mais fico desesperada. - prendeu a respiração. Por mais que não quisesse dizer sobre o que mais doía naquele momento, de certo modo achou que William deveria saber. Ainda mais quando ele acabara de declarar o que lhe pareceu exatamente como um plano de organização. Um plano para o futuro que sempre temia e que agora incluía uma criança. - William, tem algo que eu preciso dizer. - soltou as mãos dele, mais porque precisava de um pouco de distanciamento. A ideia de que tudo daria errado veio com força total tão quanto o embate de não querer agir vs. ter que agir. Cobriu o rosto brevemente, apertando as pálpebras. A exaustão era latente, o que a fez se escorar no carrinho. Arrependeu-se de ir por aquele viés, mas, ao menos, ele ficaria consciente de que tudo realmente poderia dar errado. - Eu tenho medo real de perder essa criança. - dizer aquilo fez outro calafrio percorrer a espinha de Georgia. Em um gesto automático, começou a massagear as juntas, como se assim pudesse manter seu cerne e sua respiração no lugar. - E eu tenho um pouco de certeza de que se eu perder essa criança eu não vou me relacionar com o sentimento de outras mães. Meu sentimento de falha é outro, de outro nível, especialmente porque eu só tenho acumulado fracassos e péssimas memórias. Em todos os âmbitos da minha vida. Às vezes, eu acho que virei a piada particular do universo, porque o universo sabe que eu vou ficar na merda se essa gravidez não der certo. Talvez, sem muita reparação. - contou, com uma dureza que não sabia de onde vinha. Ainda assim, sentiu um pouco de raiva, que fez seu maxilar se contrair. A ansiedade circulava, abrindo o espaço para aquele medo do medo que começou a lhe dar enjoo. - Eu não queria te contar sobre esse meu medo justamente para não envolvê-lo na minha paranoia, mas é um pensamento recorrente. Quase obsessivo. - continuou, evitando olhar para ele porque aquilo era vergonhoso. Assumir fraquezas era vergonhoso demais para Georgia que tentava bancar a resistente praticamente todas as horas de seu dia. - Mas eu preciso confiar, não é? - começou a cutucar o plástico do apoio de mão do carrinho para manter sua atenção em qualquer ponto que não fosse William, pois sabia que perderia a coragem. - Não sei quando a confiança virá, mas você me deu muito para tentar afundar esse sentimento de perda que eu tenho, que me acompanha antes de perder de verdade. Por isso que eu não tento mais. Não com a mesma vontade de antes. Mas essa gravidez não foi planejada e eu terei que conviver com esse risco de perda pelos próximos meses, o que é comum para toda futura mãe. Eu queria não centralizar as situações desse jeito, mas eu fico realmente esperando o anúncio de que deu tudo errado. Que eu sou realmente incapaz de até mesmo sustentar uma gravidez. E cada novo exame virá com aquele gosto de que finalmente naquele dia eu receberei minha notícia ruim. Uma bosta completa! - fungou, cruzando os braços, expressando sua inquietude quanto ao que claramente passara a tagarelar em efeito da ansiedade que ganhava pungência. - Realmente soa muito bom ter um plano, porque eu preciso de equilíbrio. Nós precisamos de equilíbrio. Mas não tem um minuto sequer que eu não brigue mentalmente entre ficar inerte ou me mover e dar a entender que posso fazer isso. - respirou fundo novamente, mais para afugentar aquele súbito enjoo. Tateou no carrinho a garrafa de água que tinha aberto e ingeriu um gole para suavizar a garganta seca e assim empurrar a bile para longe. - Da mesma forma que eu quero acreditar que isso é possível, com todas as dificuldades que eu sei que enfrentaremos, ao mesmo tempo eu tenho medo de me tornar confortável e perder tudo de novo. - deu de ombros, seus olhos se turvando no que sabia que eram lágrimas. Desviou o olhar para a luz, mordendo o lábio inferior meio trêmulo, e colocou as mãos nas cintura. - Nada é certo até o 4º mês, mais ou menos. E ninguém garante que dará certo nos meses conseguintes. - largou a garrafa de lado e enxugou as lágrimas que escaparam. Tomando uma dose de coragem, se aproximou de William e voltou a unir suas mãos as dele. Meneou a cabeça negativamente mais por se achar uma completa idiota. - Desculpe ventilar tudo isso. Mas, bem, se você acredita que podemos fazer todas essa coisas, eu o acompanharei e farei o possível para ser otimista. E peço, por favor, que tenha paciência comigo. - e isso incluía sua oscilação de hormônios tão quanto a diminuição em andamento dos seus remédios. - Quando eu me sinto bem e fico vendo coisas de bebê, eu penso que posso dar conta. Que ficará tudo bem. E começar tendo um lugar para nós, a criança e os cachorros me soa como um bom passo de segurança. De equilíbrio. Do começo de algo que pode ser muito bom independentemente das pedras no caminho. - com um pouco de dificuldade, Georgia retornou ao plano do ex-corvino, que sinalizava mudanças que, apesar dos seus medos, sabia que tinham que fazer. - Não dá para adiar esses detalhes, mesmo não sabendo se... Enfim. - se interrompeu, porque não queria repetir de novo o que acabara de dizer. - Voltando, eu não quero morar no Reino Unido. Eu odeio aquele lugar. E, lembrando da Escócia, piorou! - e um desgosto pontuou a expressão cansada da ex-sonserina, especialmente por recordar da notícia estressante quanto ao ataque na cabana do ex-corvino. - É realmente bem esquisito saber que a Sinistro é sua irmã também. - comentou aleatoriamente. Como se pensasse alto. Olivia era sinônimo de péssimas notícias a Georgia. Já Margaret, não havia muito que dizer a não ser que a cunhada a odiava por completo. - Retornar para lá seria relembrar sobre coisas que ainda não lidei. Eu não estou pronta ainda. Sem contar que há muitas péssimas memórias lá e não acho que isso faria bem a criança. - e ela tinha suas próprias questões. Não foi à toa que tinha partido dela a mudança para NY, sem ter a menor ideia de como faria isso e de como viveria do outro lado do continente sendo aquela pessoa perturbada e sem eira e nem beira. - Ai, veja bem: você é o maldito pote de ouro no final do arco-íris. Para quem se diz um poço de desorganização, imagino que tenha um mapa para esse plano, não? - questionou, com uma sobrancelha arqueada sapecamente. - Como disse, eu concordo, pois, me usando das suas palavras, estamos formando uma família. - pausou ao dizer aquilo, como para reter a informação. O pronome nós era uma constante ali e não deveria surpreendê-la como claramente estava. - Parece uma ordem de fatores adequada. E, outra, eu sempre achei muito bonitinho você sendo babá de Owen, o que me faz comentar muito brevemente sobre essa questão de referência. Não sei o quanto isso te machuca, mas posso presumir que a marca é profunda. Mas, se formos analisar vários panoramas, você já estava sendo preparado para ser pai. - brincou, tentando reencontrar certa suavidade naquela conversa que apertara muito de seus botões de insegurança interior. - Você não precisa ter receio de me contar seus receios. - garantiu. Sabia que ambos tinham facilidade em se fechar com suas problemáticas e, no tempo do qual viviam, era evidente que aquilo não deveria mais ser uma prerrogativa. - Eu confio em você. Você já me deu o suficiente para acreditar em você. E eu quero cruzar esse caminho confuso e sem tutorial com você. Eu também não tenho referência porque eu nunca vi minha mãe como um objetivo de uma maternidade futura justamente por nunca ter refletido sobre maternidade. Mas também não quero ser uma decepção ambulante e acredito que daremos nosso melhor. Já nos ferramos tanto William que, apesar dos pesares, isso parece simples. Dá medo, mas parece simples bastando justamente o que conversamos aqui: um plano. A questão é que nos fizeram inseguros e cagados demais para dar conta do que não temos controle. É horrível sempre esperar o pior porque parece que só o pior existe. Quando parece que só do pior você entende. Mas... Eu quero acreditar que a gente encontrará nossa própria harmonia com a criança que está a caminho. Acho que posso voltar pra casa já pensando na minha porta rosa choque. - concluiu, deixando-o soltar suas mãos. Um sorriso fraco pontuava seus lábios enquanto empurrava a onda de pensamentos negativos que queriam forçá-la a desvalidar tudo que dissera. - Eu realmente quero construir essa história com você. E eu preciso entrar em concordância sobre os riscos de falha, porque eu não confio no meu corpo e peço perdão desde já se algo de ruim acontecer. Digo, você me entendeu. - Georgia tinha duplo cuidado ao usar de tais colocações, pois, além de ansiosa e deprimida, suicida ainda pertencia ao seu hall de conquistas. - Enfim... Podemos começar a buscar onde morar. Será uma ótima ocupação e o lado bom é que tenho uma pasta cheia de decorações dos sonhos. Que eu mesma posso fazer, acho. - acompanhou-o dar a volta para ficar atrás de si e se permitiu ser acolhida pelos braços dele. Em um raro momento, apoiou as duas mãos sobre as de William. Ainda era difícil tocar sua própria barriga, porque tinha receio do apego. De uma hora ter aquilo e, depois, não mais. Um pensamento triste que a fez suspirar. - Eu posso esperar quando chegarmos em casa. Porque talvez meu desejo mude até lá. - o que era bem verdade, mesmo que fingisse que nada daquilo vinha acontecendo também. Sem contar que o enjoo ainda a sondava. - Bom que os armários agora estarão cheios e você terá sua fome aniquilada. - e não tinha ideia do quanto estava faminta também, mas parecia faminta o tempo todo, o próprio Taz-Mania. Em um momento de distração, voltou a pegar a embalagem que continha a chupeta. Fitou-a e aproveitou para observar o item, de um cor de rosa quase transparente e rodeado de estrelas. Até aquele momento, não tinha sequer pensado no famoso questionamento de querer uma menina ou um menino. Pensou em indagar William sobre aquilo, mas se viu desacreditada com o comentário dele. - Caramba, mas você não perde umazinha. - a risada saiu, meio estranha, porque eram raras as vezes em que Georgia se permitia a rir abertamente. - Bem, se você não errou sobre as esponjas, quem sabe você pode ganhar mais que uma estrelinha. Além do mais, você pode tentar reencontrar minha libido, que segue esquecida no churrasco. - um fato bastante comum no início da gravidez. Georgia se via ocupada entre hormônios confusos, enjoos e assim por diante. De quebra, ela ainda tinha suas questões que envolviam o próprio corpo e que remetiam ao período que não via mais, mas que deixara efeitos colaterais, especialmente sobre o seu existir. - Vamos levar a chupeta transparente então. Mesmo conscientes de que a criança só usará isso depois de uns bons meses. - trocou o produto, colocando-o no seu carrinho antes de se virar na direção de William em resposta ao beijo em seu pescoço. Sentiu as mãos dele em seu rosto e se empinou para abraçá-lo pela nuca. - Acho que estamos no caminho certo de reencontrar minha libido com essa declaração em gaélico. - e por mais que brincasse, pôde sentir seus batimentos cardíacos subirem e não era de medo daquela vez. Ao ouvir aquelas coisas de William, parecia que tudo se alinharia e queria que assim fosse. Principalmente para conseguir passar por aquele momento. Quem sabe curti-lo, independentemente do que pudesse acontecer. - Eu também amo você, Mr. Stark. - declarou, sorrindo fracamente antes de retribuir com carinho ao beijo dele. - Obrigada por tudo, de verdade. Especialmente por diminuir meus medos. Mesmo que seu seja muito do contra a esse papo de não sei o que faria sem você, eu tenho que dizer que você é tudo pra mim. - emendou, acariciando os cachos da nuca dele enquanto prendia o riso. - Agora vamos pra casa, porque eu posso ter despertado para o desejo de arrancar sua roupa.