Esse texto é inspirado nos acontecimentos do livro Outlander - A Viajante do Tempo, por Diana Gabaldon.
Depois de passar algum tempo na sala com a sra. Baird, numa conversa amena e nada desagradável, subi ao meu quarto para me aprontar antes de Frank chegar. Sabia que o limite dele era de duas taças de xerez e, portanto, esperava-o de volta logo.
O vento começava a soprar forte e o ar do quarto estava carregado de eletricidade. Passei a escova nos cabelos, fazendo os cachos estalarem com a estática e saltarem, emaranhando-se furiosamente. Meus cabelos teriam que passar sem as cem escovadelas hoje à noite, decidi. Com as atuais condições do tempo, iria apenas escovar os dentes. Fios de cabelo grudavam no meu rosto, agarrando-se teimosamente enquanto eu tentava afastá-los para trás.
Nenhuma água no jarro. Frank a usara, arrumando-se antes de sair para seu encontro com o sr. Bainbridge, e não se dera ao trabalho de enchê-lo novamente na torneira do banheiro. Peguei o frasco de L'Heure Bleu e despejei uma boa porção na palma da mão. Esfregando rapidamente as mãos antes que o perfume evaporasse, passei-as pelos cabelos. Despejei mais um pouco na escova e penteei os cachos para trás das orelhas.
Bem. Assim estava melhor, pensei, girando a cabeça de um lado para o outro para examinar os resultados no espelho manchado. A umidade dissipara a eletricidade dos meus cabelos, de modo que eles agora flutuavam em ondas brilhantes e pesadas em volta do meu rosto. O álcool evaporado deixara um perfume muito agradável no ar. Frank iria gostar, pensei. L'Heure Bleu era sua colônia favorita.
De repente, o clarão de um relâmpago bem próximo, seguido imediatamente pelo estrondo de um trovão, fez com que todas as luzes se apagassem. Praguejando baixinho, comecei a tatear dentro das gavetas.
Em algum lugar eu vira velas e fósforos; a queda de energia elétrica era uma ocorrência tão frequente nas Terras Altas que as velas constituíam um suprimento indispensável em todos os quartos de hotéis e hospedarias. Eu as vira até mesmo nos hotéis mais elegantes, onde eram perfumadas com madressilvas e apresentadas em castiçais de vidro fosco com pingentes brilhantes.
As velas da sra. Baird eram bem mais utilitárias — velas brancas comuns —, mas havia muitas delas, assim como três caixas de fósforos. Não estava inclinada a ser exigente quanto à elegância num momento como aquele.
Coloquei uma vela no suporte de cerâmica azul sobre a penteadeira iluminada pelo relâmpago seguinte, depois acendi outras pelo quarto, até que todo o aposento fosse tomado por uma luminosidade suave e bruxuleante. Muito romântico, pensei, e com certa presença de espírito desliguei o interruptor, de modo que a volta repentina da luz não estragasse o clima em algum momento inoportuno.
As velas não haviam queimado mais do que 1 centímetro quando ouvi batidas leves na porta, como se a pessoa batendo do outro lado estivesse com receio de bater — quase com medo.
— Frank? — chamei, me perguntando o porquê de ele não ter entrado direto. A porta não estava trancada.
Mas, quando a abri, tive uma surpresa.
Do outro lado, estava parado um homem alto, muitos centímetros mais alto do que eu. Seu rosto exibia uma barba dourada com alguns fios brancos por fazer, que não escondiam as marcas de expressão ao redor dos seus lábios, nariz e olhos. E os olhos… Eram do tom mais puro de azul que eu já tinha visto em toda a minha vida. O cabelo estava meticulosamente preso na nuca, em um rabo de cavalo curto e alinhado, os fios acobreados brilhando com o reflexo da luz das velas que eu havia acendido por todo o quarto.
Quando me vi refletida em seus olhos, a expressão do homem se iluminou de uma forma quase mágica — se é que posso dizer algo desse tipo sem parecer piegas. O sorriso encantador que ele me deu fez com que todos os pelos do meu corpo se arrepiassem e uma sensação quente escorresse por minha pele; como se meu corpo já conhecesse aquele sorriso de outras vidas e o saudasse antes mesmo que minha mente pudesse identificá-lo.
Foi a minha voz que quebrou o silêncio. Diante da eletricidade daquele momento, senti uma enorme inquietação e uma vontade desesperadora de falar algo. Precisava testar minha voz, saber que ainda conseguia falar.
Da mesma forma que a minha voz pareceu ser um estopim para o meu corpo que reagia àquele homem estranho, aparentemente, também surtiu algum efeito nele. O sorriso sumiu com a mesma velocidade que apareceu, tornando todo seu semblante triste, como se um manto pesado e molhado de água gelada de chuva tivesse caído por seus ombros.
— Claire. Você sempre foi linda, Sassenach.
Ali estava novamente. Aquela palavra ofensiva para “estrageiro” que Frank havia me explicado o significado. Mas aquele estranho a pronunciou com tanto carinho que meus ouvidos se desprenderam da minha mente consciente. A parte racional do meu cerébro sabia que era uma palavra ofensiva para mim e para todo o meu povo, mas meus ouvidos só conseguiram captar amor e adoração. Por mais ridículo que possa parecer, era como se eu tivesse ouvido aquela palavra com o coração, sentido-a em todos os cantos da minha alma, que a reconheceu e a saudou da forma adequada.
Não parei para pensar que ele, de alguma forma, sabia meu nome. Minha cabeça girava na penumbra do quarto e as luzes das velas não eram o suficiente para clarear meus pensamentos que giravam em turbilhão.
— Quem é você? — perguntei, notando que minha voz soava muito mais áspera agora. Notei que minha respiração também falhava e meu coração batia tão forte que conseguia sentir a pulsação do meu próprio sangue nos ouvidos.
— Não saia de casa amanhã. Não vá até Craigh Na Dun. Não toque na pedra.
Seu sotaque escocês era muito forte e marcado, até mesmo para um local. Sua voz soou triste e cansada, como se ele tivesse corrido uma distância longa demais para chegar até a minha porta, apenas para me passar aquela informação.
Ao mesmo tempo que percebi seu sotaque, me surpreendi com o que ele dizia. Como poderia saber meus planos para amanhã? Como sabia que eu pretendia voltar para Craigh Na Dun para recolher algumas das plantas que vi no pé do grande monumento megalítico?
Eu estava pensando na coisa certa a se perguntar, em como descobrir quem era aquele homem. Então ele ergueu a mão esquerda vagarosamente, me deixando ver seus movimentos e, se eu quissesse, impedi-lo. Mas não o impedi de tocar meu rosto com seus dedos ásperos e cheios de calo de quem está acostumado a trabalhos braçais. Não o impedi quando se aproximou ainda mais e envolveu os dedos em meus cachos bem penteados e com cheiro do perfume favorito do meu marido. Sua carícia era tão familiar, tão bem encaixada em meu rosto que automaticamente me fez fechar os olhos.
Continuei de olhos fechados, ouvindo e sentindo quando ele inspirou o perfume em minha pele. Deixei que a sensação de sua mão quente dominasse todo meu corpo gelado pelo clima frio das Terras Altas e me esquentasse de fora para dentro.
Minha cabeça começou a girar com tontura. De repente, o chão estava muito mais próximo do que eu pensei que estivesse. Senti-me em movimento, apesar de ter certeza de que meus pés estavam bem plantados no chão.
Eu estava parada na frente da porta do quarto, que estava aberta. Uma formigação engraçada corria pelo meu rosto e pescoço, apenas do lado direito. Eu tinha certeza de que estava acendendo velas um momento atrás.
Antes que eu pudesse pensar muito sobre o assunto, Frank entrou no quarto, quase tropeçando em mim ao fazê-lo. Sua entrada brusca e o vento que trouxe ao entrar foi forte o suficiente para conseguir apagar duas velas.
Ainda um pouco confusa, volte-me para acendê-las novamente e lhe ofereci um copo de uísque. Quando Frank não respondeu, notei que estava debruçado na janela, os fios dos cabelos desalinhados, de tanto que passou os dedos por ali. Seu rosto estava pálido e ele carregava uma expressão perturbada.
— O que foi? — perguntei — Viu um fantasma?
— Bem, sabe — disse ele devagar —, não tenho certeza se não vi.