DUTY, DOUBT & MISDEMEANOR.
LOCAL: Acampamento Meio-Sangue
MISSÃO: Inspeção de Chalé
DATA: 19/07
“Ok, vamos ver o que temos hoje.” Bishop anunciou, a prancheta apoiada no antebraço e a caneta entre os dedos. Com o retorno ao Acampamento após uma longa semana de batalhas, também retornava a rotina à qual tanto se acostumara, e naquele dia a responsabilidade de inspecionar os chalés era sua.
Bishop gostava de regras. Faziam-na se sentir em controle, estável, como se nada pudesse dar errado enquanto seguisse as ordens que lhe eram dadas. Os irmãos nem sempre compartilhavam de seu respeito pela autoridade — filhos de Fobos podiam ser um tanto imprevisíveis e temperamentais —, mas o grupo convivia entre si por tempo o bastante para que seus membros tivessem aprendido a lidar uns com os outros, e Bishop, apesar de rigorosa, dificilmente precisava dar puxões de orelha ou discursos repreensivos. Não era como se o Chalé 32 fosse movimentado, afinal, o deus do medo não era conhecido por ter muitos encontros com mortais, e mesmo com a regra imposta aos deuses de que deveriam reconhecer sua prole até seus treze anos de idade, a discrepância entre os chalés dos Olimpianos e dos deuses menores ainda era visível. Assim, colocar os irmãos para arrumarem as camas e varrerem o chão não era tão complicado quanto supunha que pedir o mesmo no Chalé de Hermes.
Todavia, um sentimento estranho acometeu-a naquela tarde. Era o mesmo sentimento persistente que a acompanhara nos últimos dias, desde que chegara de Sicília, porém, ao encarar o papiro com a lista de inspeção em suas mãos, percebera que estava ainda mais forte. Pois, desde que chegara de Sicília, Bishop sentia que havia algo fora do lugar, como um quadro pendendo levemente para um lado ou uma peça de quebra-cabeças que não parecia encaixar-se no único espaço que a restava. Ela estava incomodada, retornando às memórias dos monstros que enfrentara e da cena de Encélado irrompendo de Etna, com a sensação de que a qualquer momento outra emergência surgiria.
Ser uma semideusa nunca foi fácil, isso era fato. Estava sempre tendo que checar duas vezes por cima do ombro enquanto andava por áreas fora do domínio do Acampamento Meio-Sangue, certificar-se de que possuía uma maneira de lutar (ou fugir) caso se deparasse com problemas, limitar suas relações com mortais para que não os colocasse nos mesmos perigos que ela. Mas tais como as inspeções, treinamentos e patrulhas, esses perigos tornaram-se rotina. Ela sabia como contorná-los, como agir, como sequer chegar a encontrá-los. Não sabia, no entanto, como preparar os irmãos para caso ela voltasse de uma missão enrolada em uma mortalha.
Talvez fosse precipitado de sua parte, prender-se a possibilidades que ainda não haviam se realizado quando tinha acabado de retornar de uma batalha bem sucedida. Deveria estar celebrando a vitória, não planejando o próprio funeral. Mas sua volta mais se assemelhava a um prelúdio do que a um desfecho, e se ela fosse convocada pelo Oráculo novamente, não havia como garantir que o mesmo aconteceria. Não podia contar com uma intervenção divina todas as vezes.
E o que deveria fazer, então? Seguir a rotina como se nada houvesse acontecido? Eleger um dos irmãos como seu sucessor? Seria melhor prepará-los ou não assustá-los? Inspecionar chalés e competir pelo direito de tomar banho quente parecia uma mera futilidade agora, mas o que havia além da espera?
“Bishop?” O campista ao seu lado chamou. Era o segundo encarregado das inspeções, junto a ela. Bishop notou que estava encarando a própria prancheta por tempo demais.
“Sim, claro. Desculpe.” Respondeu ela, com um sorriso sem graça. Expulsou os devaneios e focou-se na atividade. Fútil ou não, por aquele dia, este era seu dever.
Ela passou pelas camas uma de cada vez, primeiro conferindo a beliche de baixo e depois empoleirando-se na escada para espiar a de cima (a pouca altura deixava alguns processos um pouco mais demorados). Verificou debaixo dos colchões, nas fronhas dos travesseiros e debaixo das camas. No geral, os irmãos fizeram um bom trabalho, provavelmente para poupá-la de um cansaço desnecessário. Fez anotações na prancheta e virou-se para o parceiro de inspeção antes de sair do chalé, para comparar suas notas.
“Acho que quatro de cinco é uma pontuação justa.” Disse aos irmãos, que aguardavam do lado de fora, atentos às reações dos dois líderes. Quando Bishop mencionou os pontos, notou a súbita animação do grupo. Ela mesma abriu um sorriso satisfeito ao descer as escadas do chalé e aproximar-se, fazendo questão de colar a prancheta junto ao peito para que não vissem o que havia escrito. “Vão se preparar para o jantar, pessoal. Daqui a pouco termino.” E, sem demora, os irmãos recolheram-se para o chalé e deixaram Bishop com o outro líder. Ela anuiu com a cabeça e seguiu para o próximo número, guardando os pensamentos hesitantes para uma outra hora.















